— Que acha das minhas begônias? Maravilhosas, não? —
perguntou, grunhindo. O Sr. Baldock era
um péssimo jardineiro, sempre orgulhoso dos resultados duvidosos que obtinha, pois ignorava os
fracassos que seus amigos não deviam
comentar. Laura obedientemente olhou para as esparsas e murchas begônias
e comentou que elas estavam muito
bem.
— Bem? Estão magníficas! — gemeu o Sr. Baldock, que com a
idade tinha engordado, enquanto se
abaixava para arrancar algumas ervas daninhas.
— Este clima úmido — queixou-se o pobre velho. — Assim que você limpa
o terreno elas voltam. Não sei como
lutar contra elas... para mim são as próprias filhas do diabo.
Ofegante, enquanto arrancava um tufo ou outro, voltou-se
para Laura. — Então, o que houve? Algum
problema? Fale logo.
— Sempre que venho procurá-lo é porque estou com algum
problema, desde os seis anos de
idade.
— Você era uma menina muito séria... com uns olhos enormes e
um ar insolente.
— Gostaria de ter certeza das minhas decisões!
— Não se preocupe tanto — disse o Sr. Baldock, imprecando
contra umas ervas. — Saia, sua estúpida!
Não, não se preocupe — continuou, voltando-se para Laura. — Tem gente que sabe o que é certo e o que é
errado, e gente que não sabe. é como ter
ouvido para música.
— Não me refiro à certeza do certo e do errado do ponto de
vista moral. Gostaria de saber se estou
agindo direito.
— Neste caso é diferente. Geralmente se cometem mais
besteiras do que acertos na vida. Qual é
o problema?
— É Shirley.
— Claro que é Shirley. Você não tem outra preocupação na
cabeça. — Estou tentando conseguir um
curso de secretária em Londres para ela.
— O que me parece uma grande besteira — disse o Sr. Baldock.
— Shirley é uma boa menina, mas será uma
das últimas pessoas que conheço capaz de se tornar uma boa secretária.
— Mesmo assim ela precisa ter alguma profissão.
— É o que todo mundo diz hoje em dia.
— Além do mais quero que ela conheça novas pessoas.
— Maldito espinho! — gritou o Sr. Baldock, sacudindo a mão.
— Pessoas? Que pessoas? Na rua? No
emprego? Outras secretárias? Alguns rapazes?
— Isso mesmo, alguns rapazes novos.
O Sr. Baldock riu.
— Mas, aqui ela já conheceu vários rapazes! Aquele filhinho
da mamãe, o Robin, parece gostar dela, o
Peter demonstra estar louco de paixão, e até Edward Westbury começou a passar brilhantina no
pouco cabelo que tem. Você sentiu o cheiro
na igreja? Eu pensei com meus botões, de quem será que ele anda atrás?
Quando saímos, lá estava ele, sacudindo
o rabo como um cachorrinho encabulado.
— Mas não creio que ela goste deles.
— E por que deveria gostar? Dê-lhe tempo... Shirley é muito
jovem. Vamos, vamos... qual a verdadeira
razão para mandá-la a Londres? Ou você também está pensando em se mudar para lá?
— Não, está aí todo o problema.
O Sr. Baldock endireitou as costas.
— O problema? — perguntou, olhando para Laura com
curiosidade. — O que você está
pretendendo na realidade?
Laura olhou para o jardim.
— Como o senhor sabe, Shirley é a única coisa que me
interessa no mundo. Eu a amo tanto que
tenho medo de magoá-la, ou de tentar amarrá-la às minhas saias. — Ela tem dez anos menos que você — disse
ele, com certa doçura na voz. — No fundo
ela é mais sua filha do que sua irmã.
— Isto é verdade.
— E você, sendo inteligente, já notou que o amor material é
um amor possessivo.
— É verdade, você quer tirá-la do ninho? Ver se ela consegue
se manter sozinha?
— Sim, mas tenho tantas dúvidas... será que devo agir desta
maneira?
O Sr. Baldock esfregou o nariz com certa irritação.
— Ah! As mulheres... o problema das mulheres é que estão
sempre criando problemas. Como é que se
pode saber se as coisas vão dar certo ou não? Se Shirley for para Londres e encontrar um estudante egípcio
e tiver um filho moreno, num apartamento
em Bloomsbury, você vai dizer que é sua culpa, quando na verdade o problema é de Shirley e do egípcio. Caso ela
faça o curso, consiga um emprego, case
com o patrão, então você vai achar que estava com a razão! Tudo bobagem.
Não se pode arranjar a vida das pessoas.
Ou Shirley sabe o que quer ou não sabe! Só o tempo dirá! Se você acha que a mudança para Londres
é boa idéia, vá em frente, mas não leve
tudo tão a sério. Seu problema, Laura, é que você encara a vida como se
fosse um drama... aliás, este é o
problema da maioria das mulheres.
— O senhor não?
— Só levo a sério as ervas daninhas — disse o Sr. Baldock.
olhando para um monte do chão. — Levo a
sério meu estômago porque se não ele me dá problemas. Mas nem sonho em me preocupar com a vida das
pessoas... para começar, eu as respeito
muito.
— O senhor não compreende. Eu não suportaria ver Shirley
infeliz. — Bobagem — disse o Sr. Baldock,
rudemente. — O que importa se ela for
infeliz? Muita gente é... tem que se agüentar a infelicidade como tudo
na vida. Para se viver é preciso coragem
e um coração alegre.
— E você? — perguntou Baldock, voltando-se bruscamente Para
Laura. — Eu? — perguntou Laura,
surpresa.
— Sim! Imagine se você for infeliz? Será capaz de suportar
mais este embate da vida?
— Nunca pensei nisso — respondeu, Laura, sorrindo.
— E por que não? Pense um pouco em você também. Altruísmo
numa mulher pode ser tão desastroso
quanto uma torta mal feita. O que você pretende da vida? Está com 28 anos, na idade de se casar. Por que
não caça um homem?
— Não seja absurdo Baldy!
— Está vendo? — berrou Baldock. — Você é uma mulher, não é?
Uma moça interessante e normal. Ou não é
normal? O que sente quando um homem tenta beijá-la? — Eles não tentam tanto!
— E por que não? Por que você não age direito — disse ele, sacudindo o dedo indicador. — Passa o tempo todo pensando em outras coisas. Olhe para você! Sempre tão distinta e arrumada, o tipo da moça que minha mãe aprovaria. Por que não pinta a boca e as unhas de vermelho?
Laura olhou para ele espantada.
— Você sempre detestou baton e esmalte! — exclamou
Laura.
— Claro que odeio... mas eu estou com 79 anos... O
importante é usar os símbolos
significativos para informar as pessoas que você está no mercado, pronta
para jogar com a natureza. O que eles
chamam a Selva. Preste atenção Laura, você não faz o tipo de todo o mundo, não é dessas mulheres
que andam por aí, incapazes de conter o
próprio sexo. O homem que viesse procurá-la teria que perceber que tipo
de mulher você é na realidade! Mas, isto
não acontece assim! Você tem que agir, lembrar-se de que é uma mulher e procurar um homem .
— Baldy, querido, adoro suas conferências, acontece que sou
tão desprovida de sex-appeal!
— Resolveu ser uma solteirona?
Laura enrubesceu.
— Claro que não! Só que não creio que chegue a me
casar...
— Derrotista! — gritou o Sr. Baldock.
— Não é derrotismo! Não creio que um homem possa se
apaixonar por mim. — Os homens se
apaixonam por qualquer coisa — disse o Sr. Baldock, furioso. — Mulheres com lábios leporinos, com acne,
com queixos prognatas, com cabeças em
forma de ovo e até por cretinas! Pense nas mulheres casadas que você
conhece! Não, Laura, você está fugindo
para não sofrer. Você não quer ser amada, quer amar... e não está com a razão. Ser amada é carregar um
fardo muito pesado.
— Você acha que eu amo Shirley demais? Ou que sou muito
possessiva? — Não, não acho... desse
erro eu não a acuso.
— Mas... a gente pode amar demais?
— Claro que pode — respondeu, berrando, o Sr. Baldock. —
Pode se fazer qualquer coisa demais:
beber, comer, amar. Ouça:
Conheci mil formas de amar
E cada uma fazia a outra se retirar...
— Leve este versinho para casa, minha filha, e pense bem.
Laura voltou para casa mais reconfortada. Ao entrar foi recebida por Ethel que, surgindo das sombras, murmurou, num tom confidencial:
— Tem um senhor esperando, um tal de Glyn-Edwards... é muito
jovem. Está na sala de visitas... pois
disse que ia esperar. Não se trata de vendedor ou coisa parecida. Laura sorriu, sabendo que podia confiar no
tirocínio de Ethel.
Glyn-Edwards? Quem seria? Talvez um dos jovens pilotos que
estivera na casa, durante a guerra?
Cruzou o hall em direção à sala de vistas; assim que entrou
viu que não conhecia o jovem sorridente
que pareceu tão surpreso em vê-la.
— Sra. Franklyn? Pensei que... — o rapaz voltou a sorrir. —
Ela é sua irmã? — Shirley?
— Sim — disse Henry, aliviado. — Shirley. Conhecia-a ontem,
no jogo de tênis. Meu nome é Henry
Glyn-Edwards.
— Sente-se, por favor. Shirley deve estar chegando; foi
tomar chá na casa do pároco. Aceita um
sherry ou prefere gim?
Ele aceitou um sherry e os dois se puseram a conversar
amigavelmente. Henry tinha um tom desarmante
que não a incomodava e nem parecia grosseiro; falava com naturalidade e alegria, sem constrangimento,
e mesmo que fosse um pouco irreverente,
jamais faltava com a educação.
— Está hospedado em Bellbury? — perguntou Laura.
— Não, estou com minha tia em Endsmoor.
Laura surpreendeu-se com a explicação, pois sabia que
Endsmoor era uma pequena cidade perto de
Mullchester.
— Ontem, pedi emprestada a raquete de um amigo — continuou o
jovem, — e estupidamente a esqueci no
clube. Vim buscá-la e resolvi devolvê-la mas acabei ficando sem gasolina.
— Encontrou a raquete? — perguntou Laura, enquanto Henry a
observava curioso.
— Sim — respondeu. — Foi uma sorte! Infelizmente, sou meio
distraído. Quando eu morava na França
vivia perdendo meus apetrechos de tênis — concluiu Henry, piscando o olho maliciosamente.
— E como estava por perto — prosseguiu Henry, — resolvi fazer uma visita a Shirley.
Laura sentiu, mas não pôde precisar, um tom de acanhamento
nas palavras dele. Como era um rapaz
interessante, de uma graça particular, ela sentiu-se incapaz de hostilizá-lo. E no final das contas, por
que deveria hostilizá-lo? Por um sentimento de
possessividade. Estranho que Shirley não tivesse falado nele.
Continuaram a conversar até às sete horas. Henry não parecia
se incomodar com as convenções usuais
sobre boas maneiras. Ele obviamente tinha vindo com algum intuito e iria ficar até Shirley chegar.
Laura, por seu lado, estava começando a se
preocupar com a demora da irmã; pedindo desculpas ao visitante, ela foi
para o estúdio a fim de telefonar para a
casa do vigário.
— Shirley? — exclamou a senhora do vigário, — ah! Sim,
Laura, ela está aqui, jogando golfe com
Robin. Vou chamá-la.
Depois de um pequeno intervalo Laura ouviu a voz alegre e despreocupada
de Shirley.
— Laura?
— Você tem um admirador — disse Laura, secamente.
— Que admirador? Quem é?
— Chama-se Glyn-Edwards. Chegou há uma hora e meia e ainda
está aqui. Parece que pretende esperá-la
até que você se decida a voltar para casa. Infelizmente, já esgotamos todos os assuntos possíveis.
— Glyn Edwards? Nunca ouvi falar dele. Bem, é melhor eu
voltar. Que pena! Logo agora que eu
estava começando a liquidar com Robin.
— Ele não jogou tênis com vocês ontem?
— Henry? — perguntou Shirley incrédula, num tom que
surpreendeu Laura. — Pode ser Henry —
disse a irmã. — Ele está hospedado com uma tia... Shirley, quase sem fôlego, a interrompeu.
— É Henry, já estou indo para aí.
Laura desligou espantada. Voltou vagarosamente para a
sala.
— Shirley está voltando — disse. — Espero que possa ficar
conosco para o jantar.
Laura encostou-se no espaldar da cadeira, presidindo a mesa, e observando os dois. A noite caía, mas ainda não estava escuro e as janelas estavam abertas. A luz enfeitava o rosto dos jovens, que pareciam tão absortos um no outro. Olhando-os clinicamente Laura tentou compreender o crescente ressentimento que a invadia. Será que não tinha simpatizado com Henry? Não, não era possível. Ela reconhecia o encanto do rapaz e sua boa educação. Como ainda não sabia coisa alguma sobre ele, não podia formar um julgamento. Talvez fosse um tanto casual, um tanto displicente, um pouco desligado. É, talvez fosse isso — um tanto desligado. Certamente que no âmago deste sentimento estava Shirley. O que Laura sentia era o choque natural que se sente quando se descobre uma faceta desconhecida numa pessoa que se julgava conhecer profundamente. Laura e Shirley não eram muito expansivas, mas recordando o passado, Laura lembrou-se de Shirley falando sobre seus ódios, amores, desejos e frustrações.
Ontem, quando Laura perguntara casualmente: — Alguém de
fora? Ou só o pessoal de Bellbury?
Shirley respondera: — Só o pessoal de Bellbury.
Laura perguntou-se por que Shirley não falara em Henry. Em seguida,
lembrou se da falta de fôlego da irmã ao saber que ele estava em casa. Aos
poucos resolveu prestar mais atenção ao
que eles diziam.
— ... se quiser eu a apanho em Carswell — concluía
Henry.
— Eu adoraria, nunca estive numa corrida de cavalos.
— Marldon é uma barbada, mas um amigo meu tem um palpite
certo. Podíamos...
Laura concluiu calmamente que sua irmã estava sendo
cortejada. A presença inexplicável de
Henry, a falta de gasolina, a desculpa esfarrapada — ele estava interessado em Shirley. Naquele momento ela
não pensou que tudo poderia dar em nada.
Acreditou, ao contrário, num futuro nada promissor.
Henry e Shirley se casando. Laura tinha certeza. A irmã
casando com um estranho... um homem que
ela mal conhecia e que talvez nunca chegasse a conhecer bem.
E Shirley, será que algum dia conheceria verdadeiramente
este rapaz?

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