Encostou-se no assento do metrô.
Três anos atrás ela desconhecia o que fosse o cansaço.
Talvez a mudança para Londres fosse a
causa; começara num emprego de meio expediente, mas acabara tendo de trabalhar o dia inteiro, numa loja de
flores. Depois do trabalho tinha que fazer as
compras, voltar para casa, na hora do rush, fazer o jantar. Se bem que
Henry gostasse dos pratos que ela
preparava.
Fechou os olhos um momento. Sentiu um forte pisão no pé.
Abriu os olhos, pensando: — Meu Deus,
como estou cansada! Recordou os três anos e meio de casada... A felicidade completa...
As contas...
Sonia Cleghorn...
A derrota de Sonia Cleghorn, Henry arrependido, amando-a
novamente... Mais dificuldades
financeiras...
Muriel vindo em socorro...
Umas férias caras e desnecessárias em Cannes...
A Sra. Emlyn Blake...
A libertação de Henry dos tentáculos da Sra. Emlyn
Blake...
Henry agradecido e penitente...
Bertha, a madrinha, vindo, em socorro...
A Srta. Lonsdale...
Problemas financeiros...
Ainda a Srta. Lonsdale...
Laura...
Escondendo a verdade de Laura...
Laura descobrindo tudo...
Briga com Laura...
Apendicite. Operação. Convalescença...
Volta para casa...
Fase final da Srta. Lonsdale...
Shirley recordou com detalhes o último item: estava
descansando no apartamento, o terceiro
que havia alugado desde que casara, mobiliado por imposição dos credores, no sistema de aluguel.
A campainha tinha tocado e ela sentiu-se muito fraca para
abrir a porta. Quem quer que fosse
acabaria desistindo. No entanto, a campainha continuava tocando. Acabou levantando-se furiosa. Abriu a porta e
viu-se diante da Srta. Lonsdale. — Ah! É
você, Sue.
— Sim.Posso entrar?
— Para dizer a verdade estou exausta. Acabei de chegar do
hospital. — Eu sei, Henry me falou.
Pobrezinha! Trouxe umas flores para você.
Shirley apanhou o buquê sem se dar o trabalho de agradecer.
— Entre — disse.
Deitou-se no sofá com os pés para o alto. Susan pegou ama
cadeira. — Enquanto você estava no
hospital eu não quis preocupá-la, mas agora acho que está na hora de acertarmos os ponteiros.
— Como assim?
— Bem... Henry.
— Que tem Henry?
— Meu bem, você não vai dar uma de avestruz, vai? Enterrar a
cabeça na areia? — Não creio.
— Você sabe, então, que eu e Henry estamos
apaixonados...
— Teria que ser cega, surda para não perceber — disse
Shirley, friamente. — É claro. Além do
mais, Henry adora você. Não quer fazer coisa alguma que possa magoá-la. É isto.
— É isto o quê?
— Estou me referindo ao divórcio.
— Henry quer um divórcio?
— Sim.
— E por que ele não me disse?
— Você conhece Henry. Não quer se comprometer e além do mais
não quer preocupá-la.
— Mas vocês dois querem se casar?
— Sim. Que bom que você entendeu logo.
— Eu entendi muito bem — disse Shirley vagarosamente.
— Você então fala com ele?
— Falo.
— Que bom. No fim, eu acho...
— Agora vá embora — disse Shirley. — Acabei de sair do
hospital e estou cansada. Vá embora...
já!
— Ora, veja! — exclamou Susan, levantando-se indignada. — Ao
menos podemos tentar parecer gente
civilizada.
Retirou-se batendo a porta.
Shirley ficou quieta. Uma lágrima escorreu pelo rosto, mas
ela a enxugou furiosa.
Três anos e meio, pensou, três anos e meio, para chegarmos a
isso! Sem conseguir se conter começou a
rir. Estava se comportando como uma
heroína de um melodrama barato.
Não sabia se tinha ouvido a chave na porta cinco minutos ou
horas depois; devia ter adormecido.
Ele entrou sorridente e feliz como de costume, trazendo uma
enorme braçada de rosas amarelas.
— Para você, meu amor.
— Que lindas! — exclamou Shirley. — Acabei de ganhar umas
violetas meio murchas e amareladas.
— Quem mandou?
— Não foram mandadas, foram trazidas por Susan
Lonsdale.
— Que impertinência!
Shirley olhou para ele espantada.
— Porque ela veio aqui? — perguntou Henry.
— Você não sabe?
— Creio que sim. Esta moça está se tornando uma maçada.
— Ela veio comunicar que você quer o divórcio.
— Que eu quero me divorciar?
— Sim. Não é verdade?
— Claro que não.
— Você não quer casar com Susan?
— De maneira alguma.
— Pois ela quer casar com você.

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