domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 2 - Capítulo 04 e 05


 Henry capitulou com a graça que o caracterizava. 

— Está bem, Laura. Se você quer um ano de noivado, estamos em suas mãos.  Compreendo que seria duro para você se separar de Shirley sem ter tempo para se  acostumar com a idéia. 

— Não é bem isso... 

— Não é mesmo? — perguntou ele, levantando a sobrancelha, enquanto sorria  ironicamente. — Shirley não passa da ovelha para o sacrifício, não é verdade?  Laura sentiu-se incomodada com o comentário. Depois da partida de Henry, os  dias se arrastavam com vagar. 

Shirley não se tornara hostil e sim vaga. Sempre um pouco mal humorada,  ressentida e com um ligeiro ar de reprovação em relação à irmã. Passava os dias  esperando o correio mas as cartas que chegavam não eram satisfatórias. Henry não era  de escrever cartas, limitava-se a enviar curtos bilhetes. 

“Querida, como vai tudo? Sinto sua falta. Ontem andei a cavalo pela pista de  ponta a ponta. Não adiantou nada. Como vai o dragão? Seu para sempre, Henry.”  Às vezes passava uma semana sem mandar notícias. Shirley, certa vez, decidiu ir  a Londres, mas o encontro não correspondeu à sua expectativa. 

— Eu não quero passar o fim de semana lá — disse Henry em resposta ao  convite que Laura fizera. — Quero casar com você e não passar um fim de semana sob  a vigilância de sua irmã. E não esqueça de que ela fará tudo para pôr você contra mim.  — Oh! Henry, ela nunca faria isso. Nunca. Ela mal fala de você... 

— Na esperança de que você me esqueça. 

— Como se eu pudesse! 

— Laura não passa de uma gata ciumenta. 

— Henry! Ela é um amor. 

— Não comigo. 

Shirley voltou para casa infeliz e nervosa. 

Apesar dos esforços Laura começou a sentir-se cansada. 

— Por que não convida Henry para o fim de semana?

— Ele não quer vir — respondeu Shirley, emburrada. 

— Não quer? Que estranho! 

— Não acho. Ele sabe que você não gosta dele. 

— Mas, eu gosto dele — respondeu Laura, tentando acreditar no que dizia.  — Oh! Laura. 

— Considero Henry um homem muito atraente. 

— Mas não quer que me case com ele. 

— Shirley, não é verdade, só quero que vocês tenham certeza. 

— Mas eu tenho. 

— Eu gosto demais de você — gritou Laura desesperada. — Não quero que  cometa um erro. 

— Não me ame demais, não quero ser transformada em ídolo — retrucou  Shirley. — Além do mais você está com ciúmes. 

— Ciúmes? 

— Ciúmes de Henry. Não quer que eu ame ninguém a não ser você.  — Shirley! — protestou Laura, virando o rosto pálido para a parede.  — Você não quer que eu me case. 

Quando Laura se retirou, furiosa, Shirley correu atrás dela para pedir desculpas.  — Querida... não quis dizer isso, sou uma estúpida. Mas é que você parece estar  sempre tão contra Henry... 

— Por que eu o acho egoísta — disse Laura, lembrando-se do que tinha dito ao  Sr. Baldock. — Não é um homem... bom. Não posso deixar de considerá-lo uma pessoa  inescrupulosa. 

— Inescrupuloso? — repetiu Shirley baixinho, sem se importar com o peso do  julgamento de Laura. — Sim, eu também acho que você tem razão. Henry pode ser um  homem sem escrúpulos, e creio que é esta uma das razões por que eu me sinto atraída  por ele. 

— Mas pense bem, Shirley, se você estivesse doente, ou em apuros, será que ele  a defenderia? 

— Não sei se preciso tanto da ajuda dos outros. Posso cuidar muito bem de mim.  Não se preocupe com Henry, ele me ama. 

Ama? — pensou Laura. O que é o amor? Uma jovem paixão devoradora? Será  que o amor de Henry poderia ser outra coisa mais profunda? Ou seria verdade que ela  estava com ciúmes?

Soltou-se do braço de Shirley delicadamente e saiu para dar uma volta.  Será que não quero que ela se case? Ou será que é só Henry? Não sei; também  não consigo imaginar outra pessoa, pois só ele quis casar-se com ela. Mas se aparecesse  outro, será que eu pensaria desta maneira e repetiria para mim mesma: Ele não! Será  possível que eu a ame tanto? Baldy me preveniu. Gosto tanto dela que não quero que se  case. Não quero que ela vá embora, quero mantê-la aqui. Afinal, o que tenho de  palpável contra Henry? Nada. Não o conheço, nunca o conheci. Para mim continua o  mesmo: um estranho. Sei que ele não gosta de mim e talvez seja este seu único defeito...  No dia seguinte Laura encontrou Robin Grant, saindo da paróquia e seguiram  juntos em direção da cidade. Depois de ter dito que acabara de chegar de Londres,  Robin comentou casualmente: 

— Vi Henry, ontem à noite, jantando com uma loura daquelas. Tão absorto  estava que não me viu. Não devemos dizer nada a Shirley — concluiu com um risinho.  Laura sabia que a informação provinha em parte do despeito de Robin, que  gostava muito de Shirley. Mas, mesmo assim, não pôde deixar de ficar preocupada com  o comentário. 

Henry, pensou Laura, não era do tipo fiel. Devia ter discutido com Shirley  quando estiveram juntos. E se ele estivesse se interessando por outra mulher? E se ele  resolvesse romper o noivado? 

— É o que você deseja, não é? — perguntou uma voz desdenhosa, vinda do  fundo da sua alma. — Não quer que eles se casem, por isto insistiu num noivado tão  grande. 

Mas, no fundo, Laura não ficaria satisfeita se Henry rompesse o noivado. Shirley  o amava e iria sofrer. Se ao menos ela pudesse ter certeza de que uma ruptura seria para  o bem de Shirley. 

— O que quer dizer isto? — perguntou a voz debochada. — Não seja fingida.  Você está pensando em você. 

Mas Laura não queria uma Shirley amarga, sofrida e infeliz, suspirando o dia  inteiro. Afinal, quem era ela para saber o que seria melhor para Shirley?  Ao voltar para casa sentou-se para escrever uma carta: “Querido Henry.  Estive pensando. Se você e Shirley querem realmente se casar não vejo por que  devo continuar interferindo...” 

No mês seguinte, Shirley, de branco e rendas, casou-se na igreja de Bellbury,  assistida pelo vigário (que como sempre estava resfriado). O padrinho foi o Sr. Baldock, espremido numa casaca muito apertada. A noiva, felicíssima, abraçou Laura,  despedindo-se. 

— Cuide bem dela, Henry — recomendou Laura. — Seja bom para ela —  sentenciou em tom de desafio. 

— Laura, meu bem — respondeu Henry, sorridente como de costume. — Por  acaso você acha que já não cuido?

— Você acha mesmo bom? — perguntou Shirley nervosa como qualquer recém casada. 

Laura deu mais uma volta pelo apartamento (dois quartos, cozinha e banheiro).  — Acho que ficou ótimo — respondeu, sorrindo. 

— Estava horrendo quando mudamos! Imundo! Tivemos que fazer tudo  sozinhos, exceto os tetos. Até que foi divertido. Você gostou do banheiro vermelho?  Devia ter sempre água corrente quente, mas nunca fica bastante quente. Henry achou  que vermelho daria mais idéia de calor... como o inferno. 

Laura riu. 

— Vocês parece que se divertiram bastante. 

— Tivemos muita sorte de encontrar um apartamento. Este foi passado por uns  amigos de Henry. O único senão é que eles não pagavam as contas, de maneira que  volta e meia aparecem leiteiros, furiosos, e quitandeiros irados nos cobrando contas que  não podemos, nem temos por que pagar. Acho muito desagradável dar calote neste tipo  de fornecedor. Henry, é claro, não concorda comigo.

— Vai dificultar para vocês conseguirem crédito — disse Laura. 

— Pago todas as contas semanalmente — protestou Shirley. 

— Você está bem de dinheiro? O nosso jardim está dando lucro... se precisar  posso lhe dar mais uns cento e poucos... 

— Você é um amor, Laura. Não, estamos muito bem. Guarde para o caso de  surgir uma emergência. Quem sabe eu venha a ter uma doença grave?  — Com esta cara que você está me parece meio absurdo. Shirley riu.  — Laura, estou tão feliz! 

— Que bom. 

— Ouça, Henry está chegando. 

Henry abriu a porta, entrou e cumprimentou Laura com afabilidade.  — Alô, Laura. 

— Alô, Henry. Achei o apartamento uma graça. 

— Henry, que tal o novo emprego?

— Novo emprego? — perguntou Laura. 

— É. Ele se despediu daquele outro... era muito chato passar o dia colando selos  e indo ao correio. 

— Estou disposto a começar por baixo — interveio Henry —, mas, não tão por  baixo. 

— Conte sobre o novo emprego — insistiu Shirley. 

— Parece interessante — disse Henry. — Mas ainda é cedo para dizer.  Sorriu com todo o encanto para Laura e protestou novamente a satisfação de  encontrá-la em sua casa. 

Laura voltou para casa, feliz, achando que tinha sido ridícula em ter tanto medo  e incerteza sobre aquele casamento. 

— Henry, como podemos estar devendo tanto? — perguntou Shirley perturbada.  Por esta altura já estavam casados há um ano. 

— Eu sei — concordou Henry — que é demais mas infelizmente é a verdade.  — E como vamos pagar? 

— A gente sempre arranja um jeito — respondeu Henry, evasivamente.  — Ainda bem que arranjei um emprego naquela loja de flores. 

— É mesmo. Só não quero que você precise trabalhar para viver; quero que  trabalhe para se divertir. 

— Eu me divirto. Ficaria chateada o dia inteiro aqui em casa, sem ter nada que  fazer. O resultado é que acabo saindo para fazer compras e nos endividamos ainda mais.  — Confesso que este negócio é bem deprimente — disse Henry, folheando uma  série de cartas de cobrança. — Detesto o final do mês. Mal acaba o Natal já começa o  imposto de renda. Este homem aqui, por exemplo, está nos cobrando as estantes, de uma  maneira muito grosseira. Vou simplesmente jogar esta carta no lixo. — Depois de ter  despachado este problema, Henry voltou-se para a próxima carta. — Já esta aqui está 

muito mais simpática. Coloca o problema de uma maneira mais gentil...  — Vai pagar, então? 

— Não... exatamente. Vou simplesmente arquivá-la na lista de prestações.  Shirley riu. 

— Henry, eu adoro você, mas o que vamos fazer?

— Não precisamos nos preocupar hoje à noite. Vamos jantar num restaurante  bem caro. 

— Isto vai resolver alguma coisa? — perguntou Shirley espantada.  — Não, não vai resolver coisa alguma — respondeu Henry. — Pelo contrário,  mas pelo menos vai levantar nosso moral. 

“Querida Laura 

Será que você podia nos emprestar 100 libras? Estamos em apuros. Estou  desempregado há dois meses, como você sabe (Laura não sabia), mas estou à beira de  conseguir um negócio maravilhoso. Por enquanto, nos limitamos usar o elevador de  serviço para evitar os credores. Desculpe ter que recorrer a você, mas prefiro evitar mais  esta chateação a Shirley. 

Seu cunhado, 

Henry.” 

— Não sabia que você tinha pedido dinheiro a Laura!

— Eu não lhe disse? — perguntou Henry, calmamente.

— Não, não disse! — retrucou Shirley, furiosa. 

— Está bem, minha querida, não precisa me bater. Foi Laura quem lhe contou?  — Não, eu vi por acaso o talão de depósitos... 

— Nossa querida Laura, sempre pronta a se sacrificar. 

— Henry, por que pediu dinheiro a ela? Logo a ela? Eu preferia que tivesse me  avisado. 

Henry sorriu. 

— Você não deixaria. 

— Tem razão, não deixaria. 

— A verdade, Shirley, é que estávamos em péssima situação. Tirei cinqüenta da  velha Muriel, pedi cem a Berta, minha madrinha, que recusou, me devolvendo um  sermão da montanha daqueles! Tentei uma ou duas fontes, mas não deu certo. No final  só sobrou Laura. 

Shirley encarou o marido com seriedade.

Estou casada há dois anos, pensou, e só agora conheço Henry realmente. Nunca  vai parar num emprego, gastará sempre dinheiro como se fosse água...  Apesar de adorar o marido, Shirley compreendeu as desvantagens de estar  casada com ele. Henry já tinha saído de quatro empregos — não custava a arranjar um  emprego — mas não conseguia parar em nenhum: ou se cansava ou era despedido.  Além de gastar como um louco e não ter o menor escrúpulo em conseguir crédito.  Sempre que queria melhorar a situação financeira fazia um empréstimo sem se  preocupar em ver se poderia pagá-lo. Shirley seria incapaz de fazer o mesmo.  — Será que vou conseguir mudá-lo? — perguntou Shirley, dando um suspiro.  — Mudar? Para quê? — perguntou Henry, espantado. 

— Alô, Baldy! 

— Alô, minha querida Shirley — respondeu, piscando o olho, o Sr. Baldock,  mergulhado numa velha e confortável poltrona. 

— Eu não estava dormindo — acrescentou Baldock, agressivamente.  — Eu sei — disse Shirley em tom apaziguador. 

— Faz tempo que não aparece por aqui, pensei que tivesse esquecido da gente.  — Como seria possível esquecê-los? 

— Seu marido veio também? 

— Não desta vez. 

— Sei, sei — murmurou Baldock, olhando para Shirley com curiosidade. —  Você está mais magra, não está? 

— Andei fazendo regime. 

— As mulheres! — resmungou Baldock. — Está preocupada com alguma coisa?  — Claro que não — respondeu ela desafiadora. 

— Está bem, está bem, só perguntei por perguntar. Ninguém me conta mais  nada! Além do mais, estou ficando surdo. Não consigo ouvir mais atrás das portas, o  que torna a vida muito chata. 

— Pobre Baldy! 

— O médico proibiu que eu fizesse jardinagem, nada de me debruçar sobre os  canteiros porque o sangue acorre à cabeça ou coisa parecida. Um estúpido é o que ele é!  — Sinto muito, Baldy.

— Portanto, se quiser falar comigo pode se abrir. Eu não falaria com Laura.  Fez-se um pequeno silêncio. 

— Para ser sincera eu vim aqui para conversar. 

— Foi o que pensei. 

— Queria que me desse um conselho. 

— Isto já não sei. Acho muito perigoso dar conselhos. 

Shirley não prestou atenção a este comentário. 

— Não quero falar com Laura, ela não gosta de Henry. O senhor gosta dele, não  gosta? 

— Gosto dele — disse o Sr. Baldock. — É um rapaz muito divertido, que ouve  com atenção um velho falastrão como eu. Gosto dele também porque nunca se preocupa  com coisa alguma. 

— Isto é verdade — disse Shirley, sorrindo. 

— Uma raridade nos dias de hoje. Todo o mundo sofre de preocupação. Sim,  Henry é muito simpático. Eu não me preocupo, como Laura, com o lado moral das  pessoas. O que ele andou fazendo? — perguntou com brandura. 

— Acha que sou tão tola de esbanjar meu capital? 

— Anda economizando? 

— Sim. 

— Com o casamento sua herança passou a ser controlada por você. Pode dispor  do dinheiro como quiser. 

— Eu sei. 

— Henry sugeriu-lhe algo? 

— Não... para ser sincera, não. A culpa na realidade é minha. Não quis que ele  falisse, apesar dele não se importar muito com isso. Mas eu não quis que isso  acontecesse. Acha que agi mal? 

— Sim e não — respondeu Baldy, pensativo. 

— Explique-se. 

— Bem, para início de conversa, você não tem muito dinheiro. Talvez precise de  um certo capital no futuro. Se acha que pode depender do seu simpático marido é  melhor tomar outras providências. De certa maneira você é bem ingênua...  — E? 

— Por outro lado você comprou com o seu dinheiro a paz de espírito que é um  bem precioso. Ainda ama seu marido?

— Sim. 

— Ele é bom para você? 

Shirley andou pela sala. Correu os dedos por uma mesa e pelo espaldar de uma  cadeira, examinando a poeira, sem prestar atenção. Baldock a observava. Finalmente,  ela pareceu chegar a uma decisão. De frente para a lareira sentenciou:  — Não exatamente. 

— Como assim? 

— Está tendo um caso com outra mulher — respondeu Shirley, num tom  monocórdico. 

— É sério? 

— Não sei. 

— Por isso veio para cá? 

— Sim. 

— Está zangada? 

— Furiosa. 

— Vai voltar para ele? 

Shirley calou-se. 

— Sim, vou — respondeu por fim. 

— Bem — comentou Baldock —, a vida é sua. 

Shirley foi para ele e beijou-o. Baldock grunhiu baixinho. 

— Obrigada, Baldy. 

— Não me agradeça, não fiz nada. 

— Eu sei, por isso você é maravilhoso.

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