domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 15 e 16


 Talvez aquele papel dobrado em quatro o I pudesse salvar. Fabien desdobrou-o, cerrando os dentes.

"Impossível manter comunicação com Buenos Aires. Já nem sequer posso manipular, pois saltam-me faíscas aos dedos."

Fabien, irritado, quis responder, mas quando as suas mãos largaram as alavancas de comando para escrever, sentiu-se levado por uma espécie de onda fortíssima: os redemoinhos levantavam-no, nas suas cinco toneladas de metal, e sacudiam-no. Desistiu de escrever. As suas mãos prenderam de novo a onda e fizeram-na desaparecer.

Fabien respirou profundamente. Se o telegrafista recolhesse a antena, com medo da tempestade, Fabien partir-lhe-ia a cara, à chegada. Era preciso, a todo custo, pôr-se em contacto com Buenos Aires, como se, a mais de mil e quinhentos quilômetros de distância, fosse possível lançar-lhes um cabo neste abismo. Não conseguindo vislumbrar qualquer luz tremula, uma lanterna de pousada quase inútil, mas que teria provado, como um farol, a existência da terra, necessitava pelo menos de uma voz, uma só, vinda dum mundo que já quase não existia. O piloto ergueu e agitou o punho naquela luz avermelhada, para que o outro lá atrás compreendesse essa trágica verdade, mas o companheiro, debruçado sobre o espaço devastado, com as cidades soterradas, as luzes mortas, não a entendeu.

Fabien teria seguido todos os conselhos, contanto que lhe fossem gritados. Pensava: "E se me dizem para andar à roda, ando à roda, e se me dizem para voar direito ao sul. . ." Existia em qualquer lado as terras de paz, suaves sob grandes manchas de luar. Lá longe, os seus camaradas, instruídos como sábios, debruçados sobre mapas, todo-poderosos, ao abrigo de candeeiros belos como flores, sabem onde essas terras existem. E ele que sabia, fora dos redemoinhos e da noite que lançava contra ele, com a rapidez duma derrocada, a sua lava negra? Não se podia abandonar dois homens no meio das nuvens, à mercê das rajadas e das chamas, Não se podia fazer uma coisa dessas. Se ordenassem a Fabien: "Governe a duzentos e quarenta. . .", ele governaria a duzentos e quarenta. Mas estava só.

Pareceu-lhe que a matéria também se revoltava. A cada mergulho, o motor vibrava tão fortemente que toda a massa do avião se punha a tremer, como se se enchesse de cólera. Fabien ia perdendo as forças, tentando dominar o avião, a cabeça metida na carlinga, o olhar fixo no horizonte giroscópico, pois, lá fora, ele já não conseguia distinguir a massa do céu da terra, e seguia perdido numa escuridão onde tudo se misturava, uma escuridão de começo dos mundos. Mas as agulhas dos indicadores de posição oscilavam cada vez mais, tornava-se difícil segui-las. Já o piloto, que elas enganavam, lutava dificilmente; perdia altitude, deixando-se atolar naquela sombra. Verificou a altura a que voava: "quinhentos metros", altura do nível das colinas. Sentiu as suas vagas vertiginosas lançarem-se contra ele. Percebia também que todas as massas do solo, e a menor esmagá-lo-ia, eram como que arrancadas do seu suporte, desparafusadas, e começavam a girar, ébrias, à sua volta. Havia ao seu redor uma espécie de dança profunda, cujo cerco cada vez mais se apertava.

Tomou uma resolução. Correndo o risco de espatifar-se, aterraria fosse onde fosse. E para evitar ao menos as colinas, lançou o seu único foguete luminoso. O foguete inflamou-se, rodopiou, iluminou uma superfície plana e nela se apagou: era o mar.

Pensou rapidamente: "Perdido. Quarenta graus de correção, apesar de tudo, desviei me. È um ciclone. Para que lado fica a terra?" Seguiria direito a oeste. Pensou: "Sem foguete, agora vou morrer". Isto tinha de suceder um dia. E o seu camarada, ali, atrás.. . "Com certeza já recolheu a antena." Mas já não lhe queria mal por isso. Se ele próprio abrisse simplesmente as mãos, a vida de ambos desapareceria logo, como uma leve poeira. Tinha nas suas mãos o bater do coração do seu companheiro e o de seu próprio coração. E de súbito suas mãos assustaram-no.

No meio daqueles redemoinhos que desfechavam golpes de aríete, a fim de amortecer as sacudidelas do volante, que de outro modo despedaçariam os cabos das alavancas de comando, agarrara-se com ambas as mãos a esse volante. E assim continuava. E eis que deixara de sentir as mãos que o esforço adormecera. Quis mexer os dedos para experimentar: não percebeu se eles lhe obedeciam. Era qualquer coisa de estranho que terminava os seus braços. Umas bexigas insensíveis e moles. Pensou: "Tenho de me convencer fortemente de que estou a apertar". Não percebeu se o pensamento atingia as mãos. E como as sacudidelas do volante só se sentiam nos ombros doloridos, pensou: "O volante vai escapar. Às minhas mãos vão abrir-se. . ." Mas assustou-se por se permitir tais palavras, pois pareceu-lhe que desta vez as mãos obedeciam à obscura força da imagem e se abriam lentamente na escuridão, para entregá-lo.

Poderia ainda lutar, tentar a sua sorte: a fatalidade exterior não existe. Mas há uma fatalidade interior: há um momento em que nos sentimos vulneráveis; então, como uma vertigem, os erros atraem-nos.

E foi num momento destes que sobre a sua cabeça brilharam, num rasgão da tempestade, como uma isca morta e no fundo duma armadilha, algumas estrelas. Ele pensou de fato que era uma cilada: vêem-se três estrelas num buraco, sobe-se ao seu encontro, depois já não se pode descer e lá se fica mordendo as estrelas. . .

Mas a sua fome de luz era tal que Fabien subiu.

Subiu, fazendo diminuir os balanços, graças à indicação das estrelas. O seu ímã pálido atraía-o. Sofrera tanto em busca duma luz, que já não largaria mesmo a mais confusa. Sentindo-se afortunado com aquele pobre clarão, seria capaz de dar voltas, até cair morto, em torno daquele sinal de que andava faminto. E ei-lo subindo até os campos de luz.

Elevava-se pouco a pouco, em espiral, num poço que se abrira e se fechava, debaixo dele. E à medida que subia, as nuvens iam perdendo a sua cor escura de lama, passavam a seu lado como vagas cada vez mais puras e brancas. Fabien emergiu.

Foi imensa a sua surpresa, a claridade era tal que o ofuscava. Teve de fechar os olhos durante alguns segundos. Nunca imaginara que de noite as nuvens pudessem ofuscar. Mas a lua cheia e todas as constelações transformavam-nas em vagas deslumbrantes.

Dum só golpe, no mesmo instante em que emergia, o avião recuperou a calma, uma calma que parecia extraordinária. Nenhuma onda o fazia inclinar-se. Como um barco que transpõe o dique, entrava em águas reservadas. Encontrava-se num canto do céu ignorado e escondido, como a baía das ilhas bem-aventuradas. Abaixo dele, a tempestade constituía um outro mundo de três mil metros de espessura, percorrido por rajadas, por trombas d’água, por relâmpagos, mas oferecia aos astros uma face de cristal e neve.

Fabien tinha a sensação de ter chegado a limbos estranhos, pois tudo se tornava luminoso: as suas mãos, o seu vestuário, as suas asas. Porque a luz não descia dos astros, mas emanava, embaixo, à sua volta, daquelas imensas massas brancas.

Aquelas nuvens, abaixo dele, refletiam toda a neve que recebiam da lua. E também as da direita e da esquerda, altas como castelos. Corria um leite de luz, em que a tripulação se banhava. Voltando-se, Fabien viu que o telegrafista sorria.

— Isto vai melhor! — exclamava ele.

Mas a voz perdia-se no ruído do voo, só os sorrisos se transmitiam. "Estar a sorrir é pura loucura, pensou Fabien, estamos perdidos."

Contudo, mil braços obscuros tinham-no largado. Tinham-se quebrado as cadeias, como as de um prisioneiro que deixam caminhar só, por um instante, entre flores. "Belo demais", pensava Fabien. Vagueava no meio de estrelas amontoadas como um tesouro, num mundo onde nada mais, absolutamente nada mais, a não ser ele e o seu companheiro, tinha vida. Semelhantes a esses ladrões das cidades fabulosas enclausurados na sala dos tesouros, donde nunca mais conseguirão sair. Por entre pedrarias gélidas, Fabien e o companheiro vagueiam, imensamente ricos, mas condenados.

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