sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 07 e 08


 Tracy estacionou no fim da fila de carros que margeavam a estrada de cascalho que levava à entrada nunca construída do Resort Cascadia. Ela prendeu o cabelo num rabo de cavalo, sentou no para-choque traseiro e trocou as rasteirinhas por botas de trilha. Embora o céu estivesse claro e a temperatura fria, típica de outubro, ela amarrou uma jaqueta de Gore-Tex na cintura, sabendo que a chuva podia vir rapidamente, e que a temperatura cairia depois que o sol se escondesse atrás das árvores.

Depois que todos se reuniram, Finlay Armstrong levou-os por uma trilha de terra, com Calloway logo atrás, seguidos por Rosa e sua equipe. Rosa carregava uma sacola de escavação, que era do tamanho de uma mala de academia, mas tinha vários compartimentos do lado de fora, para coisas como pás, escovas e outras ferramentas pequenas. Stanley e Coles carregavam cavaletes, uma tela e baldes brancos. As folhas dos pinheiros ponderosa começavam a adquirir uma coloração dourada, e as que tinham caído formavam uma cobertura natural no solo, produzindo um aroma familiar. As folhas dos bordos e amieiros também pareciam prestes a cair. Mais adiante no caminho, o grupo passou pelas placas de “Não Entre” nas quais Tracy, Sarah e seus amigos jogavam pedras quando passavam em suas bicicletas pelas trilhas da montanha em direção ao Lago Cascade.

Com meia hora de caminhada eles saíram da trilha para uma área que tinha sido parcialmente aberta. Da última vez que Tracy esteve nesse local, trailers da construtora serviam de escritórios de vendas temporários de Cascadia.

— Você espera aqui — Calloway disse.

Tracy ficou para trás enquanto o restante do grupo se aproximou de onde um policial fazia guarda ao lado de estacas de madeira enfiadas no chão. Fitas amarelas e pretas de cena de crime estavam presas às estacas, criando um retângulo irregular com cerca de 2,5 metros de largura por 3 de comprimento.

No quadrante inferior direito, Tracy viu o que parecia ser um graveto se projetando do solo revirado. Ela sentiu um aperto no peito. — Vamos estabelecer o segundo perímetro aqui — Calloway disse a Armstrong, mantendo a voz baixa e respeitosa. — Usem os troncos das árvores.

Armstrong pegou o rolo de fita de cena do crime e começou a traçar o segundo perímetro, o que Tracy considerou exagero. Ninguém mais apareceria. Ninguém em Cedar Grove ligava mais para aquilo, e a imprensa não encontraria aquela área remota do norte das Cascades.

Armstrong se aproximou do lugar onde Tracy estava, parecendo quase querer se desculpar.

— Preciso que você recue, detetive — ele disse.

Ela recuou um passo para Armstrong terminar de passar a fita amarela e preta entre as árvores.

Rosa não perdeu tempo para começar a trabalhar. Após remarcar a cova para aumentar suas dimensões, ela usou barbante para dividir o local em seções menores, depois se ajoelhou diante da seção com o pé levantado e começou a tirar a terra com uma escova. Ela usava uma pá pequena para colocar a terra nos baldes de vinte litros. Cada balde estava marcado com uma letra maiúscula que correspondia a uma seção do local da escavação, de A a D. Periodicamente, Stanley despejava terra na tela armada entre os dois cavaletes, peneirando-a. Anna Coles tirava fotografias. Quaisquer ossos ou fragmentos recebiam uma letra minúscula. Todo o resto – pedaços de tecido, metal, botões – era numerado. Rosa trabalhava metodicamente, sem descanso. Ela queria terminar o trabalho antes de a luz do outono se pôr atrás das árvores.

Pouco depois das 13h30, Tracy percebeu a primeira alteração na rotina de Rosa. A antropóloga parou de cavar e sentou nos calcanhares. Ela falou com Stanley, que começou a lhe dar escovas cada vez menores que pegava na mala de escavação. Rosa voltou a escovar terra, mas numa área cada vez mais concentrada. Após meia hora, Rosa levantou-se. Ela tinha desenterrado alguma coisa, que agora segurava na mão enluvada. Ela conversou sobre o objeto com Roy Calloway e depois o entregou a Stanley, que o guardou dentro de um saco plástico de provas, identificando-o com uma caneta marcadora preta.

Após catalogar o objeto, Stanley entregou o saco — não para Rosa, mas para Calloway, que pareceu refletir sobre o que Rosa tinha encontrado. Então ele se virou e dirigiu o olhar para Tracy.

Ela sentiu um surto de adrenalina. Suor brotou em suas axilas e escorreu

por seus flancos por baixo da camisa.

Conforme Calloway se aproximava, o coração dela batia com mais intensidade. Quando ele lhe entregou o saco com a prova, ela não conseguiu se obrigar a olhar para o objeto. Tracy continuou a observar o rosto de Calloway até o xerife não conseguir mais sustentar o olhar e se virar.

Tracy olhou para baixo, para o que Kelly Rosa tinha desenterrado, e sua respiração ficou presa no peito.

Tracy sentiu o estômago ficar embrulhado.

— Tudo bem com você? — Ben estendeu a mão dentro do carro e tocou o ombro de Tracy, mas ela não respondeu. Continuou olhando pela janela, para a montanha e os fragmentos de xisto que entulhavam a lateral da estrada. Ela não tinha encontrado as botas de Sarah na varanda da frente nem na entrada da casa. Sarah não tinha respondido quando Tracy subiu correndo a escadaria gritando seu nome. Sarah não estava dormindo em sua cama nem tomando banho. Ela não estava na cozinha comendo nem na sala íntima assistindo à televisão. Sarah não estava em casa. E não havia indício de que tinha estado.

— Ali — Ben disse ao dobrarem mais uma curva na estrada. A picape azul de Tracy parecia abandonada, estacionada no acostamento que se inclinava na direção das Cascades do norte.

Ben fez meia-volta, estacionou atrás da Suburban do xerife e desligou o motor.

— Tracy?

Ela se sentia paralisada.

— Eu falei para ela não pegar a estradinha local. Eu disse para ela ficar na autoestrada e tomar cuidado. Você me ouviu falar para ela. Ben pegou a mão de Tracy sobre o assento e a apertou.

— Nós vamos encontrar Sarah.

— Por que ela é tão teimosa, o tempo todo?

— Vai ficar tudo bem, Tracy.

Mas a sensação de pavor que a envolveu enquanto ela corria de quarto em quarto na casa de seus pais ficava mais forte. Ela abriu a porta do carro e saiu para o acostamento de terra.

A temperatura da manhã continuava subindo. O asfalto já estava seco e não mostrava sinais da chuva intensa da noite anterior. Insetos zuniam

dançando ao redor de Tracy enquanto ela se aproximava da picape. Fraca e zonza, ela tropeçou. Ben a segurou. O acostamento parecia mais estreito, o degrau mais pronunciado do que ela se lembrava.

— Será que ela derrapou? — Tracy perguntou a Roy Calloway, que aguardava junto ao para-choque da picape.

Calloway estendeu a mão e pegou a chave reserva.

— Vamos um passo de cada vez, Tracy.

— O que aconteceu com a picape?

Tracy esperava que um dos pneus estivesse murcho, ou que houvesse alguma batida na lataria, ou que o capô estivesse levantado, indicando algum problema no motor, o que não era provável. O pai delas era religioso com relação à manutenção dos carros, feita por Harley Holt.

— Nós vamos descobrir o que houve — disse Calloway. Ele colocou um par de luvas azuis de látex e abriu a porta do motorista. Um saco vazio de Cheetos e uma lata de Coca Diet jaziam no chão do lado do passageiro — o café da manhã de Sarah quando elas foram para a competição. Tracy tinha dado uma bronca na irmã por comer aquela porcaria. O agasalho azul-claro de Sarah continuava enrolado no assento estreito onde ela o tinha colocado. Tracy olhou para Calloway e meneou a cabeça. Tudo parecia estar como Tracy se lembrava. O xerife se inclinou sobre o volante, colocou a chave na ignição e a virou. O motor gemeu. Então morreu. Calloway se debruçou mais e observou o painel.

— Está vazio.

— Quê? — ela perguntou.

Calloway recuou para que Tracy pudesse ver.

— Ela ficou sem gasolina.

— Não pode ser — Tracy disse. — Eu enchi o tanque na sexta-feira para não precisarmos abastecer de manhã.

— Quem sabe não está mostrando quanta gasolina tem porque o motor está desligado? — Ben sugeriu.

— Não sei — Calloway respondeu, mas parecia cético.

Calloway tirou a chave e foi até a traseira da picape. Tracy e Ben o acompanharam. O vidro com a película escura impedia que vissem o que havia dentro da carroceria coberta.

— Por que você não olha para o outro lado? — Calloway sugeriu, parado junto à traseira.

— Não. — Tracy negou com a cabeça.

Ben passou o braço ao redor dos ombros dela. O xerife destrancou a porta traseira e se curvou para espiar dentro, antes de deixar que a porta se

levantasse por completo. Então, baixou a tampa da carroceria. De novo, tudo parecia estar como Tracy se lembrava. Os carrinhos de armas estavam presos às laterais. O casaco de Tracy amontoado com suas botas e a bandana vermelha.

— Esse é o chapéu dela? — Calloway apontou para o Stetson marrom. Era. Então Tracy lembrou de ter colocado seu Stetson preto na cabeça de Sarah.

— Ela estava usando o meu.

Calloway começou a levantar a tampa.

— Posso entrar? — Tracy perguntou. Calloway recuou. Ela subiu, sem saber ao certo o que estava procurando, mas sentindo a mesma urgência que havia sentido na noite anterior, quando ela e Ben foram embora, como se tivesse esquecido algo. Ela destravou os carrinhos de armas. As espingardas e os rifles continuavam em seus lugares, os canos para cima, como tacos de bilhar na estante. As pistolas de Sarah estavam guardadas numa gaveta interna, e a munição, na caixa com fechadura. Numa segunda gaveta, onde Sarah guardava distintivos de outras competições, Tracy encontrou a fotografia de Wild Bill entregando a ela a fivela de prata: Sarah e a terceira colocada ao seu lado. Ela guardou a fotografia no bolso traseiro da calça, pegou o casaco e verificou os bolsos.

— Não está aqui — ela disse, saindo da carroceria.

— O que não está aí? — Calloway perguntou.

— A fivela de campeã — Tracy disse. — Eu dei para Sarah ontem à noite, antes de nós dois irmos embora.

— Não estou entendendo — Calloway disse.

— Por que ela levaria a fivela, mas não as armas? — Ben perguntou. — Não sei. É que…

— O quê? — Calloway perguntou.

— Eu quero dizer que ela não teria nenhum motivo para pegar a fivela de prata a menos que pretendesse me devolver hoje manhã, certo? — Ela saiu andando — Calloway concluiu. — É isso que está dizendo? Ela teve tempo para decidir o que pegar e saiu andando.

Tracy olhou para a estrada deserta. A faixa branca no centro serpenteava seguindo os contornos da montanha, virando e desaparecendo numa curva. — Então onde ela está?

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS