domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 2 - Capítulo 01


 Shirley caminhou rapidamente pela alameda, balançando a cesta com os sapatos  pendurados pelos cordões; sorria e estava quase sem fôlego. Precisava andar depressa,  pois estava atrasada para o jantar. Na verdade, não deveria ter jogado aquela última  partida de tênis. Aliás tinha sido uma péssima partida. Pam correndo como um coelho,  de um lado para outro, tendo como parceiro Gordon... não eram adversários para ela e  nem para... como era mesmo o nome daquele rapaz? Henry! Mas, Henry de quê? —  pensou ela. 

Ao pensar em Henry, Shirley diminuiu o passo. Era uma novidade para ela  aquele rapaz; não se parecia com os homens que conhecia; não era como Robin, o filho  do pastor, que era educado, simpático, a adorava, e tinha uns modos tão bonitos; além  do mais ia se tornar uma raridade intelectual, estava de partida para a Universidade onde  ia estudar línguas orientais. Shirley lembrou-se também de Peter — tão jovem e  impulsivo; de Edward Westbury que era bem mais velho que os outros, trabalhava num  banco e dedicava-se à política. Mas eram todos homens de Bellbury enquanto Henry era  um estranho que viera para lá visitar uma tia. Com ele, Shirley sentia-se livre e  despreocupada, pensou, saboreando o último adjetivo. Era uma qualidade que ela  apreciava. 

Em Bellbury não havia despreocupação, pois as pessoas viviam emaranhadas na  vida dos outros; havia solidariedade demais, raízes, compromissos, para que uma pessoa  pudesse se sentir livre. Shirley sentia-se confusa com estes pensamentos, pois eles  expressavam exatamente o que sentia na realidade. 

Henry não pertencia a coisa alguma, a não ser remotamente a uma tia, que nem  deveria ser carnal e sim por afinidade. 

— Ridículo, é claro — pensou Shirley —, pois afinal ele deve ter pai e mãe  como todo o mundo. Mas, no entanto, ela gostaria de fantasiar que os pais dele tinham  morrido em alguma remota parte do mundo, deixando-o órfão. Ou quem sabe a mãe  dele fosse uma daquelas mulheres que viviam na Riviera, colecionando maridos? 

— Bobagem! — exclamou Shirley, baixinho. — Eu não sei coisa alguma sobre  ele, nem mesmo seu sobrenome... não sei quem o levou ao clube.

Uma atitude típica de um homem como Henry, pensou Shirley, aparecer nos  lugares desta maneira — difuso, sem pertencer — e ir embora sem as pessoas saberem  seu sobrenome ou de quem, afinal das contas, ele era sobrinho. Era apenas um rapaz  jovem, atraente, com um belo sorriso, que jogava tênis muito bem. Shirley gostou da  maneira como ele decidiu, quando Mary Coofton perguntou: — Como vamos jogar? —  Eu e Shirley contra vocês dois, respondeu ele. sacudindo a raquete. Ele, concluiu  Shirley, faz sempre o que quer. 

— Vai ficar muito tempo por aqui? — perguntou Shirley, curiosa. 

— Não creio — respondeu Henry com um ar vago. 

Também não fez o menor esforço para tornar a vê-la, o que a desagradou  bastante. No fundo ela gostaria de revê-lo!  

Olhou para o relógio e apressou o passo, ia chegar tão tarde! Sabia que Laura  não se importaria, aliás Laura não se importava com coisa alguma, era um verdadeiro  anjo. Viu a casa ao longe, banhada de luz com sua fachada georgiana, ligeiramente  irregular devido ao incêndio que destruíra uma ala.

Shirley diminuiu o passo. Não queria voltar para casa, entrar naquela atmosfera  confortável, onde os últimos raios de sol se filtravam pelas janelas laterais, indo  descansar nos móveis; Laura com seu sorriso bondoso e olhar protetor, e Ethel pondo a  mesa. Amor, proteção, lar... as coisas mais caras e preciosas do mundo, não era mesmo?  No entanto, foram legadas a ela, sem o menor esforço, sem que ela tivesse pedido. 

Estranho, não é mesmo? — pensou Shirley. Como me sinto oprimida pelo  conforto. Por que será? 

Era exatamente isto que estava sentindo. Pressionada — uma pressão definida e  contínua. Como o peso da mochila quando fazia excursões. No começo tinha sido  imperceptível, mas aos poucos, insidiosamente, aquele peso nos ombros, impedindo-a  de mover-se, foi se fazendo sentir. Um fardo... 

— Eu realmente tenho muita imaginação — concluiu, correndo para casa.  O hall estava semi-iluminado. No andar de cima a voz de Laura, suave e  ligeiramente rouca. 

— É você, Shirley? 

— Sim, desculpe o atraso, Laura. 

— Não tem a menor importância. Temos macarrão ao gratin, que Ethel colocou  no forno. 

Laura Franklyn apareceu no alto da escada, uma moça frágil, com um rosto descolorido e profundos olhos castanhos que davam ao seu semblante um olhar trágico.  — Divertiu-se? — perguntou sorrindo, encaminhando-se para Shirley.  — Muito — respondeu Shirley. 

— Boa partida? 

— Mais ou menos. 

— Alguém de fora no clube? Ou só o pessoal de Bellbury? 

— O pessoal daqui mesmo. 

Engraçado que sempre que fazem perguntas a gente não quer responder. Afinal o  que custava dizer a verdade; e nada mais natural do que Laura perguntar se tinha se  divertido. 

Quando as pessoas gostam da gente querem saber de tudo... 

Será que faziam estas perguntas a Henry? Shirley tentou imaginar Henry em  casa, mas não conseguiu. Parecia impossível imaginá-lo numa casa... e mesmo assim ele  devia ter uma casa! 

Um quadro nebuloso formou-se em sua mente. Henry entrando numa sala onde a  mãe, uma loura platinada, recém-chegada do Sul da França, pintava os lábios de  vermelho vivo. 

— Alô, mamãe, já de volta? 

— Sim. E você, esteve jogando tênis? 

— Sim. 

Nenhuma curiosidade, quase nenhum interesse. Henry e a mãe quase  indiferentes em relação ao outro. 

— O que você está pensando, Shirley? — perguntou Laura, curiosa. — Está  falando sozinha? 

Shirley riu. 

— Estava fazendo uma conversa imaginária. 

Laura levantou as sobrancelhas delicadamente. 

— Você parecia muito contente. 

— No fundo, era uma grande bobagem. 

A boa Ethel apareceu na porta da sala de jantar. 

— O jantar está servido. 

— Preciso me lavar — gritou Shirley, correndo escada acima. 

Depois do jantar, quando se sentaram na sala de visitas para o café, Laura  resolveu abandonar um assunto que a preocupava.

— Chegaram os prospectos da escola de secretariado Santa Catarina. Ouvi dizer  que é uma das melhores. Que acha, Shirley? 

Como resposta Shirley fez uma careta. 

— Aprender taquigrafia e datilografia e arranjar um emprego? 

— Por que não? 

Shirley suspirou e em seguida deu uma risada. 

— Por que eu sou preguiçosa. Prefiro ficar em casa, sem fazer coisa alguma.  Meu amor, eu já estive na escola anos a fio, será que não posso descansar um pouco?  — Eu gostaria de que você se interessasse por alguma coisa — protestou Laura,  franzindo o cenho. 

— Sou um fracasso — disse Shirley; — só quero ficar em casa, imaginando as  mesadas que vou receber... 

Laura não respondeu; parecia preocupada. 

— Se fizer um curso nesta escola vai precisar morar em Londres. Poderia pagar  uma mensalidade e ficar com a prima Angela... 

— Com ela não, pelo amor de Deus! 

— Então com outra família qualquer. Numa pensão talvez? Mais tarde alugaria  um quarto ou um apartamento com uma amiga... 

— Por que não posso alugar um apartamento com você? — perguntou Shirley.  — Por que eu vou ficar aqui. 

— Ficar? Não vai para Londres comigo? — perguntou Shirley incrédula e  indignada. 

— Não quero prejudicá-la, meu bem. 

— Como, me prejudicar? 

— Tornando-me possessiva demais. 

— Como uma mãe que come os filhos? Laura, você não é possessiva!  — Espero que não — disse Laura, em tom de dúvida. — No fundo a gente se  conhece tão pouco... 

— Não creio que você deva se preocupar com isso... você não é o tipo  dominador... pelo menos comigo. Não me manda fazer isto ou aquilo e nem procura  dirigir minha vida. 

— Mas é exatamente isto que eu estou fazendo! Mandando você para uma  escola de secretariado em Londres que não está lhe interessando de modo algum.  As duas irmãs começaram a rir.

Laura endireitou as costas e esticou os braços. 

— Quatro dúzias — disse. 

Ela estava contando os molhos de ervilhas-de-cheiro. 

— Vamos conseguir um bom preço por ela no Trendle — continuou Laura. —  As ervilhas foram um sucesso o ano passado, Horden.

Horden, um homenzinho sujo e triste, resmungou sua concordância .  — Não estão mais este ano! 

Era um homem certo da sua posição, um jardineiro aposentado que conhecia a  profissão e quanto valiam todos aqueles anos de trabalho. Todos o chamavam para  trabalhar, mas Laura, por perseverança o tinha contratado, embora a Sra. Kindle, cujo  marido tinha enriquecido com armamentos, tivesse oferecido um salário bem mais alto.  Horden, no entanto, tinha preferido trabalhar com Laura, pois conhecera seus pais, um  casal muito distinto. Lembrava-se de Laura quando ainda era bem pequena, mas estas  não seriam razões suficientemente fortes para prendê-lo; a verdade é que ele gostava de  trabalhar para Laura, que não lhe dava folga, mas que, ao mesmo tempo, não abusava  dele; sabia apreciar um serviço bem feito, elogiar e admirar quando merecia. Ao mesmo  tempo não fazia economia de bebida, nem do chá com açúcar que andava racionado.  Hoje em dia, não era todo mundo que servia chá com tanta generosidade. Ela também  não se importava de ajudá-lo, adubando a terra e pegando na enxada. Laura tinha  sempre idéias novas — sempre de olho no futuro — planejando aqui e ali. Sempre  atenta às novas técnicas. Aqueles novos canteiros da horta, por exemplo, se não  fosse o entusiasmo dela, ele não teria tentado e no entanto, veja que surpresa com os  tomates! 

— Cinco horas — disse Laura, olhando para o relógio. — Já adiantamos bem o  serviço. 

Ela olhou em volta para os vasos e latas cheias de plantas que no dia seguinte  seriam levadas para a florista e para o verdureiro . 

— Dão um bom preço estes vegetais — disse Horden, satisfeito. — Quem diria!  — Mesmo assim, acho que devemos nos dedicar mais às flores. Há anos que não  temos tido flores e todo o mundo está plantando legumes. 

— É, as coisas mudaram muito. No tempo dos seus pais não se pensava em  plantar para vender no mercado. Lembro-me daqui quando tudo parecia um quadro e o

Sr. Webster era o chefe do jardim. Tudo acabou com aquele incêndio! Me admira que  não tenha destruído a casa! 

Laura assentiu com a cabeça e tirou o avental de borracha. As palavras de  Horden tinham trazido de volta o passado... “antes do incêndio...” 

O incêndio tinha sido o ponto crucial de sua vida. Antes, ela era uma figura vaga  — uma criança ciumenta e infeliz, carente de amor e atenção. 

Na noite do incêndio, surgira a nova Laura, cuja vida se tornara repentinamente  cheia. Do momento em que tinha lutado contra a fumaça e as chamas, carregando  Shirley no colo, a sua existência tinha adquirido um novo significado — tomar conta de  Shirley. 

Ela salvara a irmã da morte, Shirley lhe pertencia. Naquele instante duas figuras  preeminentes recolheram-se às sombras: os pais. A necessidade que sentira deles, até  então, diminuiu e apagou-se. Talvez ela nunca os tivesse amado, mas sim cobiçado. O  amor ela só sentira realmente pela pequena entidade de carne chamada Shirley, que  preenchera todas as lacunas e todas as necessidades. Laura não se importou mais  consigo mesma; seu único interesse passou a ser Shirley. 

Passou a tomar conta da irmã, protegê-la, cuidar para que os gatos não a  arranhassem; acordava no meio da noite para se certificar de que a casa não estava  pegando fogo; levava e trazia brinquedos, brincava com o bebê quando estava alegre,  cuidava dele se estava doente. 

Uma criança de onze anos não podia prever o futuro: os pais saíram de férias e  quando voltavam o avião explodiu nos ares... 

Nesta época Laura tinha quatorze anos e Shirley três. Elas não tinham parentes  próximos, a não ser a prima Angela, portanto; e foi Laura quem tomou todas as  decisões, medindo as conseqüências, formulando hipóteses e apresentando os problemas  com decisão indômita ao testamento (um velho advogado) e ao curador (o Sr. Baldock).  Laura quis sair da escola, viver em casa, e uma excelente ama foi contratada para tomar  conta de Shirley. A Srta. Weekes veio morar com elas, cuidando da educação de Laura e  tomando certas providências em casa. 

Como era uma ótima solução, prática e viável, só encontrou uma fraca oposição  em Baldock que não gostava dos métodos da Srta. Weekes e que temia que ela  transformasse Laura numa esnobe. Mas Laura não tinha dúvidas a respeito da Srta.  Weekes, pois sabia que a professora não iria mandar na casa. A pobre Srta. Weekes era  uma mulher intelectual, que adorava a matemática; não se interessava portanto por economia doméstica. 

O plano funcionara perfeitamente: Laura teve uma excelente educação, a Srta.  Weekes pôde usufruir de certas vantagens econômicas e qualquer dificuldade acadêmica  foi facilmente contornada por Laura para evitar que o Sr. Baldock entrasse em conflito  com a boa professora. As maiores decisões, como a escolha de novos empregados, a ida  de Shirley para o jardim-de-infância e depois para um colégio de freiras, embora  parecessem ser tomadas pela Srta. Weekes representavam a vontade de Laura. A  atmosfera da casa era portanto harmoniosa. Anos depois, Shirley foi mandada para um  ginásio, nesta altura Laura só tinha vinte e dois anos. 

Um ano após estourou a guerra e a rotina foi interrompida. A escola de Shirley  foi transferida, por questões de segurança, a Srta. Weekes foi para Londres trabalhar  num Ministério. A casa foi requisitada pelo Ministério da Aviação para alojar os  oficiais; Laura transferiu-se para a casa do jardineiro e empregou-se como fazendeira  numa propriedade vizinha, além de cultivar, em casa, uma pequena horta. 

Agora já fazia um ano que a guerra com a Alemanha terminara. Laura tentara,  com a saída abrupta do Ministério, reconduzir a casa ao seu antigo estado. Shirley tinha  acabado parte do curso e não queria ir para uma universidade. 

Não sou uma intelectual, protestava ela, e isto era confirmado pela diretora do  colégio em outros termos: — “Na verdade não acho que Shirley seja uma pessoa que se  beneficiará de uma educação universitária. É uma garota simpática e inteligente mas  não tem coisa alguma que ver com estudo!” 

Por isso Shirley voltara para casa. Ethel, que estivera numa fábrica durante a  guerra, acabou voltando também, não mais como encarregada da limpeza mas como  governanta. Laura continuou elaborando planos para a produção de flores e verduras. Se  quisessem ficar com a casa teriam que obter lucro do jardim e da horta. 

Estas imagens passadas desfilaram pela mente de Laura enquanto tirava o  avental e se dirigia para casa para se lavar. Sempre a figura central tinha sido Shirley.  Como bebê, engatinhando, murmurando para Laura numa linguagem  ininteligível o problema das suas bonecas; mais velha, voltando do jardim-de-infância,  relatando as aventuras com a professora e com Tommy, e Mary, o travesso Robin e  Peter e o que a professora fizera com ela... 

Uma outra Shirley voltara do ginásio, cheia de informação; as moças de que  gostava, as que detestava, o bom gênio da Srta. Geofrey, a professora de inglês, a  maldade da Srta. Andrews, a professora de matemática, as brigas com a professora de

francês. Shirley sempre se abrira com Laura. O relacionamento delas era estranho —  não pareciam irmãs, talvez por causa da diferença de idade que as separava; Laura  nunca precisou fazer perguntas, Shirley não parava de falar — Oh! Laura, tenho tanto  que lhe contar! E Laura ouviria, riria, comentaria, concordaria ou desaprovaria  conforme o caso. 

Agora que Shirley estava instalada em casa, para Laura parecia que nada havia  mudado. Todos os dias as conversas Sobre o que fizeram. Shirley tagarelando sobre  Robin Grant ou Edward Westbury; era uma moça tão afetuosa e espontânea que era  natural que falasse tanto. 

Mas ontem ao voltar do tênis ela falara pouco e mal respondera as perguntas de  Laura. A irmã mais velha ficara curiosa. Claro que Shirley estava crescendo, que um dia  teria sua própria vida, seus problemas. Era certo, era natural. O que Laura precisava  decidir é a forma de Shirley atingir esta maioridade. Suspirou, olhou para o relógio e  decidiu fazer uma visita ao Sr. Baldock.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS