domingo, 9 de maio de 2021

Voo noturno - Capítulo 07 e 08


 Uma hora mais tarde, o radiotelegrafista do correio da Patagônia sentiu-se soerguido como por um ombro. Olhou à sua volta: pesadas nuvens apagavam as estrelas. Debruçou-se para a terra: procurava as luzes das aldeias, semelhantes a pirilampos escondidos na erva, mas nada brilhava naquela erva negra.

Sentiu-se aborrecido, prevendo uma noite difícil: idas e voltas, terreno ganho que é preciso devolver. Não compreendia a tática do piloto; parecia-lhe que se iria chocar mais longe com a espessura da noite, como se fosse um muro.

Divisava agora, em frente deles, junto à linha do horizonte, um cintilar quase imperceptível: a luz frouxa duma forja. O telegrafista tocou no ombro de Fabien, mas este não se moveu.

Os primeiros redemoinhos da tempestade distante atacavam o avião. Soerguida suavemente, a massa metálica premia o corpo do telegrafista, depois parecia evaporar-se, fundir-se e durante alguns segundos, ele pairou sozinho na noite. Então, com ambas as mãos, agarrou-se com força às longarinas de aço.

E como nada mais via no mundo, senão a lâmpada vermelha da carlinga, estremeceu ao sentir-se baixar no seio das trevas, sem socorro, sob a proteção exclusiva duma lâmpada de mineiro. Não se atrevia a distrair o piloto para saber o que ele decidiria e, agarrado convulsivamente ao aço, inclinado para a frente sobre ela, fixava aquela nuca sombria.

Só uma cabeça e uns ombros imóveis emergiam da fraca claridade. Aquele corpo era apenas um vulto escuro, um pouco inclinado para a esquerda, o rosto voltado para a tempestade, iluminado decerto por cada clarão. Tudo o que nesse rosto se concentrava de sentimentos para enfrentar uma tempestade: certa expressão, a vontade, a cólera, todo o duelo que se travava entre aquele rosto pálido e os clarões lá longe, permanecia para ele impenetrável.

Contudo, o telegrafista pressentia a força concentrada na imobilidade daquele vulto e isso acalmava-o. Aquela força levá-lo-ia para a tempestade, mas protegia-o. Decerto aquelas mãos, apertadas nas alavancas de comando, já faziam sentir o seu peso sobre a tempestade, como no cachaço dum animal, mas as espáduas cheias de força permaneciam imóveis e sentia se que conservavam uma imensa reserva.

O telegrafista considerou que afinal o piloto era o responsável. E agora, levado à garupa naquele galope a caminho do fogo, ia saboreando 0 que aquela massa escura à sua frente representava de material e de força, o que ela representava de duradouro.

À esquerda, frouxo como um farol de rotação, um novo foco iluminou-se. O telegrafista esboçou um gesto para tocar no ombro de Fabien, preveni-lo, mas viu-o voltar lentamente a cabeça e manter o rosto, durante alguns segundos, bem de frente para aquele novo inimigo, depois, lentamente, retomar a primitiva posição. Os ombros sempre imóveis, a nuca colada à gola de couro.

Rivière saíra para dar uns passos e esquecer o mal-estar que sentia de novo. Ele, que vivia para a ação, uma ação dramática, via que dum modo estranho o drama se transformava, tornando-se pessoal. Pensou que, passeando à roda do coreto, os habitantes das pequenas cidades viviam uma vida aparentemente silenciosa, mas por vezes também carregada de dramas: a doença, o amor, os lutos e que talvez… O seu próprio mal ensinava-lhe muita coisa: "Isto rasga certas janelas sobre novos horizontes", refletia.

Depois, por volta das onze da noite, como respirasse mais facilmente, encaminhou-se para o escritório. Ia notando, lentamente, vultos, a multidão que estacionava às entradas dos cinemas. Ergueu os olhos para as estrelas brilhando sobre o caminho estreito, quase apagadas pelos letreiros luminosos, e pensou: "Esta noite, tendo dois dos meus correios em pleno voo, sou responsável por um céu inteiro. Aquela estrela representa um Binai que me busca nesta multidão e me encontra: é por isso que me sinto como se não pertencesse a este mundo um pouco solitário".

Voltou-lhe à mente uma frase musical: algumas notas duma sonata que escutara na véspera juntamente com uns amigos. Os seus amigos não tinham compreendido: "Essa arte aborrece-nos e aborrece-o; simplesmente você não o quer confessar".

"Talvez. . .", respondera.

Como agora, sentira-se solitário, mas bem depressa descobrira a sorte duma tal solidão. A mensagem dessa música vinha até ele, só até ele, no meio dos medíocres, com a suavidade dum segredo. Era assim o sinal da estrela. Falavam-lhe, por cima de tantas cabeças, numa linguagem que só ele compreendia.

No passeio empurravam-no; pensou ainda: "Não me hei de zangar. Sou como o pai duma criança doente, que vai andando lentamente entre a multidão. Leva consigo o profundo silêncio da sua casa".

Olhou para os homens. Procurava distinguir entre eles os que levam consigo lentamente a sua invenção ou o seu amor e imaginava o isolamento dos guardas de faróis. O silêncio que reinava nos escritórios agradou-lhe. Atravessou-os, lentamente, um a um, e só os seus passos eram ouvidos. As máquinas de escrever dormiam sob as cobertas. Os armários fechados guardavam os processos em dia. Dez anos de experiência e de trabalho. Imaginou que estava visitando as caves dum banco, onde as riquezas dormem. Pensava que cada um daqueles registros continha mais do que ouro: uma força viva. Uma força viva mas adormecida, como o ouro dos bancos.

Iria encontrar em qualquer recanto o único secretário de guarda. Um homem trabalhava em qualquer lugar para que a vida fosse contínua, para que a vontade fosse contínua, e o mesmo estaria sucedendo em cada escala, para que de Toulouse a Buenos Aires a cadeia nunca se rompesse.

"Esse homem ignora o quanto vale."

Em algum ponto os correios lutavam. O voo noturno seguia o seu curso como uma doença: era necessário estar de guarda. Era necessário prestar assistência a esses homens que, com as mãos e os joelhos, peito contra peito, desafiavam as trevas sem nada conhecerem além das coisas movediças, invisíveis, de que era preciso, à custa de braços cegos, livrarem-se como dum mar. Que terríveis confissões, por vezes: "Iluminei as mãos para vê-las. . ." A doçura das mãos apenas revelada naquele banho vermelho de fotógrafo. O que resta do mundo e que é preciso salvar.

Rivière empurrou a porta da seção de exploração. Uma única lâmpada acesa formava, num ângulo, uma praia luminosa. O bater duma única máquina de escrever dava sentido a este silêncio, sem, no entanto, preenchê-la. A campainha do telefone estremecia por vezes; então o secretário de guarda levantava-se e ia atender essa chamada repetida, obstinada, triste. O secretário de guarda levantava o fone e a angústia invisível acalmava-se: entabulava-se uma doce conversa, num canto de sombra. Depois, impassível, o empregado regressava à sua secretária a expressão fechada, pela solidão e pelo sono, sobre um segredo indecifrável. Que ameaça numa chamada que vem da noite envolvente quando dois correios estão em pleno voo! Rivière pensava nos telegramas que previnem as famílias em volta do candeeiro à noite e em seguida a desgraça que, durante segundos quase eternos, conserva o seu segredo no rosto do pai. Vaga que primeiramente é fraca, tão longe do grito lançado, tão calma. E, de cada vez, Rivière ouvia o seu eco amortecido naquelas campainhadas discretas. E, de cada vez, os movimentos do empregado, que a solidão tornava lento como um nadador entre duas águas, voltando da sombra para junto de seu candeeiro, como um mergulhador que volta à superfície, pareciam-lhe carregados de mistérios.

"Não se levante. Eu atendo."

Rivière levantou o fone, recebendo o zumbido do mundo.

"Aqui fala Rivière,"

Um pequeno tumulto, depois uma voz:

"Vou pô-lo em comunicação com o posto de rádio".

Novo tumulto, o das fichas no quadro, depois

outra vez : "Fala do posto de rádio. Vamos comunicar os telegramas".

Riviere anotava-os e assentava com a cabeça :

"Esta bem. . . Está bem…"

Nada de importante. Mensagens regulares de serviço. Rio de Janeiro pedia uma informação. Montevidéu falava do tempo em Mendoza, de material. Eram os ruídos familiares da casa.

— E os correios?

— O tempo está tempestuoso. Não conseguimos ouvir os aviões.

— Está bem.

Rivière pensou que a noite aqui era pura, as estrelas brilhavam, mas os radiotelegrafistas descobriam nela o premindo de tempestades longínquas. — Até logo!

Rivière levantava-se; o secretário acercou-se:

— As ordens de serviço para assinar…

— Está bem.

Rivière sentia nascer uma grande amizade por este homem, uma amizade que o peso daquela noite carregava. "Um companheiro de luta, pensava Rivière. Certamente nunca virá a saber como esta noite de vigília nos aproximou."

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