domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 1 - Capítulo 1

Prólogo

Como ainda era outubro não haviam, ainda, ligado a calefação e por isso a igreja estava fria. Fora, o sol prometia calor e alegria, mas dentro das geladas paredes cinza só se sentia umidade e a chegada próxima do inverno.

Laura estava entre a ama magnífica, no seu uniforme de rendas e babados, e do reverendo Henson, o pároco. O vigário-geral estava acamado, com uma forte gripe. O Sr. Henson era jovem e magro, com um enorme pomo-de-adão, uma voz alta e nasal.

A Sra. Franklyn, frágil e bela, apoiava-se no braço do marido que, ao seu lado apresentava-se sério e imponente. O nascimento da segunda filha não fora consolo bastante para compensar a morte do primogênito Charles. Ele desejara um filho... e ainda por cima o médico dissera que não poderiam mais ter outros filhos.

O Sr. Franklyn voltou os olhos para Laura e em seguida para o bebê aninhado nos braços da governanta.

Duas filhas... era verdade que Laura era uma boa menina, uma criança adorável e que a recém-nascida era sadia e forte, mas mesmo assim, ele preferiria que tivesse sido um filho!

Charles! Charles! Com os cabelos louros, o balanço da cabeça quando ria, o sorriso encantador, a beleza, a inteligência; enfim, um menino excepcional. Se tivesse que perder um filho poderiam ter levado Laura.

Os olhos do pai encontraram-se com os da filha — grandes e trágicos olhos  cravados num rosto pálido — e Franklyn ruborizou-se envergonhado. Como poderia  desejar uma coisa destas?, pensou, ele que adorava Laura. Mas, mas... ela não era  Charles.

Apoiando-se no marido, com os olhos semicerrados, Angela Franklyn  murmurava:

— Meu filho... meu lindo filho... meu querido... não posso me conformar. Por  que não foi Laura em seu lugar?

Ela não sentiu culpa pelo que disse; era mais voluntariosa, mais honesta do que o  marido, mais primitiva como pessoa. Para ela, uma filha nunca poderia significar o  mesmo que o primogênito. Comparada a Charles, Laura era um verdadeiro anticlímax:  uma criança quieta, obediente, mas sem... sem? Personalidade.

— Ninguém poderia tomar o lugar de Charles, pensou Angela Franklyn.

Sentiu o marido apertar seu braço; abriu os olhos e concentrou a atenção na  cerimônia. Que voz irritante tem o Sr. Henson!

Angela olhou com certa indulgência para o bebê nos braços da ama — palavras tão pomposas para um tico de gente!

A criança, que dormitava, piscou os olhinhos cor do céu — os olhos de Charles  — e riu satisfeita.

— O sorriso de Charles — pensou Angela. Uma onda de calor maternal fremiu seu âmago. Sua filha, sua linda filha. Pela primeira vez desde a morte de Charles pensou na criança. Olhou para Laura e cismou: — Que será que esta menina está pensando?

— Tão quietinha — pensou a ama, olhando para Laura. — Quieta demais para meu gosto. Não é normal uma criança ser tão bem comportada. Talvez porque não liguem para ela... Será que é por isso?

O reverendo Eustace Henson via chegar o momento que mais temia. Não estava acostumado a batizar, se ao menos o vigário tivesse vindo! Olhou com prazer para Laura, que assistia à cerimônia com seriedade. Que menina boa! Em que será que ela está pensando? Ainda bem que nem ele, nem Angela, nem Arthur Franklyn sabiam.

Não era justo.

Não, não era justo.

A mãe gostava do bebê tanto quanto de Charles.

— Não, não era justo.

Ela odiava o bebê... odiava, odiava, odiava! Queria que a criança morresse! Parada em frente à pia batismal, repetia para si mesma, baixinho:

— Queria que ela morresse!

Sentiu um leve toque no ombro. Era a ama lhe dando a criança.

— Cuidado, segure-a bem — murmurou a ama, — e passe-a ao pastor. — Eu sei — sussurrou Laura. 

O bebê estava no seu colo.

— E se eu abrisse os braços e a deixasse cair... neste chão de pedras. Será que  ela morreria? — pensou Laura.

Nas pedras, negras e frias — mas o bebês viviam tão agasalhados. — Será que  eu teria coragem? — pensou.

Hesitou um momento e entregou a criança aos braços nervosos do reverendo que  não possuía a prática do vigário e que repetia os nomes de Shirley, Margaret, Evelyn... a

água borrifou a testa da criança que, em vez de chorar, riu de prazer. Canhestramente o reverendo beijou a testa da criança, pois este era o hábito do  vigário. Com alívio devolveu a criança à ama.

O batizado estava encerrado.

Capítulo Um

  Sob o manto da calma aninhava-se na criança um ressentimento crescente.  Desde a morte de Charles tinha ela esperanças... 

Ela que sofrera tanto com a morte dele, pois o adorava, passou a nutrir  esperanças. É claro que com Charles perto, lindo, alegre, travesso, os pais tinham que  amá-lo. Laura achava que eles tinham razão, ela sempre fora quieta, sem graça, a típica  segunda filha não desejada que viera logo após o nascimento do primogênito. Os pais  eram bons com ela, carinhoso até, mas só amavam verdadeiramente Charles. 

— Laura é um encanto — disse, um dia, a Sra. Franklyn, para uma visita. —  Mas é tão sem graça. . . 

Ela aceitara a justiça deste julgamento com a honestidade dos desesperançados.  Era uma criança sem graça, pequena, pálida, de cabelos lisos; não dizia coisas  engraçadas como Charles. Era boa, obediente, não dava trabalho; enfim era, e sempre  seria, uma pessoa insignificante. 

— Mamãe gosta mais de Charles do que de mim — murmurou ela, um dia, para  a ama. 

— Não diga bobagens — retrucou a ama, — e não seja injusta! Sua mãe gosta  tanto de um quanto do outro... ela é como todas as mães, gosta igualmente dos filhos.  — As gatas não são assim — disse Laura, lembrando-se dos gatinhos recém nascidos. 

— Os gatos são animais — disse a ama. — E de qualquer maneira lembre-se de  que Deus ama você — acrescentou, minimizando a simplicidade da sua assertiva.  Laura aceitou mais esta verdade, acreditando que, no fundo, talvez Deus  gostasse mais de Charles do que dela. Afinal ele era muito mais bonito!  — Além do mais — pensou Laura — eu posso gostar de mim, mais do que  Charles, mamãe e papai juntos! 

Foi então que Laura se tornou mais pálida, mais silenciosa, mais bem  comportada, o que fazia até a ama sentir-se mal e comentar com a arrumadeira que tinha  medo de que Deus levasse a menina mais cedo para o Céu.

Mas foi Charles quem morreu e não Laura. 

— Por que não arranja um cachorro para esta menina? — perguntou o Sr.  Baldock, amigo e confidente do pai de Laura. 

Arthur Franklyn pareceu surpreso com a pergunta, ainda mais, porque estavam  discutindo calorosamente as conseqüências da Reforma na política inglesa.  — Que menina? — perguntou, surpreso. 

O Sr. Baldock apontou com a cabeça para Laura, que se balançava  silenciosamente no parque. 

— Ora, para quê? — perguntou o Sr. Franklyn. — Os cachorros só dão trabalho,  com as patas eternamente enlameadas em cima dos tapetes e das poltronas.  — Um cachorro — explicou o Sr. Baldock, no tom de conferencista, que  conseguia irritar qualquer ouvinte, — possui uma extraordinária capacidade de levantar  o ego de um homem. Para um cachorro, o dono é um deus idolatrado, e no atual estado  de decadência em que vivemos, não só idolatrado como também amado. Possuir um  cachorro faz com que as pessoas se sintam importantes, poderosas.  — Hum — sussurrou o Sr. Franklyn, — e isso é bom? 

— Nem sempre — retrucou Baldock — mas eu tenho uma fraqueza na vida!  Gosto de ver as pessoas felizes. Gostaria de ver Laura feliz! 

— Ela é feliz. E além do mais já tem um gatinho. 

— Bah! — exclamou Baldock, — não é a mesma coisa. Se você se desse ao  trabalho de pensar um pouco, veria que não é a mesma coisa. É seu mal, você não usa a  cabeça para pensar. Veja por exemplo suas teorias sobre a Reforma. Acha que... 

Voltaram a discutir com vigor e, como sempre, o Sr. Baldock aproveitou para  fazer as declarações mais descabidas, disparatadas e absurdas. 

Mas um sentimento um tanto incômodo se apossou da mente de Arthur.  À noite, ao entrar no quarto da mulher, que se vestia para o jantar, ele resolveu  abordar o assunto. 

— Laura vai bem? Bem disposta, feliz etc... não vai? 

A mulher voltou os olhos azuis, da cor dos olhos de Charles, para o marido,  espantada. 

— Querido! É claro que vai. Laura está sempre bem. Nunca tem ataques

histéricos, como outras crianças, não me dá o mínimo trabalho. É uma santa!  Ela fechou o clipe do colar de pérolas, em volta do pescoço. 

— Por quê? — perguntou ela, depois de uma ligeira pausa. — Por que esta  súbita preocupação com Laura? 

— Por causa de Baldy, ele foi quem perguntou — respondeu Franklyn.  — Ora, Baldy! — a Sr. Franklyn sorriu. — Você sabe como ele é! Gosta de  agitação... 

Uns dias depois, quando acabavam de almoçar e a Sra. Franklyn se retirava da  mesa com os convidados, entre eles, o Sr. Baldock, encontraram com a ama no  corredor. 

— Não há nada de errado com Laura, não é mesmo? — perguntou Angela  Franklyn, bem alto e deliberadamente. — Ela anda bem e está muito feliz, não é?  — Sim, senhora — respondeu a ama, espantada com a súbita curiosidade da Sra.  Franklyn. — É uma menina de ouro, que não me dá o menor trabalho. Completamente  diferente de Charles. 

— Ah! Por que Charles lhe dá trabalho? — perguntou o Sr. Baldock.  — É como todos os meninos — respondeu a ama, voltando-se para Baldock,  com um tom de deferência na voz. — Mas vai muito bem, também. Daqui a pouco vai  para o colégio. Por enquanto comporta-se como todos os meninos da sua idade. Come  doces demais, o que lhe prejudica a digestão. 

Sorrindo com indulgência a ama se retirou. 

— Ela adora Charles — disse Angela Franklyn, enquanto entravam na sala de  visitas: 

— Isto é óbvio — começou Baldock, — sempre achei as mulheres umas tolas —  acrescentou pensativo. 

— Mas a ama não é uma tola, antes pelo contrário! 

— Eu não estava pensando nela. 

— Em quem estava pensando então? — perguntou a Sra. Franklyn com uma  rispidez calculada, pois afinal de Baldy, por ser excêntrico e crítico, podia-se esperar  qualquer comentário. 

— Estava pensando em escrever um livro sobre os segundos filhos — respondeu  Baldock. 

— É mesmo? Não vai me dizer que é a favor dos filhos únicos? Pensei que todo  o mundo fosse contrário a isso, por todos os pontos de vista!

— Não, pelo contrário, vejo até certas vantagens numa família com dez filhos, se  souberem educar estas crianças, responsabilizando-as pelas obrigações da casa, pelo  cuidado com os irmãos menores etc. Todos como peças na engrenagem familiar, úteis à  sociedade, não fingindo ser úteis! Hoje em dia, dividimos as crianças em grupos de  idade! A isto chamam educação! 

— Você e suas teorias — replicou Angela, sorrindo, — E qual é sua teoria sobre  os segundos filhos? 

— O problema do segundo filho — respondeu Baldock, em tom didático, — é  que é sempre um anticlímax. O primogênito é uma aventura, assustadora, dolorosa,  onde a mãe pensa que vai morrer e o marido (como Arthur aqui presente) pensa também  que vai ficar viúvo. Quando a criança nasce e começa a gritar, os pais justificam este  filho pelo trabalho que ele deu! E aí, às vezes pouco tempo depois, surge o segundo  filho... dando todo aquele trabalho... mas causando menos apreensão, menos medo e  muito mais aborrecimento! Enfim, chega a criança que também é nossa mas não é mais  novidade, e como não deu tanto trabalho não é tão maravilhosa. 

Angela deu de ombros. 

— Os homens solteiros sabem tudo — murmurou com ironia. — Esta regra se  aplica ao terceiro e ao quarto filho? 

— Não — respondeu Baldock. — Notei que sempre existe um intervalo maior  até a chegada do número três. Este filho é conseqüência da independização crescente  dos dois irmãos mais velhos. Seria tão bom termos um bebê novamente! Que idéia!  Umas criaturinhas nojentas, orientadas somente pelo instinto! Por isso continuam  copulando e tendo filhos, mas nunca mais terão a mesma emoção do primeiro filho. 

— O que você diz é muito injusto. 

— Eu sei. Mas a própria vida é injusta. 

— Que se pode fazer, então? 

— Nada. 

— Ora, Baldy... então por que estamos aqui discutindo? 

— É como eu disse a Arthur outro dia, sou um moleirão. Gosto de ver as pessoas  felizes, compensá-las pelo que lhes falta, reparar certas arestas. Por que senão o fizerem  poderão ter sérios problemas...

— Como Baldy fala besteiras! — comentou Angela, com o marido, assim que os  convidados se retiraram. 

— Ele é um dos maiores estudiosos do país! — retrucou Franklyn, piscando o  olho. 

— Eu sei — disse Angela com desprezo. — Adoraria ouvi-lo falar sobre os  gregos, os romanos e até sobre os elisabetanos. O que não suporto são as preleções  sobre pedagogia... 

— Um assunto em que ele é absolutamente leigo — concordou o marido. —  Imagine que ele sugeriu que nós déssemos um cachorro para Laura!  — Um cachorro? Mas ela já tem um gato! 

— Segundo ele, não é a mesma coisa. 

— Que estranho! Ainda mais ele que não suporta cachorros. 

— É verdade. 

— Quem deveria ter um cachorro é Charles. Outro dia, ele ficou apavorado  quando os cachorrinhos da paróquia correram atrás dele. Se tivesse um já estaria  acostumado. Devia também aprender a montar. Se ele tivesse um pônei...  — Isso não é possível — respondeu Franklyn com ar definitivo . 

Na cozinha, a arrumadeira comentava com a cozinheira. 

— O velho Baldock notou também... 

— Notou o quê? 

— Que a menina Laura não vai durar muito! Até perguntaram a ama como ela  ia... Ah! Aquele olhar, aquela falta de maldade... tão diferente de Charles! Ouça bem o  que digo, Laura não vai viver muito tempo... 

E no entanto foi Charles quem morreu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS