sábado, 8 de maio de 2021

A cova da minha irmã - Capítulo 02


Tracy torceu os dedos com a expectativa. A brisa leve que tinha soprado ao longo de todo o dia ficou mais forte, fazendo esvoaçar a aba traseira de seu casaco velho. Ela esperou que o vento acalmasse. Após dois dias de competição, faltava uma prova para determinar o Campeão de Tiro Não Automático do Estado de Washington de 1993. Com 22 anos, Tracy era tricampeã, embora tivesse perdido o título do ano anterior para Sarah, quatro anos mais nova.

O árbitro aproximou o cronômetro da orelha de Tracy.

— Quando quiser, Crossdraw — ele sussurrou. O nome de caubói dela era um trocadilho com seu sobrenome, Crosswhite, e o tipo de coldre que ela e Sarah gostavam de usar.

Tracy baixou a aba de seu chapéu Stetson, inspirou fundo e fez uma homenagem ao melhor faroeste já feito:

— Ocupe suas mãos, seu filho da puta!

O alarme soou.

Sua mão direita sacou o Colt do coldre esquerdo, armou o cão e disparou. Com o revólver já sacado e armado na mão esquerda, ela derrubou o segundo alvo. Encontrando seu ritmo e ganhando velocidade, ela atirava com tanta rapidez que mal dava para ouvir o tilintar do chumbo sobre o disparo das armas.

Mão direita. Armar. Fogo.

Mão esquerda. Armar. Fogo.

Mão direita. Armar. Fogo.

Ela mirou na fileira inferior de alvos.

Direita, fogo.

Esquerda, fogo.

Os três tiros finais saíram em rápida sucessão. Bam. Bam. Bam. Tracy girou as armas e as deitou na mesa de madeira.

— Tempo!

Alguns espectadores aplaudiram, mas as palmas cessaram quando começaram a perceber o que Tracy já sabia.

Dez tiros, mas só nove estalidos.

O quinto alvo na fileira de baixo permanecia em pé.

Tracy tinha errado.

Os três árbitros próximos levantaram um dedo cada um para confirmar. O erro custaria caro; uma penalidade de cinco segundos adicionada ao tempo dela. Tracy ficou olhando para o alvo, incrédula, mas encará-lo não o faria cair. Relutante, ela recolheu seus revólveres, guardou-os nos coldres e saiu de lado.

Todos os olhos se voltaram para Sarah, “A Criança”.

 

Seus carrinhos de mão, feitos artesanalmente pelo pai delas para carregar as armas e munições, rangeram e chacoalharam enquanto Tracy e Sarah os arrastavam pelo estacionamento de terra e cascalho. Acima delas, o céu tinha escurecido rapidamente. A tempestade chegaria antes do que o meteorologista tinha previsto.

Tracy destrancou a traseira coberta da sua caminhonete Ford azul, baixou a porta e se aproximou de Sarah.

— Que diabo foi aquilo? — Ela não se preocupou em manter a voz baixa. Sarah jogou o chapéu na traseira da caminhonete, deixando o cabelo loiro cair pelos ombros.

— O quê?

Tracy mostrou a fivela de prata do campeonato.

— Faz anos que você não erra dois alvos. Acha que sou burra? — O vento mudou.

— Você é uma péssima mentirosa, sabia?

— E você é uma péssima vencedora.

— Porque eu não venci; você me deixou ganhar. — Tracy esperou que dois espectadores passassem por elas. As primeiras gotas de chuva começaram a cair. — Você tem sorte de o papai não estar aqui — ela disse. Vinte e um de agosto era o aniversário de casamento dos pais delas, e James “Doc” Crosswhite não tivera coragem de dizer para a esposa esquecer o Havaí e comemorar num clube de tiro poeirento na capital do estado. Tracy suavizou sua atitude, mas continuou agitada. — A gente já conversou sobre isso. Eu te disse, nós duas temos que dar nosso melhor, ou as pessoas vão começar a pensar que a coisa toda é armada.

Antes que Sarah pudesse responder, pneus espalharam cascalho. Tracy teve a atenção desviada quando Ben parou sua picape branca ao lado do Ford dela, sorrindo para as duas de dentro do carro. Embora ele e Tracy estivessem namorando por mais de um ano, Ben ainda sorria toda vez que a via.

— Vamos conversar mais sobre isso quando eu voltar para casa amanhã — Tracy disse a Sarah e se afastou para cumprimentar Ben, que saiu da picape e começou a vestir a jaqueta de couro que ela tinha dado a ele no último Natal. Os dois se beijaram.

— Desculpe o atraso. Quem tornou ilegal beber e dirigir nunca teve que enfrentar o trânsito em Tacoma. Bem que eu queria uma cerveja. — Quando Tracy endireitou o colarinho da jaqueta, Ben viu a fivela de prata na mão dela. — Ei, você ganhou.

— É, eu ganhei. — O olhar dela foi parar em Sarah.

— Oi, Sarah — Ben disse, parecendo confuso.

— Oi, Ben.

— Está pronta? — ele perguntou para Tracy.

— Só me dê um minuto.

Tracy tirou o casaco de couro e a bandana vermelha, jogando-os na parte de trás da caminhonete. Então ela se sentou na picape e estendeu a perna para Sarah puxar sua bota. O céu tinha ficado completamente preto.

— Eu não gosto da ideia de você dirigir sozinha num tempo destes. Sarah jogou a bota dentro do veículo e Tracy levantou a outra perna. Sarah agarrou o taco.

— Eu tenho 18 anos. Acho que consigo dirigir até em casa; não é como se nunca chovesse por aqui.

Tracy olhou para Ben.

— Acho que ela deveria vir conosco.

— Ela não quer fazer isso. Sarah, você não quer fazer isso. — Não, com certeza não quero — Sarah disse.

Tracy calçou as sandálias.

— A previsão é de tempestade com raios.

— Tracy, deixe disso. Você está agindo como se eu tivesse 10 anos. — Porque você age como se tivesse 10 anos.

— Porque você me trata como se eu ainda tivesse 10 anos. Ben consultou o relógio.

— É uma pena interromper essa conversa tão inteligente, garotas, mas, Tracy, a gente tem que ir se não quiser perder a reserva.

Tracy entregou sua sacola para Ben, que a levou até a picape enquanto Tracy falava com Sarah.

— Fique na autoestrada — ela disse. — Não pegue a estradinha local. Está escurecendo, e com a chuva vai ser mais difícil enxergar. — Pela estradinha é mais rápido.

— Não discuta comigo. Fique na autoestrada e tome cuidado na saída. Sarah estendeu a mão para pegar a chave da caminhonete. — Prometa — Tracy pediu, não a entregando sem que Sarah prometesse. — Tudo bem, eu prometo. — Sarah fez uma cruz sobre o coração. Tracy pôs a chave na palma da mão de Sarah, fechando a sua sobre ela. — Da próxima vez, apenas derrube a droga dos alvos. — Ela se virou para ir embora.

— O chapéu — Sarah disse.

Tracy tirou o Stetson preto e o colocou na cabeça de Sarah. Foi então que a irmã lhe mostrou a língua. Tracy queria ficar brava, mas Sarah tornava isso impossível. Tracy sentiu um sorriso se abrir em seu rosto. — Você é uma peste.

Sarah deu um sorriso exagerado.

— Sou, mas é por isso que você me ama.

— É, é por isso mesmo que eu te amo.

— E eu também te amo — Ben disse. Ele tinha aberto a porta do passageiro e estava inclinado sobre o banco. — Mas vou te amar mais ainda se não perdermos a reserva.

— Estou indo — Tracy disse.

Ela entrou na picape e fechou a porta. Ben acenou para Sarah e fez um retorno rápido, encaminhando-se para a fila de carros que tinha se formado junto à saída. A chuva agora parecia gotas de ouro derretido ao cair diante dos faróis da picape. Tracy se virou para olhar pela janela. Sarah estava parada na chuva, observando-os partir, e Tracy sentiu uma necessidade repentina de voltar, como se tivesse esquecido algo.

— Está tudo bem? — Ben perguntou.

— Sim — ela disse, embora a necessidade continuasse. Ela viu Sarah abrir a mão, perceber o que Tracy tinha feito, e olhar rapidamente para a picape de Ben.

Tracy tinha colocado a fivela de prata junto com a chave da caminhonete na mão da irmã.

E ela não veria de novo nem fivela nem Sarah por 20 anos.

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