Depois que todos se reuniram, Finlay Armstrong levou-os por
uma trilha de terra, com Calloway logo atrás, seguidos por Rosa e sua equipe.
Rosa carregava uma sacola de escavação, que era do tamanho de uma mala de
academia, mas tinha vários compartimentos do lado de fora, para coisas como
pás, escovas e outras ferramentas pequenas. Stanley e Coles carregavam
cavaletes, uma tela e baldes brancos. As folhas dos pinheiros ponderosa
começavam a adquirir uma coloração dourada, e as que tinham caído formavam uma
cobertura natural no solo, produzindo um aroma familiar. As folhas dos bordos e
amieiros também pareciam prestes a cair. Mais adiante no caminho, o grupo
passou pelas placas de “Não Entre” nas quais Tracy, Sarah e seus amigos jogavam
pedras quando passavam em suas bicicletas pelas trilhas da montanha em direção
ao Lago Cascade.
Com meia hora de caminhada eles saíram da trilha para uma
área que tinha sido parcialmente aberta. Da última vez que Tracy esteve nesse
local, trailers da construtora serviam de escritórios de vendas temporários de
Cascadia.
— Você espera aqui — Calloway disse.
Tracy ficou para trás enquanto o restante do grupo se
aproximou de onde um policial fazia guarda ao lado de estacas de madeira
enfiadas no chão. Fitas amarelas e pretas de cena de crime estavam presas às
estacas, criando um retângulo irregular com cerca de 2,5 metros de largura por
3 de comprimento.
No quadrante inferior direito, Tracy viu o que parecia ser
um graveto se projetando do solo revirado. Ela sentiu um aperto no peito. —
Vamos estabelecer o segundo perímetro aqui — Calloway disse a Armstrong,
mantendo a voz baixa e respeitosa. — Usem os troncos das árvores.
Armstrong pegou o rolo de fita de cena do crime e começou a
traçar o segundo perímetro, o que Tracy considerou exagero. Ninguém mais
apareceria. Ninguém em Cedar Grove ligava mais para aquilo, e a imprensa não
encontraria aquela área remota do norte das Cascades.
Armstrong se aproximou do lugar onde Tracy estava, parecendo
quase querer se desculpar.
— Preciso que você recue, detetive — ele disse.
Ela recuou um passo para Armstrong terminar de passar a fita
amarela e preta entre as árvores.
Rosa não perdeu tempo para começar a trabalhar. Após
remarcar a cova para aumentar suas dimensões, ela usou barbante para dividir o
local em seções menores, depois se ajoelhou diante da seção com o pé levantado
e começou a tirar a terra com uma escova. Ela usava uma pá pequena para colocar
a terra nos baldes de vinte litros. Cada balde estava marcado com uma letra
maiúscula que correspondia a uma seção do local da escavação, de A a D.
Periodicamente, Stanley despejava terra na tela armada entre os dois cavaletes,
peneirando-a. Anna Coles tirava fotografias. Quaisquer ossos ou fragmentos
recebiam uma letra minúscula. Todo o resto – pedaços de tecido, metal, botões –
era numerado. Rosa trabalhava metodicamente, sem descanso. Ela queria terminar
o trabalho antes de a luz do outono se pôr atrás das árvores.
Pouco depois das 13h30, Tracy percebeu a primeira alteração
na rotina de Rosa. A antropóloga parou de cavar e sentou nos calcanhares. Ela
falou com Stanley, que começou a lhe dar escovas cada vez menores que pegava na
mala de escavação. Rosa voltou a escovar terra, mas numa área cada vez mais
concentrada. Após meia hora, Rosa levantou-se. Ela tinha desenterrado alguma
coisa, que agora segurava na mão enluvada. Ela conversou sobre o objeto com Roy
Calloway e depois o entregou a Stanley, que o guardou dentro de um saco
plástico de provas, identificando-o com uma caneta marcadora preta.
Após catalogar o objeto, Stanley entregou o saco — não para
Rosa, mas para Calloway, que pareceu refletir sobre o que Rosa tinha
encontrado. Então ele se virou e dirigiu o olhar para Tracy.
Ela sentiu um surto de adrenalina. Suor brotou em suas
axilas e escorreu
por seus flancos por baixo da camisa.
Conforme Calloway se aproximava, o coração dela batia com
mais intensidade. Quando ele lhe entregou o saco com a prova, ela não conseguiu
se obrigar a olhar para o objeto. Tracy continuou a observar o rosto de
Calloway até o xerife não conseguir mais sustentar o olhar e se virar.
Tracy olhou para baixo, para o que Kelly Rosa tinha
desenterrado, e sua respiração ficou presa no peito.
Tracy sentiu o estômago ficar embrulhado.
— Tudo bem com você? — Ben estendeu a mão dentro do carro e
tocou o ombro de Tracy, mas ela não respondeu. Continuou olhando pela janela,
para a montanha e os fragmentos de xisto que entulhavam a lateral da estrada.
Ela não tinha encontrado as botas de Sarah na varanda da frente nem na entrada
da casa. Sarah não tinha respondido quando Tracy subiu correndo a escadaria
gritando seu nome. Sarah não estava dormindo em sua cama nem tomando banho. Ela
não estava na cozinha comendo nem na sala íntima assistindo à televisão. Sarah
não estava em casa. E não havia indício de que tinha estado.
— Ali — Ben disse ao dobrarem mais uma curva na estrada. A
picape azul de Tracy parecia abandonada, estacionada no acostamento que se
inclinava na direção das Cascades do norte.
Ben fez meia-volta, estacionou atrás da Suburban do xerife e
desligou o motor.
— Tracy?
Ela se sentia paralisada.
— Eu falei para ela não pegar a estradinha local. Eu disse
para ela ficar na autoestrada e tomar cuidado. Você me ouviu falar para ela.
Ben pegou a mão de Tracy sobre o assento e a apertou.
— Nós vamos encontrar Sarah.
— Por que ela é tão teimosa, o tempo todo?
— Vai ficar tudo bem, Tracy.
Mas a sensação de pavor que a envolveu enquanto ela corria
de quarto em quarto na casa de seus pais ficava mais forte. Ela abriu a porta
do carro e saiu para o acostamento de terra.
A temperatura da manhã continuava subindo. O asfalto já
estava seco e não mostrava sinais da chuva intensa da noite anterior. Insetos
zuniam
dançando ao redor de Tracy enquanto ela se aproximava da
picape. Fraca e zonza, ela tropeçou. Ben a segurou. O acostamento parecia mais
estreito, o degrau mais pronunciado do que ela se lembrava.
— Será que ela derrapou? — Tracy perguntou a Roy Calloway,
que aguardava junto ao para-choque da picape.
Calloway estendeu a mão e pegou a chave reserva.
— Vamos um passo de cada vez, Tracy.
— O que aconteceu com a picape?
Tracy esperava que um dos pneus estivesse murcho, ou que
houvesse alguma batida na lataria, ou que o capô estivesse levantado, indicando
algum problema no motor, o que não era provável. O pai delas era religioso com
relação à manutenção dos carros, feita por Harley Holt.
— Nós vamos descobrir o que houve — disse Calloway. Ele
colocou um par de luvas azuis de látex e abriu a porta do motorista. Um saco
vazio de Cheetos e uma lata de Coca Diet jaziam no chão do lado do passageiro —
o café da manhã de Sarah quando elas foram para a competição. Tracy tinha dado
uma bronca na irmã por comer aquela porcaria. O agasalho azul-claro de Sarah
continuava enrolado no assento estreito onde ela o tinha colocado. Tracy olhou
para Calloway e meneou a cabeça. Tudo parecia estar como Tracy se lembrava. O
xerife se inclinou sobre o volante, colocou a chave na ignição e a virou. O
motor gemeu. Então morreu. Calloway se debruçou mais e observou o painel.
— Está vazio.
— Quê? — ela perguntou.
Calloway recuou para que Tracy pudesse ver.
— Ela ficou sem gasolina.
— Não pode ser — Tracy disse. — Eu enchi o tanque na
sexta-feira para não precisarmos abastecer de manhã.
— Quem sabe não está mostrando quanta gasolina tem porque o
motor está desligado? — Ben sugeriu.
— Não sei — Calloway respondeu, mas parecia cético.
Calloway tirou a chave e foi até a traseira da picape. Tracy
e Ben o acompanharam. O vidro com a película escura impedia que vissem o que
havia dentro da carroceria coberta.
— Por que você não olha para o outro lado? — Calloway sugeriu,
parado junto à traseira.
— Não. — Tracy negou com a cabeça.
Ben passou o braço ao redor dos ombros dela. O xerife
destrancou a porta traseira e se curvou para espiar dentro, antes de deixar que
a porta se
levantasse por completo. Então, baixou a tampa da
carroceria. De novo, tudo parecia estar como Tracy se lembrava. Os carrinhos de
armas estavam presos às laterais. O casaco de Tracy amontoado com suas botas e
a bandana vermelha.
— Esse é o chapéu dela? — Calloway apontou para o Stetson
marrom. Era. Então Tracy lembrou de ter colocado seu Stetson preto na cabeça de
Sarah.
— Ela estava usando o meu.
Calloway começou a levantar a tampa.
— Posso entrar? — Tracy perguntou. Calloway recuou. Ela
subiu, sem saber ao certo o que estava procurando, mas sentindo a mesma
urgência que havia sentido na noite anterior, quando ela e Ben foram embora,
como se tivesse esquecido algo. Ela destravou os carrinhos de armas. As
espingardas e os rifles continuavam em seus lugares, os canos para cima, como
tacos de bilhar na estante. As pistolas de Sarah estavam guardadas numa gaveta
interna, e a munição, na caixa com fechadura. Numa segunda gaveta, onde Sarah
guardava distintivos de outras competições, Tracy encontrou a fotografia de
Wild Bill entregando a ela a fivela de prata: Sarah e a terceira colocada ao
seu lado. Ela guardou a fotografia no bolso traseiro da calça, pegou o casaco e
verificou os bolsos.
— Não está aqui — ela disse, saindo da carroceria.
— O que não está aí? — Calloway perguntou.
— A fivela de campeã — Tracy disse. — Eu dei para Sarah
ontem à noite, antes de nós dois irmos embora.
— Não estou entendendo — Calloway disse.
— Por que ela levaria a fivela, mas não as armas? — Ben
perguntou. — Não sei. É que…
— O quê? — Calloway perguntou.
— Eu quero dizer que ela não teria nenhum motivo para pegar
a fivela de prata a menos que pretendesse me devolver hoje manhã, certo? — Ela
saiu andando — Calloway concluiu. — É isso que está dizendo? Ela teve tempo
para decidir o que pegar e saiu andando.
Tracy olhou para a estrada deserta. A faixa branca no centro serpenteava seguindo os contornos da montanha, virando e desaparecendo numa curva. — Então onde ela está?

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