domingo, 9 de maio de 2021

A carga - parte 1 - Capítulo 03


 Angela Franklyn temera voltar para casa, mas quando o carro entrou pelo portão  principal, não achou tão ruim assim quanto esperava. 

Ao ver o carro entrar pela alameda, Angela virou-se para o marido.  — Olhe Laura nos esperando nos degraus da escada. Ela parece muito satisfeita  em nos ver! 

Correndo para fora do carro, Angela abraçou a filha, apertando-a nos braços com  carinho e amor. 

— Laura, meu bem, que bom vê-la de novo! Você sentiu muito nossa falta?  — Não muito — respondeu Laura. — Estive tão ocupada. Fiz um tapete de ráfia  para a senhora. 

A lembrança de Charles percorreu a mãe — como ele se atirava em seus braços  gritando: — Mamãe, mamãe! 

Que dor! Por que lembrar-se? Ela tentou afastar estas lembranças e sorriu para  Laura. 

— Um tapete de ráfia? Que amor! 

Arthur Franklyn acariciou os cabelos da filha. 

Entraram na casa. O que Laura esperava, nem ela mesma sabia. Seus pais  estavam de volta, alegres por vê-la, acariciando-a, fazendo perguntas. Eles não eram  diferentes dos outros pais... ela sim, é quem era diferente dos outros filhos; não tinha  falado ou agido como devia... 

Nada se passou como ela imaginara. Não... ela não tinha ocupado o lugar de  Charles. Faltava-lhe algo! Talvez amanhã fosse diferente, ou depois de amanhã, quem  sabe? O centro da casa, pensou Laura, lembrando-se de repente de uma frase que lera  num livro infantil. 

Ela agora era o centro da casa. 

Pena que ela não se sentisse assim. Nada mudara... ela era a mesma Laura!

— Baldy parece que gosta muito de Laura! — disse Angela. — Imaginem,  convidá-la para um chá, enquanto estávamos fora! 

Arthur disse que gostaria de saber sobre o que conversaram. 

— Penso — disse Angela, depois de uma ligeira pausa —, que devemos falar  com Laura, senão ela vai acabar ouvindo pelos criados ou por alguma visita. Afinal já  está na idade de entender as coisas... 

Angela estava deitada numa espreguiçadeira de palha, sob uma frondosa árvore.  Virou-se para o marido e encarou-o com seu ar de sofrimento que a vida e o tempo não  mais poderia apagar. 

— Vai ser menino — disse Arthur. — Sei que vamos ter um menino.  Angela sorriu e sacudiu a cabeça. 

— Não adianta sonhar. 

— Mas, eu tenho certeza! — disse Arthur convicto. 

Um menino como Charles, outro Charles, rindo, correndo, brincando.  Pode ser outro menino, pensou Angela, mas não será Charles! 

— Se bem que, se for menina, nós também vamos ficar felizes — disse Angela,  sem convicção. 

— Arthur, eu sei que você quer um filho! 

— Sim — suspirou o marido —, eu quero um filho. 

Sem saber por que, ele acrescentou, com um pouco de culpa: 

— Laura é tão boa. 

Angela concordou. 

— É mesmo. Vamos sentir falta dela quando for para o colégio. Além do mais,  eu quero que seja um menino por causa dela também — continuou Angela. — Ela  poderia ficar com ciúmes se viesse uma irmãzinha... por mais absurdo que isso possa  parecer. 

— É mesmo! 

— Mas as crianças, às vezes, e isto e natural... por isso acho que devemos falar  com ela... preparar-lhe o espírito. 

Por isso, Angela Franklyn foi falar com a filha. 

— Que tal se você tivesse um irmãozinho? Ou uma irmã? — acrescentou, um  pouco depois.

Laura olhou para ela sem entender. Estava espantada com a pergunta.  — Eu... vou ter um bebê... deve chegar em setembro... vai ser bom, não vai?  Angela sentiu-se mal quando viu Laura recuando, ficando vermelha, presa de uma emoção incompreensível. Ficou preocupada com a reação da menina.  — Será — disse Angela depois ao marido — que nós erramos? Afinal nunca  falei com ela sobre... bebês etc. Será que ela não sabe? 

Arthur revidou, dizendo que, dado o número astronômico de gatinhos que  nasciam, na casa, era pouco provável que Laura desconhecesse os mistérios da natureza.  — Eu sei. Mas quem sabe ela ache que as pessoas sejam diferentes? Talvez  tenha ficado chocada! 

Foi realmente um choque para Laura, mas não tinha relação alguma com a  biologia; ela simplesmente não acreditava que sua mãe fosse capaz de ter outro filho.  Para Laura, com a morte de Charles, o centro da casa passara definitivamente  para suas mãos. E agora... agora viria outro Charles, pois ela acreditava piamente que a  criança seria um menino! Ficou desolada com a notícia, pensativa, debaixo de uma  árvore, horas inteiras... finalmente, resolveu fazer uma visita e encaminhou-se para a  casa do Sr. Baldock. 

Este, rangendo os dentes e expelindo veneno, estava ocupado em redigir uma  crítica sobre um livro de história, de um colega seu, recém-publicado. Olhou furioso  para a porta ao ver a Sra. Rouse anunciar. 

— A Senhorita Laura! 

— Oh! É você? — perguntou Baldock, desconcertado ao ver a menina chegar  numa hora tão imprópria. Que inferno! em feito, isto lhe serviria de lição para não se  meter com crianças. Seu olhar se encontrou com o de Laura, que não parecia pedir  desculpas. Era um olhar grave, preocupado, mas confiante do divino direito de estar ali,  naquela hora. 

Laura não murmurou sequer uma desculpa. 

— Vim aqui para lhe dizer que vou ter um irmão. 

— Oh! — exclamou Baldock, surpreso. — Bem... e... — balbuciou a seguir,  para ganhar tempo. Laura continuou calada, impassível, olhando para ele. — Que  novidade, hein? Está contente? 

— Não, não estou. 

— Eu acho os bebês uma chatice! — murmurou Baldock, sorrindo. — Sem  dentes, sem cabelos, choramingando o dia inteiro. Só as mães acham graça neles. Se não

fosse assim os coitados morreriam à míngua. Mas você vai acabar se acostumando —  continuou o velho professor, num tom encorajador. — É como um cachorrinho novo  para brincar. 

— Charles morreu — disse Laura. — O senhor acha que meu novo irmão vai  morrer também? 

— Não sei por quê! — respondeu Baldock, com firmeza. 

— As desgraças não costumam se repetir. 

— É o que diz a cozinheira. 

— Charles... 

Baldock olhou novamente para ela. 

— Não sei por que vai ser um irmão. Pode ser uma irmã! 

— Mamãe acha que vai ser um menino. 

— Não se fie no que sua mãe acha! Muitas mães se enganam. 

O rosto de Laura se iluminou. 

— Lembro-me de Jehosaphat — disse ela —, o último nenen de Dulcibella.  Acabou nascendo uma gatinha que a cozinheira chama de Josephine.  — Está vendo? — comentou Baldock. — Não sou homem de apostas, mas vou  apostar que vai ser uma menina. 

— Vai? — perguntou Laura, sorrindo agradecida. O sorriso tão inesperado  chocou Baldock. — Obrigada. Agora vou-me embora. Espero não haver interrompido  seu trabalho. 

— Não tem importância. Sempre que tiver algo de importante pode vir me  visitar. Sei que você não me interromperia para dizer bobagens. . .  — Claro que não! 

Laura saiu, fechando a porta cuidadosamente. A conversa tinha-lhe animado; o  Sr. Baldock era um homem muito inteligente. 

Tem muito mais probabilidade de ter razão do que mamãe, pensou.  Uma irmã! Sim, isto seria mais fácil do que um irmão. Seria uma outra Laura...  uma Laurinha! Sem dentes, sem cabelo e sem graça! 

 Ao acordar do anestésico Angela voltou seus belos olhos azuis, perguntando  para a enfermeira o que os seus lábios temiam murmurar.

— Está... tudo bem? 

A enfermeira sorriu com eficiência. 

— A senhora é mãe de uma linda criança, Sra. Franklyn. Uma menina.  Os olhos azuis se fecharam. 

Uma menina, uma menina! Uma onda de desapontamento cobriu-lhe a alma. Ela  tivera tanta certeza... e no entanto lá estava a resposta: uma segunda filha.  A antiga dor voltou mais forte. Charles! Seu lindo filho, Charles! 

No andar de baixo, a cozinheira conversava. 

— Bem, Laura, o que acha de sua nova irmã? 

— Eu sabia que ia ser uma irmã — respondeu Laura. — O Sr. Baldock me  contou. 

— O que um velho solteirão sabe dessas coisas? 

— Ele é muito inteligente — respondeu Laura. 

Angela demorou muito a se recuperar; seu marido já estava preocupado. Quando  o bebê fez um mês, ele resolveu conversar com a esposa. 

— Tem tanta importância assim? Ser uma menina e não um menino?  — É claro que não... só que eu tinha tanta certeza.

— Mesmo que fosse um menino não seria Charles, não é mesmo? 

— É claro que não. 

A enfermeira entrou no quarto com a criança. 

— Vejam só quem chegou. A menina mais linda do mundo veio falar com a  mãe! 

Angela segurou o bebê no colo, olhando com raiva para a enfermeira.  — As besteiras que estas mulheres dizem — resmungou, assim que a enfermeira  se retirou. 

Arthur riu. 

— Laura, meu amor, me dê uma almofada — disse Angela. 

Laura pegou uma almofada e ajudou Angela a acomodar o bebê, sentindo-se  segura e adulta. Era dela que sua mãe dependia. 

A noite estava fria, na lareira um fogo brando crepitava. O nenen balbuciou feliz.  Angela olhou para os olhos azuis e para a boca da criança. Com surpresa viu os  olhos de Charles. Charles nesta idade, ela quase havia se esquecido.  Um amor arrebatador percorreu seu ser. O seu bebê, o seu tesouro. Como pudera  ser tão fria, diante de uma criança tão maravilhosa? Tão cega? Uma criança feliz como

Charles. 

— Meu bem, meu amor — murmurou. 

Debruçou-se sobre a criança num abandono de amor e ternura. Esqueceu de  Laura, que a observava e que se retirou silenciosamente. Angela, com certo sentimento  de culpa, voltou-se para o marido. 

— Mary Wells não pode vir para o batizado. Que tal se fizéssemos Laura de  madrinha? Acho que ela iria ficar satisfeita!

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