Charles morreu de paralisia infantil; os dois outros colegas
de escola, atacados pela doença,
conseguiram escapar, Para Angela
Franklyn, que não possuía boa saúde, o golpe foi tão rude que quase morreu. Charles era o Céu e a Terra para ela;
passava os dias no quarto, olhando para o
teto, incapaz até de chorar. O marido, a filha e os criados andavam pé
ante pé, pela casa, para não
incomodá-la. Finalmente o médico da família aconselhou Franklyn a levá-la para o exterior.
— Uma mudança completa de ar e de paisagem. Temos que
estimulá-la. Uma região de ar puro... a
Suíça talvez...
Os Franklyn partiram, deixando Laura com a ama e a Srta.
Weeker, uma afável, porém sem graça,
governanta. Para Laura, a ausência dos pais foi uma época de diversão. Tecnicamente ela passou a ser dona
da casa; todas as manhãs “falava” com a
cozinheira, a simpática e gorda Sra. Brunton, encomendando as refeições.
As duas discutiam o menu e a cozinheira
acabava prevalecendo, apesar de parecer que Laura é quem tinha decidido tudo.
Aos poucos Laura passou a sentir menos e menos a falta dos
pais, pois passou a desenvolver uma
fantasia sobre a volta deles.
A morte de Charles era horrível, é claro que eles gostavam
mais dele do que dela, disso ela não
tinha a menor dúvida, mas agora ia passar a imperar no reino de Charles. Era a filha única, o futuro e a
esperança da família, o receptáculo de todo afeto dos pais. Sua imaginação criava cenas da chegada
dos pais, a mãe com os braços
abertos...
— Laura querida! Você é tudo que eu tenho no mundo...
Cenas de amor e afeto, completamente diversas da verdadeira
natureza de Angela ou de Arthur; mas
para Laura, com sua imensa carência, aos poucos iam-se tornando mais e mais reais.
Caminhava pelas alamedas, ensaiando as conversas, abrindo os
braços, sacudindo a cabeça, murmurando
frases. Tão absorvida vivia nestas fantasias, que um dia, não se apercebeu do Sr. Baldock que
vinha em sua direção, carregando as compras
que tinha acabado de fazer na cidade.
— Alô, Laura.
Laura, que estava imaginando a pobre mãe cega: — Não posso
abandoná-la por nada deste mundo! —
dizia ao marido imaginário, o pobre visconde, levou um susto. — Seus pais ainda estão viajando?
— Sim — respondeu Laura corando até a raiz dos cabelos. — Só
vão voltar daqui a dez dias.
— Então, por que não vem tomar chá comigo amanhã?
— Está bem, irei.
Laura sentiu-se honrada e feliz com o convite. O Sr.
Baldock, professor da Universidade que
ficava na cidade vizinha, morava num bangalô e comportava-se como um anacoreta, recusando tomar parte na vida
social de Bellbury. O único amigo que
tinha era Arthur Franklyn — que conhecia de longa data. John Baldock não
era um homem fácil, tratava seus alunos
com crueldade e ironia, uma atitude que servia de encorajamento para os melhores e de desilusão
para a maioria. Havia escrito vários
volumes sobre fases obscuras da história, numa linguagem tão complicada
que poucos podiam entendê-lo. Não ouvia
os pedidos insistentes dos editores que suplicavam que escrevesse numa linguagem mais fácil, pois
achava que só para as pessoas que
conseguiam entendê-lo é que valia a pena escrever! Era rude com as
mulheres, o que as cativava de certa forma;
cheio de preconceitos e arrogâncias mas no fundo um homem infinitamente bom; em suma, um poço de
contradições.
Laura sabia que era uma honra ser convidada para tomar chá
com o Sr. Baldock. Vestiu-se com
cuidado, penteou os cabelos de maneira diferente e partiu com uma certa apreensão para a casa do eremita. Foi
recebida por uma governanta do Sr. Baldock, que
a conduziu imediatamente para a biblioteca.
— Alô — disse o Sr. Baldock. — Que está fazendo aqui?
— O senhor me convidou para o chá — respondeu Laura.
O Sr. Baldock olhou para ela com carinho, enquanto Laura o
encarava com firmeza e gravidade,
escondendo a insegurança que sentia.
— É verdade — murmurou Baldock, coçando o nariz. — É
verdade, se bem que não sei por quê.
Bem, já que está aqui, sente-se.
— Onde? — perguntou Laura.
Era uma pergunta apropriada. A biblioteca era uma sala
coberta de livros até o teto. Além das estantes, as mesas e as cadeiras também
estavam ocupadas.
O Sr. Baldock considerou a pergunta por uns instantes.
— Temos que dar um jeito nisso.
Selecionou uma poltrona que parecia mais vazia e
desocupou-a, colocando as pilhas de livros no chão.
— Pronto — disse, por fim, limpando as mãos da poeira que o
fazia espirrar. — O senhor não manda as
empregadas limpar esta sala? — perguntou Laura, sentando-se.
— De modo algum — respondeu Baldock. — E creia, não é fácil
convencê-las. Não há coisa que uma
mulher goste mais do que invadir uma biblioteca com um espanador e desarrumar
tudo, empilhando os livros, não por assunto, mas por cor ou tamanho. Quando
termina o serviço, sai feliz da vida de vassoura na mão, enquanto eu passo a
levar um mês para achar qualquer livro. As mulheres! Não sei o que Deus pensou
quando as criou! Talvez achasse que Adão estava bem demais como dono do Universo,
dando nome aos animais e as coisas e que precisava de levar uns contras. Talvez tivesse razão. mas não precisava ir
tão longe. Veja onde a mulher colocou o homem... no Pecado Original.
— Sinto muito — disse Laura.
— O que quer dizer com isso?
— Que você se sinta assim a respeito das mulheres. Porque,
penso, também sou mulher.
— Ainda não, graças a Deus! — disse o Sr. Baldock. — Ainda
vai demorar um pouco e não adianta precipitarmos as desgraças. Aliás, eu não
havia esquecido que você vinha tomar chá, mas tinha minhas razões para dizer o
que disse.
— Que razões?
— Bem — resmungou Baldock, esfregando o nariz. — Queria ver
o que você responderia... Você se saiu
muito bem.
Laura olhou para ele, sem entender.
— Outra razão é que, se vamos ser amigos, e parece que isto
já muito provável, você tem que me
aceitar como sou, um velho malcriado e rabugento. Não adianta esperar rapapés! Minha filhinha, como vai
você? Há quanto tempo não nos víamos...
etc...
Laura riu da voz de falsete de Baldock.
— Até que seria engraçado! — comentou Laura.
— É verdade.
Laura parou de rir e olhou novamente para Baldock.
— Acha mesmo que vamos ser amigos?
— É uma questão de simpatia. Você gostaria?
— Me pareceria um tanto estranho — respondeu Laura,
duvidosa. — Geralmente chamamos de
amigos as pessoas de nossa idade.
— Pode ter certeza de que não vou brincar de “pular
amarelinha” com você! — Mas, nem eu
brinco mais disso! — disse Laura.
— Nossa amizade seria assentada num plano intelectual.
Laura ficou satisfeita.
— Não sei bem o que quer dizer com isso, mas acho
ótimo!
— Quer dizer — disse o Sr. Baldock — que quando nos
encontrarmos discutiremos assuntos que nos interessam.
— Que tipo de assuntos?
— Bem, comida por exemplo. Eu adoro comer... e espero que
você também. Eu tenho sessenta e poucos anos e você... quantos tem? Uns dez?
Tenho certeza de que seu paladar é diferente do meu, e isso é bastante
interessante. Além do que existem outros assuntos como: cores, flores, animais,
história da Inglaterra...
— Como por exemplo as esposas de Henrique VIII?
— Isto mesmo. É só falar em Henrique VIII que todo o mundo
lembra-se das esposas! Chega a ser um
insulto a um homem que foi considerado o príncipe mais belo da Cristandade... que foi um estadista de
primeira! No entanto, só nos lembramos dele
porque tentou conseguir um herdeiro. As esposas não tiveram a menor
importância sob o ponto de vista
histórico.
— Não concordo.
— Está vendo? — perguntou Baldock. — Já estamos
debatendo.
— Eu gostaria de ter sido Jane Seymour.
— Por quê?
— Ela morreu — respondeu Laura.
— Mas Ana Bolena e Catherine Howard também.
— Foram decapitadas. Jane só esteve casada com ele um ano,
teve um filho e morreu... todo o mundo
deve ter ficado triste!
— É um ponto de vista! Vamos passar para a outra sala e ver
o que temos para o chá.
Ao ver a mesa cheia de sanduíches, éclairs, bolos,
biscoitos, Laura não pôde
conter um riso de satisfação.
— Que chá maravilhoso! — exclamou, batendo palmas. — O senhor estava me esperando! A não ser que tenha um chá destes em casa todos os dias. — Deus me livre.
Os dois sentaram-se. O Sr. Baldock comeu uns seis
sanduíches-de-pepino, Laura uns quatro
éclairs e vários outros doces.
— Você tem bom apetite! — comentou o Sr. Baldock. — É um bom
sinal. — Estou sempre com fome. Acho que
por isso nunca fico doente. Charles vivia
doente.
— Hum... acho que você deve sentir muito a falta dele,
não?
— Sinto, demais.
O Sr. Baldock franziu o cenho.
— Está bem, está bem. Ninguém duvida disso.
— Eu sei.
Baldock observou-a calado.
— Foi horrível a morte dele — continuou Laura, como se
estivesse repetindo uma poesia bem
decorada.
— Foi mesmo!
— Horrível para mamãe e papai. Agora os dois só têm a
mim...
— Ah!
Laura olhou para Baldock sem entender, mergulhando no seu
mundo de fantasia, onde uma voz maternal
murmurava: — Laura, meu amor, você é tudo que me resta... minha única filha, meu tesouro.
— Manteiga rançosa! — disse o Sr. Baldock, empregando uma
expressão muito pessoal de desagrado. —
Manteiga rançosa! Venha para o jardim, Laura, vamos dar uma olhada nas roseiras. Conte-me o que faz
durante o dia.
— De manhã, a Sra. Weeker me dá aula...
— Aquela mulher chata!
— O senhor não gosta dela?
— É a imagem de Girton. Nunca, ouça bem, nunca vá para
Girton. — O que é Girton?
— Um colégio para moças. Me dá arrepios só de pensar...
— Vou para um internato quando tiver doze anos.
— Antros de perdição.
— O senhor acha que eu não vou gostar?
— Acho que vai... é disso que eu tenho medo! Certamente vai
se apaixonar pela professora de Música,
antes de entrar para Girton ou Somerville. Bem, vamos aproveitar o tempo que resta antes de você entrar para
estas porcarias. Que pretende fazer quando
crescer?
— Gostaria de ser uma enfermeira e tomar conta dos
doentes... dos leprosos. — Não vejo mal
nisso. Tome cuidado para não trazer um doente para casa e colocá-lo na cama do marido como Santa
Elisabete da Hungria. Uma mulher muito boa,
mas péssima como esposa...
— Mas eu não pretendo me casar!
— Não? Pois eu acho que você vai se casar. Ser solteirona é
pior do que ser uma mulher casada. O
azar é dos homens, mas acho que você será uma boa esposa, melhor do que a maioria das mulheres.
— Mas, não tenho direito de abandonar meus pais. Eles só têm
a mim no mundo.
— Eles têm uma cozinheira, uma arrumadeira, dinheiro e
amigos. Não se preocupe com eles. Os
pais têm que se conformar em perder os filhos quando eles crescem. Às vezes, é até um alívio. Que acha
das rosas?
— Lindas — disse Laura.
— Gosto mais delas do que das pessoas. Para começar não
duram tanto. Baldock segurou a mão de
Laura com firmeza.
— Adeus Laura. Você precisa voltar para casa... não se deve
forçar muito uma amizade.
— Adeus Sr. Baldock. Obrigada pelo chá... estava
delicioso.
Como era bem educada, estas frases saíram quase que
mecanicamente dos seus lábios.
— Está certo — disse Baldock, batendo com carinho no ombro
da menina. — Seja certinha! É de boa
educação e isto sempre ajuda. Quando chegar à minha idade pode se dar ao luxo de dizer o que
pensa...
Laura sorriu, atravessou o portão e voltou-se de
repente.
— O que foi?
— Então está combinado? Somos realmente amigos?
Baldock coçou o nariz.
— Sim — respondeu, suspirando.
— Espero que não seja um grande sacrifício para o
senhor.
— Eu acabo me acostumando.
— É mesmo? Eu também. Mas acho que vai ser ótimo.
Adeus.
— Adeus.
Ao ver a figurinha desaparecer, Baldock murmurou entre os
dentes: — Veja só o que foi arranjar
este velho idiota!
Voltou para casa e encontrou a velha Sra. Rouse.
— A menina, já foi?
— Sim.
— Não ficou muito.
— O suficiente — respondeu Baldock. — As crianças e os
subalternos nunca sabem quando é hora de
se retirarem. É preciso avisá-los.
— Ora veja! — sibilou a Sra. Rouse, indignada.
— Boa noite — disse Baldock, entrando —, vou para a
biblioteca e não quero ser mais
incomodado hoje.
— E o jantar?
— Faça o que quiser. Leve esses doces daqui, coma-os ou dê
para o gato. — Obrigada. Minha
sobrinha.
— Sua sobrinha, ou o gato, seja lá quem for! — disse
Baldock, batendo a porta da
biblioteca.
— Ora veja! Que velho ranzinza! Só eu mesma é que agüento
com ele! Laura voltou para casa,
sentindo-se importantíssima. Colocou cabeça na janela da cozinha e observou Ethel, a arrumadeira,
que se debatia com um ponto complicado
de crochê.
— Ethel! Eu tenho um amigo!
— Que bom, meu bem — murmurou Ethel entre dentes, contando
os pontos. — Cinco lisos, duas laçadas,
oito lisos...
— Eu tenho um amigo! — repetiu Laura, triunfante.
— Cinco lisos... não sei onde pulei um ponto.. .
— Tenho um amigo — berrou Laura, furiosa, com a falta de
compreensão de sua confidente.
— Faça um bom carinho nele, meu bem.

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