domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 1 - Capítulo 02

Charles morreu de paralisia infantil; os dois outros colegas de escola, atacados  pela doença, conseguiram escapar,  Para Angela Franklyn, que não possuía boa saúde, o golpe foi tão rude que quase  morreu. Charles era o Céu e a Terra para ela; passava os dias no quarto, olhando para o  teto, incapaz até de chorar. O marido, a filha e os criados andavam pé ante pé, pela casa,  para não incomodá-la. Finalmente o médico da família aconselhou Franklyn a levá-la  para o exterior. 

— Uma mudança completa de ar e de paisagem. Temos que estimulá-la. Uma  região de ar puro... a Suíça talvez... 

Os Franklyn partiram, deixando Laura com a ama e a Srta. Weeker, uma afável,  porém sem graça, governanta. Para Laura, a ausência dos pais foi uma época de  diversão. Tecnicamente ela passou a ser dona da casa; todas as manhãs “falava” com a  cozinheira, a simpática e gorda Sra. Brunton, encomendando as refeições. As duas  discutiam o menu e a cozinheira acabava prevalecendo, apesar de parecer que Laura é  quem tinha decidido tudo. 

Aos poucos Laura passou a sentir menos e menos a falta dos pais, pois passou a  desenvolver uma fantasia sobre a volta deles. 

A morte de Charles era horrível, é claro que eles gostavam mais dele do que  dela, disso ela não tinha a menor dúvida, mas agora ia passar a imperar no reino de  Charles. Era a filha única, o futuro e a esperança da família, o receptáculo de todo afeto  dos pais. Sua imaginação criava cenas da chegada dos pais, a mãe com os braços  abertos... 

— Laura querida! Você é tudo que eu tenho no mundo... 

Cenas de amor e afeto, completamente diversas da verdadeira natureza de  Angela ou de Arthur; mas para Laura, com sua imensa carência, aos poucos iam-se  tornando mais e mais reais. 

Caminhava pelas alamedas, ensaiando as conversas, abrindo os braços,  sacudindo a cabeça, murmurando frases. Tão absorvida vivia nestas fantasias, que um  dia, não se apercebeu do Sr. Baldock que vinha em sua direção, carregando as compras

que tinha acabado de fazer na cidade. 

— Alô, Laura. 

Laura, que estava imaginando a pobre mãe cega: — Não posso abandoná-la por  nada deste mundo! — dizia ao marido imaginário, o pobre visconde, levou um susto.  — Seus pais ainda estão viajando? 

— Sim — respondeu Laura corando até a raiz dos cabelos. — Só vão voltar  daqui a dez dias. 

— Então, por que não vem tomar chá comigo amanhã? 

— Está bem, irei. 

Laura sentiu-se honrada e feliz com o convite. O Sr. Baldock, professor da  Universidade que ficava na cidade vizinha, morava num bangalô e comportava-se como  um anacoreta, recusando tomar parte na vida social de Bellbury. O único amigo que  tinha era Arthur Franklyn — que conhecia de longa data. John Baldock não era um  homem fácil, tratava seus alunos com crueldade e ironia, uma atitude que servia de  encorajamento para os melhores e de desilusão para a maioria. Havia escrito vários  volumes sobre fases obscuras da história, numa linguagem tão complicada que poucos  podiam entendê-lo. Não ouvia os pedidos insistentes dos editores que suplicavam que  escrevesse numa linguagem mais fácil, pois achava que só para as pessoas que  conseguiam entendê-lo é que valia a pena escrever! Era rude com as mulheres, o que as  cativava de certa forma; cheio de preconceitos e arrogâncias mas no fundo um homem  infinitamente bom; em suma, um poço de contradições. 

Laura sabia que era uma honra ser convidada para tomar chá com o Sr. Baldock.  Vestiu-se com cuidado, penteou os cabelos de maneira diferente e partiu com uma certa  apreensão para a casa do eremita. Foi recebida por uma governanta do Sr. Baldock, que  a conduziu imediatamente para a biblioteca. 

— Alô — disse o Sr. Baldock. — Que está fazendo aqui? 

— O senhor me convidou para o chá — respondeu Laura. 

O Sr. Baldock olhou para ela com carinho, enquanto Laura o encarava com  firmeza e gravidade, escondendo a insegurança que sentia. 

— É verdade — murmurou Baldock, coçando o nariz. — É verdade, se bem que  não sei por quê. Bem, já que está aqui, sente-se. 

— Onde? — perguntou Laura. 

Era uma pergunta apropriada. A biblioteca era uma sala coberta de livros até o teto. Além das estantes, as mesas e as cadeiras também estavam ocupadas.

O Sr. Baldock considerou a pergunta por uns instantes. 

— Temos que dar um jeito nisso. 

Selecionou uma poltrona que parecia mais vazia e desocupou-a, colocando as pilhas de livros no chão. 

— Pronto — disse, por fim, limpando as mãos da poeira que o fazia espirrar.  — O senhor não manda as empregadas limpar esta sala? — perguntou Laura, sentando-se. 

— De modo algum — respondeu Baldock. — E creia, não é fácil convencê-las.  Não há coisa que uma mulher goste mais do que invadir uma biblioteca com um espanador e desarrumar tudo, empilhando os livros, não por assunto, mas por cor ou tamanho. Quando termina o serviço, sai feliz da vida de vassoura na mão, enquanto eu passo a levar um mês para achar qualquer livro. As mulheres! Não sei o que Deus pensou quando as criou! Talvez achasse que Adão estava bem demais como dono do Universo, dando nome aos animais e as coisas e que precisava de levar uns contras.  Talvez tivesse razão. mas não precisava ir tão longe. Veja onde a mulher colocou o homem... no Pecado Original. 

— Sinto muito — disse Laura. 

— O que quer dizer com isso? 

— Que você se sinta assim a respeito das mulheres. Porque, penso, também sou mulher. 

— Ainda não, graças a Deus! — disse o Sr. Baldock. — Ainda vai demorar um pouco e não adianta precipitarmos as desgraças. Aliás, eu não havia esquecido que você vinha tomar chá, mas tinha minhas razões para dizer o que disse. 

— Que razões? 

— Bem — resmungou Baldock, esfregando o nariz. — Queria ver o que você  responderia... Você se saiu muito bem. 

Laura olhou para ele, sem entender. 

— Outra razão é que, se vamos ser amigos, e parece que isto já muito provável,  você tem que me aceitar como sou, um velho malcriado e rabugento. Não adianta  esperar rapapés! Minha filhinha, como vai você? Há quanto tempo não nos víamos...  etc... 

Laura riu da voz de falsete de Baldock. 

— Até que seria engraçado! — comentou Laura. 

— É verdade.

Laura parou de rir e olhou novamente para Baldock. 

— Acha mesmo que vamos ser amigos? 

— É uma questão de simpatia. Você gostaria? 

— Me pareceria um tanto estranho — respondeu Laura, duvidosa. —  Geralmente chamamos de amigos as pessoas de nossa idade. 

— Pode ter certeza de que não vou brincar de “pular amarelinha” com você!  — Mas, nem eu brinco mais disso! — disse Laura. 

— Nossa amizade seria assentada num plano intelectual. 

Laura ficou satisfeita. 

— Não sei bem o que quer dizer com isso, mas acho ótimo! 

— Quer dizer — disse o Sr. Baldock — que quando nos encontrarmos discutiremos assuntos que nos interessam. 

— Que tipo de assuntos? 

— Bem, comida por exemplo. Eu adoro comer... e espero que você também. Eu tenho sessenta e poucos anos e você... quantos tem? Uns dez? Tenho certeza de que seu paladar é diferente do meu, e isso é bastante interessante. Além do que existem outros assuntos como: cores, flores, animais, história da Inglaterra... 

— Como por exemplo as esposas de Henrique VIII? 

— Isto mesmo. É só falar em Henrique VIII que todo o mundo lembra-se das  esposas! Chega a ser um insulto a um homem que foi considerado o príncipe mais belo  da Cristandade... que foi um estadista de primeira! No entanto, só nos lembramos dele  porque tentou conseguir um herdeiro. As esposas não tiveram a menor importância sob  o ponto de vista histórico. 

— Não concordo. 

— Está vendo? — perguntou Baldock. — Já estamos debatendo. 

— Eu gostaria de ter sido Jane Seymour. 

— Por quê? 

— Ela morreu — respondeu Laura. 

— Mas Ana Bolena e Catherine Howard também. 

— Foram decapitadas. Jane só esteve casada com ele um ano, teve um filho e  morreu... todo o mundo deve ter ficado triste! 

— É um ponto de vista! Vamos passar para a outra sala e ver o que temos para o  chá. 

Ao ver a mesa cheia de sanduíches, éclairs, bolos, biscoitos, Laura não pôde

conter um riso de satisfação. 

 — Que chá maravilhoso! — exclamou, batendo palmas. — O senhor estava me  esperando! A não ser que tenha um chá destes em casa todos os dias.  — Deus me livre. 

Os dois sentaram-se. O Sr. Baldock comeu uns seis sanduíches-de-pepino, Laura  uns quatro éclairs e vários outros doces. 

— Você tem bom apetite! — comentou o Sr. Baldock. — É um bom sinal.  — Estou sempre com fome. Acho que por isso nunca fico doente. Charles vivia  doente. 

— Hum... acho que você deve sentir muito a falta dele, não? 

— Sinto, demais. 

O Sr. Baldock franziu o cenho. 

— Está bem, está bem. Ninguém duvida disso. 

— Eu sei. 

Baldock observou-a calado. 

— Foi horrível a morte dele — continuou Laura, como se estivesse repetindo  uma poesia bem decorada. 

— Foi mesmo! 

— Horrível para mamãe e papai. Agora os dois só têm a mim... 

— Ah! 

Laura olhou para Baldock sem entender, mergulhando no seu mundo de fantasia,  onde uma voz maternal murmurava: — Laura, meu amor, você é tudo que me resta...  minha única filha, meu tesouro. 

— Manteiga rançosa! — disse o Sr. Baldock, empregando uma expressão muito  pessoal de desagrado. — Manteiga rançosa! Venha para o jardim, Laura, vamos dar  uma olhada nas roseiras. Conte-me o que faz durante o dia. 

— De manhã, a Sra. Weeker me dá aula... 

— Aquela mulher chata! 

— O senhor não gosta dela? 

— É a imagem de Girton. Nunca, ouça bem, nunca vá para Girton.  — O que é Girton?

— Um colégio para moças. Me dá arrepios só de pensar... 

— Vou para um internato quando tiver doze anos. 

— Antros de perdição. 

— O senhor acha que eu não vou gostar? 

— Acho que vai... é disso que eu tenho medo! Certamente vai se apaixonar pela  professora de Música, antes de entrar para Girton ou Somerville. Bem, vamos aproveitar  o tempo que resta antes de você entrar para estas porcarias. Que pretende fazer quando  crescer? 

— Gostaria de ser uma enfermeira e tomar conta dos doentes... dos leprosos.  — Não vejo mal nisso. Tome cuidado para não trazer um doente para casa e  colocá-lo na cama do marido como Santa Elisabete da Hungria. Uma mulher muito boa,  mas péssima como esposa... 

— Mas eu não pretendo me casar! 

— Não? Pois eu acho que você vai se casar. Ser solteirona é pior do que ser uma  mulher casada. O azar é dos homens, mas acho que você será uma boa esposa, melhor  do que a maioria das mulheres. 

— Mas, não tenho direito de abandonar meus pais. Eles só têm a mim no  mundo. 

— Eles têm uma cozinheira, uma arrumadeira, dinheiro e amigos. Não se  preocupe com eles. Os pais têm que se conformar em perder os filhos quando eles  crescem. Às vezes, é até um alívio. Que acha das rosas? 

— Lindas — disse Laura. 

— Gosto mais delas do que das pessoas. Para começar não duram tanto.  Baldock segurou a mão de Laura com firmeza. 

— Adeus Laura. Você precisa voltar para casa... não se deve forçar muito uma  amizade. 

— Adeus Sr. Baldock. Obrigada pelo chá... estava delicioso. 

Como era bem educada, estas frases saíram quase que mecanicamente dos seus  lábios. 

— Está certo — disse Baldock, batendo com carinho no ombro da menina. —  Seja certinha! É de boa educação e isto sempre ajuda. Quando chegar à minha idade  pode se dar ao luxo de dizer o que pensa... 

Laura sorriu, atravessou o portão e voltou-se de repente. 

— O que foi?

— Então está combinado? Somos realmente amigos? 

Baldock coçou o nariz. 

— Sim — respondeu, suspirando. 

— Espero que não seja um grande sacrifício para o senhor. 

— Eu acabo me acostumando. 

— É mesmo? Eu também. Mas acho que vai ser ótimo. Adeus. 

— Adeus. 

Ao ver a figurinha desaparecer, Baldock murmurou entre os dentes:  — Veja só o que foi arranjar este velho idiota! 

Voltou para casa e encontrou a velha Sra. Rouse. 

— A menina, já foi? 

— Sim. 

— Não ficou muito. 

— O suficiente — respondeu Baldock. — As crianças e os subalternos nunca  sabem quando é hora de se retirarem. É preciso avisá-los. 

— Ora veja! — sibilou a Sra. Rouse, indignada. 

— Boa noite — disse Baldock, entrando —, vou para a biblioteca e não quero  ser mais incomodado hoje. 

— E o jantar? 

— Faça o que quiser. Leve esses doces daqui, coma-os ou dê para o gato.  — Obrigada. Minha sobrinha. 

— Sua sobrinha, ou o gato, seja lá quem for! — disse Baldock, batendo a porta  da biblioteca. 

— Ora veja! Que velho ranzinza! Só eu mesma é que agüento com ele!  Laura voltou para casa, sentindo-se importantíssima. Colocou cabeça na janela  da cozinha e observou Ethel, a arrumadeira, que se debatia com um ponto complicado  de crochê. 

— Ethel! Eu tenho um amigo! 

— Que bom, meu bem — murmurou Ethel entre dentes, contando os pontos. —  Cinco lisos, duas laçadas, oito lisos... 

— Eu tenho um amigo! — repetiu Laura, triunfante. 

— Cinco lisos... não sei onde pulei um ponto.. . 

— Tenho um amigo — berrou Laura, furiosa, com a falta de compreensão de sua  confidente.

— Faça um bom carinho nele, meu bem. 

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