domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 22 e 23 fim


 O correio de Asunción anunciou que ia aterrar.

Mesmo nas horas mais difíceis, Rivière tinha seguido, telegrama a telegrama, a sua marcha feliz. No meio da confusão, aquele voo representava para ele a desforra da sua fé, a prova. Aquele voo feliz anunciava, pelos seus telegramas, mil outros voos igualmente felizes. "Não há ciclones todas as noites." Rivière pensava ainda: "Uma vez o caminho traçado, já não se pode deixar de segui-lo!"

Vindo do Paraguai, de escala em escala, como dum adorável jardim cheio de flores, de casas baixas e de águas mansas o avião vogava à beira dum ciclone que não lhe escondia uma única estrela. Nove passageiros, aconchegados nas suas mantas de viagem, encostavam a testa à janela, como uma vitrina cheia de jóias, pois as pequenas cidades da Argentina já desfiavam, na noite, todo o seu ouro, sob o ouro mais pálido das cidades de estrelas. O piloto, à frente, sustinha com as mãos aquele precioso carregamento de vidas humanas, com os olhos bem abertos e cheios de luar, como os de um pastor. Buenos Aires já abrasava o horizonte com o seu fogo suave e em breve cintilaria como um tesouro fabuloso. O telegrafista fazia partir com os seus dedos ágeis os últimos telegramas, como os acordes finais duma sonata que tivesse dedilhado, alegremente, no céu e de que Rivière compreendia a melodia; depois recolheu a antena, espreguiçou-se um pouco bocejou e sorriu: "Chegamos".

Ao aterrar, o piloto encontrou o seu camarada do correio da Europa encostado ao seu avião, de mãos nos bolsos.

— É você que continua?

— Sou.

— O avião da Patagônia já chegou?

— Não o esperamos: desapareceu. Está bom tempo?

— Esplêndido. Fabien desapareceu?

Trocaram poucas palavras a esse respeito.

Uma grande fraternidade dispensava-os das frases.

Fazia-se o transbordo para o avião da Europa dos sacos em trânsito de Asunción e o piloto, sempre imóvel, a cabeça inclinada para trás, a nuca encostada à carlinga, olhava as estrelas.

Sentia nascer um imenso poder e foi tomado por uma forte alegria.

— Carregado? — disse uma voz. — Então

podem ligar.

O piloto não se mexeu. Punham o seu motor em marcha. Sentiria em breve nas suas espáduas, encostadas ao avião, o aparelho viver. O piloto tranquilizava-se finalmente, após tantas falsas notícias: partirá. . . não partirá. . . partirá! Os seus lábios entreabriram-se e os dentes brilharam sob o luar como os de um jovem felino.

— Cuidado com a noite, hein!

Não escutou o conselho do seu camarada. De mãos nos bolsos, a cabeça inclinada, voltado para as nuvens, montanhas, rios e mares, fora tomado por um riso silencioso. Um riso frouxo, mas que passava através dele, como a brisa passa pela folhagem das árvores, e o fazia estremecer vivamente dos pés à cabeça. Um riso frouxo, mas muito mais forte do que as nuvens, as montanhas, os rios e os mares.

— O que é que você tem?

— Aquele idiota do Rivière que me.. . que julga que eu tenho medo!

Dentro dum minuto o avião sobrevoará Buenos Aires e Rivière, que volta à luta, quer ouvi-lo. Quer ouvi-lo nascer, troar e desvanecer-se como o passo formidável de um exército em marcha nas estrelas.

Rivière, de braços cruzados, passa por entre os secretários. Em frente duma janela aberta, pára, escuta e sonha.

Se tivesse suspendido uma única partida, a causa dos voos noturnos estaria perdida. Mas, antecipando-se aos fracos, que amanha o reprovarão, Rivière largou, na noite, outra tripulação.

Vitória. . . derrota… estas palavras não têm sentido algum. A vida está por debaixo dessas imagens e já prepara novas imagens. Uma vitória enfraquece um povo, uma derrota acorda outro. A derrota que Rivière sofreu é talvez uma promessa que torna mais próxima a verdadeira vitória. Só o conhecimento em marcha é que conta.

Dentro de cinco minutos os postos de T.S.F. terão dado o sinal de alerta às escalas. Numa área de mil e quinhentos quilômetros o frêmito da vida resolverá todos os problemas. Já se eleva um canto de órgão: o avião.

E Rivière, em passos lentos, volta ao seu trabalho, no meio dos secretários que o seu olhar duro faz curvar. Rivière, o Grande, Rivière, o Vitorioso, carregando a sua pesada vitória.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS