Eles tinham encontrado Sarah.
A emoção que cresceu dentro de Tracy a surpreendeu. Não era
amargor ou culpa. Nem mesmo tristeza. Era raiva, que correu por dentro dela
como veneno. Ela sabia. Sempre soubera que o desaparecimento de Sarah não era o
que todos queriam que ela acreditasse. Tracy sabia que havia algo naquilo. E
agora sentia que finalmente poderia provar.
— Finlay. — A voz de Calloway soou como se viesse da
extremidade de um túnel comprido. — Leve-a daqui.
Alguém tocou no braço dela. Tracy se afastou.
— Não.
— Você não precisa fazer parte disto — Calloway disse.
— Eu deixei minha irmã uma vez — ela disse. — Não vou
deixá-la de novo. Vou ficar. Até o fim.
Calloway fez um sinal para Armstrong, que recuou para onde
Rosa tinha retomado a escavação.
— Vou precisar disso — Calloway disse, estendendo a mão para
a fivela, mas Tracy continuou passando o polegar pela superfície, sentindo o
contorno de cada letra. — Tracy — Calloway insistiu.
Ela estendeu a fivela, mas, quando Calloway a pegou, Tracy
não soltou, forçando-o a encará-la.
— Eu disse, Roy. Nós vasculhamos esta área. Duas vezes.
Ela manteve distância o restante da tarde, mas conseguiu ver o bastante para perceber que Sarah tinha sido enterrada em posição fetal, as pernas acima da cabeça. A pessoa que usou aquele buraco, feito quando a raiz da árvore foi arrancada do solo, tinha avaliado mal o tamanho, o que não era incomum. A percepção espacial pode ficar distorcida quando se está sob estresse.
Só depois que Kelly Rosa fechou o saco preto de corpos e passou
um cadeado no zíper, Tracy saiu da floresta, voltando para o carro. Ela navegou
as curvas montanha abaixo sem pensar, a mente entorpecida. O sol tinha baixado
atrás das árvores, projetando sombras na estrada. Ela já sabia, claro. Era por
isso que os detetives eram treinados para se esforçar para encontrar pessoas
sequestradas nas primeiras 48 horas. Depois disso, as estatísticas mostravam
que a probabilidade de encontrar a pessoa viva despencava. Depois de 20 anos, a
probabilidade de encontrar Sarah viva era ínfima. Mesmo assim, a esperança
tinha permanecido numa pequena parte dela, a parte que Tracy compartilhava com
outras famílias cujos entes queridos tinham sido sequestrados e nunca
localizados. Era parte de todo ser humano que se agarrava à esperança, não
importava quão improvável, de contrariar as probabilidades. Tinha acontecido
antes. Na Califórnia, uma jovem desaparecida havia 18 anos entrou numa
delegacia de polícia e disse seu nome. Naquele dia, a esperança foi reavivada
por toda família que tinha perdido um ente amado. Tinha sido reavivada para
Tracy. Algum dia seria Sarah. Algum dia seria a irmã dela. A esperança podia
ser tão cruel. Mas durante 20 anos isso foi tudo que ela tivera, a única coisa
que afastava a escuridão que pairava à sua volta, à espera de qualquer
oportunidade para sufocá-la.
Esperança.
Tracy tinha se agarrado a esse sentimento até o último
instante, quando Roy Calloway lhe entregou a fivela de prata, extinguindo a
última e cruel chama.
Ela passou pelo lugar na estradinha local onde, 20 anos
antes, foi encontrada sua picape azul, e sentiu como se poucos dias tivessem
passado. Quilômetros adiante, pegou a saída que lhe era familiar e entrou na
cidade que já não reconhecia, à qual não mais se sentia conectada. No entanto,
em vez de virar à esquerda para pegar a autoestrada, virou à direita, passando
pelas casas térreas de que recordava como lares vibrantes, cheias de famílias e
amigos, mas que agora pareciam desgastadas e velhas. Na área mais afastada do
centro, o tamanho das casas e dos lotes aumentava. Tracy dirigia no piloto
automático, diminuindo a velocidade para fazer uma curva, quando
viu o portão com pilares de pedra. Ela parou no começo da
entrada de carro inclinada.
Plantas perenes, cuidadas metodicamente por sua mãe, um dia
ocuparam aqueles canteiros, onde agora restavam caules nus de roseiras
dormentes. No alto de um gramado bem cuidado, delimitado por uma cerca-viva de
buxinho, havia um toco cortado onde o salgueiro-chorão reinava como um guarda
chuva aberto. Christian Mattioli tinha contratado um arquiteto inglês para
projetar uma casa de dois andares em estilo Rainha Anne quando fundou a
Companhia Mineradora Cedar Grove, fazendo florescer a cidade de mesmo nome. A
história contava que, depois, Mattioli pediu que o arquiteto acrescentasse um
terceiro andar, para garantir que a casa seria a mais alta e mais grandiosa do
lugar. Um século mais tarde, muito depois que as minas de Cedar Grove tinham
fechado e que a maioria dos moradores tinham ido embora, a casa e o jardim
ficaram abandonados. Mas a mãe de Tracy se apaixonou à primeira vista pelas
paredes em escama de peixe e as torres no telhado de duas águas. O pai de
Tracy, desejando abrir uma clínica médica no interior, comprou a propriedade.
Juntos, eles restauraram tudo, do piso em peroba brasileira ao telhado. Também
removeram o papel de parede, restaurando o revestimento e os armários originais
em mogno. O saguão em mármore, com lustres de cristal, foi renovado, tornando a
residência, de novo, a mais grandiosa de Cedar Grove. Mas eles tinham feito
mais do que reformar uma casa. Tinham criado um lugar para duas irmãs chamarem
de lar.
Tracy apagou a luz do banheiro e entrou no quarto usando seu pijama vermelho de lã. Ela tinha enrolado o cabelo numa toalha e cantava “We’ve Got Tonight”, acompanhando a versão de Kenny Rogers e Sheena Easton que tocava no aparelho de som. Ela se debruçou sobre o parapeito da janela e admirou o céu noturno. A magnífica lua cheia projetava uma luz azul pálida no salgueiro-chorão. As tranças compridas da árvore pendiam imóveis, como se ela estivesse em sono profundo. O outono transformava-as silenciosamente em inverno, e a meteorologia tinha previsto que, à noite, a temperatura cairia abaixo do ponto de congelamento. Para decepção de Tracy, contudo, o céu brilhava com suas estrelas. A escola de Cedar Grove fecharia na primeira neve do inverno, e Tracy tinha uma prova sobre frações pela manhã, mas não estava muito preparada.
Ela apertou o botão de “Parar” no som, interrompendo Sheena, mas continuou a cantar. Então desligou a luz da escrivaninha. O luar se espalhou pelo edredom e pela manta, desaparecendo outra vez quando ela acendeu a lâmpada presa à cabeceira. Tracy pegou Um conto de duas cidades; sua turma estava se arrastando por essa história ao longo do semestre. Ela não sentia vontade de ler, mas se suas notas piorassem, seu pai não a levaria para o concurso regional de tiro no fim de novembro.
Ela continuou cantando a letra de “We’ve Got Tonight” ao
puxar o edredom.
— Buuuu!
Tracy gritou e cambaleou para trás, quase caindo.
— Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! — Sarah tinha pulado de
debaixo das cobertas como se tivesse uma mola, e agora estava deitada de
costas, rindo tanto que mal conseguia encontrar fôlego para falar.
— Você é uma peste! — Tracy gritou. — Qual o seu problema?
Sarah sentou, tentando falar em meio às risadas estridentes e tentativas de
respirar.
— Você precisava ter visto a sua cara! — Ela imitou a
expressão de susto de Tracy, então caiu de volta no colchão, segurando a
barriga, sem parar de rir.
— Quanto tempo você ficou escondida aí?
Sarah se ajoelhou e fechou a mão, como se fosse um
microfone, e imitou Tracy cantando a música.
— Cale a boca. — Tracy soltou a toalha da cabeça, jogou o
cabelo para a frente e o esfregou com vontade.
— Você está apaixonada pelo Jack Frates? — Sarah perguntou.
— Não é da sua conta. Nossa, você é tão criança.
— Não, dã. Eu tenho oito anos. Você beijou ele, mesmo?
Tracy parou de secar o cabelo e levantou a cabeça.
— Quem contou isso para você? Foi a Sunnie que falou?
Espere. — Ela olhou para a estante de livros. — Você leu o meu diário!
Sarah pegou o travesseiro e começou a fazer sons de beijos.
— Oh, Jack. Vamos fazer isto durar. Vamos encontrar um jeito! — O diário é uma
coisa pessoal, Sarah! Onde ele está? — Tracy pulou
na cama, montando em Sarah e prendendo braços e pernas dela.
— Isso não foi legal. De jeito nenhum. Onde está? — Sarah recomeçou a rir. —
Estou falando sério, Sarah! Devolva!
A porta foi aberta.
— O que está acontecendo? — A mãe delas entrou no quarto,
usando seu robe rosa e chinelos, segurando uma escova. Seu cabelo loiro, solto
do coque
costumeiro, caía no meio de suas costas. — Tracy, saia de
cima da sua irmã. Tracy saiu.
— Ela se escondeu debaixo das cobertas e me assustou. E ela
pegou o meu… ela se escondeu debaixo das cobertas.
Abby Crosswhite se aproximou da cama.
— Sarah, o que eu disse sobre assustar os outros?
Sarah sentou na cama.
— Mãe, foi tão engraçado. Você precisava ter visto a cara
dela. — Sarah fez uma expressão que parecia de um chimpanzé alucinado. A mãe
cobriu a boca, esforçando-se para não rir.
— Mãe! — Tracy exclamou. — Não tem graça.
— E eu nem olhei para você.
— Mãe!
— Chega — a mãe disse. — Sarah, vá para o seu quarto. —
Sarah saiu da cama de Tracy e foi até a porta do banheiro anexo. — E devolva o
diário da sua irmã.
Tracy e Sarah ficaram paralisadas. A mãe delas era assim,
médium ou coisa parecida.
— Foi falta de educação ler sobre o beijo dela em Jack
Frates. — Mãe! — Tracy exclamou.
— Se você tem vergonha que leiam a respeito, talvez fosse
melhor não fazer isso que escreveu. Você é muito nova para ficar beijando
garotos. — Ela se virou para Sarah, que estava no banheiro compartilhado entre
os quartos das duas, fazendo sons de beijo. — Chega, Sarah. Devolva logo.
Sarah voltou até a cama, saboreando cada passo enquanto
Tracy a fuzilava com o olhar. Sarah puxou o caderno de capa florida de debaixo
das cobertas e Tracy o arrancou de sua mão, dando-lhe um tapa. Sarah se abaixou
e fugiu do quarto.
— Você não deveria ler o meu diário, mãe. Isso foi uma
completa invasão da minha privacidade.
— Vire-se. Vai ficar com o cabelo embaraçado. — Abby
Crosswhite começou a escovar o cabelo de Tracy, e ela relaxou ao sentir as
cerdas acariciando seu couro cabeludo. — Eu não li o seu diário. Foi intuição
de mãe. Mas agora você admitiu a culpa. Da próxima vez que Jack Frates vier,
diga que o seu pai quer dar uma palavrinha com ele.
— Ele não vai vir. Não com aquela peste aqui.
— Não chame sua irmã de peste. — Ela passou a escova uma última vez. — Tudo bem, cama. — Tracy entrou debaixo das cobertas, sentindo o calor do corpo de Sarah. Ela ajustou o travesseiro às costas e a mãe se inclinou para beijar sua testa. — Boa noite. — Abby pegou a toalha molhada no chão e encostou a porta, depois pôs a cabeça para dentro. — E… Tracy? — Sim?
A mãe entoou a letra da música.
Tracy gemeu. Depois que a mãe fechou a porta, ela saiu da
cama, fechou a porta do banheiro e procurou um esconderijo melhor para seu
diário. No fim, ela o guardou entre os suéteres na prateleira mais alta do
armário, onde Sarah não alcançaria com facilidade. De volta à cama, abriu o
livro de Dickens.
Estava lendo havia quase meia hora, tendo acabado de virar a
página para encontrar o fim do capítulo, quando ouviu a porta do banheiro ser
aberta.
— Vá para sua cama — ela disse.
Segurando a maçaneta da porta, Sarah entrou na visão
periférica da irmã.
— Tracy?
— Já disse, vá para sua cama.
— Estou com medo.
— Que pena.
Sarah aproximou-se da cama. Ela vestia uma das camisolas de
flanela de Tracy. A bainha arrastava no chão.
— Posso dormir com você?
— Não.
— Mas estou com medo do meu quarto.
Tracy fingiu que continuava a ler.
— Como você pode ter medo do seu quarto se não tem medo de
se esconder embaixo das cobertas?
— Não sei. Só sei que estou com medo.
Tracy meneou a cabeça.
— Por favor — Sarah implorou.
Tracy suspirou.
— Tudo bem.
Sarah pulou na cama, passando por cima da irmã e se enfiando
debaixo das cobertas.
— Como foi? — ela perguntou depois de se ajeitar.
Tracy desviou o olhar do livro. Sarah estava olhando para o
teto. — Como foi o quê?
— Beijar o Jack Frates.
— Durma.
— Acho que nunca vou beijar um garoto.
— Como você pretende se casar se nunca beijar um garoto? —
Eu não vou me casar. Vou morar com você.
— E se eu me casar?
Sarah franziu o cenho, pensativa.
— Posso morar com você?
— Eu vou ter um marido.
Sarah roeu a unha.
— A gente ainda vai poder se ver todo dia?
Tracy levantou o braço. Sarah se aproximou.
— É claro que sim. Você é minha irmã favorita, ainda que
seja uma peste. — Sou sua única irmã.
— Durma.
— Não consigo.
Tracy pôs Dickens na mesa de cabeceira e deslizou por baixo
das cobertas. Ela estendeu a mão para desligar a luz da cabeceira. — Tudo bem,
feche os olhos.
Sarah obedeceu.
— Agora inspire fundo e solte o ar. — Quando Sarah exalou,
Tracy perguntou: — Pronta?
— Pronta.
— Eu não tenho…
— Eu não tenho… — Sarah repetiu.
— Eu não tenho medo…
— Eu não tenho medo…
— Eu não tenho medo do escuro — elas disseram em uníssono, e
Tracy desligou a luz.

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