sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 17 - fim

A sorte do First National Bank esteve ligada, literalmente, à sorte de Christian Mattioli. Aberto para proteger a considerável riqueza dos fundadores da Companhia Mineradora Cedar Grove, incluindo Mattioli, o banco quase desapareceu quando a mina foi fechada e ele e seus sócios deixaram a cidade. Os moradores de Cedar Grove se uniram e transferiram suas poupanças e contas correntes, assumindo um compromisso com o banco por seus financiamentos de casa própria e empréstimos. Tracy não sabia ao certo quando o banco tinha fechado de vez e abandonado o prédio. A julgar pelas placas no saguão vazio, o edifício opulento de dois andares com fachada de tijolos aparentes havia sido transformado em prédio de escritórios, embora muitos espaços continuassem desocupados.

Ao subir pela escadaria, ela olhou para o piso do térreo, um mosaico intricado que retratava a águia americana com um ramo de oliva na garra direita e treze flechas na esquerda. Pó tinha se acumulado sobre o piso, bem como caixas de papelão e detritos. Ela se lembrava das gaiolas dos caixas, das mesas dos bancários e de vasos de samambaias. Seu pai tinha levado Sarah e ela ao banco para abrirem contas correntes e poupança. O presidente do First National, John Wates, tinha rubricado e carimbado suas cadernetas.

Tracy encontrou o escritório de Dan no segundo andar e entrou na pequena recepção, que tinha uma escrivaninha desocupada. Um cartaz dizia para tocar a campainha. Ela deu uma tapa no dispositivo com a palma da mão, o que resultou num badalo desagradável. Dan apareceu vestindo calça cáqui, sapatos dockside de couro e camisa listrada em azul e branco. Ela ainda tinha dificuldade para aceitar que o homem diante dela era o mesmo garoto que tinha conhecido em Cedar Grove. Ele sorriu.

— Teve dificuldade para estacionar? — Dan perguntou.

— Dá para escolher a vaga.

— A Câmara dos Vereadores queria pôr aqueles parquímetros

automatizados. Alguém fez as contas e descobriu que a receita gerada demoraria 10 anos para pagar o investimento. Entre.

Dan a conduziu a um escritório octogonal com painéis escuros e molduras elegantes.

— Este era o escritório do presidente do banco — ele disse. — Eu pago 15 dólares a mais por mês para dizer isso.

Livros de direito enchiam as prateleiras, mas ela sabia que eram, principalmente, decorativos. Tudo agora era acessado pela internet. A mesa de Dan ficava de frente para a janela em arco que ainda exibia o letreiro castanho e dourado anunciando o edifício como sendo do First National Bank. Dali, Tracy olhou para a Rua do Mercado.

— Quantas vezes você acha que nós passamos de bicicleta por essa rua? — ela perguntou.

— Vezes demais para contar. Todos os dias do verão.

— Eu lembro do dia em o seu pneu murchou.

— Nós estávamos indo para as montanhas, para fazer aquele balanço de corda — Dan disse. — Sarah me comprou a câmara e me ajudou a consertar o pneu.

— Eu lembro. Ela usou o dinheiro dela — Tracy disse. Ela deu as costas para a janela. — Estou surpresa que você tenha vindo morar aqui. — Eu também.

— Você disse que era uma história longa.

— Longa… Não interessante. Café?

— Não, obrigada. Estou tentando diminuir.

— Pensei que café fosse um pré-requisito para ser policial. — Rosquinhas é que são. O que os advogados comem?

— Um ao outro.

Eles se sentaram à mesa redonda em frente à janela. Um livro de direito segurava o vidro inferior, deixando entrar ar fresco no escritório. — É ótimo rever você, Tracy. A propósito, você está ótima. — Acho que é melhor você trocar as lentes. Estou péssima, mas obrigada por ser gentil. — O comentário dele a deixou ainda mais incomodada com a própria aparência. Como não pretendia passar outra noite na cidade, não tinha levado muita coisa para vestir. Quando saiu de Seattle, tinha pegado jeans, botas, uma blusa e a jaqueta de veludo cotelê para vestir depois do funeral de Sarah. Antes de sair do quarto do hotel, parou diante do espelho, pensando em prender o cabelo num rabo de cavalo, mas chegou à conclusão de que isso só serviria para acentuar seus pés de galinha. Ela deixara o cabelo solto. — Então, por que você voltou? — ela perguntou.

— Ah, foi uma combinação de coisas. Fiquei esgotado trabalhando num grande escritório de advocacia em Boston. Os dias tinham se tornado uma tortura, sabe? Eu tinha ganhado dinheiro suficiente e pensei em tentar algo diferente. Parece que minha mulher teve a mesma ideia: tentar um homem diferente.

Tracy fez uma careta.

— Sinto muito.

— É, eu também senti. — Dan deu de ombros. — Quando sugeri que queria abandonar o direito, ela sugeriu que nós abandonássemos um ao outro. Ela estava transando com um dos meus sócios fazia mais de um ano. Tinha se acostumado com o estilo de vida no clube de campo e teve medo de perdê-lo.

Dan já tinha superado a dor ou então a escondia bem. Tracy sabia que algumas dores nunca sumiam totalmente. Eram só reprimidas debaixo de uma fachada de normalidade.

— Por quanto tempo vocês ficaram casados?

— Doze anos.

— Vocês têm filhos?

— Não.

Ela se recostou na cadeira.

— E por que Cedar Grove? Por que não algum lugar… sei lá. Ele deu um sorriso resignado.

— Pensei em me mudar para São Francisco, depois pensei em Seattle. Então meu pai morreu e minha mãe ficou doente. Alguém precisava cuidar dela. Eu voltei para casa, pensando que seria algo temporário. Depois de um mês, percebi que morreria de tédio se não fizesse alguma coisa, então pendurei meu letreiro de advogado. Eu faço testamentos, imóveis, recorro de infrações de trânsito, enfim, qualquer coisa entediante que entre por aquela porta e possa pagar mil e quinhentos dólares de sinal.

— E a sua mãe?

— Ela morreu faz um pouco mais de seis meses.

— Sinto muito.

— Eu sinto falta dela, mas pelo menos tivemos tempo para nos conhecer de um modo que não nos conhecíamos antes. Sou grato por isso. — Invejo você.

— Por que diz isso? — Ele franziu a testa.

— Eu e minha mãe não tivemos mais um relacionamento depois que Sarah desapareceu, e depois que meu pai… — Ela deixou o resto no ar e Dan não a pressionou, o que a fez imaginar o quanto ele sabia.

— Deve ter sido uma época terrível para você.

— Foi mesmo — ela concordou. — Foi horrível.

— Espero que o dia de ontem tenha trazido um tipo de encerramento de ciclo.

— Algo assim — ela disse.

— Tem certeza de que não quer café? — ele perguntou, levantando-se. Ela conteve um sorriso ao vê-lo novamente como o garoto que não gostava de conversas intensas e tentava mudar de assunto.

— Não, obrigada. Então, me conte, em que área do direito você atuava? Dan se sentou de novo e juntou as mãos sobre as pernas.

— Eu comecei com direito antitruste, quando percebi que era de fato possível morrer de tédio. Então um sócio me colocou na defesa de um caso de crime financeiro e eu descobri do que realmente gostava. E, se eu posso dizer, eu era muito bom no tribunal. — Ele ainda tinha o sorriso juvenil. — Aposto que os júris amavam você.

— Amavam é uma palavra muito forte — ele disse. — Idolatravam, talvez. — Ele riu e ela também percebeu o garoto na risada. — Eu defendi o CEO de uma grande corporação, e, quando ganhei o caso, todo advogado da firma que tinha um cliente pego com a boca na botija, ou um parente que havia bebido demais na festa de Natal da empresa, vinha me procurar. Isso resultou em crimes financeiros de maior notoriedade, e, quando me dei conta, estava com uma boa clientela. — Ele inclinou a cabeça, como se a estudasse. — Muito bem, sua vez. Detetive de homicídios? Uau. O que aconteceu com o magistério?

Ela fez um sinal de pouco-caso.

— Você não quer ouvir essa história.

— Ei, qual é. Agora é sua vez. Não era seu sonho se tornar professora no colégio de Cedar Grove e criar seus filhos aqui?

— Não deboche.

— Ei — ele bufou. — Eu moro aqui agora. E foi o que você sempre disse, que iria ser professora, e que você e Sarah seriam vizinhas. — Eu lecionei, durante um ano.

— No colégio de Cedar Grove?

— Lar dos Carcajus Guerreiros — ela disse, e fez garras com as mãos. — Me deixe adivinhar… Química?

— Muito bem. — Tracy fez uma expressão de espanto.

— Nossa, você era tão nerd — ele disse.

Ela fez cara de indignada.

— Eu era nerd? E você?

— Eu era um panaca. Os nerds são espertos. Essa é a sutil diferença. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS