Mostrando postagens com marcador Voo noturno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Voo noturno. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 22 e 23 fim


 O correio de Asunción anunciou que ia aterrar.

Mesmo nas horas mais difíceis, Rivière tinha seguido, telegrama a telegrama, a sua marcha feliz. No meio da confusão, aquele voo representava para ele a desforra da sua fé, a prova. Aquele voo feliz anunciava, pelos seus telegramas, mil outros voos igualmente felizes. "Não há ciclones todas as noites." Rivière pensava ainda: "Uma vez o caminho traçado, já não se pode deixar de segui-lo!"

Vindo do Paraguai, de escala em escala, como dum adorável jardim cheio de flores, de casas baixas e de águas mansas o avião vogava à beira dum ciclone que não lhe escondia uma única estrela. Nove passageiros, aconchegados nas suas mantas de viagem, encostavam a testa à janela, como uma vitrina cheia de jóias, pois as pequenas cidades da Argentina já desfiavam, na noite, todo o seu ouro, sob o ouro mais pálido das cidades de estrelas. O piloto, à frente, sustinha com as mãos aquele precioso carregamento de vidas humanas, com os olhos bem abertos e cheios de luar, como os de um pastor. Buenos Aires já abrasava o horizonte com o seu fogo suave e em breve cintilaria como um tesouro fabuloso. O telegrafista fazia partir com os seus dedos ágeis os últimos telegramas, como os acordes finais duma sonata que tivesse dedilhado, alegremente, no céu e de que Rivière compreendia a melodia; depois recolheu a antena, espreguiçou-se um pouco bocejou e sorriu: "Chegamos".

Ao aterrar, o piloto encontrou o seu camarada do correio da Europa encostado ao seu avião, de mãos nos bolsos.

— É você que continua?

— Sou.

— O avião da Patagônia já chegou?

— Não o esperamos: desapareceu. Está bom tempo?

— Esplêndido. Fabien desapareceu?

Trocaram poucas palavras a esse respeito.

Uma grande fraternidade dispensava-os das frases.

Fazia-se o transbordo para o avião da Europa dos sacos em trânsito de Asunción e o piloto, sempre imóvel, a cabeça inclinada para trás, a nuca encostada à carlinga, olhava as estrelas.

Sentia nascer um imenso poder e foi tomado por uma forte alegria.

— Carregado? — disse uma voz. — Então

podem ligar.

O piloto não se mexeu. Punham o seu motor em marcha. Sentiria em breve nas suas espáduas, encostadas ao avião, o aparelho viver. O piloto tranquilizava-se finalmente, após tantas falsas notícias: partirá. . . não partirá. . . partirá! Os seus lábios entreabriram-se e os dentes brilharam sob o luar como os de um jovem felino.

— Cuidado com a noite, hein!

Não escutou o conselho do seu camarada. De mãos nos bolsos, a cabeça inclinada, voltado para as nuvens, montanhas, rios e mares, fora tomado por um riso silencioso. Um riso frouxo, mas que passava através dele, como a brisa passa pela folhagem das árvores, e o fazia estremecer vivamente dos pés à cabeça. Um riso frouxo, mas muito mais forte do que as nuvens, as montanhas, os rios e os mares.

— O que é que você tem?

— Aquele idiota do Rivière que me.. . que julga que eu tenho medo!

Dentro dum minuto o avião sobrevoará Buenos Aires e Rivière, que volta à luta, quer ouvi-lo. Quer ouvi-lo nascer, troar e desvanecer-se como o passo formidável de um exército em marcha nas estrelas.

Rivière, de braços cruzados, passa por entre os secretários. Em frente duma janela aberta, pára, escuta e sonha.

Se tivesse suspendido uma única partida, a causa dos voos noturnos estaria perdida. Mas, antecipando-se aos fracos, que amanha o reprovarão, Rivière largou, na noite, outra tripulação.

Vitória. . . derrota… estas palavras não têm sentido algum. A vida está por debaixo dessas imagens e já prepara novas imagens. Uma vitória enfraquece um povo, uma derrota acorda outro. A derrota que Rivière sofreu é talvez uma promessa que torna mais próxima a verdadeira vitória. Só o conhecimento em marcha é que conta.

Dentro de cinco minutos os postos de T.S.F. terão dado o sinal de alerta às escalas. Numa área de mil e quinhentos quilômetros o frêmito da vida resolverá todos os problemas. Já se eleva um canto de órgão: o avião.

E Rivière, em passos lentos, volta ao seu trabalho, no meio dos secretários que o seu olhar duro faz curvar. Rivière, o Grande, Rivière, o Vitorioso, carregando a sua pesada vitória.

Voo noturno - Capítulo 20 e 21

Commodoro Rivadavia já não ouve nada, mas, vinte minutos mais tarde, a mil quilômetros de distância, Bahia Blanca capta uma segunda mensagem.

"Descemos. Entramos nas nuvens…"

Depois estas duas palavras dum texto obscuro apareceram no posto de Trelew : "… ver nada…"

As ondas curtas são assim. Captam-se ali, mas aqui se fica surdo. Depois, sem razão, as coisas mudam. Aquela tripulação, cuja posição permanece desconhecida, já se manifesta, aos vivos, fora do espaço, fora do tempo e nas folhas brancas dos postos de rádio já são fantasmas que escrevem.

Ter-se-á acabado a gasolina ou é o piloto que, antes da pane, joga a sua última cartada: chegar ao solo sem se esmagar?

A voz de Buenos Aires ordena a Trelew:

"Perguntem-lho".

O posto de escuta de T. S. F. parece-se com um laboratório: níquel, cobre e manômetros, rede de condutores. Os operadores de avental branco, silenciosos, parecem entregues a uma experiência.

Os seus dedos delicados afloram os instrumentos, exploram o céu magnético, pesquisadores buscando o filão de ouro.

"Não respondem?"

"Não respondem."

Vão talvez apanhar aquela nota que seria um sinal de vida. Se o avião e as suas luzes de bordo subirem de novo até às estrelas, eles talvez ouçam o canto daquela estrela… Os segundos correm. Correm verdadeiramente como sangue. Estarão ainda voando? Cada segundo faz surgir uma probabilidade. .E eis que o tempo que passa parece destruir. Do mesmo modo que, durante vinte séculos, o tempo se apossa dum templo, abre o seu caminho no granito e o desfaz em pó, vinte séculos de desgaste concentram-se em cada segundo e ameaçam uma tripulação.

Cada segundo leva consigo qualquer coisa.

A voz de Fabien, o riso de Fabien, o sorriso. O silêncio vai ganhando terreno. Um silêncio cada vez mais pesado que cai sobre a tripulação como o peso dum mar. Então alguém faz notar : — Uma hora e quarenta. Último limite da gasolina: é impossível que voem ainda.

E a paz desceu.

Como ao cabo das viagens, vem à boca um travo amargo e enjoativo. Cumpriu-se qualquer coisa, de que se ignora tudo, qualquer coisa repulsiva. E no meio dos tubos de níquel e destas artérias de cobre, sente-se a mesma tristeza que reina nas fábricas arrumadas. Todo este material parece pesado, inútil, fora de uso: um peso de ramos secos. Resta apenas esperar o dia.

Dentro de algumas horas a Argentina inteira vai surgir à luz do dia e aqueles homens lá ficarão, como se estivessem na praia, olhando para a rede que puxamos, puxamos lentamente, sem sabermos o que trará.

No seu escritório, Rivière sente uma calma que só é possível por ocasião dos grandes desastres, no momento em que a fatalidade liberta o homem. Ele pôs.em estado de alarma todas as autoridades duma província. Já não pode fazer mais nada, é preciso esperar.

Mas a ordem deve reinar mesmo na casa dos mortos. Rivière faz sinal a Robineau : — Telegrama para as escalas Norte: "Prevemos grande atraso do correio da Patagônia. Para não atrasar demais correio da Europa, juntaremos correio da Patagônia ao próximo correio

da Europa".

Inclina-se um pouco para a frente. Mas lembra-se de qualquer coisa, era importante. Ah! sim. E para não esquecê-la.

— Robineau.

— Sr. Rivière?

— O senhor redigirá uma ordem. Os pilotos ficam proibidos de ultrapassar mil e novecentas rotações: estão a dar-me cabo dos motores.

— Está bem, Sr. Rivière.

Rivière inclinou-se um pouco mais. Sente necessidade, sobretudo, de estar só: — Vá, Robineau. Pode ir, meu amigo….

E Robineau assusta-se com esta igualdade perante sombras.

Robineau vagueava agora, melancólico, pelos escritórios. A vida da Companhia parara, visto que aquele correio, previsto para as duas horas, seria anulado e só partiria de dia. Os empregados, os rostos sisudos, continuavam de vigília, mas tudo era inútil. Continuava-se a receber, num ritmo regular, as mensagens de proteção das escalas Norte, mas os seus "céus limpos", as suas "lua cheia", e os seus "vento nulo" sugeriam a imagem dum reino estéril. Um deserto de luar e pedras. Ao folhear, sem aliás saber por quê, um processo em que estava trabalhando o chefe do escritório, Robineau deu por este, de pé, à sua frente, esperando com um respeito insolente que ele lhe devolvesse os documentos. O seu ar dizia: "Quando quiser, não é verdade? isso é meu. . ." Essa atitude dum inferior chocou o inspetor, mas não encontrou réplica alguma e, irritado, estendeu-lhe o processo. O chefe de escritório voltou ao seu lugar com um ar de grande altivez. "Devia tê-lo mandado passear", pensou

Robineau. Então, para não perder a linha, deu uns passos, pensando no drama. Aquele desastre implicaria o descrédito duma política e Robineau chorava um duplo luto. Depois surgiu-lhe a imagem dum Rivière, ali fechado no seu gabinete e que lhe tinha dito: "Meu amigo…" Nunca homem algum estivera a tal ponto falto de apoio. Robineau teve uma grande pena dele. Perpassaram-lhe pela cabeça várias frases obscuramente destinadas a lastimar, a consolar. Animou-o um sentimento que lhe pareceu duma grande beleza. Então foi bater mansamente à porta. Não obteve resposta. Não se atreveu a bater com mais força e empurrou a porta. Rivière lá estava. Pela primeira vez, Robineau entrava no gabinete de Rivière, quase como um igual, um pouco como um amigo, um pouco, pensava ele, como o sargento que se junta, sob a metralha, ao general ferido e o acompanha na derrota e se torna seu companheiro de exílio. "Estou a seu lado, aconteça o que acontecer", parecia querer dizer Robineau.

Rivière permanecia calado e, de cabeça caída, olhava para as mãos. E Robineau, de pé à sua frente, já não se atrevia a falar. Mesmo abatido, o leão intimidava-o. Robineau buscava palavras cada vez mais tocadas de dedicação, mas cada vez que levantava os olhos, dava com aquela cabeça inclinada a três quartos, aqueles cabelos grisalhos, aqueles lábios que fechavam tanta amargura. Por fim decidiu-se : — Sr. Diretor. ..

Rivière ergueu a cabeça e olhou para ele. Despertava de um sonho tão profundo, tão distante que talvez nem tivesse dado ainda pela presença de Robineau. E ninguém soube nunca qual foi o seu sonho, nem o que ele sentia, nem a imensidão do luto que cobria a sua alma. Rivière fixou Robineau durante muito tempo, como se esse fosse a testemunha viva de qualquer coisa. Robineau sentiu-se embaraçado. Quanto mais Rivière olhava para Robineau, mais aflorava aos seus lábios uma expressão de ironia incompreensível. Quanto mais Rivière olhava para Robineau, mais este corava. E mais parecia a Rivière que Robineau tinha vindo ali testemunhar, com uma boa vontade enternecedora e uma espontaneidade infeliz, a estupidez dos homens.

Robineau sentia-se perturbado. Nem o sargento, nem o general, nem a metralha podiam agora ser para ali chamados. Passava-se algo de inexplicável. Rivière continuava a olhar para ele. Então Robineau, sem querer, corrigiu um pouco a sua atitude, retirou a mão da algibeira esquerda. Rivière continuava a olhar para ele. Então, finalmente Robineau com um infinito embaraço e sem saber por quê, disse :

— Vim para receber as suas ordens.

Rivière puxou o relógio e disse simplesmente :

— São duas horas. O correio de Asunción aterrará às duas e dez. Mande decolar o correio da Europa às duas horas e um quarto.

E Robineau espalhou a espantosa notícia: não se suspendiam os voos noturnos. E Robineau dirigiu-se ao chefe de escritório:

— Traga-me esse processo para que eu o verifique.

E quando o chefe de escritório parou em frente dele :

— Espere.

E o chefe de escritório esperou. 

Voo noturno - Capítulo 17 ao 19

Um dos radiotelegrafistas de Commodoro Rivadavia, escala de Patagônia, teve um gesto brusco e todos os que no posto, impotentes, estavam de quarto, se agruparam à volta desse homem, inclinando-se.

Inclinavam-se sobre um papel completamente em branco e fortemente iluminado. A mão do operador hesitava ainda e o lápis tremia. A mão do operador mantinha ainda prisioneiras as letras, mas já os dedos tremiam.

— Temporais?

O telegrafista disse que "sim" com a cabeça. O seu crepitar impedia-o de compreender. Depois alinhou alguns sinais indecifráveis. Depois palavras. Por fim pôde-se restabelecer o texto:

"Bloqueados, acima da tempestade, a três mil e oitocentos metros. Navegamos para o interior em direção oeste, pois deriváramos para o mar. Por baixo está tudo fechado. Ignoramos se ainda sobrevoamos o mar. Informem se tempestade se estende para o interior".

Para transmitir este telegrama a Buenos Aires, foi preciso, por causa dos temporais, formar cadeia de posto para posto. A mensagem avançava, na noite, como um fogo que se acende de torre em torre.

Buenos Aires mandou responder : "Tempestade geral no interior. Quanto lhes resta de gasolina?"

"Uma meia hora."

E esta frase, de vigia em vigia, chegou até Buenos Aires.

A tripulação estava condenada a afundar-se, no espaço de trinta minutos, no ciclone que a arrastaria até ao solo.

E Rivière medita. Já não tem esperança: aquela tripulação perder-se-á em qualquer ponto, na noite.

Rivière recordava uma visão que lhe ficou da infância: esvaziavam um tanque para encontrar um corpo. Também não se encontrará nada até que a massa de sombra abandone a terra, até que voltem à luz essas areias, esses campos, esses trigais. Rudes camponeses encontrarão talvez duas crianças, o braço tapando o rosto, e parecendo dormir, caídas na erva, sobre um fundo dourado e calmo. Mas a noite as terá afogado.

Rivière sonha com os tesouros escondidos nas profundezas da noite, como em mares fabulosos. As macieiras de noite aguardam o dia com todas as suas flores, flores que não servem ainda. A noite é rica, cheia de perfumes, de cordeiros adormecidos e de flores ainda incolores.

Pouco a pouco, surgirão na manha os campos fartos, os bosques orvalhados, os frescos silvados. Mas no meio das colinas, agora inofensivas, e dos prados e dos cordeiros, naquela bela ordenação da terra, duas crianças parecerão dormir. E qualquer coisa terá fugido do mundo visível para o outro.

Rivière sabe como a mulher de Fabien é inquieta e terna: aquele amor foi-lhe apenas emprestado, como um brinquedo a uma criança pobre.

Rivière imagina a mão de Fabien, que durante alguns minutos ainda segurará o seu destino nas alavancas de comando. Aquela mão que acariciou. Aquela mão que pousou sobre um seio, fazendo surgir um tumulto, como uma mão divina. Aquela mão que pousou sobre um rosto e que transformou esse rosto. Aquela mão que era milagrosa.

Fabien vagueia por cima do esplendor dum mar de nuvens à noite, porém, mais abaixo, é a eternidade. Está perdido no meio de constelações onde só ele habita. Aperta ainda o mundo com as mãos e embala-o contra o seu peito. Segura, no seu volante, o peso da riqueza humana e carrega desesperado, duma estrela para outra, o inútil tesouro, que terá de devolver à força. . .

Rivière supõe que um posto de rádio ainda o escuta. Só uma onda musical, uma modulação menor liga ainda Fabien ao mundo. Não uma queixa. Não um grito. Mas o som mais puro que o desespero jamais criou.

Robineau veio arrancá-lo à sua solidão:

— Sr. Diretor, eu pensei. .. podia-se talvez tentar…

Não tinha nada a propor, mas testemunhava assim a sua boa vontade. Gostaria tanto de encontrar uma solução e procurava-a como quem procura a chave de uma charada. Encontrava sempre soluções que Rivière nunca escutava: "Você percebe, Robineau, na vida não há soluções. Há forças em movimento: é preciso criá-las e as soluções sobrevêm". Por isso Robineau limitava o seu papel à criação duma força em movimento, que impedia a ferrugem de atacar os eixos de hélice.

Mas os acontecimentos desta noite apanhavam Robineau desarmado. O seu título de inspetor não tinha qualquer poder sobre os temporais, nem sobre uma tripulação fantasma, que verdadeiramente já não se debatia para ganhar um premio de regularidade, mas sim para escapar a uma única sanção, que anulava as de Robineau: a morte.

E Robineau, agora inútil, vagueava sem préstimo pelos escritórios.

A mulher de Fabien fez-se anunciar. Levada pela inquietação, aguardava, no escritório dos secretários, que Rivière a recebesse. Os secretários, às ocultas, observavam o seu rosto. Sentia uma espécie de vergonha que a fazia olhar medrosamente à volta: ali tudo a repudiava. Estes homens que continuavam a trabalhar, como se espezinhassem um corpo, estes processos

onde a vida humana, o sofrimento humano só deixavam um resto de frios algarismos. Ela procurava sinais que lhe falassem de Fabien. Em sua casa tudo indicava esta ausência: a cama entreaberta, o café na mesa, um vaso com flores. Não descobria sinal algum. Tudo se opunha à piedade, à amizade, à recordação. A única frase que ouviu, pois ninguém levantava a voz na sua presença, foi uma imprecação proferida por um empregado que reclamava um registro: "…O registro de dínamos, santo Deus!, que nós expedimos para Santos". Ergueu os olhos para esse homem com uma expressão de infinito espanto. Depois olhou para a parede donde pendia um mapa. Os seus lábios tremiam um pouco, quase imperceptivelmente.

Ela percebia, com embaraço, que exprimia ali uma verdade inimiga, quase lamentava ter vindo, teria desejado esconder-se e, temendo fazer-se demasiado notada, continha-se para não tossir ou chorar. Achava-se insólita, inconveniente, como se estivesse nua. Mas a verdade dela era tão forte que os olhares fugitivos voltavam, às ocultas, infatigavelmente, para descobri–la no seu rosto. Esta mulher era muito bela. Revelava aos homens o mundo sagrado da felicidade. Revelava em que matéria sublime tocamos, sem o saber, quando agimos. Sob tantos olhares a mulher fechou os olhos. Ela revelava a paz imensa que, sem saber, podemos destruir.

Rivière recebeu-a.

Ela vinha timidamente fazer a defesa das suas flores, do seu café na mesa, da sua carne jovem. De novo, naquele escritório mais frio ainda, os seus lábios começaram a tremer levemente. Ela também descobria que neste mundo diferente a sua própria verdade era inexprimível. Tudo o que sentia em si de amor quase selvagem — de tal modo era fervoroso — de dedicação, parecia-lhe tomar ali um ar importuno, egoísta. Desejou poder desaparecer: — Venho incomodá-lo.. .

— Não, minha senhora — disse-lhe Rivière — não me incomoda. Infelizmente, tanto a senhora como eu, o mais que podemos fazer é esperar.

Ela encolheu os ombros, quase imperceptivelmente, mas Rivière compreendeu o sentido daquele gesto: "Para que servem a lâmpada, a ceia na mesa, as flores que voltarei a encontrar. . ." Uma jovem mãe confessara um dia a Rivière: "A morte do meu filho, ainda não a compreendi bem. O que me faz sofrer são as pequenas coisas, a sua roupinha que encontro por acaso e, se acordo de noite, aquela ternura que apesar de tudo se apodera do meu coração e é agora inútil, como o meu leite…" Para aquela mulher também a morte de Fabien iria apenas começar amanhã, em cada ato daí em diante vão, em cada objeto. Fabien deixaria lentamente a sua casa. Rivière abafava uma profunda compaixão.

A mulher ia-se embora, com um sorriso quase humilde, ignorante da sua própria força. Rivière sentou-se, um pouco cansado.

"Mas ela ajudou-me a descobrir o que eu procurava..

Batia levemente com as pontas dos dedos nos telegramas de proteção das escalas Norte. Sonhava.

Nos não pedimos para ser eternos, mas apenas para não ver os atos e as coisas perderem subitamente o seu sentido. O vazio que nos rodeia faz-se então sentir…" O seu olhar pousou nos telegramas: "E eis por onde a morte entra aqui: estas mensagens que já não fazem sentido…"

Olhou para Robineau. Aquele homem medíocre, agora inútil, já não fazia sentido. Rivière disse-lhe quase em tom áspero:

— Será preciso que eu próprio lhe dê trabalho?

Depois Rivière empurrou a porta que dava para a sala dos secretários e o desaparecimento de Fabien saltou-lhe aos olhos, bem evidente, em sinais que a senhora Fabien não soubera ver. A ficha do R. B. 903, o avião de Fabien, figurava já, no quadro mural, na coluna do material indisponível. Os secretários que preparavam os papéis do correio da Europa, sabendo que este partiria com atraso, trabalhavam mal. Pediam do campo, pelo telefone, ordens para as equipes que agora velavam sem objetivo. As funções de vida tinham-se afrouxado. "A morte, ei-la", pensou Rivière. A sua obra parecia um veleiro parado, sem vento, no mar.

Ouviu a voz de Robineau:

— Sr. Diretor. . . eles estavam casados há seis semanas…

— Vá trabalhar.

Rivière continuava a olhar para os secretários e, por detrás deles, os serventes, os mecânicos, os pilotos, todos aqueles que o tinham ajudado na sua obra, com uma fé de apaixonados. Pensou nas pequenas cidades de antigamente que, ouvindo falar das "Ilhas", construíam o seu navio. Para o carregar com a sua esperança. Para que os homens pudessem ver a sua esperança enfunar as velas sobre o mar. Todos engrandecidos, todos arrancados de si próprios, todos libertos por um navio. "O objetivo talvez não justifique nada, mas a ação liberta da morte. Era um navio que fazia prolongar a vida desses homens."

E Rivière também terá lutado, contra a morte, quando tiver dado aos telegramas o seu verdadeiro sentido, às equipes de vigia e a sua inquietação e aos pilotos, o seu sentido dramático. Quando a vida reanimar esta obra, como o vento reanima um veleiro do mar. 

Voo noturno - Capítulo 15 e 16


 Talvez aquele papel dobrado em quatro o I pudesse salvar. Fabien desdobrou-o, cerrando os dentes.

"Impossível manter comunicação com Buenos Aires. Já nem sequer posso manipular, pois saltam-me faíscas aos dedos."

Fabien, irritado, quis responder, mas quando as suas mãos largaram as alavancas de comando para escrever, sentiu-se levado por uma espécie de onda fortíssima: os redemoinhos levantavam-no, nas suas cinco toneladas de metal, e sacudiam-no. Desistiu de escrever. As suas mãos prenderam de novo a onda e fizeram-na desaparecer.

Fabien respirou profundamente. Se o telegrafista recolhesse a antena, com medo da tempestade, Fabien partir-lhe-ia a cara, à chegada. Era preciso, a todo custo, pôr-se em contacto com Buenos Aires, como se, a mais de mil e quinhentos quilômetros de distância, fosse possível lançar-lhes um cabo neste abismo. Não conseguindo vislumbrar qualquer luz tremula, uma lanterna de pousada quase inútil, mas que teria provado, como um farol, a existência da terra, necessitava pelo menos de uma voz, uma só, vinda dum mundo que já quase não existia. O piloto ergueu e agitou o punho naquela luz avermelhada, para que o outro lá atrás compreendesse essa trágica verdade, mas o companheiro, debruçado sobre o espaço devastado, com as cidades soterradas, as luzes mortas, não a entendeu.

Fabien teria seguido todos os conselhos, contanto que lhe fossem gritados. Pensava: "E se me dizem para andar à roda, ando à roda, e se me dizem para voar direito ao sul. . ." Existia em qualquer lado as terras de paz, suaves sob grandes manchas de luar. Lá longe, os seus camaradas, instruídos como sábios, debruçados sobre mapas, todo-poderosos, ao abrigo de candeeiros belos como flores, sabem onde essas terras existem. E ele que sabia, fora dos redemoinhos e da noite que lançava contra ele, com a rapidez duma derrocada, a sua lava negra? Não se podia abandonar dois homens no meio das nuvens, à mercê das rajadas e das chamas, Não se podia fazer uma coisa dessas. Se ordenassem a Fabien: "Governe a duzentos e quarenta. . .", ele governaria a duzentos e quarenta. Mas estava só.

Pareceu-lhe que a matéria também se revoltava. A cada mergulho, o motor vibrava tão fortemente que toda a massa do avião se punha a tremer, como se se enchesse de cólera. Fabien ia perdendo as forças, tentando dominar o avião, a cabeça metida na carlinga, o olhar fixo no horizonte giroscópico, pois, lá fora, ele já não conseguia distinguir a massa do céu da terra, e seguia perdido numa escuridão onde tudo se misturava, uma escuridão de começo dos mundos. Mas as agulhas dos indicadores de posição oscilavam cada vez mais, tornava-se difícil segui-las. Já o piloto, que elas enganavam, lutava dificilmente; perdia altitude, deixando-se atolar naquela sombra. Verificou a altura a que voava: "quinhentos metros", altura do nível das colinas. Sentiu as suas vagas vertiginosas lançarem-se contra ele. Percebia também que todas as massas do solo, e a menor esmagá-lo-ia, eram como que arrancadas do seu suporte, desparafusadas, e começavam a girar, ébrias, à sua volta. Havia ao seu redor uma espécie de dança profunda, cujo cerco cada vez mais se apertava.

Tomou uma resolução. Correndo o risco de espatifar-se, aterraria fosse onde fosse. E para evitar ao menos as colinas, lançou o seu único foguete luminoso. O foguete inflamou-se, rodopiou, iluminou uma superfície plana e nela se apagou: era o mar.

Pensou rapidamente: "Perdido. Quarenta graus de correção, apesar de tudo, desviei me. È um ciclone. Para que lado fica a terra?" Seguiria direito a oeste. Pensou: "Sem foguete, agora vou morrer". Isto tinha de suceder um dia. E o seu camarada, ali, atrás.. . "Com certeza já recolheu a antena." Mas já não lhe queria mal por isso. Se ele próprio abrisse simplesmente as mãos, a vida de ambos desapareceria logo, como uma leve poeira. Tinha nas suas mãos o bater do coração do seu companheiro e o de seu próprio coração. E de súbito suas mãos assustaram-no.

No meio daqueles redemoinhos que desfechavam golpes de aríete, a fim de amortecer as sacudidelas do volante, que de outro modo despedaçariam os cabos das alavancas de comando, agarrara-se com ambas as mãos a esse volante. E assim continuava. E eis que deixara de sentir as mãos que o esforço adormecera. Quis mexer os dedos para experimentar: não percebeu se eles lhe obedeciam. Era qualquer coisa de estranho que terminava os seus braços. Umas bexigas insensíveis e moles. Pensou: "Tenho de me convencer fortemente de que estou a apertar". Não percebeu se o pensamento atingia as mãos. E como as sacudidelas do volante só se sentiam nos ombros doloridos, pensou: "O volante vai escapar. Às minhas mãos vão abrir-se. . ." Mas assustou-se por se permitir tais palavras, pois pareceu-lhe que desta vez as mãos obedeciam à obscura força da imagem e se abriam lentamente na escuridão, para entregá-lo.

Poderia ainda lutar, tentar a sua sorte: a fatalidade exterior não existe. Mas há uma fatalidade interior: há um momento em que nos sentimos vulneráveis; então, como uma vertigem, os erros atraem-nos.

E foi num momento destes que sobre a sua cabeça brilharam, num rasgão da tempestade, como uma isca morta e no fundo duma armadilha, algumas estrelas. Ele pensou de fato que era uma cilada: vêem-se três estrelas num buraco, sobe-se ao seu encontro, depois já não se pode descer e lá se fica mordendo as estrelas. . .

Mas a sua fome de luz era tal que Fabien subiu.

Subiu, fazendo diminuir os balanços, graças à indicação das estrelas. O seu ímã pálido atraía-o. Sofrera tanto em busca duma luz, que já não largaria mesmo a mais confusa. Sentindo-se afortunado com aquele pobre clarão, seria capaz de dar voltas, até cair morto, em torno daquele sinal de que andava faminto. E ei-lo subindo até os campos de luz.

Elevava-se pouco a pouco, em espiral, num poço que se abrira e se fechava, debaixo dele. E à medida que subia, as nuvens iam perdendo a sua cor escura de lama, passavam a seu lado como vagas cada vez mais puras e brancas. Fabien emergiu.

Foi imensa a sua surpresa, a claridade era tal que o ofuscava. Teve de fechar os olhos durante alguns segundos. Nunca imaginara que de noite as nuvens pudessem ofuscar. Mas a lua cheia e todas as constelações transformavam-nas em vagas deslumbrantes.

Dum só golpe, no mesmo instante em que emergia, o avião recuperou a calma, uma calma que parecia extraordinária. Nenhuma onda o fazia inclinar-se. Como um barco que transpõe o dique, entrava em águas reservadas. Encontrava-se num canto do céu ignorado e escondido, como a baía das ilhas bem-aventuradas. Abaixo dele, a tempestade constituía um outro mundo de três mil metros de espessura, percorrido por rajadas, por trombas d’água, por relâmpagos, mas oferecia aos astros uma face de cristal e neve.

Fabien tinha a sensação de ter chegado a limbos estranhos, pois tudo se tornava luminoso: as suas mãos, o seu vestuário, as suas asas. Porque a luz não descia dos astros, mas emanava, embaixo, à sua volta, daquelas imensas massas brancas.

Aquelas nuvens, abaixo dele, refletiam toda a neve que recebiam da lua. E também as da direita e da esquerda, altas como castelos. Corria um leite de luz, em que a tripulação se banhava. Voltando-se, Fabien viu que o telegrafista sorria.

— Isto vai melhor! — exclamava ele.

Mas a voz perdia-se no ruído do voo, só os sorrisos se transmitiam. "Estar a sorrir é pura loucura, pensou Fabien, estamos perdidos."

Contudo, mil braços obscuros tinham-no largado. Tinham-se quebrado as cadeias, como as de um prisioneiro que deixam caminhar só, por um instante, entre flores. "Belo demais", pensava Fabien. Vagueava no meio de estrelas amontoadas como um tesouro, num mundo onde nada mais, absolutamente nada mais, a não ser ele e o seu companheiro, tinha vida. Semelhantes a esses ladrões das cidades fabulosas enclausurados na sala dos tesouros, donde nunca mais conseguirão sair. Por entre pedrarias gélidas, Fabien e o companheiro vagueiam, imensamente ricos, mas condenados.

Voo noturno - Capítulo 13 e 14


 — O correio de Asunción está em bom andamento. Vamos tê-lo aqui por volta das duas horas. Pelo contrário, previmos um grande atraso do correio da Patagônia, que parece encontrar-se em dificuldades.

— Sim, Sr. Rivière.

— É provável que não esperemos por ele para mandar decolar o avião da Europa; assim que chegar o correio de Asunción, peça-nos instruções. Tenham tudo pronto. Rivière relia agora os telegramas de proteção das escalas Norte. As suas indicações abriam ao correio da Europa uma rota de luar: "Céu limpo, lua cheia, vento nulo". As montanhas do Brasil, recortando-se com nitidez no céu brilhante, iam banhar nas ondas prateadas do mar a sua vasta cabeleira de florestas negras. Essas florestas, sobre as quais

brilham incessantemente, sem lhes dar cor, os raios de luar. E no mar, negras também, como destroços, as ilhas.

E durante todo o caminho, uma lua sem desgaste: uma fonte de luz.

Se Rivière mandasse partir, a tripulação do correio da Europa entraria num mundo estável, toda a noite brandamente iluminado. Um mundo onde nada ameaçava o equilíbrio das massas negras e da luz. Onde nem sequer se infiltraria a carícia daqueles ventos puros que, se refrescam, podem, no espaço de algumas horas, estragar um céu inteiro.

Perante aquela cintilação, Rivière hesitava como um pesquisador de ouro perante um filão proibido. O que acontecia no sul desacreditava Rivière, único defensor dos voos noturnos. Os seus adversários aproveitariam um desastre na Patagônia para alcançar uma posição moral tão forte, que tornaria talvez para sempre impotente a fé de Rivière; porque a fé de Rivière não estava abalada: uma fissura na sua obra dera ensejo ao’ drama, mas o drama punha apenas a fissura a descoberto, não provava mais nada. "Talvez sejam necessários postos de observação a oeste. Temos de ver isso." Pensava ainda: "Tenho, para insistir, as mesmas razões sólidas. Existe ao menos uma causa de possível acidente: a que se revelou". Os reveses fortalecem os fortes. Infelizmente, joga-se contra os homens um jogo em que o verdadeiro sentido das coisas tem tão pouco peso. Ganha-se ou perde-se conforme as aparências, não têm o mínimo valor os pontos que se marcam. E fica-se amarrado por causa duma aparência de derrota. Rivière chamou.

— Bahia Blanca continua a não comunicar nada pelo T. S. F.?

— Não, senhor.

— Ponha-me em comunicação telefônica com essa escala.

Cinco minutos mais tarde, informava-se:

— Por que não nos transmitem nada?

— Não ouvimos o correio.

— Calou-se?

— Não sabemos. Há tantas tempestades. Mesmo que ele tentasse, não o ouviríamos. — Trelew está à escuta?

— Não ouvimos Trelew.

— Telefonem.

— Já tentamos: a linha está cortada.

Que tempo está aí?

— Ameaçador. Relâmpagos a oeste e ao sul. Muito pesado.

— Há vento?

— Fraco por enquanto, mas isto não durará dez minutos. Os relâmpagos aproximam-se rapidamente.

Um silêncio.

"Bahia Blanca? Estão ouvindo? Bem. Telefonem daqui a dez minutos."

E Rivière folheou os telegramas das escalas Sul. Todos mencionavam o mesmo silêncio do avião. Algumas das escalas já não respondiam a Buenos Aires e, no mapa, ia crescendo a mancha das províncias mudas, onde as pequenas cidades já eram presas do ciclone, com todas as suas portas fechadas e cada casa das suas ruas sem luz, tão isolada do mundo e perdida na noite como um navio. Só a aurora as viria libertar.

Apesar de tudo, Rivière, debruçado sobre o mapa, mantinha ainda a esperança de descobrir um refúgio de céu limpo, pois telegrafara a mais de trinta cidades da província para saber o estado do céu e as respostas começavam a chegar às suas mãos. Numa área de dois mil quilômetros, os postos de rádio tinham recebido ordens para, no caso de um deles conseguir obter um chamado do avião, avisar imediatamente Buenos Aires, que lhe comunicaria, para ser transmitida a Fabien, a posição do refúgio.

Os secretários, convocados para a uma da manhã, tinham voltado aos escritórios. E aí tomavam, misteriosamente, conhecimento de que, talvez, fossem suspensos os voos noturnos e que o próprio correio da Europa já partiria apenas quando chegasse a manha. Falavam em voz baixa de Fabien, do ciclone e sobretudo de Rivière. Pressentiam-no ali, muito perto deles, minuto a minuto mais acabrunhado com este desmentido natural.

Mas todas as vozes se extinguiram: Rivière acabava de surgir à porta do seu gabinete, metido no sobretudo, o chapéu caindo-lhe sobre os olhos, como um eterno viajante. Encaminhou-se tranquilamente para o chefe de escritório:

— É uma hora e dez. Os papéis do correio da Europa estão em ordem? — Eu. . . eu pensei…

— O senhor não tem nada que pensar, mas sim que executar.

As mãos atrás das costas, deu meia volta lentamente e encaminhou-se para uma janela aberta.

Um secretário acercou-se dele :

— Sr. Diretor, obtemos poucas respostas. Informaram-nos do interior do país que muitas linhas telegráficas já foram destruídas. . .

— Está bem.

Rivière, imóvel, observava a noite.

Deste modo, cada mensagem representava uma ameaça para o correio. Cada cidade que podia responder, antes da destruição das linhas, falava do avanço do ciclone, como se se tratasse de uma invasão. "Vem do interior, da Cordilheira. Varre todo o caminho, em direção ao mar. . ." ,

Rivière achava as estrelas demasiado brilhantes, o ar demasiado úmido. Noite estranha! Estragava-se, bruscamente aos bocados, como a polpa dum fruto luminoso. As estrelas, na sua totalidade, dominavam ainda Buenos Aires, mas aquilo era apenas um oásis e duraria um instante. Um porto, que de resto se encontrava fora do raio de ação da tripulação. Noite ameaçadora, tocada e apodrecida por um vento ruim. Noite difícil de vencer.

Num ponto qualquer, embrenhado nas suas profundezas, um avião estava em perigo: na margem firme havia uma vã agitação.

A mulher de Fabien telefonou.

Na noite de cada chegada ela calculava o andamento do correio da Patagônia: "Deve estar decolando de Trelew. .." Adormecia em seguida. Um pouco mais tarde: "Deve estar perto de San António, já deve distinguir as luzes da terra". Levantava-se então, afastava as cortinas e observava o céu: "Tantas nuvens devem incomodá-lo. . ." Às vezes a lua passeava como um pastor. Então a mulher do piloto ia novamente deitar-se, tranquilizada pela lua e as estrelas, pelos milhares de presenças à volta de seu marido. Por volta de uma hora, calculava que ele estava perto: "Já não deve estar muito longe, deve avistar Buenos Aires…" Levantava-se, então, de novo e preparava-lhe uma refeição, com um café bem quente: "Está tão frio lá em cima…" Aguardava-o sempre como se ele acabasse de chegar duma montanha coberta de neve:

— "Você está com frio?

— Que ideia!

— Aqueça-se, no entanto.. ."

Por volta de uma e um quarto estava tudo pronto. Telefonava então.

Naquela noite, como nas outras, informou-se:

— O Fabien já aterrou?

O secretário que a atendia ficou um pouco embaraçado:

— Quem fala?

— Simone Fabien.

— Ah! um momento.. .

Não ousando responder, o secretário passou o fone ao chefe do escritório. — Quem fala?

— Simone Fabien.

— Ah!. . . que deseja, minha senhora?

— Meu marido já aterrou?

Houve um silêncio que deve ter parecido inexplicável, depois respondeu laconicamente:

— Ainda não.

— Vem atrasado?

— Vem… Novo silêncio.

— Vem… atrasado.

— Ah!.,.

Era um "ah!" de carne ferida. Um atraso não tem importância. . . não tem importância nenhuma . . . mas quando se prolonga…

— Ah!… e a que horas chegará?

— A que horas chegará? Nós.. . nós não sabemos.

Ela encontrava agora uma espécie de muro à sua frente. Não obtinha senão o eco das suas perguntas.

— Suplico-lhe, responda-me! Onde estará ele? Ouça. . .

— Um momento, por favor.

Aquela inércia fazia-a sofrer. Sucedia qualquer coisa por detrás daquele muro. Decidiram-se.

— Fabien decolou de Commodoro às dezenove horas e trinta.

— E depois?

— Depois?. . . Muito atrasado. … Muito atrasado devido ao mau tempo. . . — Ah! sim, o mau tempo. . .

Que injustiça, que hipocrisia a daquela lua ali, descuidadamente adormecida sobre Buenos Aires! A mulher de Fabien lembrou-se de repente que bastavam duas horas para vir de Commodoro a Trelew.

— Fabien está voando há seis horas a caminho de Trelew? Mas ele envia mensagens! Que diz ele?. . .

— O que ele diz? Evidentemente, com um tempo destes. . . percebe-se… as suas mensagens não são ouvidas.

— Um tempo destes!

— Fica então combinado, minha senhora, assim que soubermos alguma coisa telefonamos-lhe.

— Ah! Não sabem nada…

— Até logo, minha senhora…

— Espere! Espere! Quero falar com o Diretor!

— O Sr. Diretor está ocupadíssimo, minha senhora, está em reunião.. .

— Não me interessa. Isso, francamente, não me interessa! Quero falar com ele! O chefe do escritório limpou o suor.

— Um momento…

—Empurrou a porta de Rivière :

"Pronto, pensou Rivière, eis o que eu temia".

Os elementos afetivos do drama começam a tomar forma. Pensou primeiramente cm afastá-los: as mães e as mulheres não têm entradas nas salas de operação. Também se faz calar a emoção nos navios em perigo. Porque não ajuda a salvar os homens. Contudo aceitou : — Ligue para o meu escritório.

Ouviu aquela pobre voz longínqua, tremula e compreendeu logo que não lhe poderia responder. O encontro seria, para ambos, absolutamente estéril.

— Minha senhora, acalme-se, suplico-lhe!

No nosso ofício é tão frequente esperar muito

tempo por notícias.

Rivière tinha chegado àquele ponto em que se coloca, não o problema duma mísera angústia individual, mas o da própria ação. Na sua frente erguia-se não a mulher de Fabien, mas sim um sentido diverso da vida. Rivière só podia ouvir e lastimar aquela pobre voz, aquele canto tão triste, mas inimigo: Pois nem a ação, nem a felicidade individual admitem a partilha: estão em conflito. Era certo que aquela mulher falava em nome de um mundo absoluto e dos seus deveres e dos seus direitos. O inundo de uma claridade de candeeiro sobre a mesa, à noite, a carne que reclama a sua carne, uma pátria de esperanças, de ternuras, de recordações. Exigia o que lhe pertencia e tinha razão. E ele, Rivière, também tinha razão, mas nada podia opor à verdade daquela mulher. À luz dum humilde candeeiro doméstico, a sua própria verdade revela-se inexprimível e desumana.

"Minha senhora…"

Ela já não escutava. Rivière tinha a impressão de que, tendo exaurido a força de seus fracos punhos contra um muro, a mulher caíra inanimada, quase a seus pés. Uma vez, junto duma ponte em construção, debruçados sobre um ferido, um engenheiro dissera a Rivière: "Valerá esta ponte o preço dum rosto esmagado?" Nem um só camponês teria

aceito, para economizar um desvio pela ponte seguinte, a mutilação medonha deste rosto. E, no entanto, constroem-se pontes. O engenheiro acrescentara: "O interesse geral é formado de interesses particulares: não justifica mais coisa alguma. — E, no entanto, retorquira-lhe mais tarde Rivière, apesar de a vida humana não ter preço, agimos sempre como se qualquer coisa fosse mais valiosa do que ela. . . Mas o quê?"

Pensando na tripulação, Rivière sentiu um aperto no coração. A ação, mesmo a que consiste em construir uma ponte, destrói felicidades; Rivière já não podia deixar de perguntar: "Em nome de quê?"

"Estes homens, que vão talvez desaparecer, poderiam ter vivido felizes." Via rostos inclinados no santuário dourado dos candeeiros à noite. "Em nome de quê, eu os tirei daí?" Em nome* de quê, arrancara-os à felicidade individual? Não é uma lei de primeiro grau proteger essas felicidades? Mas ele próprio as anula. E no entanto, um dia, fatalmente, os santuários dourados somem-se como miragens. A velhice e a morte, mais cruéis do que ele próprio, destroem-nos. Talvez exista algo mais duradouro, que é preciso salvar; será para salvar essa parte do homem que Rivière trabalha? Doutro modo a ação não se justifica.

"Amar, amar somente, é um beco sem saída!" Rivière teve a noção obscura dum dever mais forte do que o de amar. Ou talvez se tratasse igualmente duma ternura, mas tão diferente das outras. Voltou-lhe à mente uma frase: "Tratasse de torná-los eternos…" Onde teria lido isso? "O que buscamos vai morrendo conosco." Lembrou-se dum templo erguido em honra do deus do sol pelos antigos incas do Peru. Pedras erguidas ao céu, em plena montanha. Que restaria, se elas não existissem, de uma civilização poderosa que pesava, com toda a carga de suas pedras, sobre o homem dos nossos dias, como um remorso? 

"Em nome de que dureza, ou de que estranho amor, o condutor de povos de outrora, obrigando as multidões a acarretar com aquele templo para o topo da montanha, lhes impôs assim o dever de erigir a sua eternidade?" Rivière voltou a ver, em sonhos, as multidões das pequenas cidades, passeando, à noite, à volta do coreto da praça: "Essa espécie de felicidade, essa armadura …", refletia. O condutor de povos de outrora, se não sentiu piedade pelo sofrimento do homem, sentiu uma imensa piedade pela sua morte. Não pela sua morte individual, mas piedade pela espécie que o mar de areia apagará. E levava o seu povo a erguer pelo menos pedras, que o deserto não poderia soterrar.

Voo noturno - Capítulo 11 e 12


 Rivière recebeu-o:

— Pregou-me uma peça no seu último correio. Voltou para trás se bem que as previsões meteorológicas fossem boas: podia passar. Teve medo?

Surpreendido, o piloto cala-se. Esfrega lentamente uma mão na outra. Depois ergue a cabeça e olha bem de frente para Rivière:

— Tive.

No fundo de si próprio, Rivière sente piedade por este rapaz tão corajoso, que teve medo. O piloto tenta desculpar-se.

— Já não via absolutamente nada. É evidente que, mais longe. . . talvez… o T. S. F. anunciava. . . Mas a minha lâmpada de bordo enfraqueceu e já nem podia distinguir as mãos. Quis acender a lâmpada de posição para ao menos ver a asa: não vi coisa alguma. Tive a impressão de estar no fundo dum poço de que era difícil sair. Nessa altura o motor começou a vibrar.

— Não é verdade.

— Não é verdade?

— Não. Examinamo-lo depois disso. O seu estado é perfeito. Mas julga-se sempre que o motor vibra quando se tem medo.

— E quem não teria medo! As montanhas estavam acima de mim. Quando quis tomar altitude, encontrei violentos redemoinhos. O senhor sabe… os redemoinhos quando se não distingue nada. . . Em vez de subir, baixei cem metros. Já nem via o giroscópio, nem sequer os manômetros. Parecia-me que o regime do motor baixava, que o motor aquecia, que a pressão do óleo descia.. . Tudo isso no meio das trevas, como uma doença. Senti-me bem feliz ao rever uma cidade iluminada.

— Você tem imaginação demais. Retire-se.

E o piloto vai-se embora.

Rivière acomoda-se no seu lugar e passa a mão pelos cabelos grisalhos. "É, de todos os meus homens, o mais corajoso. O que ele conseguiu naquela noite foi magnífico, mas estou a curá-lo do medo. .."

Depois, como lhe voltasse uma ponta de fraqueza:

"Para que nos amem, basta manifestar compaixão. Eu não me compadeço facilmente ou escondo-o. Bem gostaria, no entanto, de envolver-me de amizade e de doçura humanas. No decorrer do seu ofício, um médico encontra-as, Mas eu sirvo os acontecimentos. Tenho de moldar os homens para que eles os sirvam também. De noite, no meu escritório, perante itinerários de viagem, sinto nitidamente essa lei obscura. Se não me domino, se consinto que os acontecimentos, bem ordenados, sigam o seu curso, então, misteriosamente, surgem os incidentes. É como se só a minha vontade impedisse os aviões de se quebrarem em voo, ou a tempestade de atrasar o correio que segue o seu caminho. Fico por vezes surpreso com o meu poder".

E reflete ainda :

"Talvez isto seja claro. Também assim é a luta contínua do jardineiro cuidando da relva. A força da sua mão obriga a terra a guardar nas suas profundezas a floresta primitiva que tela eternamente apronta".

Lembra-se do piloto :

"Arranco-o ao medo. Não é ele que eu ataco, mas sim, através dele, aquela resistência que paralisa os homens perante o desconhecido. Se lhe dou ouvidos, se o lastimo, se tomo a sério a sua aventura, ele se vai imaginar de volta duma terra misteriosa e é precisamente o mistério que ele teme. É preciso que haja homens que tenham descido a esse poço sombrio e que, ao voltar à superfície, declarem que não viram nada. É preciso que este homem se embrenhe na profundidade da noite, nas trevas espessas, sem nem sequer ter o auxílio da pequena lâmpada de mineiro, que apenas ilumina as mãos ou a asa, mas que cria um estreito fosso entre si e o desconhecido".

Apesar de tudo, nessa luta, uma fraternidade sem palavras ligava, lá no fundo, Rivière aos seus pilotos. Eram homens da mesma equipe que sentiam um igual desejo de vitória. Mas Rivière recorda outros combates que tivera para conquistar a noite.

Esse domínio das sombras era temido nos círculos oficiais, como uma selva inexplorada. Lançar uma tripulação, a duzentos quilômetros por hora, contra as tempestades, os nevoeiros e os obstáculos que a noite -guarda escondidos no seu seio, parecia-lhes uma aventura tolerável para a aviação militar: parte-se dum campo em noite clara, bombardeia-se e volta-se ao mesmo campo, Mas os serviços regulares não teriam êxito de noite. "Representa para nós, retorquira Rivière, uma questão de vida ou de morte, visto que perdemos cada noite o avanço ganho durante o dia, em relação às estradas de ferro e aos navios."

Rivière escutara, cheio de tédio, falar de balanços, de seguros e sobretudo de opinião pública: "A opinião pública. . ., respondera ele, pode ser dirigida!" Pensava: "Quanto tempo perdido! Há qualquer coisa. . . qualquer coisa que tem mais importância do que tudo isso, O que tem vida passa por cima de tudo para viver e cria, para viver, as suas próprias leis. É irresistível". Rivière não sabia quando nem como a aviação comercial chegaria aos voos noturnos, mas era indispensável preparar essa solução inevitável.

Rivière lembrava-se das mesas de reunião, junto das quais, o queixo apoiado num punho, tinha ouvido, tomado dum extraordinário sentimento de força, tantas objeções. Estas pareciam-lhe inúteis, de antemão condenadas pela vida. E sentia a sua própria força concentrada. "As minhas razões tem força, vencerei, pensava Rivière. É o desenvolvimento normal dos acontecimentos." Quando lhe exigiam soluções perfeitas, que afastassem todos os riscos: "É a experiência que ditará as leis, respondia; o conhecimento das leis; nunca precedeu a experiência".

Após um ano inteiro de luta, Rivière obtivera a vitória. Uns diziam "graças à sua fé", outros "graças à sua tenacidade, à sua forca bruta de urso em movimento", mas, segundo ele, mais simplesmente, porque se obstinara sempre na direção certa.

A princípio, que infinidade de precauções foram precisas! Os aviões só partiam uma hora antes de levantar o dia, não aterravam senão uma hora apenas depois do pôr do sol. Foi somente quando Rivière se julgou mais seguro da sua experiência, que ousou lançar os correios nas profundezas da noite. Considerado como de pouco interesse, quase desaprovado, entregava-se agora a uma luta solitária.

Rivière chama o telegrafista para tomar conhecimento das últimas mensagens transmitidas pelos aviões no espaço.

Entretanto, o correio da Patagônia abeirava–se da tempestade e Fabien renunciava a contorná-la. Considerava-a demasiado extensa, pois os relâmpagos estendiam-se numa linha que corria para o interior do país e revelava fortalezas de nuvens. Tentaria passar por baixo e, se as coisas corressem mal, resolveria voltar para trás.

Verificou a altitude: mil e setecentos metros. Apoiou, com força, as palmas das mãos nas alavancas de comando para começar a reduzir a altitude. O motor vibrou fortemente e o avião estremeceu. Fabien corrigiu, com a vista, o ângulo de descida e em seguida verificou no mapa a altura das colmas: quinhentos metros. Para conservar uma margem, navegaria a cerca de setecentos.

Sacrificava assim a altitude como quem arrisca uma fortuna.

Um redemoinho fez mergulhar o avião, que estremeceu ainda mais fortemente: Fabien

sentia-se ameaçado por invisíveis derrocadas. Imaginou que voltava para trás e deparava com cem mil estrelas, mas não modificou a direção nem de um grau.

Fabien fazia o cálculo das suas probabilidades: tratava-se, provavelmente, duma tempestade local, visto que a escala seguinte, Trelew, assinalava céu coberto a três quartos. Tratava–se de passar vinte minutos, se tanto, neste cimento negro. E, contudo, o piloto enchia se de inquietação. Inclinado para a esquerda contra a massa de vento, tentava perceber o que significavam os clarões confusos que, nas noites mais cerradas, continuam a surgir. Mas já nem eram clarões. Apenas diferenças de densidade, na espessura das sombras, ou um cansaço da vista. Desdobrou um papel que lhe entregava o telegrafista:

"Onde estamos?"

Fabien teria dado tudo para sabê-lo. Respondeu: "Não sei. Estamos atravessando uma tempestade, seguindo a bússola".

Inclinou-se mais. Incomodava-o a chama do tubo de escape, presa ao motor como um ramo de fogo, tão pálido que o luar apagá-lo-ia, mas que, nesta escuridão, absorvia o mundo visível. Olhou-a. O vento mantinha-a direita, como a chama duma tocha.

De trinta em trinta segundos, Fabien mergulhava a cabeça na carlinga para examinar o giroscópio e o compasso. Já não ousava acender as fracas lâmpadas vermelhas, que o deixavam cego durante muito tempo, mas todos os aparelhos, com os seus números luminosos, derramavam uma pálida claridade astral. No meio das agulhas e dos números, o piloto deixava-se embalar por urna enganadora segurança: a mesma que se sente no beliche dum navio que a onda galga. A noite e tudo quanto ela arrastava de rochedos, destroços, colinas, passava também pelo avião, com a mesma espantosa fatalidade.

"Onde estamos?", repetia-lhe o operador.

Fabien erguia de novo a cabeça e, apoiado à esquerda, voltava à sua terrível vigia. Já não sabia quanto tempo, nem quantos esforços seriam necessários para libertar-se daquela escuridão. Chegava quase a duvidar que o conseguisse jamais, pois, para alentar a sua esperança de salvação, agarrava-se apenas àquele pedaço de papel, sujo e amarrotado, que tinha desdobrado e lido vezes sem conta: "Trelew: céu coberto a três quartos, vento oeste fraco". Se Trelew estava coberto a três quartos, ver-se-iam as suas luzes na fenda das nuvens. A não ser que…

A promessa duma pálida claridade mais longe incitava-o a prosseguir; porém, como duvidava, escreveu à pressa ao telegrafista: "Ignoro se poderei, passar. Veja se sabe se o bom tempo continua para trás de nós".

A resposta consternou-o.

"Commodoro indica: "Regresso aqui impossível. Tempestade".

Fabien começava a descortinar a ofensiva insólita que, partindo da cordilheira dos Andes, corria para o mar. Antes de poder atingi-las, o ciclone levaria as cidades. — Informe-se do tempo em San António.. .

— San António respondeu: "Levanta-se vento oeste e tempestade a oeste. Céu coberto

a quatro quartos". San António escuta mui dificilmente por causa dos parasitas. Escuto mal também. Parece-me que dentro em breve serei obrigado a recolher a antena por causa das descargas. Iremos para trás? Que projetos tem?

— Não me aborreça. Pergunte o tempo a Bahia Blanca…

— Bahia Blanca respondeu: "Previmos em menos de vinte minutos violento temporal oeste sobre Bahia Blanca".

— Pergunte o tempo a Trelew.

— Trelew respondeu: "Tufão vinte metros segundo oeste e rajadas de chuva". — Comunique a Buenos Aires: "Passagens cortadas por todos os lados, tempestade desenvolve-se numa área de mil quilômetros, já não distinguimos nada. Que devemos fazer?" Para o piloto esta noite não tinha fim, visto que não poderia alcançar nenhum porto (pareciam todos inacessíveis) nem a aurora: a gasolina faltaria daí a uma hora e quarenta minutos. Visto que se veria obrigado, mais cedo ou mais tarde, a deixar-se afundar às cegas no meio daquela massa negra.

Se conseguisse alcançar o dia…

Fabien via a aurora como uma praia de areias douradas, onde encalhariam depois desta terrível noite. Surgiria, sob o avião ameaçado, o abrigo das planícies. A terra firme traria as herdades adormecidas, os rebanhos e as colinas. Todos os escolhos que nasciam nas trevas tornar-se–iam inofensivos. Se ele pudesse, com que vontade vogaria em direção ao dia!

Considerou que estava cercado. Bem ou mal, tudo teria de se resolver no meio daquela prisão.

É verdade: ao nascer do sol, ele julgou certas vezes que começava a convalescer. Mas de que lhe serviria agora cravar o olhar no leste, onde o sol vivia: havia, entre eles, tal profundidade noturna, que era impossível vencê-la.

Voo noturno - Capítulo 09 e 10


 Ao dirigir-se à sua mesa de trabalho, com um maço de papéis na mão, Rivière voltou a sentir aquela dor aguda no lado direito que há algumas semanas o atormentava. "Isto vai mal…" 

Encostou-se um instante à parede: 

"É ridículo". 

Depois conseguiu chegar até à cadeira. 

Sentia-se, mais uma vez, manietado como um leão velho e uma grande tristeza invadiu o. 

"Tanto trabalho para chegar a isto! Tenho cinquenta anos; durante cinquenta anos fui preenchendo a minha vida, fazendo a minha formação, lutei, mudei o curso dos acontecimentos e eis agora o que me preocupa e me domina, tornando-se mais importante do que o mundo… É ridículo." 

Esperou, limpou umas bagas de suor e quando se sentiu melhor lançou-se ao trabalho. Examinava lentamente as ordens de serviço. 

"Verificamos em Buenos Aires, durante a desmontagem do motor 301. . . aplicaremos ao responsável uma severa sanção." 

Assinou. 

"Não tendo a escala de Florianópolis seguido as ordens. . ." 

Assinou. 

"Como medida disciplinar será transferido de lugar o chefe de aeroporto Richard, que…" 

Assinou. 

Mas aquela dor no lado direito, se bem que adormecida, continuava presente e nova

como um sentido novo da vida, obrigando-o a pensar em si, e Rivière sentiu-se quase amargo. "Sou justo ou injusto? Ignoro-o. Quando castigo, as avarias diminuem. O responsável não é o homem, é uma espécie de potência oculta que se não consegue nunca vencer, se não vencermos toda a gente. Se eu fosse muito justo, um voo noturno representaria cada vez uma probabilidade de morte." 

Veio-lhe um certo cansaço por ter traçado o caminho com tanta dureza. Pensou que a piedade é um sentimento agradável. Absorto nos seus pensamentos, ia folheando as ordens de serviço. 

"… no que se refere a Roblet, deixa, a partir de hoje, de fazer parte do nosso pessoal." Pareceu-lhe ver de novo aquele velhote e reviveu a conversa dessa tarde: — Que quer? Um exemplo é um exemplo. 

— Mas, Sr. Diretor. . . Uma vez, uma vez só, veja bem! E trabalhei durante toda a vida! — É preciso dar um exemplo! 

— Mas, Sr. Diretor!. . . Ora veja, senhor! 

Aquela carteira velha e a folha de jornal onde Roblet rapaz se mostrava em pose, de pé junto dum avião. 

Rivière notava o tremor daquelas velhas mãos ostentando a sua ingênua glória. — Isto é de 1910, senhor.. . Fui eu que fiz aqui a montagem do primeiro avião da Argentina! A aviação de 1910 para cá. . . Sr. Diretor, são vinte anos! Como pode então dizer. . . E os novos, senhor, como vão rir lá na oficina!. . . Ah! Vão rir de bom gosto! — Isso então é-me completamente indiferente. 

— E os meus filhos, senhor! Tenho filhos! 

— Já lhe disse: ofereço-lhe um lugar de servente. 

— Mas a minha dignidade, senhor, a minha dignidade! Compreenda, Sr. Diretor, vinte anos de aviação, um velho operário como eu. .. 

— Um lugar de servente. 

— Recuso-o, senhor, recuso-o! 

E as velhas mãos tremiam e Rivière afastava os olhos daquela pele enrugada, grossa e bela. 

— Um lugar de servente. 

— Não, Sr. Diretor, isso não. . . Ainda lhe quero dizer. .. 

— Pode retirar-se. 

Rivière pensou: "Não é este homem que eu despedi assim, brutalmente: é o mal, de que talvez não seja responsável, mas que passava por ele. 

"Porque os acontecimentos podem ser comandados, pensava Rivière, e obedecem e assim cria-se uma obra. E os homens são pobres coisas e também se criam. Ou então afastam se quando o mal passa por eles." 

"Ainda lhe quero dizer…" "Que desejaria dizer aquele pobre velho? Que lhe arrancavam as suas velhas alegrias? Que gostava de ouvir o ruído das ferramentas batendo no aço dos aviões, que privavam a sua vida duma grande poesia, e também. . . que é preciso viver?" 

"Estou muito cansado", pensava Rivière. Numa carícia a febre subia pelo seu corpo. Batendo com os dedos na folha, pensava: "Agradava-me a cara daquele velho camarada…" E Rivière revia aquelas mãos. Imaginava o tímido gesto que esboçariam para se juntar. Bastaria dizer: "Pronto. Pronto. Fique". Rivière sonhava com a alegria que brotava daquelas mãos. E essa alegria que exprimiriam, que iam exprimir, não esse rosto, mas sim aquelas velhas mãos de operário, pareceu-lhe a coisa mais bela do mundo. "Vou rasgar esta ordem?" E a família do velho, e a volta a casa e o modesto orgulho: 

— Então, não te despedem? 

— Ora! Ora! Fui eu quem fez a montagem do primeiro avião da Argentina! E os jovens que já não ririam, o veterano I tendo reconquistado o seu prestígio. . . "Rasgo?" 

O telefone tocava. Rivière levantou o fone. 

Um longo momento, depois a ressonância, a profundidade que o vento e o espaço dão às vozes humanas. Falaram por fim: 

— Aqui fala do campo. Quem fala? 

— Rivière. 

— Sr. Diretor, o 650 está na pista. 

— Está bem. 

— Enfim, está tudo pronto, mas tivemos, à última hora, de refazer o circuito elétrico porque :is ligações estavam mal feitas. 

— Está bem. Quem montou o circuito? 

— Vamos verificar. Se dá licença, tomaremos medidas severas: uma avaria na eletricidade de bordo pode ser grave! 

— Evidentemente. 

Rivière pensava: "Se não se corta o mal quando o encontramos, seja onde for, produzem-se avarias de eletricidade: é um crime deixá-lo escapar quando por acaso ele põe a descoberto os seus servidores: Roblet deixará a Companhia". 

O secretário, que não dera por nada, continuava a escrever a máquina. 

— Isso que é? 

— A contabilidade da quinzena. 

— E por que não está pronta? 

— Eu… 

— Temos de ver isso. 

"É espantoso, como os acontecimentos nos dominam, como uma grande força oculta se revela, como a que levanta as florestas virgens, que cresce, força, surge" por todos os lados em volta das grandes obras." Rivière pensava nos templos que frágeis trepadeiras fazem desmoronar.

"Uma grande obra…" 

Pensou ainda, para tranquilizar-se: "Quero bem a todos esses homens, mas não é contra eles que eu luto. É contra o que passa por eles. . ." 

O seu coração dava pancadas rápidas que o faziam sofrer. 

"Não sei se o que fiz está certo. Não sei qual é o valor exato da vida humana, nem da justiça, nem do desgosto. Não sei exatamente quanto vale a alegria dum homem. Nem uma mão que treme. Nem a piedade, nem a doçura. . . " 

Sonhou. 

"A vida contradiz-se de tal modo, temos de nos desvencilhar dela como podemos. Mas permanecer, criar, trocar o nosso corpo perecível. .." 

Rivière refletiu, depois chamou. 

"Telefone ao piloto do correio da Europa. Que venha falar comigo antes de partir." Pensava: 

"Esse correio não deve voltar inutilmente para trás. Se não der um apertão nos meus homens, a noite inquietá-los-á sempre".

A mulher do piloto, despertada pelo telefone, olhou para o marido e pensou: "Vou deixá-lo dormir um pouco mais". 

Contemplava aquele peito nu, com um bonito arcabouço, que lembrava um belo navio. Ele descansava tranquilamente na cama, como num porto, e, para que nada agitasse o seu sono, ela afastava dele aquela contrariedade, a ameaça, a onda e trazia àquele leito a calma como se acalmasse, com mão divina, o mar. 

A mulher levantou-se, abriu a janela e o vento fustigou-lhe o rosto. Aquele quarto dominava Buenos Aires. Duma casa vizinha, onde se dançava, vinham melodias, trazidas pelo vento, pois era hora dos prazeres e do repouso. A cidade encerrara os homens nas suas cem mil fortalezas; tudo era calmo e seguro; mas esta mulher tinha a impressão de que iam gritar. "Às armas!"e que um único homem, o seu, responderia ao apelo. Ele descansava por enquanto, mas o seu repouso era como o temível repouso das reservas que vão ser chamadas. Esta cidade adormecida já não o protegia: quando se levantasse do seu pó, como um jovem deus, as luzes parecer-lhe-iam inúteis. 

A mulher contemplava estes braços fortes que, dentro de uma hora, teriam sob a sua guarda o destino do correio da Europa, responsáveis por algo de grandioso, assim como a sorte duma cidade. E essa ideia a perturbou. Este homem, entre milhões de semelhantes, era o único que estava pronto para o estranho sacrifício. Sentiu-se desgostosa. Ele também escaparia à sua ternura. Ela nutrira-o, vigiara-o, acariciara-o, não para si própria, mas para esta noite que ia arrebatar-lhe. Para lutas, angústias, vitórias que ela desconheceria. Estas mãos carinhosas estavam apenas domesticadas e o seu verdadeiro trabalho era obscuro. Ela conhecia o sorriso daquele homem, os seus cuidados de amante, mas ignorava quais as suas divinas cóleras no meio das tempestades. Prendia-o com doces amarras: música, amor, flores, mas, ao soar a hora da partida, as amarras quebravam-se sem que isso parecesse provocar-lhe o mínimo sofrimento. 

Ele abriu os olhos. 

— Que horas são? 

— Meia-noite. 

— Como está o tempo? 

— Não sei…. 

Ele se levantou e, espreguiçando-se, foi até à janela. 

— Não sentirei muito frio. Qual é a direção do vento? 

— Como quer que eu saiba… 

O homem debruçou-se : 

— Sul. Esplêndido. Vai durar pelo menos até ao Brasil. 

Observou a lua e sentiu-se afortunado. 

O seu olhar desceu então até à cidade.

Não a achou convidativa, nem luminosa, nem reconfortante. Já via fugir-lhe a poeira inútil das suas luzes. 

"Em que está pensando?" 

O piloto pensava que possivelmente haveria bruma para os lados de Porto Alegre. "Tenho a minha tática. Sei por onde devo contornar." 

Continuava a debruçar-se. Respirava profundamente, como faria antes de se deitar, nu, ao mar. 

"Você nem sequer está triste. . . Vai partir por quanto tempo?" 

Oito, dez dias. Não estava certo. Triste, não, por quê? Campos, cidades, montanhas. . . Tinha a impressão de partir, livre de entraves, para conquistá-los. Também sabia que dentro de uma hora já teria possuído e abandonado Buenos Aires. 

Sorriu. 

"Esta cidade. . . estarei tão depressa longe dela. Partir de noite é um belo espetáculo. Puxa-se a alavanca do gás, voltado para o sul e dez segundos mais tarde modifica-se a paisagem, voa-se para o norte. A cidade passa a ser apenas um fundo marinho." 

A mulher do piloto pensava em tudo aquilo que é preciso abandonar para correr em busca de conquistas. 

— Você não gosta de sua casa? 

— Gosto de minha casa… 

Mas a mulher notava que ele já estava a caminho. Estes ombros largos já pesavam contra o céu. 

Mostrou-lho. 

— Você tem um tempo lindíssimo. O seu 

caminho está juncado de estrelas. 

Ele riu. 

— De fato. 

Ela pôs a mão sobre o ombro dele e enterneceu-se ao sentir o seu calor: seria possível que aquela carne estivesse ameaçada?. .. 

— Você é muito forte, mas seja prudente! 

— Serei prudente, com certeza. .. 

E riu-se novamente. 

Ia-se vestindo. Escolhia para aquela festa os tecidos mais grossos, o couro mais forte; vestia-se como um camponês. Quanto mais pesado ele se tornava, mais crescia a admiração de sua mulher. Foi ela própria que lhe afivelou o cinto, que o ajudou a calçar as botas. — Estas botas incomodam-me. 

— Estão ali as outras. 

— Arranje-me um cordão para a minha lâmpada de socorro. 

Ela o contemplava. Fazia ela própria desaparecer um último defeito na armadura: agora tudo ajustava bem.

— Você está bonito. 

Depois, viu-o pentear-se com esmero. 

— É em honra às estrelas? 

— É para não me achar velho. 

— Tenho ciúmes… 

Ele se riu mais uma vez, beijo-a, apertou-a contra o seu vestuário grosso. Depois, estendendo os braços, levantou-a, como se fosse uma criança, e, rindo sempre, deitou-a: — Dorme! 

E fechando a porta atrás de si deu na rua, por entre a massa desconhecida dos noctâmbulos, o primeiro passo da sua conquista. 

Ela ficou ali, olhando tristemente as flores, os livros, toda aquela suavidade que para ele representava apenas um fundo marinho.

Voo noturno - Capítulo 07 e 08


 Uma hora mais tarde, o radiotelegrafista do correio da Patagônia sentiu-se soerguido como por um ombro. Olhou à sua volta: pesadas nuvens apagavam as estrelas. Debruçou-se para a terra: procurava as luzes das aldeias, semelhantes a pirilampos escondidos na erva, mas nada brilhava naquela erva negra.

Sentiu-se aborrecido, prevendo uma noite difícil: idas e voltas, terreno ganho que é preciso devolver. Não compreendia a tática do piloto; parecia-lhe que se iria chocar mais longe com a espessura da noite, como se fosse um muro.

Divisava agora, em frente deles, junto à linha do horizonte, um cintilar quase imperceptível: a luz frouxa duma forja. O telegrafista tocou no ombro de Fabien, mas este não se moveu.

Os primeiros redemoinhos da tempestade distante atacavam o avião. Soerguida suavemente, a massa metálica premia o corpo do telegrafista, depois parecia evaporar-se, fundir-se e durante alguns segundos, ele pairou sozinho na noite. Então, com ambas as mãos, agarrou-se com força às longarinas de aço.

E como nada mais via no mundo, senão a lâmpada vermelha da carlinga, estremeceu ao sentir-se baixar no seio das trevas, sem socorro, sob a proteção exclusiva duma lâmpada de mineiro. Não se atrevia a distrair o piloto para saber o que ele decidiria e, agarrado convulsivamente ao aço, inclinado para a frente sobre ela, fixava aquela nuca sombria.

Só uma cabeça e uns ombros imóveis emergiam da fraca claridade. Aquele corpo era apenas um vulto escuro, um pouco inclinado para a esquerda, o rosto voltado para a tempestade, iluminado decerto por cada clarão. Tudo o que nesse rosto se concentrava de sentimentos para enfrentar uma tempestade: certa expressão, a vontade, a cólera, todo o duelo que se travava entre aquele rosto pálido e os clarões lá longe, permanecia para ele impenetrável.

Contudo, o telegrafista pressentia a força concentrada na imobilidade daquele vulto e isso acalmava-o. Aquela força levá-lo-ia para a tempestade, mas protegia-o. Decerto aquelas mãos, apertadas nas alavancas de comando, já faziam sentir o seu peso sobre a tempestade, como no cachaço dum animal, mas as espáduas cheias de força permaneciam imóveis e sentia se que conservavam uma imensa reserva.

O telegrafista considerou que afinal o piloto era o responsável. E agora, levado à garupa naquele galope a caminho do fogo, ia saboreando 0 que aquela massa escura à sua frente representava de material e de força, o que ela representava de duradouro.

À esquerda, frouxo como um farol de rotação, um novo foco iluminou-se. O telegrafista esboçou um gesto para tocar no ombro de Fabien, preveni-lo, mas viu-o voltar lentamente a cabeça e manter o rosto, durante alguns segundos, bem de frente para aquele novo inimigo, depois, lentamente, retomar a primitiva posição. Os ombros sempre imóveis, a nuca colada à gola de couro.

Rivière saíra para dar uns passos e esquecer o mal-estar que sentia de novo. Ele, que vivia para a ação, uma ação dramática, via que dum modo estranho o drama se transformava, tornando-se pessoal. Pensou que, passeando à roda do coreto, os habitantes das pequenas cidades viviam uma vida aparentemente silenciosa, mas por vezes também carregada de dramas: a doença, o amor, os lutos e que talvez… O seu próprio mal ensinava-lhe muita coisa: "Isto rasga certas janelas sobre novos horizontes", refletia.

Depois, por volta das onze da noite, como respirasse mais facilmente, encaminhou-se para o escritório. Ia notando, lentamente, vultos, a multidão que estacionava às entradas dos cinemas. Ergueu os olhos para as estrelas brilhando sobre o caminho estreito, quase apagadas pelos letreiros luminosos, e pensou: "Esta noite, tendo dois dos meus correios em pleno voo, sou responsável por um céu inteiro. Aquela estrela representa um Binai que me busca nesta multidão e me encontra: é por isso que me sinto como se não pertencesse a este mundo um pouco solitário".

Voltou-lhe à mente uma frase musical: algumas notas duma sonata que escutara na véspera juntamente com uns amigos. Os seus amigos não tinham compreendido: "Essa arte aborrece-nos e aborrece-o; simplesmente você não o quer confessar".

"Talvez. . .", respondera.

Como agora, sentira-se solitário, mas bem depressa descobrira a sorte duma tal solidão. A mensagem dessa música vinha até ele, só até ele, no meio dos medíocres, com a suavidade dum segredo. Era assim o sinal da estrela. Falavam-lhe, por cima de tantas cabeças, numa linguagem que só ele compreendia.

No passeio empurravam-no; pensou ainda: "Não me hei de zangar. Sou como o pai duma criança doente, que vai andando lentamente entre a multidão. Leva consigo o profundo silêncio da sua casa".

Olhou para os homens. Procurava distinguir entre eles os que levam consigo lentamente a sua invenção ou o seu amor e imaginava o isolamento dos guardas de faróis. O silêncio que reinava nos escritórios agradou-lhe. Atravessou-os, lentamente, um a um, e só os seus passos eram ouvidos. As máquinas de escrever dormiam sob as cobertas. Os armários fechados guardavam os processos em dia. Dez anos de experiência e de trabalho. Imaginou que estava visitando as caves dum banco, onde as riquezas dormem. Pensava que cada um daqueles registros continha mais do que ouro: uma força viva. Uma força viva mas adormecida, como o ouro dos bancos.

Iria encontrar em qualquer recanto o único secretário de guarda. Um homem trabalhava em qualquer lugar para que a vida fosse contínua, para que a vontade fosse contínua, e o mesmo estaria sucedendo em cada escala, para que de Toulouse a Buenos Aires a cadeia nunca se rompesse.

"Esse homem ignora o quanto vale."

Em algum ponto os correios lutavam. O voo noturno seguia o seu curso como uma doença: era necessário estar de guarda. Era necessário prestar assistência a esses homens que, com as mãos e os joelhos, peito contra peito, desafiavam as trevas sem nada conhecerem além das coisas movediças, invisíveis, de que era preciso, à custa de braços cegos, livrarem-se como dum mar. Que terríveis confissões, por vezes: "Iluminei as mãos para vê-las. . ." A doçura das mãos apenas revelada naquele banho vermelho de fotógrafo. O que resta do mundo e que é preciso salvar.

Rivière empurrou a porta da seção de exploração. Uma única lâmpada acesa formava, num ângulo, uma praia luminosa. O bater duma única máquina de escrever dava sentido a este silêncio, sem, no entanto, preenchê-la. A campainha do telefone estremecia por vezes; então o secretário de guarda levantava-se e ia atender essa chamada repetida, obstinada, triste. O secretário de guarda levantava o fone e a angústia invisível acalmava-se: entabulava-se uma doce conversa, num canto de sombra. Depois, impassível, o empregado regressava à sua secretária a expressão fechada, pela solidão e pelo sono, sobre um segredo indecifrável. Que ameaça numa chamada que vem da noite envolvente quando dois correios estão em pleno voo! Rivière pensava nos telegramas que previnem as famílias em volta do candeeiro à noite e em seguida a desgraça que, durante segundos quase eternos, conserva o seu segredo no rosto do pai. Vaga que primeiramente é fraca, tão longe do grito lançado, tão calma. E, de cada vez, Rivière ouvia o seu eco amortecido naquelas campainhadas discretas. E, de cada vez, os movimentos do empregado, que a solidão tornava lento como um nadador entre duas águas, voltando da sombra para junto de seu candeeiro, como um mergulhador que volta à superfície, pareciam-lhe carregados de mistérios.

"Não se levante. Eu atendo."

Rivière levantou o fone, recebendo o zumbido do mundo.

"Aqui fala Rivière,"

Um pequeno tumulto, depois uma voz:

"Vou pô-lo em comunicação com o posto de rádio".

Novo tumulto, o das fichas no quadro, depois

outra vez : "Fala do posto de rádio. Vamos comunicar os telegramas".

Riviere anotava-os e assentava com a cabeça :

"Esta bem. . . Está bem…"

Nada de importante. Mensagens regulares de serviço. Rio de Janeiro pedia uma informação. Montevidéu falava do tempo em Mendoza, de material. Eram os ruídos familiares da casa.

— E os correios?

— O tempo está tempestuoso. Não conseguimos ouvir os aviões.

— Está bem.

Rivière pensou que a noite aqui era pura, as estrelas brilhavam, mas os radiotelegrafistas descobriam nela o premindo de tempestades longínquas. — Até logo!

Rivière levantava-se; o secretário acercou-se:

— As ordens de serviço para assinar…

— Está bem.

Rivière sentia nascer uma grande amizade por este homem, uma amizade que o peso daquela noite carregava. "Um companheiro de luta, pensava Rivière. Certamente nunca virá a saber como esta noite de vigília nos aproximou."

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS