sábado, 8 de maio de 2021

A aventura do pudim de natal - Capítulo 05 - fim


A ceia de Natal começou às duas horas da tarde, e foi um  verdadeiro banquete. Enormes toras de madeira crepitavam  alegremente na grande lareira, e mais alto que o crepitar elevava-se a  babel de muitas línguas falando ao mesmo tempo. A sopa de ostras  havia sido consumida, dois enormes perus tinham chegado e saído,  meras carcaças da forma anterior. E agora, o momento sublime, o  pudim de Natal foi servido com toda pompa. O velho Peverell, as mãos e  os joelhos trêmulos devido à fraqueza de seus oitenta anos, não  permitia que ninguém além dele o trouxesse. Á Sra. Lacey permanecia  sentada, pressionando as mãos em nervosa apreensão. Em algum  Natal, tinha certeza, Peverell cairia morto. Tendo que escolher entre  deixá-lo cair morto ou ferir seus sentimentos a tal ponto que ele talvez  preferisse estar morto a vivo, até o momento preferira a primeira  alternativa. Numa bandeja de prata, o pudim de Natal repousava em  sua glória. Um pudim do tamanho de uma grande bola de futebol, com um ramo de azevinho espetado como uma bandeira triunfante e  gloriosas chamas vermelhas e azuis ao seu redor. Ouviram-se aplausos  e exclamações de “Oh!, Ah!”. 

Uma coisa a Sra. Lacey fizera: convencera Peverell a colocar o  pudim à sua frente para que ela pudesse servir, ao invés de ele ir  passando ao redor da mesa para que cada um se servisse. Suspirou de  alívio quando o pudim foi depositado em segurança à sua frente. Os  pratos foram passando rapidamente, as chamas ainda lambendo os  pedaços. 

— Faça um desejo, M. Poirot — gritou Bridget. — Faça um desejo  antes que a chama se apague. Depressa, vozinho, depressa.  A Sra. Lacey se recostou com um suspiro de satisfação. Em frente  de cada um havia um pedaço com a chama ainda acesa. Houve um  silêncio momentâneo em toda a mesa, todos desejando com fervor.  Ninguém pôde perceber a expressão um tanto curiosa do rosto de  M. Poirot, enquanto ele examinava o pedaço de pudim em seu prato.  “Não coma nenhum pedaço do pudim de passas.” Que significado  poderia ter tão sinistra recomendação? Não podia haver nada de  diferente entre o seu pedaço do pudim de passas e os dos demais!  Suspirando ao se reconhecer desconcertado — e Hercule Poirot jamais  gostou de se reconhecer desconcertado — apanhou a colher e o garfo.  — Calda de açúcar, M. Poirot? 

Poirot serviu-se consideravelmente de calda de açúcar.  — Surrupiou meu melhor conhaque outra vez, hein, Em? — disse  o Coronel, bem-humorado, da outra extremidade da mesa. A Sra. Lacey  piscou para ele. 

— A Sra. Ross insistia em usar o melhor conhaque, querido —  falou. — Diz ela que tudo depende disso. 

— Bem, bem — disse o Coronel Lacey, — Natal só temos uma vez  por ano, e a Sra. Ross é uma excelente pessoa. Excelente pessoa e  excelente cozinheira. 

— E é mesmo — concordou Colin. — Este pudim de passas está  divino. Mmmm. — Encheu a boca com deleite.

Gentilmente, quase com escrúpulos, Hercule Poirot atacou seu  pedaço de pudim. Comeu uma enorme colherada. Estava delicioso!  Investigou com o garfo. Bridget, à sua esquerda, veio em sua ajuda.  Alguma coisa retiniu de leve em seu prato. 

— O senhor ganhou alguma coisa, M. Poirot — disse ela. — Nem  imagino o que seja, 

Poirot destacou um pequenino objeto de prata das passas que se  agarravam a ele. 

— Ih! — disse Bridget — é o emblema de solteirão! M. Poirot  ganhou o emblema de solteirão. 

Hercule Poirot mergulhou o pequeno botão de prata no vaso-de dedos colocado ao lado de seu prato, para tirar as migalhas do pudim.  — Muito bonitinho — observou. 

— Quer dizer que o senhor vai ficar solteiro, M. Poirot — explicou  Colin prestativamente. 

— Já era de se esperar — disse Poirot com gravidade. — Sou  solteiro há muitos e muitos anos e é pouco provável que mude de status  agora. 

— Ah, jamais diga dessa água não beberei — disse Michael. — Eu  li outro dia no jornal que um sujeito de noventa e cinco anos se casou  com uma moça de vinte e dois. 

— Você me estimula — disse Hercule Poirot. 

O Coronel Lacey soltou uma exclamação súbita. Seu rosto tornou se rubro e levou as mãos à boca. 

— Raios a partam, Emmeline — urrou, — por que você deixou a  cozinheira pôr vidro no pudim? 

— Vidro?! — exclamou a Sra. Lacey, atônita. 

O Coronel Lacey retirou o material cortante da boca. 

— Poderia ter quebrado um dente — resmungou. — Ou ter  engolido esta droga e ficado com apendicite. 

Mergulhou o pedaço de vidro no vaso-de-dedos, lavou-o e depois  levantou-o. 

— Meu santo Deus! — exclamou. — É uma pedra vermelha caída

de um daqueles broches de fantasia. — Segurou-a no alto.  — O senhor me permite? 

Com muito cuidado, Poirot esticou-se na frente de seu vizinho,  retirou a pedra dos dedos do Coronel Lacey e examinou-a atentamente.  Conforme dissera o dono da casa, era uma enorme pedra vermelha, da  cor de um rubi. Girando a pedra, Poirot percebeu que suas facetas  brilhavam. Em algum lugar da mesa, uma cadeira foi empurrada  abruptamente, e depois voltou a posição anterior. 

— Fiu! — assoviou Michael. — Que estranho se ela fosse  verdadeira.

— Talvez seja verdadeira — disse Bridget, esperançosamente.  — Ora, não seja idiota, Bridget. Puxa, um rubi deste tamanho  valeria milhares e milhares e milhares de libras. Não é mesmo, M.  Poirot? 

— Valeria mesmo — respondeu Poirot. 

— Mas o que eu não consigo entender — interrompeu a Sra.  Lacey, — é como ele foi parar dentro do pudim. 

— Uau! — exclamou Colin, entretido com a última colherada. —  Eu ganhei o porco. Não é justo. 

Bridget cantou imediatamente: 

— Colin ganhou o porco! Colin ganhou o porco! Colin é o porco  guloso e beberrão. 

— Eu tirei o anel — disse Diana, em voz alta e clara. 

— Sorte a sua, Diana. Você vai se casar antes de todos nós.  — Eu tirei o dedal — lamentou-se Bridget. 

— Bridget vai ficar para tia — cantaram os dois meninos. —  Bridget vai ficar para tia. 

— Quem tirou o dinheiro? — perguntou David. — Tem uma  moeda verdadeira de dez shillings, de ouro, no pudim. Eu sei. A Sra.  Ross me contou. 

— Acho que sou eu o felizardo — disse Desmond Lee-Wortley.  Os dois vizinhos do Coronel Lacey ouviram-no murmurar:  — É, tinha que ser.

— E eu também ganhei um anel — disse David. Olhou para  Diana. — Que coincidência, não é? 

As risadas prosseguiram. Ninguém percebeu que Poirot, assim  como quem está pensando em outra coisa, havia displicentemente  guardado a pedra em seu bolso. 

As tortas de frutas e as sobremesas de Natal seguiram-se ao  pudim. Depois, os mais velhos do grupo se retiraram para uma  merecida sesta, antes da cerimônia do chá e do acender das luzes da  árvore de Natal. Hercule Poirot, no entanto, não tirou sua soneca. Ao  invés disso, encaminhou-se para a enorme e antiquada cozinha. 

— Será que me permitem — perguntou, correndo os olhos e  sorrindo, — que eu felicite a cozinheira pela esplêndida refeição que  acabo de saborear? 

Houve um momento de pausa, e então a Sra. Ross aproximou-se  de maneira imponente. Era uma mulher graúda, de constituição nobre  e dignidade teatral de uma duquesa. Duas mulheres magras e grisalhas  estavam mais adiante, na copa, lavando os pratos, é uma moça de  cabelos louro-pálido caminhava de lá para cá, entre a copa e a cozinha.  Mas estas, nitidamente, apenas obedeciam ordens. A Sra. Ross era a  rainha do setor de culinária. 

— Alegra-me o senhor ter gostado, sir — disse graciosamente.  — Gostado! — gritou Hercule Poirot. Com um gesto  extravagantemente estrangeiro, levou sua própria mãos aos lábios,  beijou-a e jogou o beijo para o teto. — A senhora é um gênio, Sra. Ross!  Um gênio! Jamais provara eu comida tão maravilhosa. A sopa de ostras  — fez um barulho expressivo com os lábios — e o recheio. O recheio de  nozes do peru, este foi para mim uma experiência única.  — Bem, e engraçado que o senhor diga isso, sir — falou a Sra.  Ross, graciosamente. — É uma receita muito especial, a do recheio. Me  foi dada por um mestre-cuca austríaco com quem trabalhei há muitos  anos. Mas o resto — acrescentou — não passa da simples e boa cozinha  inglesa. 

— E existe algo melhor? — indagou Poirot.

— É muita bondade sua dizer isso, sir. É claro que, sendo o  senhor estrangeiro, talvez preferisse o estilo do continente. Não que eu  não saiba preparar pratos do continente também. 

— Tenho certeza, Sra. Ross, que a senhora seria capaz de  executar qualquer coisa! Mas a senhora deve saber que a cozinha  inglesa — a boa cozinha inglesa, não a que se encontra em hotéis ou  restaurantes de segunda classe — é muito apreciada pelos gourmets do  continente, e, se não me engano, no início do século dezenove enviaram  uma expedição especial a Londres, que mandou um relatório para a  França falando das maravilhas dos pudins ingleses. “Não existe nada no  gênero na França”, escreveram. “Vale a pena fazer a viagem até Londres  nem que seja só para provar as variedades e delícias dos pudins  ingleses”. E acima de todos os pudins — prosseguiu Poirot, já enlevado  num tipo de rapsódia — está o pudim de passas de Natal, como o que  saboreamos hoje. Foi feito em casa, não foi? 

— Mas é claro, sir. Eu mesma o fiz, seguindo minha própria  receita de muitos e muitos anos. Quando vim para cá, a Sra. Lacey  disse que havia encomendado um pudim numa loja de Londres. Não,  Madame, falei, foi muita bondade sua, mas nenhum pudim comprado  pronto se compara ao feito em casa. Veja bem — disse a Sra. Ross,  entusiasmando-se com a arte do assunto — que ele não foi feito muito  antes do dia de ser comido. Um bom pudim de Natal tem que ser feito  semanas antes, para poder apurar o gosto. Quanto mais tempo antes,  dentro de limites, melhor ele fica.


 Lembro-me agora que, quando eu era  criança e íamos à igreja aos domingos, esperávamos pela coleta que  começava assim: “Despertai, ó Senhor, nós Vos imploramos”, porque  esta coleta era o sinal, por assim dizer, de que os pudins deveriam ser  feitos naquela semana. E eram sempre feitos. Havia a coleta no  domingo, e naquela semana, com toda certeza, minha mãe fazia os  pudins de Natal. E assim é que deveria ter sido este ano. Mas, na  verdade, o pudim foi feito há apenas três dias, um dia antes do senhor  chegar. No entanto, mantive o velho costume. Todas as pessoas da casa  vieram até a cozinha, deram uma mexida no pudim e fizeram um desejo. É um velho costume, sir, e não me desligo dele.  — Muito interessante — disse Hercule Poirot. — Muito  interessante. Quer dizer que todos estiveram na cozinha?  — Sim, senhor. O jovem cavalheiro, a Srta. Bridget e o rapaz de  Londres que está hospedado aqui, e a irmã dele, e o Sr. David e a Srta.  Diana — Sra. Middleton, melhor dizendo. Todos deram uma mexida,  sim. 

— Quantos pudins a senhora fez? Só este? 

— Não, sir, fiz quatro pudins. Dois grandes e dois pequenos. O  outro pudim grande eu pretendia servir no dia de Ano Novo, e os  pequenos eram para o Coronel e a Sra. Lacey, quando estiverem  sozinhos, sem o resto da família. 

— Entendo, entendo — disse Poirot. 

— A bem da verdade, sir — disse a Sra. Ross — os senhores  comeram o pudim errado no almoço. 

— O pudim errado? — Poirot franziu a testa. — Como assim?  — Bem, sir, nós temos uma fôrma grande de Natal. Uma fôrma de  louça com o desenho de azevinhos e viscos na base e sempre  cozinhamos nela o pudim do dia de Natal. Mas houve um acidente  muito desagradável. Hoje de manhã, quando Annie estava tirando a  fôrma da prateleira da despensa, ela escorregou, a fôrma caiu e se  quebrou. Bem, sir, é claro que eu não poderia servi-lo, não é mesmo?  Podia ter alguns cacos. Então tivemos que servir o outro — o do dia de  Ano Novo, que estava numa vasilha lisa. Tem um formato bonito, mas  não é tão decorativa quanto a fôrma de Natal. Na verdade não sei aonde  vamos conseguir outra fôrma daquela. Ninguém faz mais nada daquele  tamanho. É tudo muito miudinho. Ora, basta dizer que não se consegue  mais comprar um prato para café da manhã onde caibam de oito a dez  ovos e o bacon. Ah, as coisas não são mais como antigamente.  — Não mesmo — disse Poirot. — Mas hoje foi diferente. Este Natal  foi igualzinho aos Natais de antigamente, não é verdade?  A Sra. Ross suspirou. 

— Bem, alegra-me que o senhor diga isso, sir, mas é claro que

não tive a mesma ajuda que costumava ter. Ajuda especializada,  entende? Essas meninas de hoje — ela baixou ligeiramente a voz — elas  se esforçam e têm boa vontade, mas não foram treinadas, sir, se o  senhor me entende. 

— É, os tempos mudam — disse Hercule Poirot. — Eu também  fico um pouco triste, às vezes. 

— Esta casa, sir — prosseguiu a Sra. Ross — é muito grande para  a patroa e o Coronel, o senhor sabe. A patroa sabe disso. Viver apenas  num canto, como eles fazem, não é a mesma coisa. A casa só ganha  vida no Natal, quando a família se reúne. 

— É a primeira vez, creio eu, que o Sr. Lee-Wortley e a irmã vêm  aqui? 

— E sim, sir. — Uma nota de ligeira reserva se insinuou na voz da  Sra. Ross. — Ele é muito gentil, mas, bem... é um amigo um pouco  estranho para a Srta. Sarah, de acordo com nossas idéias. Mas, que  fazer? Em Londres tudo é diferente! É uma pena que a irmã dele esteja  tão mal. Fez uma operação. Ela parecia estar bem no dia em que  chegou, mas naquele mesmo dia, depois que todos mexeram o pudim,  ela teve uma recaída e está de cama até agora. Acho que se levantou  logo depois da operação. Ah, esses médicos de hoje, eles mandam a  gente para fora do hospital antes mesmo da gente conseguir se firmar  sobre as pernas. Ora, a esposa do meu próprio sobrinho... 

E a Sra. Ross iniciou uma longa e espirituosa fábula sobre  tratamento hospitalar, segundo seus parentes, comparando-a  desfavoravelmente com a consideração que costumava ser dispensada  aos doentes em outras épocas. 

Como era seu dever, Poirot se compadeceu dela. 

— Resta ainda — falou — agradecer-lhe pela refeição suntuosa e  requintada. A senhora permite um pequeno reconhecimento de minha  apreciação? 

Uma nota novinha de cinco libras foi empurrada da mão de Poirot  para a da Sra. Ross, que disse negligentemente: 

— O senhor não precisava fazer isto, sir.

— Eu insisto. Eu insisto. 

— Bem, é muita bondade sua, sir. — A Sra. Ross aceitou o  tributo, como era sua obrigação. — E eu lhe desejo, sir, um Natal muito  feliz e um Próspero Ano Novo. 

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