domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 17 ao 19

Um dos radiotelegrafistas de Commodoro Rivadavia, escala de Patagônia, teve um gesto brusco e todos os que no posto, impotentes, estavam de quarto, se agruparam à volta desse homem, inclinando-se.

Inclinavam-se sobre um papel completamente em branco e fortemente iluminado. A mão do operador hesitava ainda e o lápis tremia. A mão do operador mantinha ainda prisioneiras as letras, mas já os dedos tremiam.

— Temporais?

O telegrafista disse que "sim" com a cabeça. O seu crepitar impedia-o de compreender. Depois alinhou alguns sinais indecifráveis. Depois palavras. Por fim pôde-se restabelecer o texto:

"Bloqueados, acima da tempestade, a três mil e oitocentos metros. Navegamos para o interior em direção oeste, pois deriváramos para o mar. Por baixo está tudo fechado. Ignoramos se ainda sobrevoamos o mar. Informem se tempestade se estende para o interior".

Para transmitir este telegrama a Buenos Aires, foi preciso, por causa dos temporais, formar cadeia de posto para posto. A mensagem avançava, na noite, como um fogo que se acende de torre em torre.

Buenos Aires mandou responder : "Tempestade geral no interior. Quanto lhes resta de gasolina?"

"Uma meia hora."

E esta frase, de vigia em vigia, chegou até Buenos Aires.

A tripulação estava condenada a afundar-se, no espaço de trinta minutos, no ciclone que a arrastaria até ao solo.

E Rivière medita. Já não tem esperança: aquela tripulação perder-se-á em qualquer ponto, na noite.

Rivière recordava uma visão que lhe ficou da infância: esvaziavam um tanque para encontrar um corpo. Também não se encontrará nada até que a massa de sombra abandone a terra, até que voltem à luz essas areias, esses campos, esses trigais. Rudes camponeses encontrarão talvez duas crianças, o braço tapando o rosto, e parecendo dormir, caídas na erva, sobre um fundo dourado e calmo. Mas a noite as terá afogado.

Rivière sonha com os tesouros escondidos nas profundezas da noite, como em mares fabulosos. As macieiras de noite aguardam o dia com todas as suas flores, flores que não servem ainda. A noite é rica, cheia de perfumes, de cordeiros adormecidos e de flores ainda incolores.

Pouco a pouco, surgirão na manha os campos fartos, os bosques orvalhados, os frescos silvados. Mas no meio das colinas, agora inofensivas, e dos prados e dos cordeiros, naquela bela ordenação da terra, duas crianças parecerão dormir. E qualquer coisa terá fugido do mundo visível para o outro.

Rivière sabe como a mulher de Fabien é inquieta e terna: aquele amor foi-lhe apenas emprestado, como um brinquedo a uma criança pobre.

Rivière imagina a mão de Fabien, que durante alguns minutos ainda segurará o seu destino nas alavancas de comando. Aquela mão que acariciou. Aquela mão que pousou sobre um seio, fazendo surgir um tumulto, como uma mão divina. Aquela mão que pousou sobre um rosto e que transformou esse rosto. Aquela mão que era milagrosa.

Fabien vagueia por cima do esplendor dum mar de nuvens à noite, porém, mais abaixo, é a eternidade. Está perdido no meio de constelações onde só ele habita. Aperta ainda o mundo com as mãos e embala-o contra o seu peito. Segura, no seu volante, o peso da riqueza humana e carrega desesperado, duma estrela para outra, o inútil tesouro, que terá de devolver à força. . .

Rivière supõe que um posto de rádio ainda o escuta. Só uma onda musical, uma modulação menor liga ainda Fabien ao mundo. Não uma queixa. Não um grito. Mas o som mais puro que o desespero jamais criou.

Robineau veio arrancá-lo à sua solidão:

— Sr. Diretor, eu pensei. .. podia-se talvez tentar…

Não tinha nada a propor, mas testemunhava assim a sua boa vontade. Gostaria tanto de encontrar uma solução e procurava-a como quem procura a chave de uma charada. Encontrava sempre soluções que Rivière nunca escutava: "Você percebe, Robineau, na vida não há soluções. Há forças em movimento: é preciso criá-las e as soluções sobrevêm". Por isso Robineau limitava o seu papel à criação duma força em movimento, que impedia a ferrugem de atacar os eixos de hélice.

Mas os acontecimentos desta noite apanhavam Robineau desarmado. O seu título de inspetor não tinha qualquer poder sobre os temporais, nem sobre uma tripulação fantasma, que verdadeiramente já não se debatia para ganhar um premio de regularidade, mas sim para escapar a uma única sanção, que anulava as de Robineau: a morte.

E Robineau, agora inútil, vagueava sem préstimo pelos escritórios.

A mulher de Fabien fez-se anunciar. Levada pela inquietação, aguardava, no escritório dos secretários, que Rivière a recebesse. Os secretários, às ocultas, observavam o seu rosto. Sentia uma espécie de vergonha que a fazia olhar medrosamente à volta: ali tudo a repudiava. Estes homens que continuavam a trabalhar, como se espezinhassem um corpo, estes processos

onde a vida humana, o sofrimento humano só deixavam um resto de frios algarismos. Ela procurava sinais que lhe falassem de Fabien. Em sua casa tudo indicava esta ausência: a cama entreaberta, o café na mesa, um vaso com flores. Não descobria sinal algum. Tudo se opunha à piedade, à amizade, à recordação. A única frase que ouviu, pois ninguém levantava a voz na sua presença, foi uma imprecação proferida por um empregado que reclamava um registro: "…O registro de dínamos, santo Deus!, que nós expedimos para Santos". Ergueu os olhos para esse homem com uma expressão de infinito espanto. Depois olhou para a parede donde pendia um mapa. Os seus lábios tremiam um pouco, quase imperceptivelmente.

Ela percebia, com embaraço, que exprimia ali uma verdade inimiga, quase lamentava ter vindo, teria desejado esconder-se e, temendo fazer-se demasiado notada, continha-se para não tossir ou chorar. Achava-se insólita, inconveniente, como se estivesse nua. Mas a verdade dela era tão forte que os olhares fugitivos voltavam, às ocultas, infatigavelmente, para descobri–la no seu rosto. Esta mulher era muito bela. Revelava aos homens o mundo sagrado da felicidade. Revelava em que matéria sublime tocamos, sem o saber, quando agimos. Sob tantos olhares a mulher fechou os olhos. Ela revelava a paz imensa que, sem saber, podemos destruir.

Rivière recebeu-a.

Ela vinha timidamente fazer a defesa das suas flores, do seu café na mesa, da sua carne jovem. De novo, naquele escritório mais frio ainda, os seus lábios começaram a tremer levemente. Ela também descobria que neste mundo diferente a sua própria verdade era inexprimível. Tudo o que sentia em si de amor quase selvagem — de tal modo era fervoroso — de dedicação, parecia-lhe tomar ali um ar importuno, egoísta. Desejou poder desaparecer: — Venho incomodá-lo.. .

— Não, minha senhora — disse-lhe Rivière — não me incomoda. Infelizmente, tanto a senhora como eu, o mais que podemos fazer é esperar.

Ela encolheu os ombros, quase imperceptivelmente, mas Rivière compreendeu o sentido daquele gesto: "Para que servem a lâmpada, a ceia na mesa, as flores que voltarei a encontrar. . ." Uma jovem mãe confessara um dia a Rivière: "A morte do meu filho, ainda não a compreendi bem. O que me faz sofrer são as pequenas coisas, a sua roupinha que encontro por acaso e, se acordo de noite, aquela ternura que apesar de tudo se apodera do meu coração e é agora inútil, como o meu leite…" Para aquela mulher também a morte de Fabien iria apenas começar amanhã, em cada ato daí em diante vão, em cada objeto. Fabien deixaria lentamente a sua casa. Rivière abafava uma profunda compaixão.

A mulher ia-se embora, com um sorriso quase humilde, ignorante da sua própria força. Rivière sentou-se, um pouco cansado.

"Mas ela ajudou-me a descobrir o que eu procurava..

Batia levemente com as pontas dos dedos nos telegramas de proteção das escalas Norte. Sonhava.

Nos não pedimos para ser eternos, mas apenas para não ver os atos e as coisas perderem subitamente o seu sentido. O vazio que nos rodeia faz-se então sentir…" O seu olhar pousou nos telegramas: "E eis por onde a morte entra aqui: estas mensagens que já não fazem sentido…"

Olhou para Robineau. Aquele homem medíocre, agora inútil, já não fazia sentido. Rivière disse-lhe quase em tom áspero:

— Será preciso que eu próprio lhe dê trabalho?

Depois Rivière empurrou a porta que dava para a sala dos secretários e o desaparecimento de Fabien saltou-lhe aos olhos, bem evidente, em sinais que a senhora Fabien não soubera ver. A ficha do R. B. 903, o avião de Fabien, figurava já, no quadro mural, na coluna do material indisponível. Os secretários que preparavam os papéis do correio da Europa, sabendo que este partiria com atraso, trabalhavam mal. Pediam do campo, pelo telefone, ordens para as equipes que agora velavam sem objetivo. As funções de vida tinham-se afrouxado. "A morte, ei-la", pensou Rivière. A sua obra parecia um veleiro parado, sem vento, no mar.

Ouviu a voz de Robineau:

— Sr. Diretor. . . eles estavam casados há seis semanas…

— Vá trabalhar.

Rivière continuava a olhar para os secretários e, por detrás deles, os serventes, os mecânicos, os pilotos, todos aqueles que o tinham ajudado na sua obra, com uma fé de apaixonados. Pensou nas pequenas cidades de antigamente que, ouvindo falar das "Ilhas", construíam o seu navio. Para o carregar com a sua esperança. Para que os homens pudessem ver a sua esperança enfunar as velas sobre o mar. Todos engrandecidos, todos arrancados de si próprios, todos libertos por um navio. "O objetivo talvez não justifique nada, mas a ação liberta da morte. Era um navio que fazia prolongar a vida desses homens."

E Rivière também terá lutado, contra a morte, quando tiver dado aos telegramas o seu verdadeiro sentido, às equipes de vigia e a sua inquietação e aos pilotos, o seu sentido dramático. Quando a vida reanimar esta obra, como o vento reanima um veleiro do mar. 

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS