quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 - Capítulo 14


 Capítulo 14

Precipitei-me para a plataforma. Sim! Era mar livre. Excetuando alguns pedaços de gelo dispersos, icebergs imóveis, avistava-se um extenso mar, tuna infinidade de aves nos ares e milhares de peixes nas águas. O termômetro marcava três graus centígrados abaixo de zero. Era como uma primavera relativa fechada atrás do banco de gelo, cujas massas longínquas se elevavam no horizonte norte.

- Estamos no pólo? - perguntei ao capitão, emocionado.

- Não tenho certeza - respondeu-me. - Ao meio-dia faremos o ponto.

- O senhor acha que o sol se mostrará através da bruma?

- Por pouco tempo que apareça será o suficiente.

A dez milhas do “Nautilus”, para o sul, elevava-se uma ilha solitária, a uma altura de duzentos metros. Navegávamos para ela, mas prudentemente, porque aquele mar poderia estar semeado de escolhos.

Uma hora depois chegávamos à ilha e duas horas mais tarde tínhamos completado uma volta em redor dela. Media quatro a cinco milhas de circunferência e um estreito canal separava-a de tuna extensão de terra considerável, talvez um continente. A existência desta terra parecia dar razão às teorias de Maury. O engenhoso americano afirmara que entre o Pólo Sul e o sexagésimo paralelo, o mar estaria coberto de gelos flutuantes de enormes dimensões, que não se encontram iguais no Atlântico Norte. Desse fato concluiu que o círculo antártico encerraria terras consideráveis, uma vez que os icebergs não podem se formar em pleno mar, mas apenas junto das costas. Segundo os seus cálculos, a massa de gelo que envolve o pólo austral forma uma calota cuja largura deve atingir quatro mil quilômetros.

No entanto o “Nautilus”, temendo encalhar, tinha parado a três braças de uma praia dominada por um montão de rochas. O bote foi lançado ao mar. O capitão, dois tripulantes levando os instrumentos, Conselho e eu embarcamos nele. Eram dez horas da manhã. Eu não tinha visto Ned Land. Certamente ele não quereria sofrer uma crítica minha, já que havíamos chegado ao Pólo Sul e com todas as possibilidades de regresso sem problemas.

Algumas remadas levaram o bote até a praia. No momento em que Conselho ia saltar para a terra, agarrei-o e lhe disse - Cabe ao Capitão Nemo a honra de ser o primeiro de nós a pisar esta terra - falei e fiz um gesto de cortesia ao capitão, indicando-lhe a ilha.

- Obrigado, professor - disse ele. - Se não hesito em aceitar a sua gentileza é porque até hoje nenhum ser humano pisou a terra deste Pólo Sul. Tenho o privilégio de fazê-lo.

Dito isto, saltou ligeiro para a areia. Dominava-o uma estranha emoção.

Subiu a uma rocha que terminava a pique por um promontório e ali, de braços cruzados, olhar ardente, imóvel e mudo, parecia tomar posse daquelas regiões austrais. Passados cinco minutos naquele êxtase, voltou-se para nós e falou:

- Quando quiser, Sr. Aronnax.

Desembarquei seguido de Conselho.

Começamos a andar pela ilha. O solo, numa grande extensão, apresentava um tufo de cor avermelhada, como se fosse feito de tijolo moído, coberto por escórias, correntes de lavas e pedra-pomes. Era impossível negar a sua origem vulcânica. A vegetação daquele continente desolado me pareceu extremamente reduzida.

No entanto, a vida nos ares era superabundante. Milhares de aves de espécies variadas esvoaçavam acima de nossas cabeças, ensurdecendo-nos com seus gritos. Algumas pousavam nas rochas vendo-nos passar, sem mostrar qualquer receio. Pinguins ágeis e rápidos dentro da água, caminhavam lentamente na terra. Soltavam terríveis gritos e formavam numerosas assembléias, sóbrios nos gestos mas pródigos nos clamores.

Mas a bruma não se levantava e às onze horas o sol continuava encoberto. A sua ausência inquietava-nos. Sem ele não seria possível fazermos observações. Como determinar então se realmente tínhamos atingido o pólo? Aproximei-me do Capitão Nemo que estava encostado em um rochedo olhando para o céu. Pareceu-me contrariado e impaciente. Não podia fazer nada. Homem audaz e poderoso ele não imperava no sol tal como o fazia no mar.

Chegou ao meio-dia sem que o astro-rei aparecesse por um só instante.

Era até possível se reconhecer o lugar que ele ocupava por trás da cortina de nuvens.

- Fica para amanhã - disse-me o capitão.

Voltamos ao “Nautilus”.

No dia seguinte, 20 de março, o frio era intenso. O nevoeiro começou a dissipar-se e ficamos esperançosos de que o sol aparecesse para fazermos as nossas observações.

Como o capitão ainda não tinha aparecido, eu e Conselho pegamos o bote e fomos para a terra. Dirigimo-nos diretamente para a praia do que julgamos ser o continente. Milhares de aves, como encontráramos na pequena ilha, animavam aquela parte do continente polar, mas a partilhavam com enormes rebanhos de mamíferos marinhos, os quais nos olhavam calmamente. Eram focas de várias espécies, umas estendidas no solo, outras deitadas em pedaços de gelo à deriva, e muitas outras saindo ou entrando nas águas do mar. Não fugiam à nossa aproximação, demonstrando que não nos receavam. Calculei que ali havia uma quantidade delas suficiente para abastecer algumas centenas de navios.

- Ainda bem que Ned Land não nos acompanhou - disse Conselho.

- Por que você diz isso?

- Ele haveria de querer exterminá-las todas - indicou com o olhar as milhares de focas.

= Todas, é exagero, meu caro. Na verdade eu creio que não conseguiríamos impedir que o nosso amigo canadense arpoasse algumas delas.

Isso não agradaria nem um pouco ao Capitão Nemo.

- Como posso classificar esses animais, professor? - perguntou-me

Conselho. Eu já esperava essa pergunta.

- São focas e morsas. Esses nomes lhe bastam.

- De fato, professor. São dois gêneros que pertencem à família dos pinípedes, ordem dos carnívoros, grupo dos unguiculados, subclasse dos monodelfininos, classe dos mamíferos, ramo dos vertebrados.

Eu invejava a incrível memória do meu criado.

- Muito bem, Conselho. Mas esses dois gêneros, focas e morsas, dividem-se em espécies e, se não me engano, teremos oportunidade de observá-las aqui. Vamos.

Eram oito horas da manhã. Restavam-nos quatro até o momento em que o sol poderia ser utilmente observado. Dirigimo-nos para uma vasta baía que era recortada na falésia granítica da margem.

Ali, a perder de vista, as terras e os pedaços de gelo estavam cobertos de mamíferos marinhos e, involuntariamente, procurei o velho Proteu, o pastor mitológico dos imensos rebanhos de Netuno. Eram principalmente focas, que formavam grupos distintos, machos e fêmeas, o pai vigiando a sua família, a mãe aleitando os filhos, alguns jovens já fortes dando alguns passos, emancipando-se.

Repousando em terra, esses animais assumiam atitudes extremamente graciosas. Por isso, os Antigos, ao observarem o seu olhar doce e expressivo, que a mais suave e bela mulher não poderia suplantar, reparando as suas poses encantadoras e poetizando-as a sua maneira, metamorfosearam os machos em tritões e as fêmeas em sereias.

Nenhum mamífero, excetuando-se o homem, tem matéria cerebral mais rica do que a das focas. Em consequência disso, elas são facilmente educáveis, deixam-se domesticar quase sem trabalho e eu penso, como alguns naturalistas, que elas, convenientemente ensinadas, poderiam prestar grandes serviços como cães de caça marítima.

Aproximamo-nos, a seguir, de alguns elefantes-marinhos.

- Esses animais não são perigosos? - perguntou-me Conselho.

- Não. A não ser que sejam atacados. Mesmo a foca, quando precisa defender o filho, é de um furor terrível.

- Está no seu direito - ponderou o meu criado.

- Penso assim também - apoiei o que ele acabara de dizer.

Depois de ter examinado essa colônia de focas resolvi voltar ao submarino. Eram onze horas. O Capitão Nemo deveria querer vir à terra para observar o sol. Tivemos apenas o tempo suficiente para levar o bote até o barco. O capitão saltou para dentro dele com os instrumentos e voltamos novamente para a terra.

Mas parecia uma fatalidade. Chegou o meio-dia e, como na véspera, o sol não apareceu. Não se podiam fazer as observações. Se no dia seguinte acontecesse a mesma coisa, teríamos de renunciar definitivamente a tomar o ponto. Sem isso não poderíamos afirmar com absoluta certeza se estávamos realmente no Pólo Sul.

Estávamos a 20 de março. No dia seguinte, 21, dia do Equinócio, não contando com a refração, o sol desapareceria no horizonte por seis meses e com o seu desaparecimento começaria a longa noite polar.

Foi exatamente isso que eu disse ao Capitão Nemo.

- Tem razão, Sr. Aronnax. Se amanhã eu não obtiver a altura do sol, antes de seis meses não poderei consegui-la. Mas se os acasos da navegação me trouxeram a esses mares, foi porque a 21 de março eu poderei fazer o ponto, com facilidade, ao meio-dia.

Preferi não fazer nenhum comentário à observação dele.

No dia seguinte, às cinco horas da manhã, eu subi para a plataforma e o Capitão Nemo já estava .lá.

- O tempo vai se desanuviando aos poucos - disse-me ele. – Tenho esperanças. Depois do almoço iremos para a terra, a fim de escolhermos um ponto de observação.

Deixei-o e fui procurar Ned Land. Eu queria que ele nos acompanhasse. O obstinado canadense recusou-se ao meu convite. Sua taciturnidade aumentava a cada dia.

Terminado o almoço fomos para a terra. O “Nautilus” avançara mais quatro milhas durante a noite, estando então ao largo, a uma légua da costa. O bote nos deixou na praia. O céu clareava. As nuvens deslocavam-se para o sul. As brumas abandonavam a superfície. das águas frias. O Capitão Nemo dirigiu-se para um pico que fazia frente para o mar e tinha uma altura aproximada de quatrocentos metros. Eu e Conselho o acompanhamos.

Gastamos duas horas para chegar ao cimo dele. Lá no alto o capitão mediu a altura da montanha, pois tinha de contar com ela para as suas observações.

As onze horas e quarenta e cinco minutos, o sol, visto então apenas por refração, mostrou-se como um disco de ouro e espalhou os seus últimos raios sobre aquele mar nunca navegado. O momento era muito solene para nós.

Munido de um óculo de retículos, o qual, por meio de um espelho corrigia a refração, o Capitão Nemo observou o astro que pouco a pouco desaparecia no horizonte, seguindo uma longa diagonal. Eu segurava o cronômetro e o meu coração estava acelerado. Se o desaparecimento do sol coincidisse com o meio-dia do cronômetro, estávamos mesmo no pólo.

- Meio-dia! - exclamei.

- O Pólo Sul - falou o Capitão Nemo, com voz grave, passando-me para a mão o óculo que mostrava o astro precisamente cortado em duas metades iguais pelo horizonte. Vi os seus últimos raios coroarem o pico onde estávamos e as sombras subirem pouco a pouco pelas suas vertentes.

Naquele momento, o Capitão Nemo, apoiando a mão no meu ombro, disse-me - Sr. Aronnax: em 1600, o holandês Ghéritk, arrastado por correntes e tempestades, atingiu sessenta e quatro graus de latitude sul e descobriu as ilhas New Shetland. Em 1773, a 17 de janeiro, o ilustre Cook, seguindo o trigésimo oitavo meridiano, atingiu 71° 15' de latitude. Em 1820; o americano Morrel, cujos relatos são duvidosos, chegando ao quadragésimo segundo meridiano, descobriu o mar livre a 70° 14' de latitude. Em 1825, o inglês Powell não conseguiu ultrapassar o sexagésimo segundo grau. No mesmo ano, um simples pescador de focas, o inglês Weddel, chegou a 720 14' de latitude no trigésimo quinto meridiano e a 74° 15' no trigésimo sexto. Em 1829, o inglês Foster, comandante do “Chanticleer”, tomava posse do continente antártico a 63° 26' de latitude e 66° 26' de longitude. Em 1831, no dia 1.° de fevereiro, o inglês Biscoae descobria a terra de Enderby a 68° 50', de latitude; a 5 de fevereiro de 1832, a terra de Adelaide, a 670 de latitude, e a 21 de fevereiro a terra de Graham, a 64° 45' de latitude. Em 1838, o francês Dumond d’Urville, detido pelo banco de gelo a 620 57' de latitude, descobria a terra de Luís Felipe; dois anos depois, em outra viagem ao sul, a 21 de janeiro atingia a 660 30' a terra de Adélia e, oito dias depois, a 64° 40' a Costa Clarie. Em 1838, o inglês Wiles progredia até o sexagésimo nono paralelo, no centésimo meridiano. Em 1839, o inglês Balleny descobria a terra Sabrina, no limite do círculo polar.

Finalmente, em 1842, a 12 de janeiro, o inglês James Ross, comandando o “Erebus” e o “Terror”, encontrava a 76° 56' de latitude e 17° 7' de longitude leste, a terra Vitória; a 23 do mesmo mês, chegava ao septuagésimo quarto paralelo, o ponto mais avançado até então atingido; a 27 estava a 76° 8'; a 28 a 77° 32'; a 2 de fevereiro, a 78° 4' e, em 1842 regressava ao septuagésimo primeiro grau, que não conseguiu ultrapassar. Pois bem! Eu, Capitão Nemo, a 21 de março de 1868, cheguei ao Pólo Sul, aos noventa graus, e tomo posse desta zona do globo terrestre, equivalente à sexta parte dos continentes conhecidos.

- Em nome de quem, capitão?

- Em meu nome, senhor professor!

Dito isto, o Capitão Nemo desfraldou uma bandeira negra com um N gravado no tecido. Depois, virando-se para o sol, cujos últimos raios brilhavam no horizonte, falou:

- Adeus, sol! Desaparece, astro radioso! Esconda-se nesse mar livre e deixe uma noite de seis meses estender as suas sombras sobre o meu novo domínio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS