sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 14 e 15


 De manhã cedo, no terceiro dia após o desaparecimento de Sarah, Tracy abriu a porta da frente para encontrar Roy Calloway parado na varanda, apertando a aba do chapéu. Pela expressão do xerife, Tracy sabia que ele não trazia boas notícias.

— Bom dia, Tracy. Preciso falar com seu pai.

Tracy tivera que arrastar seus pais para casa quando a escuridão tornara pouco produtivo continuar as buscas nas colinas em torno de Cedar Grove. Ela havia trabalhado ao lado do pai, que tinha transformado seu escritório em centro de comando. Ele telefonara para delegacias de polícia, congressistas, todo mundo que conhecia em posição de poder. Tracy ligara para estações de rádio e jornais. Em algum momento após as 11 da noite, enquanto seu pai estudava um mapa topográfico, Tracy se aninhara numa das poltronas vermelhas de couro para tirar um cochilo de 15 minutos. Tinha acordado debaixo de um cobertor com o sol matinal entrando pela janela. Seu pai continuava sentado à escrivaninha, o sanduíche que ela tinha feito para ele na noite anterior intocado. Ele usava uma régua e um compasso para dividir o mapa topográfico em quadrantes. Ela tinha se levantado para fazer café, mas encontrou um bule cheio na cozinha. Era evidente que sua mãe já tinha saído nessa manhã sem acordá-la. Quando estava para servir uma xícara para seu pai, ouviu uma batida na porta da frente. — Ele está no escritório — Tracy disse ao xerife.

As portas de correr atrás dela já estavam sendo abertas, e seu pai saiu, ajustando os óculos atrás das orelhas.

— Estou aqui — ele disse. — Tracy, vá fazer café.

— Mamãe já fez um bule. — Ela os seguiu até o escritório. — Você falou com ele? — o pai perguntou.

— Ele disse que estava em casa — Calloway respondeu.

Tracy sabia que estavam falando de Edmund House.

— Alguém pode confirmar isso?

Calloway meneou a cabeça.

— Parker trabalhou no turno da noite, no moinho, e chegou tarde em casa. Ele diz que encontrou Edmund dormindo no quarto.

— Mas? — o pai de Tracy disse, quando o xerife hesitou.

Calloway entregou umas polaroides para o pai dela.

— Ele tem arranhões no rosto e no dorso das mãos.

James Crosswhite colocou uma das fotos debaixo da luz.

— Como ele explica essas marcas?

— House disse que um pedaço de madeira explodiu sobre ele enquanto trabalhava na oficina onde Parker faz os móveis. Disse que os estilhaços o cortaram.

O pai baixou a foto.

— Nunca ouvi falar em algo assim.

— Nem eu — concordou o xerife.

— Parece que alguém passou as unhas no rosto e nos braços dele. — É o que eu acho.

— Você consegue um mandado de busca?

— Vance já tentou — Calloway disse, a frustração transparecendo em sua voz. — Ele ligou para a casa do Juiz Sullivan, o pedido foi negado. O Juiz disse que não há evidência suficiente para invadir a santidade do lar de Parker.

O pai massageou um nó na nuca.

— E se eu ligar para o Sullivan?

— Eu não ligaria. O Sullivan segue a cartilha.

— Ele já esteve na droga da minha casa, Roy. Ele vem para a minha festa de Natal.

— Eu sei.

— E se Sarah estiver lá? E se ela estiver em algum lugar naquela propriedade?

— Não está.

— Como você sabe?

— A propriedade é do Parker. Eu perguntei se podia dar uma olhada e ele consentiu. Vasculhei cada sala em todos os edifícios. Ela não está lá e não vi nenhum indício de que tenha estado.

— Pode haver outras evidências… sangue no carro dele, ou na casa. — Pode haver, mas levar uma equipe forense…

— Ele é uma droga dum criminoso, Roy. Um estuprador condenado que tem arranhões no rosto e nos braços, sem ninguém que possa confirmar onde esteve. Como diabos isso não é suficiente?

— Eu disse a mesma coisa para o Vance, e ele apresentou esses argumentos para o Juiz Sullivan. House cumpriu sua pena por aquele crime. — Liguei para o tribunal do condado, Roy. House saiu por causa de um maldito acordo porque a polícia fez besteira. Dizem que ele estuprou e espancou aquela pobre garota por mais de um dia.

— E ele cumpriu a pena, James.

— Então me diga, Roy, onde está a minha filha? Onde está a minha Sarah?

Calloway parecia chateado.

— Eu não sei. Mas gostaria de saber.

— Então isso é o quê, uma grande coincidência? Eles o deixam sair, ele vem morar aqui e Sarah desaparece?

— Não é o bastante.

— Ele não tem álibi.

— Não é o bastante, James.

— Então quem? Um andarilho? Alguém de passagem pela cidade? Quais as chances de isso ter acontecido?

— O boletim foi divulgado a todos os departamentos de polícia no estado.

James Crosswhite enrolou o mapa topográfico e o entregou para Tracy. — Leve isto para a sua mãe no prédio da Legião Americana. Diga a ela para dar o mapa para Vern e reunir as equipes. Nós vamos voltar lá. Dessa vez quero a busca feita metodicamente, sem margem para erro. — Ele olhou para Calloway. — E quanto aos cachorros?

— A matilha mais próxima está na Califórnia. Trazê-la de avião é um problema.

— Não me importa se estão na Sibéria. Eu pago o que for necessário para trazer esses cachorros.

— O problema não é o custo, James.

O pai se virou para Tracy, como se surpreso por ela ainda não ter saído. — Você não me ouviu? Eu disse para ir.

— Você não vem junto?

— Faça o que estou dizendo, droga!

Tracy estremeceu e recuou. Seu pai nunca tinha levantado a voz para ela ou Sarah.

— Estou indo, pai — ela disse, passando por ele.

— Tracy. — Ele tocou o braço dela com delicadeza, demorando um instante para recuperar a calma. — Vá na frente, agora. Diga para a sua Mãe que eu vou depois. Preciso discutir mais algumas coisas com o xerife.

Uma semana após terem localizado os restos de Sarah, Tracy voltou a Cedar Grove. Embora a viagem de Seattle até lá tenha transcorrido debaixo do sol, conforme ela se aproximava uma nuvem preta se formou sobre a cidade, como se para marcar o motivo sombrio do seu retorno. Tracy estava voltando para enterrar a irmã.

O tráfego estava mais leve do que ela esperava, e Tracy chegou meia hora mais cedo para a reunião na casa funerária. Ela passou os olhos pelas fachadas dilapidadas das lojas até encontrar o neon em forma de xícara de café na frente do que tinha sido o Armazém do Kaufman. O ar estava pesado com o aroma terroso da chuva iminente. Tracy pôs uma moeda no parquímetro, embora duvidasse que houvesse um fiscal de estacionamento num raio de 200 quilômetros, e entrou no Daily Perk. Comprido e estreito, o espaço tinha sido o lugar onde ficava o balcão de sorvete e refrigerantes do Armazém. Alguém tinha construído uma parede falsa para dividir o espaço entre o café e um restaurante chinês. A mobília era uma mistura que parecia ter saído de um dormitório de faculdade. O sofá estava puído e coberto de jornais. As paredes de gesso tinham rachaduras longas, mal disfarçadas pela pintura de uma janela com vista para a calçada de uma cidade, com gente passando por casinhas geminadas. Era uma escolha estranha para um café de uma cidade rural. A jovem atrás do balcão tinha um piercing no nariz, outro no lábio inferior, e atendia como uma funcionária pública a uma semana da aposentadoria.

— Café. Preto — disse Tracy, já que a garota não se deu ao trabalho de perguntar o que ela queria.

Ela levou a xícara até uma mesa diante da janela verdadeira e ficou olhando para a Rua do Mercado, deserta, lembrando-se de como ela, Sarah e seus amigos costumavam arrumar confusão ao pedalar suas bicicletas nas calçadas lotadas. Elas as deixavam encostadas na parede, sem se preocupar em prendê-las, e entravam nas lojas para comprar o que precisavam para as aventuras planejadas para o sábado.

 Dan O’Leary estava parado, desamparado, diante de sua bicicleta. — Droga.

— O que foi? — Tracy tinha acabado de sair do Kaufman após guardar em sua mochila uma corda grossa, uma forma de pão e potes de manteiga de amendoim e geleia. Com o dinheiro que sobrara, ela tinha comprado dez pedaços de alcaçuz preto e cinco vermelhos. Seu pai tinha dado o dinheiro naquela manhã, quando pedira permissão para ela e Sarah irem de bicicleta até o Lago Cascade. Sarah tinha encontrado a árvore perfeita para fazer um balanço de corda. Tracy ficara surpresa diante do fato de seu pai ter dado o dinheiro tão prontamente. Esse era o tipo de despesa que ela e Sarah deveriam pagar com o que ganhavam de mesada. Agora no segundo ano do ensino médio, Tracy também ganhava seu dinheiro trabalhando na bilheteria do Cinema Hutchins. E seu pai não apenas tinha lhe dado o dinheiro, mas dito para gastar tudo, e dissera que o Sr. Kaufman “estava com dificuldade para fechar as contas”. Tracy desconfiava que era porque Peter, o filho do Sr. Kaufman, que estava na mesma classe de Sarah, no sexto ano da Escola Primária de Cedar Grove, tinha estado doente, entrando e saindo do hospital ao longo do ano.

— Pneu furado — disse Dan, parecendo tão murcho quanto o pneu dianteiro da bicicleta.

— Talvez só precise de ar — Tracy disse.

— Não. Estava murcho de manhã, e eu o enchi antes de sairmos. Deve ter um furo. Que ótimo. Agora eu não posso ir. — Dan tirou a mochila das costas e sentou na calçada.

— Qual o problema? — Sarah perguntou ao sair da loja com Sunnie. — Dan está com um pneu murcho.

— Não posso ir — ele disse.

— Vamos pedir ao Sr. Kaufman para usar o telefone e ligar para a sua mãe — Tracy disse. — Quem sabe ela pode vir comprar um pneu novo para você.

— Não dá — Dan disse. — Meu pai tem me repreendido por eu ser irresponsável. Ele diz que dinheiro não cresce em árvores.

— Então você não vai? — Sunnie falou. — Nós tínhamos planejado tudo. Dan baixou a cabeça, apoiando-a nos braços cruzados sobre os joelhos.

Ele não se preocupou em ajeitar os óculos que tinham escorregado pela ponte de seu nariz.

— Vocês vão sem mim.

— Tudo bem — Sunnie disse, pegando sua bicicleta.

Tracy a fuzilou com o olhar.

— Nós não vamos sem ele, Sunnie.

— Não vamos? Não é nossa culpa se a bicicleta dele é uma porcaria. — Pare com isso, Sunnie — Sarah disse.

— Pare você. Quem convidou você, afinal?

— Quem convidou você? — Sarah devolveu. — Eu encontrei a árvore, não você.

— Parem com isso, vocês duas — Tracy disse. — Se Dan não pode ir, nenhuma de nós vai. — Tracy segurou o braço de Dan. — Vamos, Dan, levante. Vamos empurrar a sua bicicleta até a minha casa. Nós podemos amarrar a corda num dos galhos do salgueiro-chorão e fazer o balanço lá.

— Está brincando? Nós temos o quê, 6 anos? — Sunnie exclamou. — Nós íamos pular no lago. O que vamos fazer agora, pular na grama? — Vamos. — Tracy olhou ao redor, mas não viu a irmã. Ela suspirou. — Cadê a Sarah?

— Ótimo — Sunnie bufou. — Agora ela desapareceu de novo. Este dia está ficando pior a cada minuto.

A bicicleta de Sarah continuava encostada no prédio, mas ela não estava à vista.

— Esperem aqui. — Tracy voltou para dentro da loja e encontrou Sarah no balcão, conversando com o Sr. Kaufman. — Sarah, o que está fazendo? Sarah enfiou a mão no bolso e tirou um maço de dólares e algumas moedas, colocando tudo sobre o balcão.

— Estou comprando um pneu novo para o Dan — Sarah disse. Ela sacudiu a cabeça para tirar o cabelo da frente do rosto. Isso deixava a mãe delas doida, mas Sarah se recusava a usar presilhas ou prender o cabelo com um elástico.

— É o dinheiro do cinema que você estava guardando?

— Dan precisa mais do que eu. — Sarah deu de ombros.

— Aqui está, Sarah. — O Sr. Kaufman entregou a Sarah a caixa com a nova câmara de pneu. — Este deve ser o tamanho correto.

— O dinheiro dá, Sr. Kaufman?

O Sr. Kaufman recolheu o dinheiro do balcão sem contar.

— Acho que é o bastante. Tem certeza de que consegue trocar? É um trabalhão. — Ele olhou para Tracy e piscou.

— Já vi o meu pai trocar. E é no pneu da frente, então não preciso tirar a corrente.

— Quem sabe a sua irmã mais velha pode ajudar — ele sugeriu. — Não precisa, eu consigo.

Ele pegou ferramentas embaixo do balcão e entregou para Sarah uma chave de fenda e uma inglesa.

— Bem, você vai precisar disto. Avise se precisar de ajuda. — Pode deixar. Obrigada, Sr. Kaufman. — Sarah pegou a caixa e as ferramentas e saiu da loja gritando. — Dan, comprei uma câmara nova. Agora você pode ir com a gente.

Tracy olhou pela janela. Dan pareceu confuso, depois surpreso, e então pulou de pé, sorrindo.

— Avise se precisar de ajuda, está certo, Tracy? — disse o Sr. Kaufman. — Eu aviso — Tracy respondeu.

Ele lhe entregou uma bomba de pneu.

— Só me traga junto com as ferramentas quando terminarem. — Ele olhou pela janela. Sarah e Dan tinham se ajoelhado, e ela encaixava a chave-inglesa na porca dianteira. — Ela é uma figura, a sua irmã.

— É. Ela é uma coisa. Obrigada, Sr. Kaufman. — Tracy começou a sair da loja, mas virou-se quando o Sr. Kaufman chamou seu nome. Ele lhe estendeu uma barra de Hershey extragrande, do tipo que a mãe dela comprava para assar com marshmallow quando a família ia acampar. — Ah, não, Sr. Kaufman. Eu não tenho mais dinheiro.

— É um presente.

— Não posso aceitar — ela disse, lembrando-se de seu pai dizer que o Sr. Kaufman estava com dificuldade para fechar as contas. Ela já desconfiava que a câmara do pneu custasse mais do que Sarah tinha colocado no balcão. O Sr. Kaufman pareceu estar prestes a chorar.

— Você sabia que ela vai de bicicleta até o hospital para visitar Peter? — Vai mesmo? — O hospital ficava em outra cidade, em Silver Spurs. Sarah estaria encrencada se os pais descobrissem.

— Ela leva livros de colorir para ele — o Sr. Kaufman disse, os olhos úmidos. — Ela contou que guarda o dinheiro da pipoca.

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