domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 2 - Capítulo 06 fim


 O problema, pensou Shirley, é que agente acaba se cansando. 

Encostou-se no assento do metrô. 

Três anos atrás ela desconhecia o que fosse o cansaço. Talvez a mudança para  Londres fosse a causa; começara num emprego de meio expediente, mas acabara tendo  de trabalhar o dia inteiro, numa loja de flores. Depois do trabalho tinha que fazer as  compras, voltar para casa, na hora do rush, fazer o jantar. Se bem que Henry gostasse  dos pratos que ela preparava. 

Fechou os olhos um momento. Sentiu um forte pisão no pé. Abriu os olhos,  pensando: — Meu Deus, como estou cansada! Recordou os três anos e meio de casada...  A felicidade completa... 

As contas... 

Sonia Cleghorn... 

A derrota de Sonia Cleghorn, Henry arrependido, amando-a novamente...  Mais dificuldades financeiras... 

Muriel vindo em socorro... 

Umas férias caras e desnecessárias em Cannes... 

A Sra. Emlyn Blake... 

A libertação de Henry dos tentáculos da Sra. Emlyn Blake... 

Henry agradecido e penitente... 

Bertha, a madrinha, vindo, em socorro... 

A Srta. Lonsdale... 

Problemas financeiros... 

Ainda a Srta. Lonsdale... 

Laura... 

Escondendo a verdade de Laura... 

Laura descobrindo tudo... 

Briga com Laura... 

Apendicite. Operação. Convalescença... 

Volta para casa... 

Fase final da Srta. Lonsdale...

Shirley recordou com detalhes o último item: estava descansando no  apartamento, o terceiro que havia alugado desde que casara, mobiliado por imposição  dos credores, no sistema de aluguel. 

A campainha tinha tocado e ela sentiu-se muito fraca para abrir a porta. Quem  quer que fosse acabaria desistindo. No entanto, a campainha continuava tocando.  Acabou levantando-se furiosa. Abriu a porta e viu-se diante da Srta. Lonsdale.  — Ah! É você, Sue. 

— Sim.Posso entrar? 

— Para dizer a verdade estou exausta. Acabei de chegar do hospital.  — Eu sei, Henry me falou. Pobrezinha! Trouxe umas flores para você.  Shirley apanhou o buquê sem se dar o trabalho de agradecer. 

— Entre — disse. 

Deitou-se no sofá com os pés para o alto. Susan pegou ama cadeira.  — Enquanto você estava no hospital eu não quis preocupá-la, mas agora acho  que está na hora de acertarmos os ponteiros. 

— Como assim? 

— Bem... Henry. 

— Que tem Henry? 

— Meu bem, você não vai dar uma de avestruz, vai? Enterrar a cabeça na areia?  — Não creio. 

— Você sabe, então, que eu e Henry estamos apaixonados... 

— Teria que ser cega, surda para não perceber — disse Shirley, friamente.  — É claro. Além do mais, Henry adora você. Não quer fazer coisa alguma que  possa magoá-la. É isto. 

— É isto o quê? 

— Estou me referindo ao divórcio. 

— Henry quer um divórcio? 

— Sim. 

— E por que ele não me disse? 

— Você conhece Henry. Não quer se comprometer e além do mais não quer  preocupá-la. 

— Mas vocês dois querem se casar? 

— Sim. Que bom que você entendeu logo. 

— Eu entendi muito bem — disse Shirley vagarosamente.

— Você então fala com ele? 

— Falo. 

— Que bom. No fim, eu acho... 

— Agora vá embora — disse Shirley. — Acabei de sair do hospital e estou  cansada. Vá embora... já! 

— Ora, veja! — exclamou Susan, levantando-se indignada. — Ao menos  podemos tentar parecer gente civilizada. 

Retirou-se batendo a porta. 

Shirley ficou quieta. Uma lágrima escorreu pelo rosto, mas ela a enxugou  furiosa. 

Três anos e meio, pensou, três anos e meio, para chegarmos a isso!  Sem conseguir se conter começou a rir. Estava se comportando como uma  heroína de um melodrama barato. 

Não sabia se tinha ouvido a chave na porta cinco minutos ou horas depois; devia  ter adormecido. 

Ele entrou sorridente e feliz como de costume, trazendo uma enorme braçada de  rosas amarelas. 

— Para você, meu amor. 

— Que lindas! — exclamou Shirley. — Acabei de ganhar umas violetas meio  murchas e amareladas. 

— Quem mandou? 

— Não foram mandadas, foram trazidas por Susan Lonsdale. 

— Que impertinência! 

Shirley olhou para ele espantada. 

— Porque ela veio aqui? — perguntou Henry. 

— Você não sabe? 

— Creio que sim. Esta moça está se tornando uma maçada. 

— Ela veio comunicar que você quer o divórcio. 

— Que eu quero me divorciar? 

— Sim. Não é verdade? 

— Claro que não. 

— Você não quer casar com Susan? 

— De maneira alguma. 

— Pois ela quer casar com você.

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