Angela e Arthur Franklyn haviam saído. Gwyneth Jones, a nova
babá, colocou o bebê na cama, sentindo,
àquela noite, uma estranha sensação. Ultimamente, vinha tendo uns pressentimentos. ..
— Estou imaginando coisas — murmurou baixinho. — Fantasias
idiotas! O médico havia-lhe garantido
que não teria outro ataque. Quando era criança
tivera várias convulsões que pararam com a adolescência até aquele dia
terrível... Convulsões infantis, dissera
uma tia. Mas o médico usou outro nome e disse
claramente como se chamava a doença. Além disso, recomendara firmemente que
ela não deveria se empregar como babá
para não pôr em perigo a vida de uma criança.
Ela havia gasto muito dinheiro para se tornar uma ama competente. Era
sua profissão — o que ela sabia fazer —
toda a sua vida. Tinha diplomas, adorava cuidar de crianças e além do mais era uma profissão
rendosa. Já se passara um ano e ela não
sentira coisa alguma; era besteira do médico assustá-la daquela
maneira. Resolveu escrever para a
agência, uma outra agência, e conseguiu um novo
emprego naquela casa, tomando conta de uma criança adorável. Colocou o
bebê na cama e desceu para o jantar.
Vou esquentar um pouco de leite, pensou. Talvez isso me
acalme.
Acendeu a espiriteira e colocou-a perto da janela.
Não houve aviso algum. Ela caiu como uma pedra no chão,
contorcendo-se em convulsões. A
espiriteira voou para o lado e a chama correu pelo tapete até incendiar a cortina de musseline.
Laura acordou sobressaltada.
Tivera um pesadelo — embora não pudesse lembrar-se dos
detalhes: alguma coisa que a perseguia,
mas agora estava tudo bem, ela estava em casa na sua cama. Acendeu a luz do abajur, à beira da cama, e
olhou para o relógio. Doze horas. Meia noite.
Sentou-se na cama, relutando em apagar a luz novamente.
Ouviu um barulho estranho... estalos!
Deviam ser ladrões, pensou Laura, que como todas as
crianças, vivia apavorada com medo de
assaltos. Saltou da cama e abriu uma fresta da porta. Olhou para o corredor, tudo quieto e escuro.
Sentiu um estranho cheiro de fumaça. Aspirou profundamente
dirigindo-se para o hall e abrindo a
porta de comunicação que dava para o quarto dos empregados. Nada. Foi para o outro lado do corredor que dava
para o quarto e para o banheiro da
irmã.
Recuou apavorada. Uma grande espiral de fumaça
envolveu-a.
— Fogo! A casa está pegando fogo.
Laura gritou, correndo para o quarto dos empregados.
— Fogo! A casa está pegando fogo.
Não conseguiu lembrar-se mais tarde do que aconteceu. A
cozinheira e Ethel descendo as escadas
para telefonar. A cozinheira abrindo a porta de comunicação mas não conseguindo entrar por causa da
fumaça.
— Não se preocupe — murmurou a cozinheira, tentando
consolá-la. — Os bombeiros vêm vindo...
vão retirá-las pela janela... não se preocupe.
Mas Laura sabia que tinha que se preocupar. Estava apavorada com a idéia
de que sua prece tinha sido atendida.
Deus agira com prontidão e com indescritível horror! Era a maneira d'Ele, a terrível maneira d'Ele
de levar o bebê para o Céu. A cozinheira
levou Laura para baixo.
— Vamos Laura, não podemos ficar aqui. Precisamos sair desta
casa. Mas a ama e o bebê não podiam sair;
estavam presos na casa.
A cozinheira correu escada abaixo, empurrando Laura. Quando
passaram pela entrada, onde iam se
encontrar com Ethel, a cozinheira soltou a mão de Laura e esta imediatamente voltou e correu para o andar
superior.
Abriu a porta de comunicação e ouviu no meio da fumaceira um
choro de criança. Algo vibrou dentro de
Laura: um calor, uma paixão: era uma emoção
incalculável... era o amor.
Pensou com frieza e calma. Havia lido ou alguém lhe tinha dito que quando se quer salvar alguém de um incêndio, deve-se molhar uma toalha e prendê-la na boca. Laura correu para o quarto, molhou uma toalha numa bacia de água, enrolou o pano no pescoço e mergulhou na fumaça. As labaredas devoravam a passagem, engolindo as madeiras do forro que tombavam num estrépito.
Onde um adulto hesitaria passar, Laura, com o destemor
natural de criança, atravessou,
determinada a salvar o bebê. Não podia abandonar o bebê; passou pelo corpo desmaiado da babá, sem saber o que era.
Tossindo, já quase sem fôlego, chegou
até o berço. O mosqueteiro havia protegido a criança da fumaça. Laura
agarrou o bebê, envolvendo-o na toalha
molhada, tropeçando de volta para a saída quase sem ar. Mas não podia mais voltar; as chamas obstruíam o
caminho.
Laura não perdeu a calma. Lembrou-se da porta para a
lavanderia; encontrou-a e subiu pelas
escalas de madeira. Ela e Charles haviam brincado tantas vezes no forro da casa. Se, ao menos, ela pudesse chegar até o
telhado!
Os bombeiros chegaram e duas mulheres gritavam ao mesmo
tempo. — O bebê, o bebê e a ama estão
naquele quarto!
O bombeiro apertou os lábios. Aquela parte da casa estava em
chamas. Não dá mais, pensou. Nunca
conseguirei tirá-los com vida.
— Todos os outros já saíram? — quis saber.
— Onde está Laura? — perguntou a cozinheira, olhando em
volta. — Ela saiu comigo. Onde será que
se meteu?
— Ei, Joe — gritou um bombeiro, nesse momento. — Tem alguém
no telhado, do outro lado. Traga a
escada.
Um pouco depois desceram a carga — e a depositaram no
gramado com cuidado. Laura,
irreconhecível, coberta de fuligem, com os braços escoriados, semiconsciente, mas segurando firmemente nos
braços um pequeno embrulho, que aos
gritos proclamava estar são e salvo.
— Coitada, pagou caro por isso — comentou Arthur.
Angela, indômita no seu amor maternal, recusou-se a ter pena
de Gwyneth Jones.
— E o bebê teria morrido queimado se não fosse por Laura.
— E Laura está bem? — perguntou Baldock.
— Sim, foi só o choque, eu acho. Os braços ficaram um pouco
queimados. O médico disse que ela vai
ficar boa.
— Que bom — comentou o Sr. Baldock.
— E você, insinuando que ela estivesse com ciúmes do bebê a
ponto de cometer uma loucura! Vocês
solteirões são incorrigíveis.
— Está bem, está bem — disse Baldock. — Mas não costumo me
enganar. Graças a Deus eu não estava com
a razão desta vez.
— Vá dar uma olhada nelas!
O Sr. Baldock obedeceu. O bebê estava deitado num tapete, em
frente à lareira, dando uns pontapés no
ar, e murmurando uns sons ininteligíveis. Ao seu lado, estava Laura, com os braços envoltos em gaze; havia
perdido os cílios, o que dava ao seu rosto
um ar infinitamente cômico; enquanto brincava com uns anéis coloridos,
atraindo a atenção da irmãzinha.
Voltou-se para o Sr. Baldock.
— Alô, Laura — disse o Sr. Baldock. — Como vai? Ouvi dizer
que você é uma heroína. Que grande
salvamento!
Laura olhou paira Baldock e silenciosamente continuou seu
jogo.
— Como vão seus braços?
— Doeram muito, mas agora eles botaram um remédio e não
sinto nada. — Você é estranha — disse o
Sr. Baldock, acomodando-se numa poltrona. —
Um dia deseja que o gato asfixie sua irmã... sei que desejou... não
adianta tentar me enganar... e no dia
seguinte está engatinhando pelo forro da Casa, salvando a criança, pondo em perigo sua própria vida.
— De qualquer maneira ela está salva — disse Laura. — Está
ilesa, completamente ilesa. Nunca vou
deixar que aconteça coisa alguma com ela. Nunca — disse, debruçando-se sobre a criança. — Vou
protegê-la a vida inteira. O Sr. Baldock
ergueu a sobrancelha.
— Agora é amor? Você gosta dela, não é?
Laura voltou-se para o Sr. Baldock, que parecia espantado ao
ver a transformação no rosto de Laura,
radiante de emoção; apesar do ar grotesco por falta dos cílios e das sobrancelhas, a emoção tornava
a menina bonita.
— Compreendo — disse o Sr. Baldock —, compreendo... e agora
como vai ser? Laura pareceu espantada e
apreensiva com a pergunta.
— Não está certo? Não posso amá-la?
Baldock olhou para a menina pensativo.
— Está certo para você, Laura, para você.
Ele voltou-se para seus pensamentos, batendo com a mão no
queixo. Como historiador, sempre se
preocupara com o passado, mas havia momentos em que a incapacidade de prever o futuro, como agora,
o irritava profundamente. Olhou para Laura
e para a sorridente Shirley, franzindo o cenho.
Onde estarão daqui a dez, vinte ou vinte e cinco anos?
pensou. Onde estarei eu? A resposta lhe
veio imediatamente.
— Debaixo da terra — murmurou, para si mesmo. — Debaixo da
terra. Ele sabia disso, mas como
qualquer outra pessoa cheia de vitalidade achava-se imortal. Que entidade negra e misteriosa era
o futuro? Que aconteceria em vinte anos?
Outra guerra, talvez (não era provável)? Novas doenças? Ou será que as
pessoas possuiriam aparelhos em volta do
corpo que as permitissem voar, como uns anjos
hereges? Viagens a Marte? Alimentação em pílulas, em vez de suculentos
bifes ou legumes?
— Em que está pensando? — perguntou Laura.
— No futuro.
— Amanhã?
— Mais longe do que isso. Você já sabe ler, Laura?
— Claro — respondeu Laura, indignada. — Já li vários livros
infantis... — Não precisa entrar em
detalhes — disse o Sr. Baldock. — Como você
costuma ler um livro? Começa do princípio e vai até o fim?
— Sim, e o senhor?
— Não, eu dou uma olhada no começo, percebo do que se trata
e passo para o fim para ver a que
conclusão o autor chegou. Depois volto para o meio para ver como ele conseguiu chegar àquelas conclusões. É
muito mais interessante. Laura olhou com
interesse, mas desaprovando o método.
— Acho que o autor não gosta de ser lido dessa maneira.
— Claro que não.
— Acho que devemos ler como o autor escreveu! — insistiu
Laura. — Ah! — exclamou o Sr. Baldock —,
mas você está esquecendo um detalhe. O
leitor! Ele também tem seus direitos. O autor escreve o livro como quer,
faz o que bem entende, troca
pontuação... mexe no sentido como bem entende... enquanto o leitor lê o livro como quer ler. E o autor não tem nada
com isso.
— Parece que o senhor está descrevendo uma batalha —
comentou Laura. — Gosto de batalhas —
disse Baldock. — Para dizer a verdade vivemos
escravizados pelo Tempo. A seqüência cronológica não tem significação
alguma se considerarmos a Eternidade.
Podemos pular pelo Tempo como desejamos, pois ninguém toma conhecimento da Eternidade.
Laura desinteressou-se pela Eternidade. Estava preocupada com Shirley. Ao ver o ar de dedicação de Laura para com a irmã, o Sr. Baldock sentiu-se novamente ligeiramente apreensivo.

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