sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 12 e 13


 Na segunda manhã após o desaparecimento de Sarah, o pai de Tracy entrou no escritório dele parecendo absolutamente exausto, apesar de ter tomado um banho. Os pais tinham pegado o voo da madrugada no Havaí. Sua mãe nem havia ido para casa. Após o avião pousar, ela fora direto para o edifício da Legião Americana, na Rua do Mercado, para mobilizar os voluntários que já se reuniam ali. Seu pai tinha ido para casa encontrar Roy Calloway e pedira que Tracy ficasse, para o caso de o xerife ter mais perguntas, embora ela já tivesse respondido tantas que não conseguia pensar no que mais ele poderia querer saber.

Você notou alguém na competição agindo de forma estranha, ficando por perto, parecendo ter algum interesse incomum em Sarah?

Alguém se aproximou de ums de vocês, por qualquer motivo? Alguma vez Sarah pareceu indicar que se sentia ameaçada por alguém? Calloway pediu uma lista dos garotos que Sarah tinha namorado. Tracy não conseguia pensar numa só pessoa dessa lista que pudesse ter qualquer motivo para machucar a irmã. A maioria era formada por amigos desde a escola primária.

O cabelo de seu pai, um grisalho prematuro, caía em anéis sobre o colarinho de sua camisa de manga longa. Normalmente, o grisalho contrastava com sua atitude jovem e seus curiosos olhos azuis. Nessa manhã, ele parecia ter seus 58 anos. Os olhos estavam vermelhos e inchados por trás dos óculos de aro redondo. Em geral meticuloso com sua própria aparência, a barba de vários dias competia com o bigode espesso, cujas extremidades ele mantinha longas o suficiente para formar pontas afiadas com cera quando competia em torneios de tiro como “Doc” Crosswhite.

— Me fale da picape — o pai pediu a Calloway, e Tracy reparou que era seu pai, não o xerife, quem fazia as perguntas. Nas festas em casa, seu pai nunca era espalhafatoso nem exibido, mas a multidão sempre parecia

encontrá-lo. Era a corte, como dizia a mãe de Tracy. Quando James Crosswhite falava, as pessoas escutavam; quando ele fazia perguntas, davam-lhe respostas. Ao mesmo tempo, seu pai tinha um jeito reservado e respeitoso que fazia cada pessoa se sentir como se fosse a única na sala.

— Nós guinchamos a picape até o pátio da polícia — Calloway respondeu. — Seattle está enviando uma equipe de peritos para procurar digitais. — Ele olhou para Tracy. — Parece que ela ficou sem gasolina.

— Não. — Tracy estava em pé, ao lado de um divã vermelho que combinava com duas poltronas de couro. — Eu lhe disse que enchi o tanque antes de sair de Cedar Grove. Ainda devia ter três quartos de tanque.

— Vamos examinar isso melhor — Calloway disse. — Mandei um boletim para todos os departamentos de polícia do estado, bem como do Oregon e da Califórnia. A Polícia de Fronteira Canadense também foi notificada. Nós passamos a foto de formatura de Sarah por fax.

James Crosswhite passou a mão pela barba no queixo.

— Alguém que estava de passagem? — perguntou. — É nisso que você está pensando?

— Por que alguém de passagem iria pegar a estradinha local? — Tracy perguntou. — Teria ficado na autoestrada.

O pai apertou os olhos, mas ela percebeu tarde demais. Ele se aproximou dela e pegou sua mão esquerda.

— O que é isso? Um diamante?

— É.

O pai olhou para o lado, o maxilar crispado.

Calloway interveio.

— Você falou com as amigas dela?

Tracy escondeu a mão atrás da coxa. Ela tinha passados horas telefonando para todo mundo em quem conseguia pensar.

— Ninguém a viu — ela disse.

— Por que ela não levou as armas? — o pai perguntou, aparentemente para si mesmo. — Por que não levou uma das pistolas com ela? — Sarah não tinha motivo para se sentir ameaçada, James. Estou pensando que ela ficou sem gasolina e começou a andar de volta para a cidade.

— Você procurou no bosque?

— Nada indica que ela tenha escorregado ou caído.

Tracy nunca pensou que isso seria possível. Sarah era atlética demais para ter tropeçado e caído à margem da estrada, mesmo no escuro e na chuva.

— Vamos aguardar — Calloway disse.

— Não vou ficar aguardando, Roy. Você sabe que não sou assim. — Ele se virou para Tracy. — Faça aquele folheto de que nós falamos e leve-o para sua mãe. Encontre uma fotografia em que Sarah se pareça com ela mesma, não a foto da formatura. Bradley pode fazer cópias para você na farmácia. Diga para ele rodar mil para começar, e ponha na minha conta. Quero as fotos em todos os lugares, daqui até a fronteira com o Canadá. — Ele se virou para Calloway. — Nós vamos precisar de um mapa topográfico.

— Eu chamei o Vern. Ele conhece essas montanhas melhor do que ninguém.

— E cachorros?

— Vou providenciar — Calloway disse.

— Alguém voltando para casa de algum lugar? Alguém que mora aqui? — Ninguém daqui faria algo assim, James. Não com a Sarah. Seu pai pareceu querer falar algo, mas parou, parecendo perder o fio da

meada. Pela primeira vez em sua vida, Tracy viu medo passar pelo rosto dele, algo cinzento, escuro e etéreo.

— Aquele garoto — ele disse. — O que acabou de sair na condicional. — Edmund House — Calloway sussurrou. Ele congelou, como se paralisado pelo nome. Então disse: — Vou verificar isso. — Calloway abriu rapidamente as portas de correr, seguindo apressado pelo saguão de mármore até chegar à porta da frente.

— Jesus — o pai de Tracy disse.

interior espartano do café no térreo do edifício que abrigava o novo escritório do Instituto Médico-Legal do Condado de King, na Rua Jefferson, lembrava Tracy dos cafés de hospital – o fato de um parente estar internado não significava que a família também precisasse sofrer. Com a aparente intenção de ser algum tipo de decoração moderna, o piso era de linóleo, as mesas de aço inoxidável e as cadeiras, desconfortáveis, de plástico. Kelly Rosa não tinha sugerido esse café pelo conforto. Ela o tinha escolhido pela localização: era perto, mas não era de fato seu escritório.

Tracy passou os olhos pelas mesas, mas não viu Rosa. Ela pediu chá preto e se sentou a uma mesa perto das janelas, com vista para a calçada em descida, onde ficou respondendo e-mails e mensagens de texto em seu iPhone. Cerca de um minuto depois de se sentar, ela reconheceu Rosa vindo pela calçada, apesar do capuz de uma capa de chuva verde que a protegia da garoa leve. Rosa baixou o capuz quando entrou no café e viu Tracy. Ela não parecia ser o tipo de pessoa que subia montanhas e entrava em pântanos para encontrar e examinar os restos de pessoas mortas havia muito tempo. Parecia uma dona de casa que dirigia uma perua, o que ela de fato fazia quando não estava procurando restos mortais.

Rosa abraçou Tracy antes de tirar o casaco.

— Posso pegar algo para você? — Tracy perguntou.

— Não, estou bem — Rosa disse, sentando-se diante dela.

— Como estão as crianças?

— Minha garota de 14 anos está mais alta que eu. Não é grande coisa, eu sei, mas ela sente uma satisfação enorme em me olhar de cima para baixo. — Se Rosa chegasse a um metro e meio, era devido à espessura de seu cabelo loiro. — E minha filha de 11 vai estrelar a peça da escola, O Mágico de Oz. — Ela vai ser Dorothy?

— Toto. E acha que é a estrela. — Tracy sorriu. Rosa se inclinou para a

frente e segurou a mão de Tracy. — Eu sinto muito, Tracy. — Obrigada. Agradeço por arrumar tempo para mim.

— Mas é claro.

— Você confirmou que é ela? — Era uma formalidade, mas Tracy sabia, por experiência, que Rosa tinha sido obrigada a submeter um raio x da mandíbula de Sarah e seus dentes à Unidade de Pessoas Desaparecidas e Não Identificadas e ao Centro Nacional de Informações Criminais. — Tivemos dois positivos.

— O que mais você pode me contar?

Rosa suspirou fundo.

— Eu posso te contar que o xerifão não quer que eu te conte nada. — Ele disse isso?

— A intenção foi clara.

— Roy Calloway nunca foi sutil.

— O bom é que eu não trabalho para ele. — Rosa sorriu, mas o sorriso logo desapareceu. — Você tem certeza de que quer ouvir tudo? Já é difícil o bastante quando a vítima é desconhecida.

— Não, não tenho certeza, mas preciso saber o que você descobriu. — Quanto você quer que eu te conte?

— O máximo que eu suportar; eu aviso quando não aguentar mais. Rosa esfregou as mãos e as juntou debaixo do queixo, como uma criança se preparando para rezar.

— Como você desconfiava, o assassino usou um buraco criado pelo desenraizamento da árvore. Marcas de pá indicam que ele tentou aumentar o buraco, mas ou calculou mal o tamanho, ou ficou com preguiça, ou não tinha tempo. O corpo foi posicionado com as pernas mais altas que a cabeça, com os joelhos dobrados. Foi por isso que o cachorro descobriu primeiro o pé e a perna.

— Foi o que eu imaginei.

— A posição do corpo no buraco, com os joelhos dobrados e as costas arqueadas, indicam rigor mortis anterior ao enterro.

Tracy sentiu o pulso acelerar.

— Anterior? Tem certeza?

— Tenho certeza.

— Quanto tempo anterior ao enterro?

— Isso eu não posso precisar. Posso no máximo dar um palpite baseado nas evidências.

— Mas com certeza antes do enterro.

— Essa é a minha opinião.

— Você conseguiu determinar a causa da morte?

— O crânio estava fraturado atrás, pouco acima da coluna vertebral. Se essa foi a causa da morte, não posso ter certeza. Faz tempo demais. Não havia outras fraturas, Tracy. Nada indicando que ela tenha sido espancada.

Rosa estava sendo delicada. A falta de fraturas não era conclusiva quanto à vítima ter sido ou não espancada ou torturada, ainda mais quando os restos estavam tão decompostos.

— Que outros objetos pessoais você encontrou, além da fivela de prata? — Tracy sabia, por experiência, que materiais orgânicos, como algodão e lã, teriam havia muito se deteriorado, mas os inorgânicos, como metais e fibras sintéticas, se manteriam.

Rosa tirou um bloco de notas da jaqueta e o folheou.

— Rebites de metal com a marca “LS&CO S.F.”.

Tracy sorriu.

— Levi Strauss & Company — ela disse. — Sarah era uma rebelde. — Não entendi.

— Levi Strauss apoia os lobistas antiarmas. Nós usávamos Wrangler ou Lee, mas Sarah achava que esses jeans deixavam a bunda dela grande, então ela usava Levi’s. Era preciso conhecê-la para admirá-la.

— Vamos ver. Sete botões de metal. — Rosa levantou os olhos do caderno. — Estou pensando numa camisa de manga comprida. Dois eram de diâmetro menor; imagino que fossem dos punhos.

Tracy voltou-se para sua mala, ao lado da cadeira, e pegou uma fotografia emoldurada; a foto do campeonato com Tracy, Sarah e a terceira colocada. — Igual a esta?

Rosa observou a fotografia.

— Isso. Embora os botões já não sejam pretos.

Sarah usava camisas de manga longa feitas por Scully. Ela tinha usado uma branca e preta, bordada, na competição aquele dia. Tracy puxou a foto para si. Rosa voltou às suas anotações.

