domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 2 - Capítulo 03


 — Não sei — disse Henry, olhando para Shirley, — se você devia conhecer  minha tia. Não acredito que vá ser muito divertido.

Os dois estavam debruçados na cerca, observando o cavalo número 19 que  estava sendo exercitado na pista. Era a terceira vez que Shirley ia ao padding com  Henry. Os outros jovens que ela conhecera geralmente gostavam de cinema, mas Henry  só se entusiasmava por esportes e era este interesse que o tornava mais atraente aos  olhos de Shirley. 

— Não creio que não vá ser divertido — respondeu Shirley com doçura.  — Não tem muito jeito de ser ao contrário — disse Henry. — Minha tia tem a  mania de horóscopos e algumas idéias preconcebidas sobre as Pirâmides.  — Você não acha incrível, Henry, que eu não saiba sequer o nome da sua tia?  — Não sabe? — perguntou Henry, surpreso. 

— É Glyn-Edwards? 

— Não, é Fairborough, Lady Muriel Fairborough. Ela na verdade não é má  pessoa; não liga muito para mim, mas quando é necessário está sempre pronta a  enfrentar uma crise. 

— Este cavalo é muito deprimente — comentou Shirley, olhando para o número  19, enquanto se preparava para abordar outro assunto. 

— Feio, também — disse Henry. — É um dos piores cavalos de Tommy  Twisdom. Creio que veio para cá na primeira leva. 

Apareceram dois cavalos novos na pista e outras pessoas começaram a debruçar se sobre a cerca. 

— Já é o terceiro páreo? — perguntou Henry, consultando um caderno. — Já  apareceram os números? Será que o número 18 está correndo? 

Shirley examinou a tabela. 

— Sim. 

— Vamos dar uma tentada nele se não estiver muito caro. 

— Você entende um bocado sobre cavalos, não é Henry? Onde foi criado havia  muitos cavalos?

— Não, tenho muito mais experiência com bookmakers. 

Shirley preparou-se para fazer a pergunta decisiva. 

— Você não acha engraçado que eu saiba tão pouco da sua vida. Você tem pai e  mãe ou é órfão como eu? 

— Meus pais morreram num bombardeio; estavam no Café Paris. 

— Que horror! 

— Não é mesmo? — comentou Henry, sem um mínimo de emoção. Como para  corrigir esta impressão, ele acrescentou: — Já faz mais de quatro anos; eu gostava muito  deles, mas não se pode passar a vida olhando para o passado. 

— Acho que tem razão — concordou Shirley, duvidosa.

— Por que esta sede de informações? 

— Bem, é natural a gente se interessar pelos outros — disse Shirley, quase em  tom de desculpa. 

— É mesmo? — perguntou Henry, realmente surpreso. — De qualquer maneira,  acho bom você vir conhecer minha tia... creio que assim Laura ficará menos  preocupada. 

— Laura? 

— Laura é uma pessoa convencional, não é? É para que ela se certifique de que  sou um homem respeitável. 

Pouco tempo depois chegou um bilhete de Lady Muriel convidando Shirley para  almoçar e avisando que Henry passaria, de carro, para apanhá-la. 

 A tia de Henry parecia a Rainha Branca1; usava uma roupa de lã de várias  tonalidades, certamente tricotada por ela mesma; seu cabelo, amarrado num rolo, no alto  da cabeça, era castanho, com alguns fios cinza, caindo desalinhadamente por volta da  cabeça. Era uma mulher que conseguia combinar eficiência com desligamento. 

1 Personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll — N.T. 

— Que bom que você veio, meu bem — disse ela, apertando a mão de Shirley,  enquanto deixava cair um novelo de lã. — Apanhe meu novelo, meu filho. Agora diga me, em que dia nasceu? 

— 18 de setembro de 1928.

— Ah! Virgem... foi o que pensei. A que horas? 

— Não sei. 

— Que pena; pois bem, procure descobrir pois é de uma importância capital  sabermos esses dados. Onde estão minhas outras agulhas? As de número 8? Estou  fazendo tricô para a Marinha... isto é um suéter com gola roulé... 

Ela estendeu a malha. 

— Deve ser um marinheiro bem grande — comentou Henry. 

— Eles devem ter gente de todo o tamanho na Marinha — disse Lady Muriel,  sem se perturbar. — No Exército também — acrescentou distraída. — Lembro-me do  major Tug Murray... um homem enorme que para montar tinha cavalos especiais, até  que acabou quebrando o pescoço... 

Um velho mordomo abriu a porta e anunciou que o almoço estava servido.  Foram para a sala de jantar onde foi servido um almoço simples e Shirley não pôde  deixar de notar que a prata estava manchada. 

— Pobre Melsham — comentou Lady Muriel, quando o mordomo saiu da sala.  — Ele na verdade não vê coisa alguma! E treme tanto que fico apavorada em pensar  que a comida não vai chegar à mesa. Já pedi para ele colocar tudo no bufete mas não há  quem o convença. Também não abre mão da prata, embora não consiga limpá-la direito.  Implica com os empregados... não se acostuma com as novidades... ainda mais agora  que tudo mudou com a guerra! 

Voltaram para a sala de visitas onde Lady Muriel conduziu a conversa para os  temas bíblicos, as medidas das Pirâmides, o preço dos cupons de racionamento e as  dificuldades de se manter uma horta. Em seguida, embrulhou o tricô e anunciou que ia  levar Shirley para dar uma volta no jardim, despachando Henry com um recado para o  chofer. 

— Ele é um amor de rapaz — disse ela, enquanto conduzia Shirley. — Muito  egoísta e extravagante, mas que se pode esperar com a educação que recebeu!  — Ele puxou à mãe? — perguntou Shirley cuidadosamente . 

— Não, Mildred era um prodígio de contenção e economia. Para ela isto era uma  questão de honra. Nunca pude entender por que meu irmão se casou com ela, que não  era bonita, nem interessante. Acho que ela só viveu bem, com ele, quando moraram no  Quênia, no meio de uma fazenda. Mais tarde, é que ingressaram na sociedade, mas não  creio que ela tenha se dado tão bem. 

— O pai de Henry... — começou Shirley.

— Pobre Ned... foi processado três vezes por falência, mas era um homem  agradabilíssimo. Henry lembra muito ele, às vezes. Repare nestas folhagens... que  estranhas... não nascem em qualquer lugar. 

Ela arrancou um galho seco e olhou para Shirley. 

— Você é muito bonita... e muito jovem. Não se incomode se faço comentários  muito pessoais. 

— Já estou com quase dezenove anos. 

— Muito bem. E sabe fazer tudo que as moças inteligentes sabem fazer hoje em  dia? 

— Não... não sei. Minha irmã quer que eu faça um curso de secretariado.  — Deve ser divertido... pode vir a ser secretária de um deputado, dizem que é  interessante... não sei bem por quê. Mas não acho que você vá trabalhar a vida inteira...  vai acabar se casando logo, — disse Lady Muriel, com um suspiro. — O mundo anda  tão estranho — prosseguiu ela; — acabo de receber uma carta de um velho amigo... a  filha dele casou-se com um dentista. No meu tempo uma moça não se casava com um  dentista... um médico podia ser... mas nunca com um dentista! 

Lady Muriel voltou a cabeça para o lado. 

— Aí vem Henry. Então, já veio tirar a senhorita...

— Franklyn. 

— A Srta. Franklyn de mim? 

— Pensei que seria agradável darmos um passeio até Bunny Heath.  — Você pegou gasolina com Harman? 

— Só uns dois galões, tia Muriel. 

— Não quero mais isto, ouviu? Você precisa arranjar gasolina sozinho. O pouco  que eu consigo mal dá para mim. 

— Ora titia, no fundo a senhora não liga para isso... 

— Bem, desta vez passa. Adeus minha cara. Não esqueça de me mandar os  detalhes sobre o seu nascimento. Não esqueça! Preciso desses dados para tirar seu  horóscopo. Use verde, todos os nativos de Virgem devem usar verde.  — Eu sou Aquário — disse Henry, — de 20 de janeiro.

— Instável — respondeu a tia, — lembre-se disso, minha cara. Não se pode  confiar num aquariano. 

— Espero que não tenha se aborrecido — disse Henry quando já estavam na  estrada.

— Absolutamente, achei sua tia muito simpática. 

— Não precisa exagerar. Ela é passível. 

— Gosta muito de você. 

— Não creio; o que acontece é que ela não se importa que eu fique aqui, porque  eu não a atrapalho. Já está na época de voltar, vou ser desmobilizado.  — E o que pretende fazer? 

— Não sei. Talvez estude Direito. 

— Sim? 

— Mas, acho que deve ser muito puxado. Talvez eu me meta num negócio.  — Que tipo? 

— Depende de arranjar um amigo que dê um impulso. Tenho alguns amigos  banqueiros, além do mais conheço alguns milionários que gostariam de me ajudar a  começar na vida. Eu não tenho muito dinheiro — prosseguiu Henry, sorrindo. — Para  ser exato só tenho uns trezentos e poucos... a maioria dos parentes é de um pão-durismo  incalculável. Quem me salva de vez em quando é tia Muriel, mas infelizmente ela  também não anda bem de dinheiro. Tenho também uma madrinha que é bastante  generosa, quando está bem disposta. Tudo muito pouco mas... 

— Por que está me contando tudo isto? — perguntou Shirley, espantada com a  torrente de informações. 

Henry corou e derrapou com o carro ligeiramente. 

— Pensei que você soubesse — murmurou ele, num tom quase ininteligível, —  querida... você é tão linda... quero casar com você... você precisa casar comigo...  precisa. 

 Laura olhou para Henry com desânimo. Sentia-se como se estivesse subindo por  uma ladeira íngreme e escorregadia, e acabava sempre voltando para o mesmo lugar.  — Shirley é muito jovem — protestou ela, — muito jovem. 

— Ora, Laura, ela está com dezenove anos. Tenho uma avó que se casou com  dezesseis e tinha um casal de gêmeos, antes de completar dezoito anos.  — Isto era antigamente. 

— Muita gente se casou jovem por causa da guerra...

— E hoje em dia está amargamente arrependida.

— Você não acha que está sendo muito pessimista? Não creio que nem eu nem  Shirley vamos nos arrepender. 

— Isto você não pode garantir. 

— Posso — respondeu Henry, sorrindo, — Tenho certeza, amo Shirley. Amo  Shirley loucamente. Farei tudo para torná-la feliz. — Olhou para Laura com esperança.  Amo-a demais — repetiu. 

Como já havia acontecido antes, a sinceridade de Henry desarmava Laura.  — Eu sei que não estou muito bem de finanças... 

Outro trunfo desarmante. Não era por causa do dinheiro que Laura estava  preocupada; ela não esperava que Shirley fizesse “um bom casamento.” Henry e Shirley  começariam a vida com pouco dinheiro mas com uma razoável segurança. As  perspectivas de Henry não eram melhores nem piores do que de centenas de outros  rapazes no fim da guerra. Ele era saudável, inteligente, educado e cativante, e era  justamente por causa deste traço que Laura não aprovava o casamento. Ninguém tinha o  direito de ser tão cativante. 

Quando Laura voltou a falar resolveu ser mais autoritária. 

— Não, Henry, não podemos pensar em casamento para já. Pelo menos um ano  de noivado, que dará tempo de vocês se certificarem de que é mesmo isso que desejam.  — Francamente, Laura, você fala como um pai vitoriano de cinqüenta anos de  idade. 

— Tenho que ser um pai para Shirley. Neste tempo de noivado você terá  oportunidade de arranjar um emprego, e se estabelecer na vida. 

— Que deprimente! — comentou Henry, sorrindo. — Na verdade acho que você  não quer que Shirley se case. 

Laura enrubesceu. 

— Não seja tolo. 

Henry pareceu satisfeito com a perspicácia do comentário e saiu para procurar  Shirley. 

— Laura está criando problemas — disse ele. — Por que não nos casamos? Eu  não quero esperar, detesto ficar esperando! Se espero muito tempo para obter qualquer  coisa acabo perdendo o interesse. Nós dois podíamos casar num cartório qualquer, sem  grandes pompas, que tal? 

— Ora, não podemos fazer uma coisa destas! 

— Não sei por que não. Além de ser mais econômico daria muito menos

trabalho. 

— Eu sou menor, por isso creio que precisamos do consentimento de Laura.  — Tem razão. Ela é sua tutora, não é? E o que faz aquele velho? 

— Acho que Baldy é o testamenteiro. 

— O pior de tudo — disse Henry — é que Laura não gosta de mim.  — Que bobagem, Henry. Tenho certeza de que gosta. 

— Não gosta. É claro que está com ciúmes. 

— Você acha? — perguntou Shirley perturbada. 

— Desde o começo não foi com a minha cara, e eu fiz de tudo para ser  simpático — queixou-se Henry em tom de fúria. 

— Sei que você é um amor com ela, mas precisa compreender que a surpresa foi  muito grande. Nós só nos conhecemos há três semanas... e não creio que haja mal algum  em esperar um ano... 

— Meu amor, não quero esperar um ano. Quero casar com você, já! Amanhã, na  semana que vem. Você não quer se casar comigo? 

— Quero, Henry, quero! 

Como era de se esperar, Laura ofereceu um jantar ao Sr. Baldock para apresentar  Henry. Assim que acabou a refeição, Laura voltou-se ansiosa para o velho amigo.  — Então que achou dele?  

— Vamos com calma. Como posso julgar uma pessoa que mal conheci? Parece  um rapaz educado, não me tratou como se eu fosse um velho senil, ouviu-me com  atenção! 

— É tudo que tem a dizer? Acha que ele seria bom para Shirley? 

— Ninguém poderá ser bom para Shirley, de acordo com seu critério.  — Talvez tenha razão... mas, você gostou dele? 

— Sim, me pareceu um rapaz bem agradável. 

— Acha que vai dar um bom marido? 

— Não posso saber, mas creio que como marido ele não vai ser grande coisa.  — Então não podemos permitir esse casamento! 

— Não podemos, como? Se ela quiser casar, o problema é dela. Além do mais,  não creio que Shirley seria capaz de escolher um bom marido. Não digo que ele vá

tratá-la mal, envenená-la ou desfeiteá-la em público. Aliás, um marido bem educado já é  uma grande coisa. 

— Sabe o que penso dele? Considero-o egoísta e... inescrupuloso .  O Sr. Baldock ergueu as sobrancelhas. 

— Talvez você tenha razão. 

— E então? 

— Mas se ela gosta dele, Laura. Gosta muito, é óbvio que ela é louca por ele.  Talvez Henry não seja o ideal, para nós dois, mas é o ideal para Shirley.  — Se ela ao menos pudesse vê-lo realisticamente — protestou Laura.  — Bem, um dia acabará vendo — sentenciou Baldock. 

— Aí será tarde demais. Eu queria que ela o visse como é, agora. 

— Não ia fazer a menor diferença. Ela parece disposta a aceitá-lo como ele é!  — Se ela fosse para o exterior, uma viagem à Suíça talvez... mas as coisas se  complicaram tanto com a guerra! 

— Se quer minha opinião — disse Baldock, — não vale a pena impedir que as  pessoas se casem. Se houvesse algum impedimento sério, se ele fosse casado ou tivesse  cinco filhos, se fosse epiléptico ou tivesse sido preso por estelionato... aí sim, justificar se-ia uma intervenção. Mas, quer saber o que aconteceria se você mandasse Shirley para  a Suíça ou para um cruzeiro pelas ilhas dos Mares do Sul? 

— O quê? 

O Sr. Baldock sacudiu o dedo no ar. 

— Ela voltaria casada com um homem igual a esse. As pessoas sabem o que  querem. Shirley quer Henry e se não puder casar com ele, vai procurar encontrá-lo a  vida inteira. Isso é um fenômeno muito comum. Um velho amigo foi casado com uma  mulher que lhe infernizou a vida, o aborreceu, perseguiu, escravizou, não lhe deu um  momento de sossego enquanto nós nos perguntávamos por que ele não a assassinava.  Mas ele teve sorte, pois ela morreu de pneumonia dupla. Seis meses depois ele parecia  outro homem, várias moças passaram a se interessar por ele. Dezoito meses depois o  que aconteceu? Ele casou com uma megera pior do que a falecida. A natureza humana é  um mistério. 

Baldock deu um longo suspiro. 

— Portanto, pare de andar de um lado para o outro como uma trágica grega. Já  lhe disse para levar a vida menos a sério. Não adianta querer dirigir o destino dos  outros. Shirley vai seguir o caminho que quiser e, se perguntou minha opinião, aí vai:

ela sabe se defender melhor sozinha do que com sua ajuda. Minha única preocupação é  você.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS