domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 1 - Capítulo 05

Angela e Arthur Franklyn haviam saído. Gwyneth Jones, a nova babá, colocou o  bebê na cama, sentindo, àquela noite, uma estranha sensação. Ultimamente, vinha tendo  uns pressentimentos. .. 

— Estou imaginando coisas — murmurou baixinho. — Fantasias idiotas!  O médico havia-lhe garantido que não teria outro ataque. Quando era criança  tivera várias convulsões que pararam com a adolescência até aquele dia terrível...  Convulsões infantis, dissera uma tia. Mas o médico usou outro nome e disse  claramente como se chamava a doença. Além disso, recomendara firmemente que ela  não deveria se empregar como babá para não pôr em perigo a vida de uma criança.  Ela havia gasto muito dinheiro para se tornar uma ama competente. Era sua  profissão — o que ela sabia fazer — toda a sua vida. Tinha diplomas, adorava cuidar de  crianças e além do mais era uma profissão rendosa. Já se passara um ano e ela não  sentira coisa alguma; era besteira do médico assustá-la daquela maneira.  Resolveu escrever para a agência, uma outra agência, e conseguiu um novo  emprego naquela casa, tomando conta de uma criança adorável. Colocou o bebê na  cama e desceu para o jantar. 

Vou esquentar um pouco de leite, pensou. Talvez isso me acalme. 

Acendeu a espiriteira e colocou-a perto da janela. 

Não houve aviso algum. Ela caiu como uma pedra no chão, contorcendo-se em  convulsões. A espiriteira voou para o lado e a chama correu pelo tapete até incendiar a  cortina de musseline. 

Laura acordou sobressaltada. 

Tivera um pesadelo — embora não pudesse lembrar-se dos detalhes: alguma  coisa que a perseguia, mas agora estava tudo bem, ela estava em casa na sua cama.  Acendeu a luz do abajur, à beira da cama, e olhou para o relógio. Doze horas. Meia noite.

Sentou-se na cama, relutando em apagar a luz novamente. 

Ouviu um barulho estranho... estalos! 

Deviam ser ladrões, pensou Laura, que como todas as crianças, vivia apavorada  com medo de assaltos. Saltou da cama e abriu uma fresta da porta. Olhou para o  corredor, tudo quieto e escuro. 

Sentiu um estranho cheiro de fumaça. Aspirou profundamente dirigindo-se para  o hall e abrindo a porta de comunicação que dava para o quarto dos empregados. Nada.  Foi para o outro lado do corredor que dava para o quarto e para o banheiro da  irmã. 

Recuou apavorada. Uma grande espiral de fumaça envolveu-a. 

— Fogo! A casa está pegando fogo. 

Laura gritou, correndo para o quarto dos empregados. 

— Fogo! A casa está pegando fogo. 

Não conseguiu lembrar-se mais tarde do que aconteceu. A cozinheira e Ethel  descendo as escadas para telefonar. A cozinheira abrindo a porta de comunicação mas  não conseguindo entrar por causa da fumaça. 

— Não se preocupe — murmurou a cozinheira, tentando consolá-la. — Os  bombeiros vêm vindo... vão retirá-las pela janela... não se preocupe.  Mas Laura sabia que tinha que se preocupar. Estava apavorada com a idéia de  que sua prece tinha sido atendida. Deus agira com prontidão e com indescritível horror!  Era a maneira d'Ele, a terrível maneira d'Ele de levar o bebê para o Céu.  A cozinheira levou Laura para baixo. 

— Vamos Laura, não podemos ficar aqui. Precisamos sair desta casa.  Mas a ama e o bebê não podiam sair; estavam presos na casa. 

A cozinheira correu escada abaixo, empurrando Laura. Quando passaram pela  entrada, onde iam se encontrar com Ethel, a cozinheira soltou a mão de Laura e esta  imediatamente voltou e correu para o andar superior. 

Abriu a porta de comunicação e ouviu no meio da fumaceira um choro de  criança. Algo vibrou dentro de Laura: um calor, uma paixão: era uma emoção  incalculável... era o amor. 

Pensou com frieza e calma. Havia lido ou alguém lhe tinha dito que quando se  quer salvar alguém de um incêndio, deve-se molhar uma toalha e prendê-la na boca.  Laura correu para o quarto, molhou uma toalha numa bacia de água, enrolou o pano no  pescoço e mergulhou na fumaça. As labaredas devoravam a passagem, engolindo as madeiras do forro que tombavam num estrépito. 

Onde um adulto hesitaria passar, Laura, com o destemor natural de criança,  atravessou, determinada a salvar o bebê. Não podia abandonar o bebê; passou pelo  corpo desmaiado da babá, sem saber o que era. Tossindo, já quase sem fôlego, chegou  até o berço. O mosqueteiro havia protegido a criança da fumaça. Laura agarrou o bebê,  envolvendo-o na toalha molhada, tropeçando de volta para a saída quase sem ar. Mas  não podia mais voltar; as chamas obstruíam o caminho. 

Laura não perdeu a calma. Lembrou-se da porta para a lavanderia; encontrou-a e  subiu pelas escalas de madeira. Ela e Charles haviam brincado tantas vezes no forro da  casa. Se, ao menos, ela pudesse chegar até o telhado! 

Os bombeiros chegaram e duas mulheres gritavam ao mesmo tempo.  — O bebê, o bebê e a ama estão naquele quarto! 

O bombeiro apertou os lábios. Aquela parte da casa estava em chamas.  Não dá mais, pensou. Nunca conseguirei tirá-los com vida. 

— Todos os outros já saíram? — quis saber. 

— Onde está Laura? — perguntou a cozinheira, olhando em volta. — Ela saiu  comigo. Onde será que se meteu? 

— Ei, Joe — gritou um bombeiro, nesse momento. — Tem alguém no telhado,  do outro lado. Traga a escada. 

Um pouco depois desceram a carga — e a depositaram no gramado com  cuidado. Laura, irreconhecível, coberta de fuligem, com os braços escoriados,  semiconsciente, mas segurando firmemente nos braços um pequeno embrulho, que aos  gritos proclamava estar são e salvo. 

 — Se não fosse por Laura — Angela calou-se, tentando controlar suas emoções.  — Descobrimos toda a verdade sobre a babá. Era epiléptica e contrariou as ordens  médicas, empregando-se como ama. Deve ter deixado cair a espiriteira quando teve o  ataque. Sempre desconfiei dela, mas não podia saber por quê! 

— Coitada, pagou caro por isso — comentou Arthur. 

Angela, indômita no seu amor maternal, recusou-se a ter pena de Gwyneth  Jones. 

— E o bebê teria morrido queimado se não fosse por Laura.

— E Laura está bem? — perguntou Baldock. 

— Sim, foi só o choque, eu acho. Os braços ficaram um pouco queimados. O  médico disse que ela vai ficar boa. 

— Que bom — comentou o Sr. Baldock. 

— E você, insinuando que ela estivesse com ciúmes do bebê a ponto de cometer  uma loucura! Vocês solteirões são incorrigíveis. 

— Está bem, está bem — disse Baldock. — Mas não costumo me enganar.  Graças a Deus eu não estava com a razão desta vez. 

— Vá dar uma olhada nelas! 

O Sr. Baldock obedeceu. O bebê estava deitado num tapete, em frente à lareira,  dando uns pontapés no ar, e murmurando uns sons ininteligíveis. Ao seu lado, estava  Laura, com os braços envoltos em gaze; havia perdido os cílios, o que dava ao seu rosto  um ar infinitamente cômico; enquanto brincava com uns anéis coloridos, atraindo a  atenção da irmãzinha. Voltou-se para o Sr. Baldock.

— Alô, Laura — disse o Sr. Baldock. — Como vai? Ouvi dizer que você é uma  heroína. Que grande salvamento! 

Laura olhou paira Baldock e silenciosamente continuou seu jogo. 

— Como vão seus braços? 

— Doeram muito, mas agora eles botaram um remédio e não sinto nada.  — Você é estranha — disse o Sr. Baldock, acomodando-se numa poltrona. —  Um dia deseja que o gato asfixie sua irmã... sei que desejou... não adianta tentar me  enganar... e no dia seguinte está engatinhando pelo forro da Casa, salvando a criança,  pondo em perigo sua própria vida. 

— De qualquer maneira ela está salva — disse Laura. — Está ilesa,  completamente ilesa. Nunca vou deixar que aconteça coisa alguma com ela. Nunca —  disse, debruçando-se sobre a criança. — Vou protegê-la a vida inteira.  O Sr. Baldock ergueu a sobrancelha. 

— Agora é amor? Você gosta dela, não é? 

Laura voltou-se para o Sr. Baldock, que parecia espantado ao ver a  transformação no rosto de Laura, radiante de emoção; apesar do ar grotesco por falta  dos cílios e das sobrancelhas, a emoção tornava a menina bonita. 

— Compreendo — disse o Sr. Baldock —, compreendo... e agora como vai ser?  Laura pareceu espantada e apreensiva com a pergunta. 

— Não está certo? Não posso amá-la?

Baldock olhou para a menina pensativo. 

— Está certo para você, Laura, para você. 

Ele voltou-se para seus pensamentos, batendo com a mão no queixo. Como  historiador, sempre se preocupara com o passado, mas havia momentos em que a  incapacidade de prever o futuro, como agora, o irritava profundamente.  Olhou para Laura e para a sorridente Shirley, franzindo o cenho. 

Onde estarão daqui a dez, vinte ou vinte e cinco anos? pensou. Onde estarei eu?  A resposta lhe veio imediatamente. 

— Debaixo da terra — murmurou, para si mesmo. — Debaixo da terra.  Ele sabia disso, mas como qualquer outra pessoa cheia de vitalidade achava-se  imortal. Que entidade negra e misteriosa era o futuro? Que aconteceria em vinte anos?  Outra guerra, talvez (não era provável)? Novas doenças? Ou será que as pessoas  possuiriam aparelhos em volta do corpo que as permitissem voar, como uns anjos  hereges? Viagens a Marte? Alimentação em pílulas, em vez de suculentos bifes ou  legumes? 

— Em que está pensando? — perguntou Laura. 

— No futuro. 

— Amanhã? 

— Mais longe do que isso. Você já sabe ler, Laura? 

— Claro — respondeu Laura, indignada. — Já li vários livros infantis...  — Não precisa entrar em detalhes — disse o Sr. Baldock. — Como você  costuma ler um livro? Começa do princípio e vai até o fim? 

— Sim, e o senhor? 

— Não, eu dou uma olhada no começo, percebo do que se trata e passo para o  fim para ver a que conclusão o autor chegou. Depois volto para o meio para ver como  ele conseguiu chegar àquelas conclusões. É muito mais interessante.  Laura olhou com interesse, mas desaprovando o método. 

— Acho que o autor não gosta de ser lido dessa maneira. 

— Claro que não. 

— Acho que devemos ler como o autor escreveu! — insistiu Laura.  — Ah! — exclamou o Sr. Baldock —, mas você está esquecendo um detalhe. O  leitor! Ele também tem seus direitos. O autor escreve o livro como quer, faz o que bem  entende, troca pontuação... mexe no sentido como bem entende... enquanto o leitor lê o  livro como quer ler. E o autor não tem nada com isso.

— Parece que o senhor está descrevendo uma batalha — comentou Laura.  — Gosto de batalhas — disse Baldock. — Para dizer a verdade vivemos  escravizados pelo Tempo. A seqüência cronológica não tem significação alguma se  considerarmos a Eternidade. Podemos pular pelo Tempo como desejamos, pois ninguém  toma conhecimento da Eternidade. 

Laura desinteressou-se pela Eternidade. Estava preocupada com Shirley. Ao ver  o ar de dedicação de Laura para com a irmã, o Sr. Baldock sentiu-se novamente  ligeiramente apreensivo. 

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