sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 01


O instrutor tático na academia de polícia gostava de provocá-la durante os treinamentos matinais.

— Dormir é superestimado — ele dizia. — Você vai aprender a se virar sem isso.

Era mentira.

Dormir é como sexo. Quanto menos você tem, mais deseja, e ultimamente Tracy Crosswhite não estava conseguindo ter nenhuma das duas coisas.

Ela alongou os ombros e o pescoço. Sem tempo para uma corrida matinal, seu corpo estava duro e dormente, embora ela não se lembrasse de ter dormido demais, se é que tinha dormido. Fast food demais, cafeína demais, disse o seu médico. Bom conselho, mas comer bem e se exercitar exigiam um tempo que Tracy não tinha enquanto investigava um homicídio, e parar com a cafeína seria como tirar a gasolina de um carro. Ela morreria. — Ei, a Professora chegou cedo. Quem morreu?

Vic Fazzio apoiou o corpo considerável na parede da baia de Tracy. Era uma velha piada da Homicídios, mas nunca ficava velha quando entoada na voz rouca de Fazzio, com seu sotaque de Nova Jersey. Com o cabelo grisalho e o rosto carnudo, o autoproclamado “carcamano” da Divisão de Homicídios poderia ter atuado como um daqueles guarda-costas calados dos filmes sobre a máfia. Fazzio segurava as palavras cruzadas do New York Times e um livro de biblioteca, o que significava que o café já tinha funcionado. Que Deus ajudasse quem precisava usar o banheiro dos homens enquanto Fazzio estava lá. Todos sabiam que ele ficava sentado meia hora pensando nas respostas ou enquanto lia um capítulo envolvente.

Tracy entregou a ele uma das fotos da cena do crime que tinha imprimido de manhã cedo.

— Dançarina na Avenida Aurora.

— Ouvi falar. Coisa de pervertido, hein?

— Vi coisa pior quando trabalhava com crimes sexuais — ela respondeu. — Esqueci. Você trocou sexo por morte — ele brincou.

— A morte é mais fácil — ela disse, roubando uma das piadas de Fazzio. A dançarina, Nicole Hansen, tinha sido encontrada com mãos e pés amarrados num quarto barato de motel na Avenida Aurora, no norte de Seattle. Um laço envolvia seu pescoço, e a corda descia por sua coluna, prendendo punhos e tornozelos — um arranjo complexo. Tracy entregou o relatório do legista para Fazzio.

— Ela teve cãibras nos músculos, que acabaram com espasmos. Nesse momento, ela esticou as pernas para aliviar a dor, o que a fez se estrangular. Legal, né?

 — Não era de esperar — Fazzio começou, avaliando a fotografia — que tivessem usado um nó corredio, ou algo assim, para que ela conseguisse escapar?

 — Faria sentido, não é?

— Então, qual a sua teoria? — ele perguntou. — Alguém ficou sentado lá, se divertindo enquanto via ela morrer?

— Ou o sujeito percebeu que fez besteira, entrou em pânico e fugiu. De qualquer modo, ela não se amarrou sozinha.

— Mas pode ser. Vai ver ela é um tipo de Houdini.

— O Houdini se desamarrava sozinho, Fazzio. Esse era o truque. — Tracy pegou de volta o relatório e a fotografia e os colocou em sua mesa. — E isso me deixa aqui, nesta hora impiedosa, sozinha com você e os grilos.

— Eu e os grilos estamos aqui desde as cinco, Professora. Você sabe o que dizem. Deus ajuda quem cedo madruga.

— É, bem, este passarinho madrugador bastante cansado bem que aceitaria um pouco mais de ajuda lá de cima.

— Mas onde está o Kins? Por que você está se divertindo sozinha? — Espero que esteja comprando um café para mim. — Ela consultou o relógio. — Se bem que, nesse ritmo, era melhor eu mesma ter feito o café. — Ela olhou para o livro na mão de Fazzio. — O sol é para todos. Estou impressionada.

— Estou tentando melhorar.

— Sua mulher escolheu para você, não foi?

— Pode apostar nisso. — Fazzio se afastou da parede. — Tudo bem, está na hora de eu bancar o malandro. O sol está brilhando e eu estou me dando bem.

— Informação demais, Fazzio.

Ele começou a se afastar da baia, então voltou, lápis na mão. — Ei, Professora, me dá uma ajudinha. Preciso de uma palavra com dez letras para “torna seguro o gás natural”.

Tracy tinha sido professora de química do Ensino Médio antes de mudar de carreira e entrar na academia de polícia, onde recebeu o apelido. — Mercaptano — ela disse.

— Hã?

— Mercaptano. É acrescentado ao gás natural para que a gente possa sentir o cheiro se houver um vazamento em casa.

— Fala sério. Tem cheiro do quê?

— Enxofre. Sabe, ovo podre — ela explicou.

Fazzio lambeu a ponta do lápis e preencheu os quadradinhos. — Obrigado.

Depois que Fazzio se afastou, Kinsington Rowe apareceu e entrou na baia da Equipe A, entregando para Tracy um dos dois copos altos que trazia. — Desculpe — ele disse.

— Eu estava para chamar a equipe de resgate.

A Equipe A era uma das quatro da Divisão de Homicídios da Seção de Crimes Violentos. Cada equipe possuía quatro detetives, sendo a A composta por Tracy, Kins, Fazzio e Delmo Castigliano, a outra metade da Dupla Dinâmica Italiana. As mesas deles ficavam nos quatro cantos de uma baia grande, e eles se sentavam de costas um para o outro, que era como Tracy preferia. A Divisão de Homicídios era um aquário e a privacidade, difícil. No centro da baia eles guardavam fichários de crimes debaixo de uma bancada de trabalho. Cada um mantinha os arquivos dos homicídios em que estavam trabalhando em sua própria mesa.

Tracy segurou o copo com as duas mãos.

— Venha para mim, meu agridoce néctar dos deuses. — Ela tomou um gole e lambeu a espuma do lábio superior. — Por que você demorou? Kins fez uma careta ao sentar-se. Após jogar futebol americano por quatro anos na universidade e um ano na NFL, Kins se aposentou quando os médicos erraram o diagnóstico de uma contusão, o que o deixou com degeneração na pelve. Um dia ele teria que colocar uma prótese, mas estava esperando para ter que fazer o procedimento apenas uma vez. Nesse meio tempo, ele lidava com a dor chupando Advil como se fosse bala. — O quadril está mal, é? — Tracy perguntou.

— Costumava ficar assim só quando esfriava — Kins respondeu. — Então arrume isso logo. O que você está esperando? Ouvi dizer que agora é procedimento de rotina.

— Não é rotina quando o médico põe aquela máscara no seu rosto e manda você dormir com os anjos.

Ele desviou o olhar, ainda com a careta de dor, sugerindo que algo além do quadril o incomodava. Após seis anos trabalhando lado a lado, Tracy reconhecia os sinais de Kins. Ela sabia quais eram seus estados de espírito e suas expressões faciais. Ela sabia dizer, de manhã, se ele tinha dormido mal ou transado. Kins era seu terceiro parceiro na Homicídios. O primeiro designado para trabalhar com ela, Floyd Hattie, tinha anunciado que preferia se aposentar a trabalhar com uma mulher. E foi o que fez. O segundo parceiro durou seis meses, até a esposa dele encontrar Tracy num churrasco e decidir que não sabia lidar com o fato de o marido passar o dia com uma loira de 1,78, solteira, na época com 36 anos.

Quando Kins se ofereceu para trabalhar com Tracy, ela estava um pouco sensível.

Tudo bem, mas e quanto à sua mulher?, ela perguntou. Vai ser um problema para mim?

Espero que não, Kins respondeu. Com três filhos menores de oito anos, essa é a última coisa divertida que fazemos juntos.

Ela soube no mesmo instante que conseguiria trabalhar com ele. Os dois fizeram um acordo — honestidade total. Nada de guardar mágoas. Vinha funcionando havia seis anos.

— Mais alguma coisa está incomodando você, Kins?

Ele suspirou e a encarou.

— Billy me parou na entrada — ele disse, referindo-se ao sargento da Equipe A.

— Espero que ele tenha um bom motivo para ter atrasado meu café. Já matei por menos.

Kins não sorriu. O som do noticiário matutino vindo da televisão pendurada na baia da Equipe B se espalhava pelo ambiente. Na mesa de alguém, um telefone tocava sem que ninguém atendesse.

— Algo a ver com Hansen? O comando está pressionando o sargento por causa disso?

Ele meneou a cabeça.

— Billy recebeu uma ligação do Instituto Médico-Legal, Tracy. — Ele a encarou. — Dois caçadores encontraram restos mortais nas colinas de Cedar Grove.

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