sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 10 e 11

Quando jovem, Roy Calloway gostava de dizer para os outros que era “mais firme que um bife de dois dólares”. Ele aguentava dias com poucas horas de sono e não tirou nenhum afastamento por doença em mais de 30 anos. Aos 62 anos, ficava cada vez mais difícil acompanhar o ritmo ou mesmo se convencer de que queria tentar. Tinha sido derrubado duas vezes pela gripe no ano anterior. Na primeira vez ficou de molho por uma semana, e na segunda, três dias. Finlay atuou como xerife interino, e a mulher de Calloway foi rápida em observar que a cidade não ardeu em chamas nem sofreu uma onda de crime sem ele.

Calloway pendurou o casaco no gancho atrás da porta e parou para admirar a truta arco-íris que tinha pescado no Rio Yakima em outubro. O peixe era uma beleza em seus 58 centímetros e quase dois quilos, com a barriga colorida. Nora tinha mandado empalhá-lo e pendurá-lo na parede do escritório quando Calloway estava fora. Ultimamente, ela o estava pressionando para que se aposentasse; o peixe devia servir como um lembrete diário de que havia mais para serem pescados. Sutileza não era o forte de sua mulher. Calloway disse para ela que a cidade ainda precisava dele, que Finlay não estava pronto. O que Calloway não tinha dito era que ele ainda precisava da cidade e do emprego. Havia um limite para o quanto um homem podia pescar e jogar golfe, e ele nunca fora muito de viajar. Ele não suportava pensar em se tornar um “daqueles caras” que usam tênis ortopédico branco, de sola macia, em pé no convés de um navio de cruzeiro fingindo que têm algo em comum com os outros além do fato de estar a um passo da cova. — Chefe? — a voz veio pelo viva-voz.

— Estou aqui — ele disse.

— Pensei mesmo ter visto você entrar. Vance Clark está aqui para vê-lo. Calloway olhou para o relógio: 18:37. Ele não era o único trabalhando até tarde.

Estava esperando a visita do Promotor de Justiça de Cedar Grove, mas pensava que não seria antes da manhã seguinte.

— Chefe?

— Pode mandá-lo entrar.

Calloway se sentou na cadeira da escrivaninha, debaixo do cartaz que sua equipe tinha lhe dado no ano em que se tornou xerife.

Regra nº 1: O Chefe sempre tem razão.

Regra nº2: Veja Regra nº 1.

Ele imaginou se era verdade.

A sombra de Clark passou atrás dos painéis de vidro jateado na direção da porta do escritório do xerife. Ele bateu na porta e entrou mancando. Anos de corrida cobraram seu preço do joelho de Clark.

Calloway inclinou sua cadeira para trás e pôs os pés no canto da mesa. — O joelho está incomodando?

— Dói quando o tempo começa a esfriar. — Clark fechou a porta. Ele estava com cara de culpado, o que não era comum. O cabelo de monge emoldurava uma testa que parecia sempre franzida.

— Talvez esteja na hora de parar de correr — Calloway disse, sabendo que Clark não pararia de correr pela mesma razão que ele não deixaria de ser xerife. O que mais ele faria?

— Talvez. — Clark se sentou. As lâmpadas fluorescentes zuniam no teto. Uma delas estava com um defeito irritante, tremeluzindo de vez em quando, como se prestes a apagar. — Eu soube da notícia.

— Sim. É Sarah.

— O que nós sabemos?

— Não sabemos de nada.

Clark franziu as sobrancelhas.

— E se encontrarem alguma coisa na cova que contradiga a evidência? Calloway baixou os pés para o chão.

— Faz 20 anos, Vance. Vou convencê-la de que, agora que encontramos Sarah, está na hora de deixar os mortos enterrarem os mortos. — E se você não conseguir?

— Eu vou conseguir.

— Antes você não conseguiu.

Calloway deu um peteleco no boneco cabeçudo de Félix Hernández, que seu neto tinha lhe dado de Natal, e ficou olhando a cabeça chacoalhar. — Bem, desta vez vou ter que fazer um trabalho melhor.

Após um momento de reflexão aparentemente profunda, Clark disse: — Você vai até lá acompanhar a autópsia?

— Eu mandei o Finlay. Ele encontrou o corpo.

Clark exalou e praguejou baixo.

— Estamos todos de acordo, Vance. O que está feito está feito. Ficar aqui sentado se preocupando com uma coisa que talvez nunca aconteça não vai mudar nada.

— As coisas já mudaram, Roy.

Tracy manteve a cabeça abaixada enquanto ia do elevador para sua baia. Ela pretendia ter chegado cedo, mas o tráfego tinha transformado o percurso de duas horas de Cedar Grove a Seattle em uma viagem de três horas e meia, ela jantara uísque escocês e esquecera de ajustar o alarme. Ou tinha dormido com alarme e tudo. Tracy não sabia.

Ela pendurou a jaqueta de Gore-Tex nas costas da cadeira, deixou a bolsa no armário da baia e esperou que a tela do computador ganhasse vida. A sensação era de que alguém tocava bateria dentro do seu crânio, e um punhado de antiácidos não tinha apagado o pequeno incêndio em seu estômago. A cadeira de Kins rangeu e girou, mas, como Tracy não se virou para cumprimentá-lo, ela o ouviu voltar-se para o próprio computador. Fazzio e Delmo ainda não estavam em suas mesas.

Tracy começou vendo seus e-mails. Rick Cerrabone tinha enviado vários nessa manhã. O promotor do condado de King queria cópias dos depoimentos das testemunhas e o relatório de Tracy para completar o mandado de busca que ela queria para o apartamento de Nicole Hansen. Ele tinha enviado um segundo e-mail meia hora após o primeiro.

Onde estão os depoimentos das testemunhas e o relatório? Não posso falar com o juiz sem eles.

Tracy pegou o telefone e estava para ligar para Cerrabone quando viu um e-mail acima da segunda mensagem. Kins a tinha copiado em sua resposta. Ela o abriu. Kins tinha enviado os depoimentos e um relatório. Tracy girou a cadeira na direção dele, irritada por ter respondido em seu lugar, e ainda mais aborrecida por ele ter feito o relatório quando ela era a detetive principal do caso. Kins olhou por cima do ombro, percebeu o olhar furioso e girou para encará-la.

— Ele me ligou, Tracy. Achei que você estivesse sobrecarregada e cuidei do caso.

Ela girou de frente para seu teclado, clicou em “Responder a todos” e começou a digitar uma resposta malcriada. Depois de um minuto se recostou na cadeira, leu o que tinha escrito e apagou. Ela inspirou fundo e afastou-se do teclado.

— Kins?

Ele se virou para ela.

— Obrigada — Tracy disse. — O que o Cerrabone falou do mandado de busca?

Kins foi até ela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça.

— Deve sair até o fim da manhã. Você está bem?

— Não sei. Eu não sei o que estou sentindo. Minha cabeça dói. — Andy passou por aqui — ele disse, referindo-se ao tenente, Andrew Laub. — Quer falar com você.

Ela riu, esfregou os olhos e apertou a ponte do nariz.

— Ótimo.

— Por que não tomamos um café da manhã? Nós podemos pegar o carro e ir falar com aquela testemunha em Kent, sobre o caso do assalto. Tracy empurrou a cadeira para trás.

— Obrigada, Kins, mas o quanto antes eu tirar isso da frente… — Ela deu de ombros, resignada. — Não sei. — Ela deu a volta nas baias e seguiu pelo corredor.

Andrew Laub tinha sido o sargento da Equipe A por dois anos antes de ser promovido a tenente, o que lhe fez ganhar um escritório interno, sem janela, e uma placa removível com seu nome ao lado da porta. Laub estava sentado de lado na escrivaninha, olhos focados na tela do computador, dedilhando no teclado. Tracy bateu no batente da porta.

— Sim? — ele disse.

— É um mau momento?

Ele parou de teclar e se virou para ela.

— Tracy. — Ele fez um gesto para ela entrar. — Feche a porta. Ela entrou e a fechou. As fotografias nas prateleiras atrás de Laub funcionavam como uma biografia. Ele era casado com uma ruiva atraente. Os dois tinham filhas gêmeas, embora não idênticas, e um filho que se parecia muito com o pai – as mesmas sardas e o mesmo cabelo. Parecia que o garoto jogava futebol americano.

— Sente-se. — A lâmpada da escrivaninha refletia nos óculos dele. — Estou bem.

— Sente-se assim mesmo.

Ela sentou.

Laub tirou os óculos, que depositou sobre o bloco de papel da escrivaninha. Marcas vermelhas indicavam onde o óculos tinha se apoiado em seu nariz.

— Como você está?

— Estou bem.

Ele a observou.

— As pessoas se importam, Tracy. Nós todos só queremos ter certeza de que você está bem.

— Agradeço a preocupação de todos.

— O legista está com os restos mortais?

Tracy anuiu.

— Está. Eu a trouxe de volta ontem à noite.

— Quando você vai receber o relatório?

— Dentro de um dia, talvez.

— Eu sinto muito.

Ela deu de ombros.

— Pelo menos agora eu sei. Isso vale alguma coisa.

— É, vale alguma coisa. — Ele pegou um lápis, batendo com a borracha no bloco de papel.

— Quando foi a última vez que você dormiu?

— A noite passada. Dormi como um bebê.

Laub se inclinou para a frente.

— Você quer dizer para todo mundo que está bem, é prerrogativa sua, mas você é minha responsabilidade. Preciso saber que você está bem; não preciso que seja uma heroína.

— Não estou tentando ser heróina de ninguém, Tenente. Só estou tentando fazer meu trabalho.

— Por que você não tira algum tempo? O Sparrow pode ficar com o caso Hansen — ele disse, referindo-se a Kins pelo apelido que ganhou trabalhando infiltrado com narcóticos. Ele tinha deixado o cabelo crescer e usava um cavanhaque, o que o fizera ficar parecido com o Capitão Jack Sparrow, interpretado por Johnny Depp.

— Eu dou conta.

— Sei que dá conta. Estou dizendo para não dar. Estou dizendo para você ir para casa e dormir. Cuide do que precisa ser cuidado. Seu trabalho vai continuar aqui.

— Isso é uma ordem?

— Não, mas é uma sugestão muito forte.

Ela levantou e foi até a porta.

— Tracy…

Ela se virou para ele.

— Eu vou para casa e não tenho nada para olhar além das paredes, Tenente. Nada para pensar além das coisas em que não quero pensar. — Tracy fez uma pausa para controlar suas emoções. — Eu não tenho fotos na minha baia.

Laub largou o lápis.

— Talvez você devesse falar com alguém?

— Faz 20 anos, Tenente. Eu aguentei cada dia durante 20 anos. Vou aguentar estes dias do mesmo jeito que aguentei os outros; um dia ruim de cada vez. 

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