sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 05

Tracy mostrou seu distintivo ao policial sentado à escrivaninha depois das portas de vidro e lhe disse que estava com o grupo de Seattle. Imediatamente, ele começou a explicar a ela como chegar à sala de reuniões no fim do corredor.

— Eu sei o caminho — ela disse.

Quando abriu a porta da sala sem janelas, a conversa parou de repente. Um policial uniformizado estava em pé junto à cabeceira da mesa, de caneta na mão, com um mapa topográfico preso a um quadro de cortiça atrás de si. Roy Calloway estava sentado perto da entrada, as sobrancelhas juntas e parecendo preocupado. Do lado oposto da mesa, Kelly Rosa, a antropóloga forense de Seattle, estava sentada com Bert Stanley e Anna Coles, voluntários da equipe de perícia da Patrulha Estadual de Washington. Tracy tinha trabalhado em diversos homicídios com eles, e não esperou ser convidada a entrar, sabendo que isso não aconteceria.

— Chefe — ela disse, pois era assim que todo mundo em Cedar Grove chamava Calloway, embora, tecnicamente, ele fosse o xerife. Calloway levantou-se quando Tracy passou por sua cadeira e tirou a jaqueta de veludo cotelê, revelando seu coldre de ombro e o distintivo preso no cinto.

— O que você pensa que está fazendo? — o xerife perguntou. Ela pendurou a jaqueta nas costas de uma cadeira.

— Não comece com isso, Roy.

Ele se aproximou, endireitando o corpo para mostrar sua altura. Intimidação sempre foi sua marca. Para uma garotinha, Roy Calloway podia ser assustador, mas Tracy já não era jovem nem se deixava intimidar com facilidade.

— Concordo, não vamos começar. Então, se você está aqui como policial, está fora da sua jurisdição. Se…

— Eu não estou aqui como policial — ela disse. — Mas eu gostaria de cortesia profissional.

— Não vai dar.

— Roy, você sabe que eu não faria nada que pudesse prejudicar a integridade de uma cena de crime.

Calloway meneou a cabeça.

— Você não vai ter essa oportunidade.

Os outros olharam na direção deles, os rostos marcados pela dúvida. — Então vou lhe pedir um favor… como amigo do meu pai. Calloway estreitou os olhos azuis e franziu a testa. Tracy sabia que tinha tocado numa ferida antiga, que nunca tinha cicatrizado. Calloway costumava caçar e pescar com seu pai, que tinha cuidado dos pais idosos do xerife antes de eles morrerem. Os dois homens também carregaram a culpa e o fardo de nunca terem encontrado Sarah.

Calloway apontou o dedo para Tracy como fazia quando ela era criança e andava de bicicleta na calçada.

— Você não vai me atrapalhar. Se eu disser para você ir embora, é o que vai fazer. Estamos entendidos?

Tracy não podia dizer para o xerife que investigava mais homicídios num ano do que ele tinha investigado durante toda a carreira.

— Estamos — ela afirmou.

Calloway manteve o olhar nela durante um momento antes de voltar sua atenção para o policial.

— Continue, Finlay — ele disse, e voltou ao seu lugar.

O policial, cujo distintivo dizia “Armstrong”, precisou de um instante para recuperar o fio da meada antes de voltar sua atenção para o mapa topográfico.

— Foi aqui que eles encontraram o corpo. — Ele desenhou um X onde os dois caçadores tinham topado com os restos mortais.

— Não pode ser — Tracy disse.

Armstrong voltou-se para ela, parecendo inseguro. Ele olhou para Calloway.

— Eu disse para continuar, Finlay.

— Tem uma estrada de acesso aqui — Armstrong indicou no mapa. — Foi aberta para um empreendimento.

— Essa é a velha propriedade Cascadia — Tracy disse.

Os músculos do maxilar de Calloway ficaram tensos.

— Continue, Finlay.

— O local fica a menos de um quilômetro da estrada de acesso — Finlay

disse, parecendo menos seguro de si. — Nós estabelecemos um perímetro aqui. — Ele desenhou outro pequeno X. — A cova em si é rasa, cerca de meio metro. Agora…

— Espere — Rosa disse, levantando a cabeça e tirando os olhos de suas anotações. — Espere um pouco. Você disse que a cova era rasa? — Bem, o pé não estava muito fundo.

— E a cova não parecia mexida, para você? — Rosa perguntou. — Quero dizer, além do que o cachorro cavou?

— Foi o que pareceu; acho que podia ser apenas uma perna e um pé. — Por que você pergunta? — Calloway se dirigiu a Rosa.

— O tilito glacial no noroeste perto do Pacífico é duro como pedra — Rosa disse. — Isso torna muito difícil cavar uma cova, especialmente nesse tipo de terreno, que, imagino, tem ainda um grande sistema de raízes. Não me surpreende que a cova seja rasa. O que me surpreende é que animais não tenham mexido nela antes.

— Aquela área estava começando a ser transformada em um resort de tênis e golfe que se chamaria Cascadia — Tracy disse a Rosa. — Eles tiraram algumas árvores e trouxeram alguns trailers para servir de escritórios de vendas dos lotes. Lembra daquele corpo que nós encontramos em Maple Valley alguns anos atrás?

Rosa anuiu e se voltou para Armstrong:

— O corpo podia estar enterrado em um buraco feito pela remoção de uma árvore durante esse estágio do empreendimento?

— Não sei — Armstrong respondeu, meneando a cabeça e parecendo confuso.

— Que diferença isso faz? — Calloway perguntou.

— Para começar, pode indicar um ato premeditado — Tracy disse. — Se alguém sabia que haveria uma construção nessa área, pode ter planejado usar o buraco.

— Por que um assassino usaria um buraco num local em que sabia que haveria uma construção? — Rosa perguntou.

— Porque ele também sabia que a construção não iria adiante — Tracy respondeu. — Foi uma história e tanto por aqui. O resort iria ter grande impacto na economia local, transformando Cedar Grove em destino turístico. A construtora pediu permissão para transformar a terra em campo de golfe e resort de tênis, mas pouco tempo depois a Comissão Federal de Energia aprovou a construção de três usinas hidroelétricas no Rio Cascade. — Tracy levantou, foi até a frente da sala e estendeu a mão para Finlay. O policial hesitou antes de entregar a caneta para ela. Tracy desenhou uma linha. — A represa das Cataratas de Cascade foi a última a ficar pronta. Isso aconteceu em meados de outubro de 1993. O lago da usina se encheu e seu perímetro expandiu. — Ela desenhou o novo perímetro do lago. — Essa área foi inundada.

— O que colocou o local da cova debaixo d’água e fora do alcance de animais — Rosa disse.

— E fora do nosso alcance. — Tracy se virou para Calloway. — Nós vasculhamos essa área, Roy.

Tracy sabia bem disso. Ela não só fez parte da equipe de buscas como guardou o mapa topográfico original depois que seu pai morreu. Nos anos seguintes, ela voltou ali tantas vezes que conhecia o lugar melhor que as linhas da palma de sua mão. Seu pai tinha dividido o mapa em setores, para garantir uma busca sistemática e completa. Eles tinham passado duas vezes em cada setor.

Como Calloway continuava a ignorá-la, Tracy se dirigiu a Rosa. — A barragem das Cataratas de Cascade foi derrubada no começo deste verão.

— E o lago recuou para suas dimensões originais — Rosa concluiu. — Eles acabaram de reabrir a área para caçadores e trilheiros — Armstrong disse, também entendendo. — Ontem foi o primeiro dia da temporada de patos.

Tracy olhou para Calloway.

— Nós vasculhamos a área antes de ser inundada, Roy. Não havia corpo ali.

— A área é grande. Não dá para excluir a possibilidade de não termos visto — ele disse. — Ou de não ser ela.

— Quantas mulheres jovens desapareceram por aqui nessa época, Roy? Calloway não respondeu.

— Nós vasculhamos aquela área duas vezes e não encontramos nenhum corpo. Quem pôs o corpo ali só pode ter feito isso depois das nossas buscas e pouco antes da inundação. 

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