domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 2 - Capítulo 02


 Baldock estava trabalhando no jardim quando Laura chegou. 

— Que acha das minhas begônias? Maravilhosas, não? — perguntou, grunhindo.  O Sr. Baldock era um péssimo jardineiro, sempre orgulhoso dos resultados  duvidosos que obtinha, pois ignorava os fracassos que seus amigos não deviam  comentar. Laura obedientemente olhou para as esparsas e murchas begônias e comentou  que elas estavam muito bem. 

— Bem? Estão magníficas! — gemeu o Sr. Baldock, que com a idade tinha  engordado, enquanto se abaixava para arrancar algumas ervas daninhas.  — Este clima úmido — queixou-se o pobre velho. — Assim que você limpa o  terreno elas voltam. Não sei como lutar contra elas... para mim são as próprias filhas do  diabo. 

Ofegante, enquanto arrancava um tufo ou outro, voltou-se para Laura.  — Então, o que houve? Algum problema? Fale logo. 

— Sempre que venho procurá-lo é porque estou com algum problema, desde os  seis anos de idade. 

— Você era uma menina muito séria... com uns olhos enormes e um ar  insolente. 

— Gostaria de ter certeza das minhas decisões! 

— Não se preocupe tanto — disse o Sr. Baldock, imprecando contra umas ervas.  — Saia, sua estúpida! Não, não se preocupe — continuou, voltando-se para Laura. —  Tem gente que sabe o que é certo e o que é errado, e gente que não sabe. é como ter  ouvido para música. 

— Não me refiro à certeza do certo e do errado do ponto de vista moral.  Gostaria de saber se estou agindo direito. 

— Neste caso é diferente. Geralmente se cometem mais besteiras do que acertos  na vida. Qual é o problema? 

— É Shirley. 

— Claro que é Shirley. Você não tem outra preocupação na cabeça.  — Estou tentando conseguir um curso de secretária em Londres para ela.

— O que me parece uma grande besteira — disse o Sr. Baldock. — Shirley é  uma boa menina, mas será uma das últimas pessoas que conheço capaz de se tornar uma  boa secretária. 

— Mesmo assim ela precisa ter alguma profissão. 

— É o que todo mundo diz hoje em dia. 

— Além do mais quero que ela conheça novas pessoas.

— Maldito espinho! — gritou o Sr. Baldock, sacudindo a mão. — Pessoas? Que  pessoas? Na rua? No emprego? Outras secretárias? Alguns rapazes?  — Isso mesmo, alguns rapazes novos. 

O Sr. Baldock riu. 

— Mas, aqui ela já conheceu vários rapazes! Aquele filhinho da mamãe, o  Robin, parece gostar dela, o Peter demonstra estar louco de paixão, e até Edward  Westbury começou a passar brilhantina no pouco cabelo que tem. Você sentiu o cheiro  na igreja? Eu pensei com meus botões, de quem será que ele anda atrás? Quando  saímos, lá estava ele, sacudindo o rabo como um cachorrinho encabulado. 

— Mas não creio que ela goste deles. 

— E por que deveria gostar? Dê-lhe tempo... Shirley é muito jovem. Vamos,  vamos... qual a verdadeira razão para mandá-la a Londres? Ou você também está  pensando em se mudar para lá? 

— Não, está aí todo o problema. 

O Sr. Baldock endireitou as costas. 

— O problema? — perguntou, olhando para Laura com curiosidade. — O que  você está pretendendo na realidade? 

Laura olhou para o jardim. 

— Como o senhor sabe, Shirley é a única coisa que me interessa no mundo. Eu a  amo tanto que tenho medo de magoá-la, ou de tentar amarrá-la às minhas saias.  — Ela tem dez anos menos que você — disse ele, com certa doçura na voz.  — No fundo ela é mais sua filha do que sua irmã. 

— Isto é verdade. 

— E você, sendo inteligente, já notou que o amor material é um amor  possessivo. 

— É verdade, você quer tirá-la do ninho? Ver se ela consegue se manter  sozinha? 

— Sim, mas tenho tantas dúvidas... será que devo agir desta maneira?

O Sr. Baldock esfregou o nariz com certa irritação.

— Ah! As mulheres... o problema das mulheres é que estão sempre criando  problemas. Como é que se pode saber se as coisas vão dar certo ou não? Se Shirley for  para Londres e encontrar um estudante egípcio e tiver um filho moreno, num  apartamento em Bloomsbury, você vai dizer que é sua culpa, quando na verdade o  problema é de Shirley e do egípcio. Caso ela faça o curso, consiga um emprego, case  com o patrão, então você vai achar que estava com a razão! Tudo bobagem. Não se  pode arranjar a vida das pessoas. Ou Shirley sabe o que quer ou não sabe! Só o tempo  dirá! Se você acha que a mudança para Londres é boa idéia, vá em frente, mas não leve  tudo tão a sério. Seu problema, Laura, é que você encara a vida como se fosse um  drama... aliás, este é o problema da maioria das mulheres. 

— O senhor não? 

— Só levo a sério as ervas daninhas — disse o Sr. Baldock. olhando para um  monte do chão. — Levo a sério meu estômago porque se não ele me dá problemas. Mas  nem sonho em me preocupar com a vida das pessoas... para começar, eu as respeito  muito. 

— O senhor não compreende. Eu não suportaria ver Shirley infeliz.  — Bobagem — disse o Sr. Baldock, rudemente. — O que importa se ela for  infeliz? Muita gente é... tem que se agüentar a infelicidade como tudo na vida. Para se  viver é preciso coragem e um coração alegre. 

— E você? — perguntou Baldock, voltando-se bruscamente Para Laura.  — Eu? — perguntou Laura, surpresa. 

— Sim! Imagine se você for infeliz? Será capaz de suportar mais este embate da  vida? 

— Nunca pensei nisso — respondeu, Laura, sorrindo. 

— E por que não? Pense um pouco em você também. Altruísmo numa mulher  pode ser tão desastroso quanto uma torta mal feita. O que você pretende da vida? Está  com 28 anos, na idade de se casar. Por que não caça um homem? 

— Não seja absurdo Baldy! 

— Está vendo? — berrou Baldock. — Você é uma mulher, não é? Uma moça  interessante e normal. Ou não é normal? O que sente quando um homem tenta beijá-la?  — Eles não tentam tanto! 

— E por que não? Por que você não age direito — disse ele, sacudindo o dedo  indicador. — Passa o tempo todo pensando em outras coisas. Olhe para você! Sempre tão distinta e arrumada, o tipo da moça que minha mãe aprovaria. Por que não pinta a  boca e as unhas de vermelho? 

Laura olhou para ele espantada. 

— Você sempre detestou baton e esmalte! — exclamou Laura. 

— Claro que odeio... mas eu estou com 79 anos... O importante é usar os  símbolos significativos para informar as pessoas que você está no mercado, pronta para  jogar com a natureza. O que eles chamam a Selva. Preste atenção Laura, você não faz o  tipo de todo o mundo, não é dessas mulheres que andam por aí, incapazes de conter o  próprio sexo. O homem que viesse procurá-la teria que perceber que tipo de mulher  você é na realidade! Mas, isto não acontece assim! Você tem que agir, lembrar-se de  que é uma mulher e procurar um homem . 

— Baldy, querido, adoro suas conferências, acontece que sou tão desprovida de  sex-appeal!

— Resolveu ser uma solteirona? 

Laura enrubesceu. 

— Claro que não! Só que não creio que chegue a me casar... 

— Derrotista! — gritou o Sr. Baldock. 

— Não é derrotismo! Não creio que um homem possa se apaixonar por mim.  — Os homens se apaixonam por qualquer coisa — disse o Sr. Baldock, furioso.  — Mulheres com lábios leporinos, com acne, com queixos prognatas, com cabeças em  forma de ovo e até por cretinas! Pense nas mulheres casadas que você conhece! Não,  Laura, você está fugindo para não sofrer. Você não quer ser amada, quer amar... e não  está com a razão. Ser amada é carregar um fardo muito pesado. 

— Você acha que eu amo Shirley demais? Ou que sou muito possessiva?  — Não, não acho... desse erro eu não a acuso. 

— Mas... a gente pode amar demais? 

— Claro que pode — respondeu, berrando, o Sr. Baldock. — Pode se fazer  qualquer coisa demais: beber, comer, amar. Ouça: 

Conheci mil formas de amar

E cada uma fazia a outra se retirar...

— Leve este versinho para casa, minha filha, e pense bem.

 Laura voltou para casa mais reconfortada. Ao entrar foi recebida por Ethel que,  surgindo das sombras, murmurou, num tom confidencial: 

— Tem um senhor esperando, um tal de Glyn-Edwards... é muito jovem. Está na  sala de visitas... pois disse que ia esperar. Não se trata de vendedor ou coisa parecida.  Laura sorriu, sabendo que podia confiar no tirocínio de Ethel. 

Glyn-Edwards? Quem seria? Talvez um dos jovens pilotos que estivera na casa,  durante a guerra? 

Cruzou o hall em direção à sala de vistas; assim que entrou viu que não conhecia  o jovem sorridente que pareceu tão surpreso em vê-la. 

— Sra. Franklyn? Pensei que... — o rapaz voltou a sorrir. — Ela é sua irmã?  — Shirley? 

— Sim — disse Henry, aliviado. — Shirley. Conhecia-a ontem, no jogo de tênis.  Meu nome é Henry Glyn-Edwards. 

— Sente-se, por favor. Shirley deve estar chegando; foi tomar chá na casa do  pároco. Aceita um sherry ou prefere gim? 

Ele aceitou um sherry e os dois se puseram a conversar amigavelmente. Henry  tinha um tom desarmante que não a incomodava e nem parecia grosseiro; falava com  naturalidade e alegria, sem constrangimento, e mesmo que fosse um pouco irreverente,  jamais faltava com a educação. 

— Está hospedado em Bellbury? — perguntou Laura. 

— Não, estou com minha tia em Endsmoor. 

Laura surpreendeu-se com a explicação, pois sabia que Endsmoor era uma  pequena cidade perto de Mullchester. 

— Ontem, pedi emprestada a raquete de um amigo — continuou o jovem, — e  estupidamente a esqueci no clube. Vim buscá-la e resolvi devolvê-la mas acabei ficando  sem gasolina. 

— Encontrou a raquete? — perguntou Laura, enquanto Henry a observava  curioso. 

— Sim — respondeu. — Foi uma sorte! Infelizmente, sou meio distraído.  Quando eu morava na França vivia perdendo meus apetrechos de tênis — concluiu  Henry, piscando o olho maliciosamente. 

— E como estava por perto — prosseguiu Henry, — resolvi fazer uma visita a Shirley. 

Laura sentiu, mas não pôde precisar, um tom de acanhamento nas palavras dele.  Como era um rapaz interessante, de uma graça particular, ela sentiu-se incapaz  de hostilizá-lo. E no final das contas, por que deveria hostilizá-lo? Por um sentimento de  possessividade. Estranho que Shirley não tivesse falado nele. 

Continuaram a conversar até às sete horas. Henry não parecia se incomodar com  as convenções usuais sobre boas maneiras. Ele obviamente tinha vindo com algum  intuito e iria ficar até Shirley chegar. Laura, por seu lado, estava começando a se  preocupar com a demora da irmã; pedindo desculpas ao visitante, ela foi para o estúdio  a fim de telefonar para a casa do vigário. 

— Shirley? — exclamou a senhora do vigário, — ah! Sim, Laura, ela está aqui,  jogando golfe com Robin. Vou chamá-la. 

Depois de um pequeno intervalo Laura ouviu a voz alegre e despreocupada de  Shirley. 

— Laura? 

— Você tem um admirador — disse Laura, secamente. 

— Que admirador? Quem é? 

— Chama-se Glyn-Edwards. Chegou há uma hora e meia e ainda está aqui.  Parece que pretende esperá-la até que você se decida a voltar para casa. Infelizmente, já  esgotamos todos os assuntos possíveis. 

— Glyn Edwards? Nunca ouvi falar dele. Bem, é melhor eu voltar. Que pena!  Logo agora que eu estava começando a liquidar com Robin. 

— Ele não jogou tênis com vocês ontem? 

— Henry? — perguntou Shirley incrédula, num tom que surpreendeu Laura.  — Pode ser Henry — disse a irmã. — Ele está hospedado com uma tia...  Shirley, quase sem fôlego, a interrompeu. 

— É Henry, já estou indo para aí. 

Laura desligou espantada. Voltou vagarosamente para a sala. 

— Shirley está voltando — disse. — Espero que possa ficar conosco para o  jantar. 

Laura encostou-se no espaldar da cadeira, presidindo a mesa, e observando os dois. A noite caía, mas ainda não estava escuro e as janelas estavam abertas. A luz  enfeitava o rosto dos jovens, que pareciam tão absortos um no outro.  Olhando-os clinicamente Laura tentou compreender o crescente ressentimento  que a invadia. Será que não tinha simpatizado com Henry? Não, não era possível. Ela  reconhecia o encanto do rapaz e sua boa educação. Como ainda não sabia coisa alguma  sobre ele, não podia formar um julgamento. Talvez fosse um tanto casual, um tanto  displicente, um pouco desligado. É, talvez fosse isso — um tanto desligado.  Certamente que no âmago deste sentimento estava Shirley. O que Laura sentia  era o choque natural que se sente quando se descobre uma faceta desconhecida numa  pessoa que se julgava conhecer profundamente. Laura e Shirley não eram muito  expansivas, mas recordando o passado, Laura lembrou-se de Shirley falando sobre seus  ódios, amores, desejos e frustrações. 

Ontem, quando Laura perguntara casualmente: — Alguém de fora? Ou só o  pessoal de Bellbury? Shirley respondera: — Só o pessoal de Bellbury.  Laura perguntou-se por que Shirley não falara em Henry. Em seguida, lembrou se da falta de fôlego da irmã ao saber que ele estava em casa. Aos poucos resolveu  prestar mais atenção ao que eles diziam. 

— ... se quiser eu a apanho em Carswell — concluía Henry. 

— Eu adoraria, nunca estive numa corrida de cavalos. 

— Marldon é uma barbada, mas um amigo meu tem um palpite certo.  Podíamos... 

Laura concluiu calmamente que sua irmã estava sendo cortejada. A presença  inexplicável de Henry, a falta de gasolina, a desculpa esfarrapada — ele estava  interessado em Shirley. Naquele momento ela não pensou que tudo poderia dar em  nada. Acreditou, ao contrário, num futuro nada promissor. 

Henry e Shirley se casando. Laura tinha certeza. A irmã casando com um  estranho... um homem que ela mal conhecia e que talvez nunca chegasse a conhecer  bem. 

E Shirley, será que algum dia conheceria verdadeiramente este rapaz?

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