domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 20 e 21

Commodoro Rivadavia já não ouve nada, mas, vinte minutos mais tarde, a mil quilômetros de distância, Bahia Blanca capta uma segunda mensagem.

"Descemos. Entramos nas nuvens…"

Depois estas duas palavras dum texto obscuro apareceram no posto de Trelew : "… ver nada…"

As ondas curtas são assim. Captam-se ali, mas aqui se fica surdo. Depois, sem razão, as coisas mudam. Aquela tripulação, cuja posição permanece desconhecida, já se manifesta, aos vivos, fora do espaço, fora do tempo e nas folhas brancas dos postos de rádio já são fantasmas que escrevem.

Ter-se-á acabado a gasolina ou é o piloto que, antes da pane, joga a sua última cartada: chegar ao solo sem se esmagar?

A voz de Buenos Aires ordena a Trelew:

"Perguntem-lho".

O posto de escuta de T. S. F. parece-se com um laboratório: níquel, cobre e manômetros, rede de condutores. Os operadores de avental branco, silenciosos, parecem entregues a uma experiência.

Os seus dedos delicados afloram os instrumentos, exploram o céu magnético, pesquisadores buscando o filão de ouro.

"Não respondem?"

"Não respondem."

Vão talvez apanhar aquela nota que seria um sinal de vida. Se o avião e as suas luzes de bordo subirem de novo até às estrelas, eles talvez ouçam o canto daquela estrela… Os segundos correm. Correm verdadeiramente como sangue. Estarão ainda voando? Cada segundo faz surgir uma probabilidade. .E eis que o tempo que passa parece destruir. Do mesmo modo que, durante vinte séculos, o tempo se apossa dum templo, abre o seu caminho no granito e o desfaz em pó, vinte séculos de desgaste concentram-se em cada segundo e ameaçam uma tripulação.

Cada segundo leva consigo qualquer coisa.

A voz de Fabien, o riso de Fabien, o sorriso. O silêncio vai ganhando terreno. Um silêncio cada vez mais pesado que cai sobre a tripulação como o peso dum mar. Então alguém faz notar : — Uma hora e quarenta. Último limite da gasolina: é impossível que voem ainda.

E a paz desceu.

Como ao cabo das viagens, vem à boca um travo amargo e enjoativo. Cumpriu-se qualquer coisa, de que se ignora tudo, qualquer coisa repulsiva. E no meio dos tubos de níquel e destas artérias de cobre, sente-se a mesma tristeza que reina nas fábricas arrumadas. Todo este material parece pesado, inútil, fora de uso: um peso de ramos secos. Resta apenas esperar o dia.

Dentro de algumas horas a Argentina inteira vai surgir à luz do dia e aqueles homens lá ficarão, como se estivessem na praia, olhando para a rede que puxamos, puxamos lentamente, sem sabermos o que trará.

No seu escritório, Rivière sente uma calma que só é possível por ocasião dos grandes desastres, no momento em que a fatalidade liberta o homem. Ele pôs.em estado de alarma todas as autoridades duma província. Já não pode fazer mais nada, é preciso esperar.

Mas a ordem deve reinar mesmo na casa dos mortos. Rivière faz sinal a Robineau : — Telegrama para as escalas Norte: "Prevemos grande atraso do correio da Patagônia. Para não atrasar demais correio da Europa, juntaremos correio da Patagônia ao próximo correio

da Europa".

Inclina-se um pouco para a frente. Mas lembra-se de qualquer coisa, era importante. Ah! sim. E para não esquecê-la.

— Robineau.

— Sr. Rivière?

— O senhor redigirá uma ordem. Os pilotos ficam proibidos de ultrapassar mil e novecentas rotações: estão a dar-me cabo dos motores.

— Está bem, Sr. Rivière.

Rivière inclinou-se um pouco mais. Sente necessidade, sobretudo, de estar só: — Vá, Robineau. Pode ir, meu amigo….

E Robineau assusta-se com esta igualdade perante sombras.

Robineau vagueava agora, melancólico, pelos escritórios. A vida da Companhia parara, visto que aquele correio, previsto para as duas horas, seria anulado e só partiria de dia. Os empregados, os rostos sisudos, continuavam de vigília, mas tudo era inútil. Continuava-se a receber, num ritmo regular, as mensagens de proteção das escalas Norte, mas os seus "céus limpos", as suas "lua cheia", e os seus "vento nulo" sugeriam a imagem dum reino estéril. Um deserto de luar e pedras. Ao folhear, sem aliás saber por quê, um processo em que estava trabalhando o chefe do escritório, Robineau deu por este, de pé, à sua frente, esperando com um respeito insolente que ele lhe devolvesse os documentos. O seu ar dizia: "Quando quiser, não é verdade? isso é meu. . ." Essa atitude dum inferior chocou o inspetor, mas não encontrou réplica alguma e, irritado, estendeu-lhe o processo. O chefe de escritório voltou ao seu lugar com um ar de grande altivez. "Devia tê-lo mandado passear", pensou

Robineau. Então, para não perder a linha, deu uns passos, pensando no drama. Aquele desastre implicaria o descrédito duma política e Robineau chorava um duplo luto. Depois surgiu-lhe a imagem dum Rivière, ali fechado no seu gabinete e que lhe tinha dito: "Meu amigo…" Nunca homem algum estivera a tal ponto falto de apoio. Robineau teve uma grande pena dele. Perpassaram-lhe pela cabeça várias frases obscuramente destinadas a lastimar, a consolar. Animou-o um sentimento que lhe pareceu duma grande beleza. Então foi bater mansamente à porta. Não obteve resposta. Não se atreveu a bater com mais força e empurrou a porta. Rivière lá estava. Pela primeira vez, Robineau entrava no gabinete de Rivière, quase como um igual, um pouco como um amigo, um pouco, pensava ele, como o sargento que se junta, sob a metralha, ao general ferido e o acompanha na derrota e se torna seu companheiro de exílio. "Estou a seu lado, aconteça o que acontecer", parecia querer dizer Robineau.

Rivière permanecia calado e, de cabeça caída, olhava para as mãos. E Robineau, de pé à sua frente, já não se atrevia a falar. Mesmo abatido, o leão intimidava-o. Robineau buscava palavras cada vez mais tocadas de dedicação, mas cada vez que levantava os olhos, dava com aquela cabeça inclinada a três quartos, aqueles cabelos grisalhos, aqueles lábios que fechavam tanta amargura. Por fim decidiu-se : — Sr. Diretor. ..

Rivière ergueu a cabeça e olhou para ele. Despertava de um sonho tão profundo, tão distante que talvez nem tivesse dado ainda pela presença de Robineau. E ninguém soube nunca qual foi o seu sonho, nem o que ele sentia, nem a imensidão do luto que cobria a sua alma. Rivière fixou Robineau durante muito tempo, como se esse fosse a testemunha viva de qualquer coisa. Robineau sentiu-se embaraçado. Quanto mais Rivière olhava para Robineau, mais aflorava aos seus lábios uma expressão de ironia incompreensível. Quanto mais Rivière olhava para Robineau, mais este corava. E mais parecia a Rivière que Robineau tinha vindo ali testemunhar, com uma boa vontade enternecedora e uma espontaneidade infeliz, a estupidez dos homens.

Robineau sentia-se perturbado. Nem o sargento, nem o general, nem a metralha podiam agora ser para ali chamados. Passava-se algo de inexplicável. Rivière continuava a olhar para ele. Então Robineau, sem querer, corrigiu um pouco a sua atitude, retirou a mão da algibeira esquerda. Rivière continuava a olhar para ele. Então, finalmente Robineau com um infinito embaraço e sem saber por quê, disse :

— Vim para receber as suas ordens.

Rivière puxou o relógio e disse simplesmente :

— São duas horas. O correio de Asunción aterrará às duas e dez. Mande decolar o correio da Europa às duas horas e um quarto.

E Robineau espalhou a espantosa notícia: não se suspendiam os voos noturnos. E Robineau dirigiu-se ao chefe de escritório:

— Traga-me esse processo para que eu o verifique.

E quando o chefe de escritório parou em frente dele :

— Espere.

E o chefe de escritório esperou. 

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS