sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 16


 Tracy sacudiu a chuva de sua jaqueta ao entrar na Casa Funerária Thorenson. O Velho Thorenson, que era como as crianças chamavam Arthur Thorenson, embalsamava todos os mortos de Cedar Grove, incluindo os pais de Tracy. Mas quando ela telefonou, no começo da semana, falou com Darren, o filho. Darren estava alguns anos na frente dela no colégio, e aparentemente tinha assumido o negócio da família.

Ela se apresentou à mulher sentada à escrivaninha, no saguão, e se recusou a sentar e aceitar um café. A iluminação dentro da casa parecia mais clara do que ela se lembrava. As paredes e o carpete também pareciam mais claros. O cheiro, contudo, não tinha mudado. O local cheirava a incenso, um odor que Tracy associava a morte.

— Tracy? — Darren Thorenson aproximou-se num terno escuro, com gravata, o braço estendido. Ele pegou a mão dela. — É muito bom ver você, mas sinto pelas circunstâncias.

— Obrigada por cuidar de todas as providências, Darren. — Além de cremar os restos de Sarah, Thorenson tinha notificado os voluntários do cemitério e conseguido um pastor para o funeral. Tracy a princípio não queria uma cerimônia, mas também não ia cavar um buraco no meio da noite e jogar a irmã lá dentro como se não fosse nada.

— Não por isso. — Ele a conduziu até o que era o escritório do pai quando Tracy e a mãe estiveram ali para providenciar o funeral do pai dela, e depois, quando Tracy voltou, no dia em que sua mãe morreu de câncer. Darren sentou-se atrás da escrivaninha. Um retrato do pai dele, parecendo mais jovem do que ela se lembrava, pendia da parede ao lado de uma fotografia da família. Darren tinha casado com Abby Becker, sua namorada do colégio. Aparentemente eles tinham três filhos. Ele se parecia com o pai. Corpulento, Darren penteava o cabelo para trás, o que destacava seu nariz de batata e os óculos de armação preta e grossa, do tipo que Dan O’Leary usava quando criança.

— Você redecorou o lugar — Tracy disse.

— Aos poucos — ele confirmou. — Precisei de algum tempo para convencer meu pai de que respeitoso não precisa significar sinistro. — Como está ele?

— De vez em quando ele ameaça voltar da aposentadoria. Quando isso acontece, nós colocamos um taco de golfe na mão dele. Abby me pediu para te dizer que sente muito.

— Você teve algum problema com a sepultura?

O cemitério de Cedar Grove existia havia mais tempo que a cidade, embora ninguém soubesse a data do primeiro enterro, já que as covas mais antigas não tinham identificação. Voluntários cuidavam da manutenção, tirando as ervas daninhas e aparando a grama. Quando alguém morria, eles abriam a sepultura. Trabalhavam de graça, sob o acordo tácito de que alguém, algum dia, retribuiria o favor. Por causa do espaço limitado, a Câmara dos Vereadores tinha que aprovar cada enterro. Residir em Cedar Grove era obrigatório, e, como Sarah tinha morrido sendo moradora da cidade, isso não seria problema. Tracy tinha pedido que a irmã fosse enterrada com os pais, embora, tecnicamente, os pais estivessem num jazigo de duas pessoas.

— Nenhum — Darren respondeu. — Foi tudo providenciado. — Acho que é melhor cuidarmos logo da papelada.

— Está tudo feito.

— Então vou só fazer o cheque das despesas.

— Está tudo certo, Tracy.

— Darren, por favor. Não posso te pedir isso.

— Você não me pediu nada. — Ele sorriu, mas com tristeza. — Não vou aceitar seu dinheiro, Tracy. Você e sua família passaram por muita coisa. — Eu não sei o que dizer. Fico muito agradecida. De verdade. — Eu sei. Todos nós perdemos Sarah naquele dia. As coisas nunca mais foram as mesmas por aqui. Era como se ela pertencesse à cidade toda. Acho que todos nós pertencíamos, naquela época.

Tracy tinha ouvido outras pessoas dizerem coisas parecidas – que Cedar Grove não morreu quando Christian Mattioli fechou a mina e a maior parte da população se mudou. Cedar Grove morreu no dia em que Sarah desapareceu. Depois de Sarah, as pessoas pararam de deixar a porta de casa destrancada e os filhos andarem livremente, a pé ou de bicicleta. Depois de Sarah, pararam de deixar os filhos andarem até a escola ou esperarem o ônibus sem a companhia de um adulto. Depois de Sarah, as pessoas deixaram de ser tão amistosas ou receptivas com estranhos.

— Ele continua na cadeia? — Thorenson perguntou.

— Sim, continua preso.

— Espero que apodreça lá.

Tracy consultou o relógio. Darren se levantou.

— Você está pronta?

Ela não estava, mesmo assim confirmou com a cabeça. Ele a levou até a capela anexa, cujas cadeiras estavam vazias. O local não tinha comportado a multidão que comparecera ao velório de seu pai. Um crucifixo pendia na parede da frente. Abaixo dele, num pedestal de mármore, havia um receptáculo folheado a ouro do tamanho de uma caixa de joias. Tracy se aproximou e leu a gravação na placa.

Sarah Lynne Crosswhite

A garota

— Espero que assim esteja bom — Darren disse. — É como todos nós nos lembramos dela, a garota seguindo você por toda a cidade. — Tracy enxugou uma lágrima com um lenço de papel. — Fico contente que você possa entregar Sarah ao descanso eterno e superar isso — Darren continuou. — Fico contente por todos nós.

 Os carros estacionados um atrás do outro na rua de mão única que levava ao cemitério eram mais do que Tracy esperava, e ela desconfiava que sabia quem era o responsável por espalhar a notícia. Finlay Armstrong estava no meio da rua orientando o tráfego, a chuva escorrendo pela capa transparente que protegia seu uniforme e pela aba do chapéu. Tracy baixou o vidro do carro ao parar perto dele.

— Não se preocupe em estacionar — Finlay disse. — Pode deixar o carro na rua.

Darren Thorenson, que tinha seguido Tracy com seu carro, abriu um grande guarda-chuva de golfe para protegê-la quando ela saiu do carro, e os dois subiram juntos a colina em direção à tenda branca que cobria o túmulo dos pais dela no alto de um monte com vista para Cedar Grove. De trinta a quarenta pessoas aguardavam sentadas em cadeiras dobráveis brancas debaixo da cobertura. Outras vinte estavam fora da tenda, debaixo de guarda chuvas. As pessoas sentadas se levantaram quando Tracy entrou na tenda. Ela reservou um momento para cumprimentar os rostos conhecidos. Todos

tinham envelhecido, mas ela reconheceu amigos de seus pais, alguns professores que tinham se tornado seus colegas quando ela voltou por um breve período para ensinar química no Colégio Cedar Grove e adultos que tinham sido crianças com quem ela e Sarah foram à escola. Sunnie Witherspoon estava presente, assim como Marybeth Ferguson, uma das melhores amigas de Sarah. Vance Clark e Roy Calloway estavam do lado de fora da tenda. Assim como Kins, Andrew Laub e Vic Fazzio, que tinham vindo de Seattle, trazendo para Tracy uma sensação de realidade. Estar de volta a Cedar Grove continuava sendo surreal. Ela se sentia como se estivesse presa numa dobra do tempo de 20 anos, com coisas familiares e estranhas ao mesmo tempo. Não conseguia relacionar o que via com o que lembrava. Aquilo não era 1993. Longe disso.

As pessoas presentes tinham deixado vazia a primeira fileira de cadeiras, mas os lugares vazios ao lado de Tracy só serviam para amplificar seu isolamento. Depois de um instante, ela sentiu alguém entrar na tenda e se sentar ao seu lado.

— Este lugar está vago? — Ela precisou de um momento para descascar os anos. Ele tinha trocado a armação preta por lentes de contato, revelando os olhos azuis que sempre tiveram um brilho maroto. O corte escovinha tinha sido trocado por ondas suaves que caíam até o colarinho do paletó. Dan O’Leary se curvou e beijou delicadamente o rosto de Tracy. — Eu sinto tanto, Tracy.

— Dan. Eu quase não te reconheci — ela disse.

Ele sorriu e manteve a voz baixa.

— Estou um pouco mais grisalho, não muito mais sábio.

— E um pouco mais alto — ela disse, inclinando a cabeça para trás para observá-lo.

— Eu demorei para crescer. Ganhei 30 centímetros no verão do terceiro ano. — Os O’Leary se mudaram de Cedar Grove após o segundo ano de Dan no colégio. O pai dele tinha conseguido um emprego numa indústria de enlatados na Califórnia. Foi um dia triste para Tracy e os outros da turma. Dan e Tracy mantiveram contato por algum tempo, mas era uma época antes do e-mail e das mensagens de texto, e eles logo pararam de se comunicar. Tracy lembrava que Dan tinha terminado o colégio e ido para a faculdade na Costa Leste, onde ficou, depois de se formar. Ela também ouviu que a mãe e o pai dele tinham voltado para Cedar Grove depois que o pai se aposentou.

Thorenson se aproximou e apresentou o pastor, Peter Lyon, alto, com uma vasta cabeleira ruiva e pele clara, vestindo uma veste branca até os tornozelos, com uma corda verde amarrada na cintura. Uma estola no mesmo tom de verde caía-lhe dos ombros. Tracy e Sarah foram criadas presbiterianas. Após o desaparecimento da irmã, a fé de Tracy oscilou entre o agnosticismo e o ateísmo. Ela não colocava os pés numa igreja desde o funeral da mãe.

Lyon ofereceu suas condolências, então foi até a frente do túmulo e fez o sinal da cruz. Ele agradeceu aos que tinham comparecido, erguendo a voz para ser ouvido por cima da chuva tamborilando na tenda.

— Viemos hoje para enterrar os restos mortais de nossa irmã, Sarah Lynne Crosswhite. Nossa perda é grande e nosso coração está pesado. Em tempos de aflição e dor nós nos voltamos para a Bíblia, a Palavra de Deus, para encontrar conforto e salvação. — O pastor abriu a Bíblia e leu um trecho. Ao terminar, ele disse: — Eu sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor. Aquele que acredita em mim viverá, ainda que morra; e quem viver e acreditar em mim nunca morrerá. — Ele fechou o missal. — A irmã de Sarah, Tracy, vai se aproximar.

Tracy chegou à borda da sepultura e inspirou fundo. Darren Thorenson entregou-lhe a caixa folheada a ouro e ofereceu-lhe a mão, que ela aceitou ao se ajoelhar no tecido aberto no chão, sentindo, ainda assim, a umidade através da roupa. Ela colocou os restos de Sarah na sepultura e depois pegou um punhado de terra úmida. Tracy fechou os olhos, imaginando Sarah deitada na cama ao seu lado, como fazia com frequência quando eram crianças e quando dividiam um quarto de hotel ao viajarem com o pai para as competições de tiro.

Tracy, estou com medo.

Não precisa ter medo. Feche os olhos. Agora inspire fundo e solte devagar.

O peito de Tracy encheu-se de ar. Seus olhos marejaram.

— Eu não tenho… — ela sussurrou, esforçando-se para manter a voz calma ao abrir os dedos e deixar os torrões caírem sobre a caixa. Eu não tenho…

— Eu não tenho medo…

Eu não tenho medo…

— Eu não tenho medo do escuro.

Uma rajada repentina de vento agitou a tenda e soprou fios de cabelo no rosto de Tracy. Ela sorriu com a recordação e prendeu o cabelo atrás da orelha.

— Agora durma — Tracy sussurrou, e limpou a lágrima que rolava por seu rosto.

 Os presentes se aproximaram para jogar punhados de terra e flores na sepultura, e também para oferecer suas condolências. Fred Digasparro, antigo dono da barbearia, precisou do auxílio de uma cuidadora, uma jovem ao seu lado. Mãos que tinham barbeado homens com uma navalha afiada tremiam quando ele pegou a mão de Tracy.

— Eu tinha que vir — ele disse com seu sotaque italiano. — Pelo seu pai. Pela sua família.

Sunnie logo abraçou Tracy, soluçando. Elas foram inseparáveis durante todo o ensino fundamental e o médio, mas Tracy não manteve contato, e agora o toque era constrangedor e as lágrimas, forçadas. Sunnie e Sarah nunca haviam sido próximas; Sunnie tinha ciúme do relacionamento das irmãs.

— Eu sinto tanto — Sunnie disse, enxugando os olhos e apresentando Gary, seu marido. — Você vai ficar alguns dias?

— Não posso — Tracy respondeu.

— Talvez um café antes de você ir? Alguns minutos para pôr o assunto em dia?

— Pode ser.

Sunnie lhe entregou um pedaço de papel.

— Este é o meu celular. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo… — Ela tocou a mão de Tracy. — Senti sua falta, Tracy. Tracy reconheceu a maioria dos rostos que se aproximaram, mas não todos. Assim como aconteceu com Dan, ela precisou descascar os anos de alguns para encontrar a pessoa que tinha conhecido. Perto do fim da procissão, contudo, um homem vestindo terno se aproximou com uma mulher grávida ao lado. Tracy o reconheceu, mas não conseguiu se lembrar do nome. — Oi, Tracy. Sou Peter Kaufman.

— Peter — ela disse, enxergando então o garoto que tinha perdido um ano de escola por causa da leucemia. — Como você está?

— Estou ótimo. — Kaufman apresentou a esposa. — Nós moramos em Yakima — ele disse. — Mas Tony Swanson me ligou e contou do funeral. Nós viemos esta manhã, de carro.

— Obrigada por virem de tão longe — Tracy disse. Yakima ficava a quatro horas de carro.

— Está brincando? Como eu podia não vir? Você sabia que ela ia de bicicleta até o hospital quase toda semana, e me levava doces e um livro para colorir ou ler?

— Eu lembro. Como você está?

— Livre do câncer há 30 anos. Nunca me esqueci do que ela fez. Eu ficava ansioso toda semana para ver Sarah. Ela me animava. Sarah era assim. Uma pessoa especial. — Lágrimas se acumularam nos olhos dele. — Ainda bem que a encontraram, Tracy, e ainda bem que você deu a nós todos uma chance de nos despedirmos.

Eles conversaram por mais um minuto, e Tracy precisou de outro lenço de papel quando Peter Kaufman foi embora. Dan, que manteve uma distância respeitosa enquanto ela cumprimentava os presentes, aproximou-se e lhe ofereceu um lenço.

Tracy organizou suas emoções e secou os olhos.

— Não entendi uma coisa — ela disse, depois que recuperou um pouco da compostura. — Pensei que você morasse na Costa Leste. Como ficou sabendo?

— Eu morei no leste, perto de Boston. Mas voltei para cá. Estou morando aqui de novo.

— Em Cedar Grove?

— É uma história longa, e parece que você precisa de uma folga do passado. — Dan lhe entregou um cartão de visitas e lhe deu um abraço. — Eu gostaria de pôr o assunto em dia quando você estiver disposta. Apenas saiba que eu sinto muito, Tracy. Eu amava Sarah. De verdade.

— Seu lenço — ela disse, estendendo-o.

— Pode ficar com ele — Dan disse.

Ela reparou que o lenço trazia bordadas as iniciais dele, DMO, o que a fez refletir sobre o corte do terno e a qualidade da gravata. Convivendo com advogados, ela sabia que eram peças de qualidade, o que não combinava com a imagem do garoto que ela tinha conhecido, que vestia roupas de segunda mão. Tracy olhou para o cartão de visitas.

— Você é advogado — ela afirmou.

— Culpado — ele piscou um olho.

O cartão trazia como endereço comercial o edifício do First National Bank, na Rua do Mercado, em Cedar Grove.

— Eu gostaria de ouvir essa história, Dan.

— Ligue para mim quando puder. — Ele lhe deu um sorriso gentil antes de abrir um guarda-chuva grande e sair de debaixo da tenda. Kins aproximou-se com Laub e Fazzio.

— Quer companhia na viagem de volta?

— Obrigada — ela disse. — Mas vou ficar mais uma noite. — Pensei que você quisesse voltar direto para Seattle… — Kins disse.

Ela observou Dan se aproximar de uma SUV, abrir a porta, fechar o guarda-chuva e entrar.

— Meus planos acabaram de mudar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS