— Bom dia, Tracy. Preciso falar com seu pai.
Tracy tivera que arrastar seus pais para casa quando a
escuridão tornara pouco produtivo continuar as buscas nas colinas em torno de
Cedar Grove. Ela havia trabalhado ao lado do pai, que tinha transformado seu
escritório em centro de comando. Ele telefonara para delegacias de polícia,
congressistas, todo mundo que conhecia em posição de poder. Tracy ligara para
estações de rádio e jornais. Em algum momento após as 11 da noite, enquanto seu
pai estudava um mapa topográfico, Tracy se aninhara numa das poltronas
vermelhas de couro para tirar um cochilo de 15 minutos. Tinha acordado debaixo
de um cobertor com o sol matinal entrando pela janela. Seu pai continuava
sentado à escrivaninha, o sanduíche que ela tinha feito para ele na noite
anterior intocado. Ele usava uma régua e um compasso para dividir o mapa
topográfico em quadrantes. Ela tinha se levantado para fazer café, mas
encontrou um bule cheio na cozinha. Era evidente que sua mãe já tinha saído
nessa manhã sem acordá-la. Quando estava para servir uma xícara para seu pai,
ouviu uma batida na porta da frente. — Ele está no escritório — Tracy disse ao
xerife.
As portas de correr atrás dela já estavam sendo abertas, e
seu pai saiu, ajustando os óculos atrás das orelhas.
— Estou aqui — ele disse. — Tracy, vá fazer café.
— Mamãe já fez um bule. — Ela os seguiu até o escritório. —
Você falou com ele? — o pai perguntou.
— Ele disse que estava em casa — Calloway respondeu.
Tracy sabia que estavam falando de Edmund House.
— Alguém pode confirmar isso?
Calloway meneou a cabeça.
— Parker trabalhou no turno da noite, no moinho, e chegou
tarde em casa. Ele diz que encontrou Edmund dormindo no quarto.
— Mas? — o pai de Tracy disse, quando o xerife hesitou.
Calloway entregou umas polaroides para o pai dela.
— Ele tem arranhões no rosto e no dorso das mãos.
James Crosswhite colocou uma das fotos debaixo da luz.
— Como ele explica essas marcas?
— House disse que um pedaço de madeira explodiu sobre ele
enquanto trabalhava na oficina onde Parker faz os móveis. Disse que os
estilhaços o cortaram.
O pai baixou a foto.
— Nunca ouvi falar em algo assim.
— Nem eu — concordou o xerife.
— Parece que alguém passou as unhas no rosto e nos braços
dele. — É o que eu acho.
— Você consegue um mandado de busca?
— Vance já tentou — Calloway disse, a frustração
transparecendo em sua voz. — Ele ligou para a casa do Juiz Sullivan, o pedido
foi negado. O Juiz disse que não há evidência suficiente para invadir a
santidade do lar de Parker.
O pai massageou um nó na nuca.
— E se eu ligar para o Sullivan?
— Eu não ligaria. O Sullivan segue a cartilha.
— Ele já esteve na droga da minha casa, Roy. Ele vem para a
minha festa de Natal.
— Eu sei.
— E se Sarah estiver lá? E se ela estiver em algum lugar naquela
propriedade?
— Não está.
— Como você sabe?
— A propriedade é do Parker. Eu perguntei se podia dar uma
olhada e ele consentiu. Vasculhei cada sala em todos os edifícios. Ela não está
lá e não vi nenhum indício de que tenha estado.
— Pode haver outras evidências… sangue no carro dele, ou na
casa. — Pode haver, mas levar uma equipe forense…
— Ele é uma droga dum criminoso, Roy. Um estuprador condenado que tem arranhões no rosto e nos braços, sem ninguém que possa confirmar onde esteve. Como diabos isso não é suficiente?
— Eu disse a mesma coisa para o Vance, e ele apresentou
esses argumentos para o Juiz Sullivan. House cumpriu sua pena por aquele crime.
— Liguei para o tribunal do condado, Roy. House saiu por causa de um maldito
acordo porque a polícia fez besteira. Dizem que ele estuprou e espancou aquela
pobre garota por mais de um dia.
— E ele cumpriu a pena, James.
— Então me diga, Roy, onde está a minha filha? Onde está a
minha Sarah?
Calloway parecia chateado.
— Eu não sei. Mas gostaria de saber.
— Então isso é o quê, uma grande coincidência? Eles o deixam
sair, ele vem morar aqui e Sarah desaparece?
— Não é o bastante.
— Ele não tem álibi.
— Não é o bastante, James.
— Então quem? Um andarilho? Alguém de passagem pela cidade?
Quais as chances de isso ter acontecido?
— O boletim foi divulgado a todos os departamentos de
polícia no estado.
James Crosswhite enrolou o mapa topográfico e o entregou para Tracy. — Leve isto para a sua mãe no prédio da Legião Americana. Diga a ela para dar o mapa para Vern e reunir as equipes. Nós vamos voltar lá. Dessa vez quero a busca feita metodicamente, sem margem para erro. — Ele olhou para Calloway. — E quanto aos cachorros?
— A matilha mais próxima está na Califórnia. Trazê-la de
avião é um problema.
— Não me importa se estão na Sibéria. Eu pago o que for
necessário para trazer esses cachorros.
— O problema não é o custo, James.
O pai se virou para Tracy, como se surpreso por ela ainda
não ter saído. — Você não me ouviu? Eu disse para ir.
— Você não vem junto?
— Faça o que estou dizendo, droga!
Tracy estremeceu e recuou. Seu pai nunca tinha levantado a
voz para ela ou Sarah.
— Estou indo, pai — ela disse, passando por ele.
— Tracy. — Ele tocou o braço dela com delicadeza, demorando um instante para recuperar a calma. — Vá na frente, agora. Diga para a sua Mãe que eu vou depois. Preciso discutir mais algumas coisas com o xerife.
Uma semana após terem localizado os restos de Sarah, Tracy
voltou a Cedar Grove. Embora a viagem de Seattle até lá tenha transcorrido
debaixo do sol, conforme ela se aproximava uma nuvem preta se formou sobre a
cidade, como se para marcar o motivo sombrio do seu retorno. Tracy estava
voltando para enterrar a irmã.
O tráfego estava mais leve do que ela esperava, e Tracy
chegou meia hora mais cedo para a reunião na casa funerária. Ela passou os
olhos pelas fachadas dilapidadas das lojas até encontrar o neon em forma de
xícara de café na frente do que tinha sido o Armazém do Kaufman. O ar estava
pesado com o aroma terroso da chuva iminente. Tracy pôs uma moeda no
parquímetro, embora duvidasse que houvesse um fiscal de estacionamento num raio
de 200 quilômetros, e entrou no Daily Perk. Comprido e estreito, o espaço tinha
sido o lugar onde ficava o balcão de sorvete e refrigerantes do Armazém. Alguém
tinha construído uma parede falsa para dividir o espaço entre o café e um
restaurante chinês. A mobília era uma mistura que parecia ter saído de um
dormitório de faculdade. O sofá estava puído e coberto de jornais. As paredes
de gesso tinham rachaduras longas, mal disfarçadas pela pintura de uma janela
com vista para a calçada de uma cidade, com gente passando por casinhas
geminadas. Era uma escolha estranha para um café de uma cidade rural. A jovem
atrás do balcão tinha um piercing no nariz, outro no lábio inferior, e atendia
como uma funcionária pública a uma semana da aposentadoria.
— Café. Preto — disse Tracy, já que a garota não se deu ao
trabalho de perguntar o que ela queria.
Ela levou a xícara até uma mesa diante da janela verdadeira e ficou olhando para a Rua do Mercado, deserta, lembrando-se de como ela, Sarah e seus amigos costumavam arrumar confusão ao pedalar suas bicicletas nas calçadas lotadas. Elas as deixavam encostadas na parede, sem se preocupar em prendê-las, e entravam nas lojas para comprar o que precisavam para as aventuras planejadas para o sábado.
Dan O’Leary estava parado, desamparado, diante de sua bicicleta. — Droga.
— O que foi? — Tracy tinha acabado de sair do Kaufman após
guardar em sua mochila uma corda grossa, uma forma de pão e potes de manteiga
de amendoim e geleia. Com o dinheiro que sobrara, ela tinha comprado dez
pedaços de alcaçuz preto e cinco vermelhos. Seu pai tinha dado o dinheiro
naquela manhã, quando pedira permissão para ela e Sarah irem de bicicleta até o
Lago Cascade. Sarah tinha encontrado a árvore perfeita para fazer um balanço de
corda. Tracy ficara surpresa diante do fato de seu pai ter dado o dinheiro tão
prontamente. Esse era o tipo de despesa que ela e Sarah deveriam pagar com o
que ganhavam de mesada. Agora no segundo ano do ensino médio, Tracy também
ganhava seu dinheiro trabalhando na bilheteria do Cinema Hutchins. E seu pai
não apenas tinha lhe dado o dinheiro, mas dito para gastar tudo, e dissera que
o Sr. Kaufman “estava com dificuldade para fechar as contas”. Tracy desconfiava
que era porque Peter, o filho do Sr. Kaufman, que estava na mesma classe de
Sarah, no sexto ano da Escola Primária de Cedar Grove, tinha estado doente,
entrando e saindo do hospital ao longo do ano.
— Pneu furado — disse Dan, parecendo tão murcho quanto o
pneu dianteiro da bicicleta.
— Talvez só precise de ar — Tracy disse.
— Não. Estava murcho de manhã, e eu o enchi antes de
sairmos. Deve ter um furo. Que ótimo. Agora eu não posso ir. — Dan tirou a
mochila das costas e sentou na calçada.
— Qual o problema? — Sarah perguntou ao sair da loja com
Sunnie. — Dan está com um pneu murcho.
— Não posso ir — ele disse.
— Vamos pedir ao Sr. Kaufman para usar o telefone e ligar
para a sua mãe — Tracy disse. — Quem sabe ela pode vir comprar um pneu novo
para você.
— Não dá — Dan disse. — Meu pai tem me repreendido por eu
ser irresponsável. Ele diz que dinheiro não cresce em árvores.
— Então você não vai? — Sunnie falou. — Nós tínhamos
planejado tudo. Dan baixou a cabeça, apoiando-a nos braços cruzados sobre os
joelhos.
Ele não se preocupou em ajeitar os óculos que tinham
escorregado pela ponte de seu nariz.
— Vocês vão sem mim.
— Tudo bem — Sunnie disse, pegando sua bicicleta.
Tracy a fuzilou com o olhar.
— Nós não vamos sem ele, Sunnie.
— Não vamos? Não é nossa culpa se a bicicleta dele é uma
porcaria. — Pare com isso, Sunnie — Sarah disse.
— Pare você. Quem convidou você, afinal?
— Quem convidou você? — Sarah devolveu. — Eu encontrei a
árvore, não você.
— Parem com isso, vocês duas — Tracy disse. — Se Dan não
pode ir, nenhuma de nós vai. — Tracy segurou o braço de Dan. — Vamos, Dan, levante.
Vamos empurrar a sua bicicleta até a minha casa. Nós podemos amarrar a corda
num dos galhos do salgueiro-chorão e fazer o balanço lá.
— Está brincando? Nós temos o quê, 6 anos? — Sunnie
exclamou. — Nós íamos pular no lago. O que vamos fazer agora, pular na grama? —
Vamos. — Tracy olhou ao redor, mas não viu a irmã. Ela suspirou. — Cadê a
Sarah?
— Ótimo — Sunnie bufou. — Agora ela desapareceu de novo.
Este dia está ficando pior a cada minuto.
A bicicleta de Sarah continuava encostada no prédio, mas ela
não estava à vista.
— Esperem aqui. — Tracy voltou para dentro da loja e
encontrou Sarah no balcão, conversando com o Sr. Kaufman. — Sarah, o que está
fazendo? Sarah enfiou a mão no bolso e tirou um maço de dólares e algumas
moedas, colocando tudo sobre o balcão.
— Estou comprando um pneu novo para o Dan — Sarah disse. Ela
sacudiu a cabeça para tirar o cabelo da frente do rosto. Isso deixava a mãe
delas doida, mas Sarah se recusava a usar presilhas ou prender o cabelo com um
elástico.
— É o dinheiro do cinema que você estava guardando?
— Dan precisa mais do que eu. — Sarah deu de ombros.
— Aqui está, Sarah. — O Sr. Kaufman entregou a Sarah a caixa
com a nova câmara de pneu. — Este deve ser o tamanho correto.
— O dinheiro dá, Sr. Kaufman?
O Sr. Kaufman recolheu o dinheiro do balcão sem contar.
— Acho que é o bastante. Tem certeza de que consegue trocar?
É um trabalhão. — Ele olhou para Tracy e piscou.
— Já vi o meu pai trocar. E é no pneu da frente, então não
preciso tirar a corrente.
— Quem sabe a sua irmã mais velha pode ajudar — ele sugeriu.
— Não precisa, eu consigo.
Ele pegou ferramentas embaixo do balcão e entregou para
Sarah uma chave de fenda e uma inglesa.
— Bem, você vai precisar disto. Avise se precisar de ajuda.
— Pode deixar. Obrigada, Sr. Kaufman. — Sarah pegou a caixa e as ferramentas e
saiu da loja gritando. — Dan, comprei uma câmara nova. Agora você pode ir com a
gente.
Tracy olhou pela janela. Dan pareceu confuso, depois
surpreso, e então pulou de pé, sorrindo.
— Avise se precisar de ajuda, está certo, Tracy? — disse o
Sr. Kaufman. — Eu aviso — Tracy respondeu.
Ele lhe entregou uma bomba de pneu.
— Só me traga junto com as ferramentas quando terminarem. —
Ele olhou pela janela. Sarah e Dan tinham se ajoelhado, e ela encaixava a
chave-inglesa na porca dianteira. — Ela é uma figura, a sua irmã.
— É. Ela é uma coisa. Obrigada, Sr. Kaufman. — Tracy começou
a sair da loja, mas virou-se quando o Sr. Kaufman chamou seu nome. Ele lhe
estendeu uma barra de Hershey extragrande, do tipo que a mãe dela comprava para
assar com marshmallow quando a família ia acampar. — Ah, não, Sr. Kaufman. Eu
não tenho mais dinheiro.
— É um presente.
— Não posso aceitar — ela disse, lembrando-se de seu pai
dizer que o Sr. Kaufman estava com dificuldade para fechar as contas. Ela já
desconfiava que a câmara do pneu custasse mais do que Sarah tinha colocado no
balcão. O Sr. Kaufman pareceu estar prestes a chorar.
— Você sabia que ela vai de bicicleta até o hospital para
visitar Peter? — Vai mesmo? — O hospital ficava em outra cidade, em Silver
Spurs. Sarah estaria encrencada se os pais descobrissem.
— Ela leva livros de colorir para ele — o Sr. Kaufman disse, os olhos úmidos. — Ela contou que guarda o dinheiro da pipoca.

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