Tracy pegou a saída que conhecia bem, virou à esquerda no sinal de “Pare” e, um minuto depois, entrou na Rua do Mercado. Ela parou no único semáforo de Cedar Grove, no centro da cidade, e contemplou o que um dia tinha sido sua cidade, mas que agora parecia tão envelhecida e desgastada que lhe era desconhecida.
Tracy enfiou o troco no bolso da frente do jeans, pegou a pipoca e a Coca no balcão e passou os olhos pelo saguão do teatro, mas não viu Sarah. Nas manhãs de sábado em que o Cinema Hutchins exibia um filme novo, a mãe delas dava seis dólares para Tracy; três para ela, três para Sarah. O cinema custava $ 1,50, e assim sobrava um trocado para a pipoca e um refrigerante, ou para comprar um sorvete no armazém depois do filme.
— Onde está Sarah? — Tracy perguntou.
Com 11 anos, ela era responsável por Sarah, embora
recentemente tivesse cedido à vontade da irmã de carregar seu próprio dinheiro
do cinema. Tracy notou que Sarah não tinha comprado pipoca nem refrigerante,
embolsando o troco. E agora ela tinha sumido, o que não era atípico.
Dan O’Leary empurrou os óculos grossos, de armação preta, na
ponte do nariz, um hábito persistente.
— Não sei — ele respondeu, olhando ao redor. — Ela estava
bem aqui. — Quem liga? — Sunnie Witherspoon segurava sua pipoca e aguardava
junto à porta vaivém para entrar na sala de exibição escura. — Ela sempre faz
isso. Vamos entrar. Nós vamos perder os trailers.
Tracy costumava dizer que Sunnie e Sarah tinham uma relação
de amor e ódio. Sarah adorava provocar Sunnie, o que esta odiava.
— Não posso deixar minha irmã para trás, Sunnie. Ela foi ao
banheiro? — Tracy perguntou para Dan.
— Eu posso ir lá ver. — Dan deu dois passos antes de cair em
si. — Espere. Não, não posso.
O Sr. Hutchins apoiou os antebraços no balcão.
— Eu digo a ela que vocês já entraram e faço ela entrar,
Tracy. É melhor vocês entrarem para não perderem os trailers. Estamos passando
o do Os caça fantasmas.
— Vamos logo, Tracy — Susie resmungou.
Tracy deu uma última olhada no saguão. Era a cara de Sarah
perder os trailers. Quem sabe assim ela aprendia a lição.
— Tudo bem. Obrigada, Sr. Hutchins.
— Eu posso levar sua Coca — Dan disse. As mãos dele estavam
vazias, pois seus pais só lhe davam dinheiro para o filme.
Tracy entregou a bebida para ele e usou a mão livre para
cobrir a pipoca, evitando assim derrubá-la enquanto andava. O Sr. Hutchins
sempre enchia as caixas dela e de Sarah até transbordarem. Tracy sabia que isso
tinha a ver com o fato de seu pai cuidar da Sra. Hutchins, que tinha muitos problemas
de saúde por causa da diabetes.
— Até que enfim — Sunnie disse. — Aposto que os melhores
lugares já estão ocupados.
Sunnie usou as costas para abrir a porta vaivém, sendo
seguida por Tracy e Dan. As luzes estavam apagadas, e, depois que a porta se fechou,
Tracy teve que esperar um instante para seus olhos se acostumarem com a
escuridão. Ela ouviu crianças que já estavam sentadas rindo e gritando
palavrões, ansiosas para que o Sr. Hutchins entrasse na cabine de projeção e
começasse o filme. Uns poucos pais tentavam controlá-las.
Tracy adorava tudo no Cine Hutchins aos sábados, do cheiro da pipoca com
manteiga ao carpete marrom e às poltronas de veludo com apoios de braços
puídos.
Sunnie estava na metade do corredor quando Tracy reconheceu
a sombra à espreita atrás de uma fileira de assentos. Tarde demais para alertar
a amiga antes que Sarah pulasse para assustá-la.
— Buu!
Sunnie soltou um grito apavorado que silenciou o cinema. O
que se seguiu foi uma gargalhada também conhecida.
— Sarah! — Tracy gritou.
— Qual é o seu problema? — Sunnie berrou.
As luzes da sala foram acesas, causando um coro de vaias. O
Sr. Hutchins desceu pelo corredor, parecendo preocupado. As pipocas estavam
espalhadas pelo carpete gasto junto com a caixa de listras brancas e vermelhas
de Sunnie.
— Foi a Sarah — Sunnie disse. — Ela me assustou de
propósito. — Nada disso — Sarah exclamou. — Foi você que não me viu. — Ela
estava escondida, Sr. Hutchins. E fez de propósito. Ela sempre faz isso.
— Não faço, não — Sarah afirmou.
O Sr. Hutchins olhou para Sarah, mas, em vez de ficar bravo,
Tracy achou que ele estava fazendo força para não rir.
— Sunnie, por que você não volta para o saguão e pede outra
caixa de pipoca para a Sra. Hutchins? — Ele levantou as mãos e se dirigiu à plateia:
— Desculpe, pessoal. Só vai atrasar um pouco enquanto pego a vassoura. Só vai
demorar um minuto.
— Não, Sr. Hutchins. — Tracy olhou para a irmã. — Sarah,
você pega a vassoura e limpa isso.
— Por que eu tenho que limpar?
— Porque você fez a sujeira.
— Dã, foi a Sunnie que fez.
— Limpe isso.
— Você não manda em mim.
— A mamãe me colocou no comando. Então, ou você limpa, ou eu
conto para ela e para o papai que você está guardando o dinheiro que ela te dá
para comprar pipoca e sorvete.
Sarah coçou o nariz e sacudiu a cabeça.
— Tá bom. — Ela se virou para ir buscar a vassoura, parou e
disse: — Desculpe, Sr. Hutchins. Vou varrer rapidinho. — Ela disparou pelo
corredor
e abriu a porta. — Ei, Sra. Hutchins, preciso da vassoura! —
Desculpe, Sr. Hutchins — Tracy disse. — Vou contar para minha mãe e meu pai o
que ela fez.
— Não precisa, Tracy — ele respondeu. — Eu acho que você já
cuidou da situação com muita maturidade, e acredito que Sarah aprendeu a lição.
Essa é a nossa Sarah, certo? Ela faz as coisas ficarem divertidas por aqui.
— Divertidas demais, às vezes — Tracy disse. — Estamos
tentando fazer ela parar.
— Ah, eu não faria isso — ele exclamou. — É o que torna Sarah…
Sarah.
Uma buzina soou. Tracy olhou pelo retrovisor e viu um homem
na boleia de um caminhão velho apontando para o semáforo à frente, que tinha
ficado verde.
Ela passou pelo cinema, mas o letreiro estava cheio de
buracos feitos por pedras, e as vitrines que um dia anunciaram o filme em
cartaz e as próximas atrações estavam cobertas por tapumes. Uma brisa soprava
jornais e lixo na área atrás da bilheteria. O restante dos prédios de um e dois
andares em pedra e tijolo no centro de Cedar Grove estava em condições
semelhantes.
Placas de “Aluga-se” ocupavam metade das janelas. Um
restaurante chinês que ficava no lugar que já tinha sido uma loja de
quinquilharias anunciava, numa cartolina, o almoço executivo a seis dólares. Um
brechó substituía a barbearia de Fred Digasparro, mas a haste em espiral
vermelha e branca continuava afixada na parede. Um café anunciava expressos
debaixo de letras desbotadas na fachada de tijolinhos à vista que tinha
pertencido ao Armazém do Kaufman.
Tracy virou à direita na Segunda Avenida. Na metade do
quarteirão, entrou no estacionamento. As letras pretas pintadas na porta de
vidro da Delegacia de Polícia de Cedar Grove não haviam mudado nem desbotado,
mas Tracy não tinha ilusões quanto à sua volta para casa.

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