Ao ver o carro entrar pela alameda, Angela virou-se para o
marido. — Olhe Laura nos esperando nos
degraus da escada. Ela parece muito satisfeita
em nos ver!
Correndo para fora do carro, Angela abraçou a filha,
apertando-a nos braços com carinho e
amor.
— Laura, meu bem, que bom vê-la de novo! Você sentiu muito
nossa falta? — Não muito — respondeu
Laura. — Estive tão ocupada. Fiz um tapete de ráfia para a senhora.
A lembrança de Charles percorreu a mãe — como ele se atirava
em seus braços gritando: — Mamãe,
mamãe!
Que dor! Por que lembrar-se? Ela tentou afastar estas
lembranças e sorriu para Laura.
— Um tapete de ráfia? Que amor!
Arthur Franklyn acariciou os cabelos da filha.
Entraram na casa. O que Laura esperava, nem ela mesma sabia.
Seus pais estavam de volta, alegres por
vê-la, acariciando-a, fazendo perguntas. Eles não eram diferentes dos outros pais... ela sim, é quem
era diferente dos outros filhos; não tinha
falado ou agido como devia...
Nada se passou como ela imaginara. Não... ela não tinha
ocupado o lugar de Charles. Faltava-lhe
algo! Talvez amanhã fosse diferente, ou depois de amanhã, quem sabe? O centro da casa, pensou Laura,
lembrando-se de repente de uma frase que lera
num livro infantil.
Ela agora era o centro da casa.
Pena que ela não se sentisse assim. Nada mudara... ela era a
mesma Laura!
— Baldy parece que gosta muito de Laura! — disse Angela. —
Imaginem, convidá-la para um chá,
enquanto estávamos fora!
Arthur disse que gostaria de saber sobre o que
conversaram.
— Penso — disse Angela, depois de uma ligeira pausa —, que
devemos falar com Laura, senão ela vai
acabar ouvindo pelos criados ou por alguma visita. Afinal já está na idade de entender as coisas...
Angela estava deitada numa espreguiçadeira de palha, sob uma
frondosa árvore. Virou-se para o marido
e encarou-o com seu ar de sofrimento que a vida e o tempo não mais poderia apagar.
— Vai ser menino — disse Arthur. — Sei que vamos ter um
menino. Angela sorriu e sacudiu a
cabeça.
— Não adianta sonhar.
— Mas, eu tenho certeza! — disse Arthur convicto.
Um menino como Charles, outro Charles, rindo, correndo,
brincando. Pode ser outro menino, pensou
Angela, mas não será Charles!
— Se bem que, se for menina, nós também vamos ficar felizes
— disse Angela, sem convicção.
— Arthur, eu sei que você quer um filho!
— Sim — suspirou o marido —, eu quero um filho.
Sem saber por que, ele acrescentou, com um pouco de
culpa:
— Laura é tão boa.
Angela concordou.
— É mesmo. Vamos sentir falta dela quando for para o
colégio. Além do mais, eu quero que seja
um menino por causa dela também — continuou Angela. — Ela poderia ficar com ciúmes se viesse uma
irmãzinha... por mais absurdo que isso possa
parecer.
— É mesmo!
— Mas as crianças, às vezes, e isto e natural... por isso
acho que devemos falar com ela...
preparar-lhe o espírito.
Por isso, Angela Franklyn foi falar com a filha.
— Que tal se você tivesse um irmãozinho? Ou uma irmã? —
acrescentou, um pouco depois.
Laura olhou para ela sem entender. Estava espantada com a pergunta. — Eu... vou ter um bebê... deve chegar em setembro... vai ser bom, não vai? Angela sentiu-se mal quando viu Laura recuando, ficando vermelha, presa de uma emoção incompreensível. Ficou preocupada com a reação da menina. — Será — disse Angela depois ao marido — que nós erramos? Afinal nunca falei com ela sobre... bebês etc. Será que ela não sabe?
Arthur revidou, dizendo que, dado o número astronômico de
gatinhos que nasciam, na casa, era pouco
provável que Laura desconhecesse os mistérios da natureza. — Eu sei. Mas quem sabe ela ache que as
pessoas sejam diferentes? Talvez tenha
ficado chocada!
Foi realmente um choque para Laura, mas não tinha relação
alguma com a biologia; ela simplesmente
não acreditava que sua mãe fosse capaz de ter outro filho. Para Laura, com a morte de Charles, o centro
da casa passara definitivamente para
suas mãos. E agora... agora viria outro Charles, pois ela acreditava piamente
que a criança seria um menino! Ficou
desolada com a notícia, pensativa, debaixo de uma árvore, horas inteiras... finalmente,
resolveu fazer uma visita e encaminhou-se para a casa do Sr. Baldock.
Este, rangendo os dentes e expelindo veneno, estava ocupado
em redigir uma crítica sobre um livro de
história, de um colega seu, recém-publicado. Olhou furioso para a porta ao ver a Sra. Rouse
anunciar.
— A Senhorita Laura!
— Oh! É você? — perguntou Baldock, desconcertado ao ver a
menina chegar numa hora tão imprópria.
Que inferno! em feito, isto lhe serviria de lição para não se meter com crianças. Seu olhar se encontrou
com o de Laura, que não parecia pedir
desculpas. Era um olhar grave, preocupado, mas confiante do divino
direito de estar ali, naquela hora.
Laura não murmurou sequer uma desculpa.
— Vim aqui para lhe dizer que vou ter um irmão.
— Oh! — exclamou Baldock, surpreso. — Bem... e... —
balbuciou a seguir, para ganhar tempo.
Laura continuou calada, impassível, olhando para ele. — Que novidade, hein? Está contente?
— Não, não estou.
— Eu acho os bebês uma chatice! — murmurou Baldock,
sorrindo. — Sem dentes, sem cabelos,
choramingando o dia inteiro. Só as mães acham graça neles. Se não
fosse assim os coitados morreriam à míngua. Mas você vai
acabar se acostumando — continuou o
velho professor, num tom encorajador. — É como um cachorrinho novo para brincar.
— Charles morreu — disse Laura. — O senhor acha que meu novo
irmão vai morrer também?
— Não sei por quê! — respondeu Baldock, com firmeza.
— As desgraças não costumam se repetir.
— É o que diz a cozinheira.
— Charles...
Baldock olhou novamente para ela.
— Não sei por que vai ser um irmão. Pode ser uma irmã!
— Mamãe acha que vai ser um menino.
— Não se fie no que sua mãe acha! Muitas mães se
enganam.
O rosto de Laura se iluminou.
— Lembro-me de Jehosaphat — disse ela —, o último nenen de
Dulcibella. Acabou nascendo uma gatinha
que a cozinheira chama de Josephine. —
Está vendo? — comentou Baldock. — Não sou homem de apostas, mas vou apostar que vai ser uma menina.
— Vai? — perguntou Laura, sorrindo agradecida. O sorriso tão
inesperado chocou Baldock. — Obrigada.
Agora vou-me embora. Espero não haver interrompido seu trabalho.
— Não tem importância. Sempre que tiver algo de importante
pode vir me visitar. Sei que você não me
interromperia para dizer bobagens. . . —
Claro que não!
Laura saiu, fechando a porta cuidadosamente. A conversa
tinha-lhe animado; o Sr. Baldock era um
homem muito inteligente.
Tem muito mais probabilidade de ter razão do que mamãe,
pensou. Uma irmã! Sim, isto seria mais
fácil do que um irmão. Seria uma outra Laura...
uma Laurinha! Sem dentes, sem cabelo e sem graça!
Ao acordar do anestésico Angela voltou seus belos olhos azuis, perguntando para a enfermeira o que os seus lábios temiam murmurar.
— Está... tudo bem?
A enfermeira sorriu com eficiência.
— A senhora é mãe de uma linda criança, Sra. Franklyn. Uma
menina. Os olhos azuis se fecharam.
Uma menina, uma menina! Uma onda de desapontamento
cobriu-lhe a alma. Ela tivera tanta
certeza... e no entanto lá estava a resposta: uma segunda filha. A antiga dor voltou mais forte. Charles! Seu
lindo filho, Charles!
No andar de baixo, a cozinheira conversava.
— Bem, Laura, o que acha de sua nova irmã?
— Eu sabia que ia ser uma irmã — respondeu Laura. — O Sr.
Baldock me contou.
— O que um velho solteirão sabe dessas coisas?
— Ele é muito inteligente — respondeu Laura.
Angela demorou muito a se recuperar; seu marido já estava
preocupado. Quando o bebê fez um mês,
ele resolveu conversar com a esposa.
— Tem tanta importância assim? Ser uma menina e não um
menino? — É claro que não... só que eu
tinha tanta certeza.
— Mesmo que fosse um menino não seria Charles, não é
mesmo?
— É claro que não.
A enfermeira entrou no quarto com a criança.
— Vejam só quem chegou. A menina mais linda do mundo veio
falar com a mãe!
Angela segurou o bebê no colo, olhando com raiva para a
enfermeira. — As besteiras que estas
mulheres dizem — resmungou, assim que a enfermeira se retirou.
Arthur riu.
— Laura, meu amor, me dê uma almofada — disse Angela.
Laura pegou uma almofada e ajudou Angela a acomodar o bebê,
sentindo-se segura e adulta. Era dela
que sua mãe dependia.
A noite estava fria, na lareira um fogo brando crepitava. O
nenen balbuciou feliz. Angela olhou para
os olhos azuis e para a boca da criança. Com surpresa viu os olhos de Charles. Charles nesta idade, ela
quase havia se esquecido. Um amor
arrebatador percorreu seu ser. O seu bebê, o seu tesouro. Como pudera ser tão fria, diante de uma criança tão
maravilhosa? Tão cega? Uma criança feliz como
Charles.
— Meu bem, meu amor — murmurou.
Debruçou-se sobre a criança num abandono de amor e ternura.
Esqueceu de Laura, que a observava e que
se retirou silenciosamente. Angela, com certo sentimento de culpa, voltou-se para o marido.
— Mary Wells não pode vir para o batizado. Que tal se
fizéssemos Laura de madrinha? Acho que
ela iria ficar satisfeita!

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