— Pedaços de plástico.

Tracy sentiu o estômago revirar, mas se esforçou para permanecer concentrada. O assassino de Sarah teve que dobrar seu corpo para caber no buraco. Aparentemente, ele a tinha enfiado num saco de lixo comum. — Você está bem? — Rosa hesitou.

Tracy inspirou fundo e se obrigou a dizer as palavras:

— Um saco de lixo? — ela perguntou. O saco podia ser importante. Calloway disse que Edmund House tinha confessado ter matado Sarah imediatamente e enterrado seu corpo. A teoria era de que House tinha

encontrado por acaso Sarah andando na estrada e a atacado. Assim, teria sido mais do que acidental, se ele tivesse um saco de lixo pronto para usar em sua caminhonete.

— Acho que sim — Rosa respondeu.

— O que mais?

— Traços de fibras sintéticas.

— De que tamanho?

— As fibras? Cinquenta mícrones.

— Fibras de carpete?

— Provavelmente.

— Você acha que o corpo dela pode ter sido enrolado num carpete? — Não. Se fosse o caso, imagino que teria encontrado restos do carpete, ou pelo menos mais fibras. Essas eram fibras com que ela entrou em contato. Talvez dentro de um carro?

Edmund House estava morando com o tio, Parker House, e dirigindo um dos muitos veículos que Parker restaurava e revendia em sua propriedade, uma caminhonete Chevrolet vermelha. Ele tinha tirado o revestimento da cabine, deixando-a só no metal. Fibras de carpete na cova não corroboravam com o relatório de Calloway, segundo o qual Edmund House havia confessado ter estuprado, estrangulado e enterrado imediatamente o corpo de Sarah.

— Algo mais?

— Algumas joias.

Tracy se inclinou para a frente.

— O que, especificamente?

— Brincos. E um colar.

O pulso dela acelerou.

— Você pode descrever os brincos?

— De jade. Ovais.

— Como lágrimas?

— Sim.

— E o colar, prata Sterling?

— Isso.

Tracy voltou a mostrar a fotografia.

— Assim?

— Exatamente assim.

— Onde estão as joias agora?

— O assistente do xerife ficou com tudo.

— Mas você fotografou e catalogou?

— Claro. É o procedimento padrão. — Rosa deu um olhar de curiosidade para ela. — Tracy?

Tracy afastou a cadeira e guardou a fotografia dentro da mala. — Obrigada, Kelly. Fico muito agradecida. — Ela começou a se levantar. — Tracy?

Ela se virou de costas. Rosa continuou:

— E quanto aos restos dela?

Tracy parou e fechou os olhos, apertando a palma da mão na testa, sentindo o início de uma dor de cabeça avassaladora. Ela voltou a se sentar. — O que está acontecendo? — Rosa perguntou, após um instante. Tracy refletiu sobre o que dizer, o quanto devia revelar.

— É melhor você não saber demais, Kelly. Você pode terminar sendo uma testemunha, e é melhor que suas opiniões não sejam contaminadas por nada do que eu possa te dizer.

— Testemunha?

Tracy anuiu.

Os olhos de Rosa se apertaram, preparando uma pergunta, mas ela pareceu deixar para lá.

— Tudo bem. Mas, se eu puder dar uma sugestão…

— Por favor.

— Deixe que eu envio os restos mortais para uma casa funerária. Vai ser mais fácil. Você não vai querer levá-los.

Vinte anos atrás, algumas pessoas de Cedar Grove tinham sugerido um velório. Elas queriam um desfecho, mas James Crosswhite não quis ouvir falar de velório nem de casa funerária. Ele não queria ouvir que sua filha mais nova estivesse morta. Tracy já não tinha esperança, mas agora havia algo pelo que ela tinha esperado 20 anos. Evidências conclusivas. — Eu acho que seria melhor — Tracy concordou.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS