— Espero que o senhor
goste de nossa festa de Natal, M. Poirot. É
só para a família, o senhor sabe. Minha neta, um neto com um amigo, Bridget, minha sobrinha-neta, Diana, uma prima,
e David Welwyn, um velho amigo. Apenas
uma reunião de família. Mas Edwina Morecombe
me disse que era isso o que o senhor realmente queria ver. Um Natal como os de antigamente. Ninguém poderia ser
mais antiquado do que
nós! Meu marido, o senhor
sabe, vive completamente no passado. Ele
gosta que tudo seja exatamente como era quando ele tinha doze anos,
e costumava vir passar as férias aqui. —
Ela sorriu para si mesma. — As mesmas
coisas de sempre, a árvore de Natal e as meias penduradas, e a sopa de ostras e o peru — dois perus, um
cozido e outro assado — e o pudim de
passas com o anel e o emblema de solteirão, e tudo o mais que tem lá dentro. Hoje em dia não se pode
mais pôr a moeda de seis pence, porque elas já não são feitas
apenas de prata. Mas todas as outras
velhas sobremesas, as ameixas de Elvas e as ameixas de Carlsbad e as amêndoas e passas, frutas
cristalizadas e gengibre. Céus, eu mais
pareço um catálogo do Fortnum e Mason.
— A senhora estimula meus
sucos gástricos, Madame. — Imagino que
amanhã à noite teremos todos uma tremenda
indigestão — disse a Sra. Lacey. — As pessoas não estão mais acostumadas a comer tanto, não é
verdade?
Foi interrompida pelos
altos gritos de risadas vindas do lado de
fora. Ela deu uma olhadela.
— Não sei o que estão
fazendo lá fora. Brincando de alguma coisa,
suponho. O senhor sabe, eu sempre tive muito receio que esses
jovens se aborrecessem com este nosso
Natal. Mas acontece justamente o oposto.
Já meus próprios filhos, um rapaz e uma moça, costumavam ser um tanto sofisticados quanto ao Natal.
Diziam que tudo bobagem e muita
confusão, e que seria muito melhor irmos dançar num hotel qualquer. Mas a geração mais nova parece
achar tudo isso incrivelmente divertido.
Além do mais — acrescentou a Sra. Lacey, com
senso prático — esses meninos e meninas estão sempre com fome, não é verdade? Acho que eles passam fome na
escola. Afinal de contas, todo mundo
sabe que crianças dessa idade comem tanto quanto três homens fortes.
Poirot riu e falou:
— Foi muita bondade sua e
de seu marido, Madame, terem me incluído
desta forma numa festa familiar.
— É um prazer para nós dois, posso lhe garantir — disse a Sra.
Lacey. — E se o senhor
achar Horace um pouco mal-humorado —
prosseguiu — não repare. Ele é assim mesmo, o senhor entende. Seu marido, o Coronel Race, realmente dissera
o seguinte: — Não consigo entender por
que você quis convidar esse maldito
estrangeiro para se intrometer aqui em nossa festa de Natal. Por que
ele não veio em outra ocasião qualquer?
Não suporto estrangeiros! Está certo,
está certo, foi Edwina Morecombe quem quis trazê-lo. O que ele tem a ver com ela, é isso o que eu gostaria de saber. Por que ela quis
convidá-lo para o Natal?
— Porque você sabe muito
bem — respondera a Sra. Lacey — que
Edwina sempre vai a Claridge’s.
O marido lhe lançara um olhar penetrante e dissera:
— Você não tem nada em mente, tem, Em?
— Alguma coisa em mente?
— disse Em, arregalando os olhos muito
azuis. — É claro que não. Por que haveria de ter? O velho Coronel Lacey deu uma risada profunda
e estrondosa. — Eu não ponho a minha mão
no fogo por você, Em — falou. — Quando
você aparenta maior inocência, aí sim, é que tem alguma coisa em
mente.
Revolvendo estas idéias
na cabeça, a Sra. Lacey prosseguiu: —
Edwina disse que talvez o senhor pudesse nos ajudar... Não sei bem como, mas ela disse que o senhor foi
muito útil para uns amigos dela num...
num caso semelhante ao nosso. Eu... bem, talvez o senhor não saiba do que eu estou falando.
Poirot olhou-a para que
ela tivesse ânimo. A Sra. Lacey tinha
quase setenta anos, era firme como uma rocha, o cabelo com a alvura da neve, faces rosadas, olhos azuis, um nariz
ridículo e queixo determinado.
— Se eu puder ajudar em
alguma coisa, ficarei muito contente em
fazê-lo — disse Poirot. — Trata-se, se não me engano, de uma paixão desagradável de uma moça.
A Sra. Lacey assentiu.
— Exatamente. O extraordinário é que eu queria... bem, que
queria falar com o senhor sobre o caso. Afinal de contas, o senhor
é um
perfeito estranho ...
— E estrangeiro — acrescentou Poirot, de modo compreensivo. — Exato — concordou a Sra. Lacey — mas talvez
isso facilite de alguma forma. Enfim,
Edwina parecia pensar que o senhor talvez
pudesse saber qualquer coisa... como direi... qualquer coisa de útil
a respeito desse jovem Desmond
Lee-Wortley.
Poirot fez uma pausa para
admirar a engenhosidade do Sr. Jesmond e
a facilidade com que se utilizara de Lady Morecombe para levar adiante seus próprios objetivos.
— Ele não tem, se não me
engano, uma reputação muito boa, esse
rapaz — começou ele delicadamente.
— Ih, mas não tem mesmo!
Uma péssima reputação! Mas para Sarah,
isso de nada adianta. Nunca adianta, não é verdade, dizer às moças que os homens têm má reputação. Só
serve... só serve para incitá-las.
— A senhora tem toda a razão — respondeu Poirot.
— No meu tempo —
prosseguiu a Sra. Lacey — (Céus, mas há
tanto tempo atrás!) costumávamos ser alertadas, o senhor entende, a respeito de certos rapazes e, é claro, isto
apenas aumentava nosso interesse por eles, e se alguém conseguisse
dançar com um deles, ou ficar a sós num
canto escuro — ela sorriu. — É por isso que não deixo Horace fazer nada de que ele gostaria.
— Diga-me — falou Poirot
— o que exatamente a preocupa? — Nosso
filho foi morto na guerra — disse a Sra. Lacey. — Minha nora morreu quando Sarah nasceu, de forma que
ela sempre viveu conosco e nós a
educamos. Talvez nossa educação não tenha sido muito sensata — não sei. Mas sempre achamos que
devíamos lhe dar a maior liberdade
possível.
— Mas isto é desejável,
creio eu — disse Poirot. — É preciso
dançar conforme o ritmo da música.
— Exato — concordou a
Sra. Lacey, — era isso o que eu sentia. E,
é claro, as moças de hoje realmente fazem este tipo de coisa.
Poirot olhou-a com ar indagador.
— Não sei como se diz ao
certo — falou a Sra. Lacey — mas acho
que Sarah se juntou a esses grupinhos que freqüentam bares. Ela não vai a festinhas de dança, e nem quis entrar na
sociedade como debutante, nada disso.
Pelo contrário, ela tem dois quartos bastante
desagradáveis em Chelsea, próximo ao rio, e usa essas roupas engraçadas que elas gostam de usar, com meias
pretas ou de um verde berrante. Meias
bastante grossas. (Eu sempre acho que devem ser
muito espinhentas!) E ela sai sem tomar banho e sem pentear o
cabelo.
— Ça, c’est tout à fait naturelle — disse Poirot. — É a moda
atual. Depois elas a abandonam.
— Sim, sei disso — concordou a Sra. Lacey. — E nem eu me preocuparia com este tipo de coisa. Mas ela se apegou a esse tal de Desmond Lee-Wortley, o senhor entende, e a reputação dele é realmente detestável. Ele vive, mais ou menos, com o dinheiro de jovens abastadas. E elas parecem ficar doidinhas por ele. Ele quase, quase casou com a jovem Hope, mas a família dela conseguiu tutela judicial ou coisa do gênero. Isto é o que Horace quer fazer, é claro. Mas não acho que seja uma boa idéia, M. Poirot. Quer dizer, eles fugiriam juntos para a Escócia, ou Irlanda, ou Argentina, ou qualquer outro lugar, e lá se casariam ou viveriam juntos do mesmo jeito. E embora isto possa parecer desprezo pela justiça e tudo o mais — bem, isto não resolve o caso no final, não é verdade? Principalmente se vier um bebê. Aí a gente tem que ceder e permitir que se casem. E depois, quase sempre vem o divórcio com dois ou três anos de casados, assim me parece. E aí a moça volta para casa e, passados um ou dois anos, ela se casa com um homem tão bom, quase maçante, e se ajeita. Mas tudo isso é particularmente triste, é minha impressão, quando existe um filho, porque não é a mesma coisa ser criado por um padrasto, por melhor que ele seja.
Não, acho que seria muito
melhor se se fizesse como no meu tempo.
Quero dizer, o primeiro rapaz por quem a gente se apaixonava era sempre indesejável. Eu me lembro de ter ficado perdidamente apaixonada por um rapaz chamado
— como era mesmo o
nome dele? — que
estranho, não lembro o primeiro nome dele de
maneira nenhuma! Tibbitt era o sobrenome. O jovem Tibbitt. Meu pai,
é claro, mais ou menos expulsou-o de
nossa casa, mas ele costumava ser
convidado para as mesmas festas, e nós dançávamos juntos. E às
vezes conseguíamos escapar e ir lá fora,
ou alguns amigos combinavam piqueniques
para nós dois irmos juntos. E claro que era tudo muito emocionante e proibido, e nós nos divertíamos
demais. Mas também não chegávamos...
bem, não chegávamos a extremos, como
essas meninas de hoje. Sendo assim,
depois de um tempo os Srs. Tibbitts
desapareciam. E quer saber de uma coisa? Quando eu o vi, quatro
anos depois, fiquei espantada tentando
imaginar o que eu jamais poderia
ter visto nele! Me pareceu um rapaz tão chato. Espalhafatoso, o senhor entende. E uma conversa muito
desinteressante.
— As pessoas sempre acham
que sua juventude foi melhor do que a
dos outros — falou Poirot, um tanto gravemente.
— Sei disso — retrucou a
Sra. Lacey. — É repetitivo, não é mesmo?
Não devo ser repetitiva. Mas, mesmo assim, eu não quero que Sarah, uma
menina realmente muito querida, se case com Desmond Lee-Wortley. Ela e David Welwyn, que está
aqui conosco, sempre foram tão amigos,
sempre gostaram tanto um do outro, que nós realmente desejávamos, Horace e eu, que eles se
casassem quando crescessem. Mas é claro
que, agora, ela o acha aborrecido e está completamente apaixonada por Desmond.
— Eu não entendo muito bem,
Madame — disse Poirot. — Ele está aqui
agora, hospedado nesta casa, esse tal de Desmond Lee Wortley?
— Isto foi arranjo meu — explicou a Sra. Lacey. — Horace
queria proibi-la de vê-lo a todo custo.
Mas é claro, pois no tempo de Horace o
pai ou responsável teria ido à casa do rapaz com um chicote! Horace queria, a todo custo, proibi-lo de freqüentar
nossa casa e proibir Sarah de vê-lo. Eu
disse a ele que esta era uma atitude totalmente errada. “Não”, falei. “Vamos convidá-lo. Ele passará
o Natal aqui, junto com toda a família”.
Meu marido, é claro, disse que eu estava maluca! Mas
eu falei: “De qualquer
forma, querido, vamos tentar. Vamos
deixar que ela o veja em nosso ambiente e em nossa casa, vamos ser agradáveis e
educados e pode ser que, então, ele se torne menos interessante
para ela!”
— Eu acho, como se
costuma dizer, que a senhora tem coisa na
cabeça, Madame — disse Poirot. — Acho seu ponto de vista muito sensato. Mais sensato do que o de seu
marido.
— Bem, espero que seja —
disse a Sra. Lacey com ar de dúvida. —
Parece que ainda não está dando certo. Mas, é claro, ele está aqui há apenas dois dias. — Uma covinha apareceu subitamente
em sua face enrugada. — Vou lhe confessar
uma coisa, M. Poirot. Eu mesma não
consigo deixar de gostar dele. Não quero dizer que eu gosto dele realmente,
racionalmente, mas percebo o charme dele, sim. Ah, e como! Eu consigo ver o que Sarah vê nele. Mas sou
uma mulher bastante velha, e tenho muita
experiência para saber que ele não presta mesmo. Mesmo que eu aprecie de fato sua companhia. Embora ache — acrescentou a Sra. Lacey, um pouco
desejosamente, — que ele tenha alguns aspectos positivos. Ele perguntou
se poderia trazer a irmã para cá, o
senhor sabe. Ela foi operada e estava no hospital. Ele disse que ela ficaria tão triste de passar o Natal numa
enfermaria e perguntou se seria muito
incômodo trazê-la para cá. Disse que levaria todas as refeições dela no quarto e tudo o mais. Bem,
para dizer a verdade, acho que foi muita bondade dele, o senhor não acha,
M. Poirot?
— Demonstra uma
consideração — respondeu Poirot, pensativo
— destoante de seu caráter em geral.
— Ah, não sei. É possível
se ter afeição pela família e, ao mesmo
tempo, se aproveitar de uma moça rica. Sarah vai ser muito rica, o senhor sabe, não só pelo que nós vamos deixar
para ela — o que, é claro, não será
muito porque a maior parte do dinheiro, juntamente com a casa, ficará para Colin, meu neto. Mas
a mãe dela era uma mulher muito rica, e
Sarah herdará todo o dinheiro quando completar
vinte e um anos. Ela ainda está com vinte. Não, acho mesmo que foi bondade de Desmond se preocupar com a irmã. E
ele não mentiu, não
disse que ela era nenhuma
maravilha. Ela é taquígrafa, eu imagino —
trabalha como secretária em Londres. E ele foi fiel à palavra,
realmente leva as refeições para ela.
Nem sempre, é claro, mas quase sempre. De
forma que eu acho que ele tem alguns aspectos positivos. Mas mesmo assim — disse a Sra. Lacey com grande
determinação, — não quero que Sarah se
case com ele.
— Pelo que ouvi — disse
Poirot — seria um terrível desastre. — O
senhor acha que seria possível nos ajudar de alguma forma? — perguntou a Sra. Lacey.
— Acho que é possível,
sim — respondeu Poirot, — mas não
gostaria de prometer demais. Porque os Desmond Lee-Wortleys da vida são inteligentes, Madame. Mas não se
desespere. É possível, talvez, se fazer
um pouquinho. De qualquer forma, usarei de todos os meus recursos, nem que seja para apenas demonstrar
minha gratidão por me haver convidado
para as festividades natalinas. — Passou os olhos em torno de si. — E não deve ser muito fácil
programar festividades natalinas nos
dias de hoje.
— Não, não é mesmo —
suspirou a Sra. Lacey. Inclinou-se para
frente. — O senhor sabe, M. Poirot, qual é realmente meu sonho... o
que eu adoraria ter?
— Mas diga, Madame.
— Eu simplesmente
adoraria ter um bangalô simples e moderno.
Não, talvez não exatamente um bangalô, mas uma casinha moderna, fácil de administrar, construída em algum
lugar deste parque aqui, e viver nela,
com uma cozinha absolutamente moderna e sem corredores compridos. Tudo fácil e simples.
— É uma idéia muito prática, Madame.
— Não é muito prática
para mim — retrucou a Sra. Lacey. — Meu
marido adora esta casa. Ele ama morar aqui. Ele não liga que
seja ligeiramente desconfortável, não
liga para as inconveniências e detestaria viver numa casinha moderna no
parque.
— Então a senhora se sacrifica aos seus desejos?
A Sra. Lacey se aprumou.
— Não considero isso um
sacrifício, M. Poirot — respondeu. —
Casei com meu marido com o propósito de fazê-lo feliz. Ele tem sido
um bom marido para mim, e eu tenho sido
feliz durante todos estes anos, e desejo
lhe dar felicidade.
— Então a senhora continuará morando aqui — disse Poirot. — Na verdade não é tão desconfortável —
replicou a Sra. Lacey. — Não, não —
disse Poirot, apressadamente. — Pelo contrário, é
extremamente confortável.
Seu aquecimento central e sua água para o
banho são a própria perfeição.
— Gastamos um bocado de
dinheiro para tornar esta casa
confortável — explicou a Sra. Lacey. — Conseguimos vender alguma terra. Livre de embaraços, acho que é assim
que eles dizem. Felizmente não dá para
ser vista desta casa, do outro lado do parque. Um terreno realmente feio, sem vista bonita, mas
conseguimos um bom preço. De forma que
fizemos todos os melhoramentos possíveis.
— Mas e o serviço, Madame?
— Ah, bem, ele apresenta
menos dificuldades do que o senhor
poderia imaginar. É claro que não se pode esperar um atendimento como se costumava ter. Vêm diversas pessoas
da aldeia. Duas mulheres de manhã,
outras duas fazem o almoço e lavam a louça, e mais umas outras à tarde. Existem muitas pessoas
querendo trabalhar algumas horas por
dia. É claro que, no Natal, temos muita sorte. A querida Ross sempre vem no Natal. Ela é uma cozinheira
maravilhosa, de primeira classe
realmente. Ela se aposentou há cerca de dez anos, mas sempre vem nos ajudar em alguma emergência. E temos,
também, o querido Peverell.
— Seu mordomo?
— É. Ele é aposentado e
mora numa casinha perto da do
jardineiro, mas é tão devotado, e insiste em vir nos servir no Natal.
Na verdade eu fico apavorada, M. Poirot,
porque ele é tão velho e tão trêmulo que
eu tenho certeza que se ele carregar qualquer coisa mais pesada, vai deixar cair. É uma verdadeira
agonia olhar para ele. E o coração dele
também já não está muito bom, de forma que eu tenho
medo que ele se exceda.
Mas ficaria terrivelmente ofendido se não o
deixasse vir. Ele gagueja e engasga e faz ruídos desaprova-dores
quando vê o estado em que se encontra
nossa prataria, e nos três dias que
passa aqui tudo volta a ficar maravilhoso. É. Ele é um amigo querido e leal. — Ela sorriu para Poirot. — Então, veja
o senhor, estamos todos preparados para
um feliz Natal. E um Natal branco, também —
acrescentou, olhando para a janela. — Está vendo? Está começando a nevar. Ah, as crianças estão entrando. O
senhor precisa conhecê-las, M.
Poirot.
Poirot foi apresentado
com a devida cerimônia. Primeiro a Colin e
Michael, o neto em idade escolar e seu amigo, rapazes simpáticos de quinze anos, um moreno e outro louro. Depois
à prima deles, Bridget, uma menina de
cabelos pretos, mais ou menos da mesma idade, e com enorme vitalidade.
— E esta é minha neta Sarah — disse a Sra. Lacey.
Poirot olhou para Sarah
com algum interesse. Era uma moça
atraente, com uma mecha de cabelos ruivos; suas maneiras lhe pareceram atrevidas e um pouco rebeldes, mas
demonstrava afeição verdadeira pela avó.
O Sr. Lee-Wortley vestia
uma camisa de malha e uma calça preta e
justa, de jeans; o cabelo era um tanto longo, e não dava para saber ao certo se ele fizera a barba naquela manhã.
Contrastando com ele, havia um rapaz
apresentado como David Welwyn, sério e calmo, de sorriso agradável, e visivelmente viciado em água e
sabão. Havia um outro membro do grupo,
uma moça bonita de olhar profundo, apresentada
como Diana Middleton.
Trouxeram o chá. Uma
refeição completa com bolinhos assados
cm chapa, pães-de-minuto, sanduíches e três tipos de bolo. Os mais jovens do grupo apreciavam o chá. Finalmente
chegou o Coronel Lacey, observando em
tom evasivo:
— Ei, chá? Ah, sim, o chá.
Recebeu sua xícara de chá
das mãos da mulher, serviu-se de dois
bolinhos, deu um olhar de aversão a Desmond Lee-Wortley e sentou-se
o mais longe dele
possível. Era um homem grande, com sobrancelhas
espessas e rosto vermelho, curtido pelo tempo. Parecia mais um agricultor do que o senhor da mansão.
— Começou a nevar —
falou. — Vai ser mesmo um Natal branco.
Depois do chá, o grupo se dispersou.
— Espero que resolvam
brincar com os gravadores agora — disse
a Sra. Lacey a Poirot. Olhou o neto com prazer, enquanto este saía
da sala. Seu tom de voz parecia dizer
“Agora as crianças vão brincar com seus
soldadinhos.” — Eles são tremendamente técnicos, é claro, e dão extrema importância a tudo.
Os meninos e Bridget, no
entanto, resolveram ir até o lago para
ver se o gelo já permitia que se patinasse.
— Eu acho que poderíamos ter patinado hoje de manhã — disse Colin. — Mas o velho Hodgkins disse que não.
E ele sempre é terrivelmente cuidadoso.
— Vamos dar uma volta,
David — disse Diana Middleton, com voz
macia.
David hesitou por meio
minuto, os olhos fixos nos cabelos
vermelhos de Sarah. Ela estava de pé ao lado de Desmond
Lee-Wortley, segurando o braço do rapaz
e olhando seu rosto.
— Está bem — disse David Welwyn — vamos, sim.
Diana escorregou a mão
rapidamente pelo braço de David, e
saíram em direção ao jardim.
— Que tal irmos também,
Desmond? — perguntou Sarah. — Está
terrivelmente abafado aqui dentro.
— E quem quer andar? —
disse Desmond. — Eu vou buscar o carro.
Iremos até o Speckled Boar beber alguma coisa.
Sarah hesitou um instante antes de dizer:
— Vamos até o White Hart,
no Market Ledbury. É muito mais
divertido.
Embora por motivo algum
do mundo Sarah transformasse isso em
palavras, ela rejeitava instintivamente a idéia de ir ao bar local com Desmond. De alguma forma, aquilo não pertencia
à tradição de Kings
Lacey. As mulheres de
Kings Lacey jamais freqüentaram o bar do
Speckled Boar. Sarah tinha a sensação obscura de que, indo lá, deixaria o Coronel Lacey e sua mulher em má
situação. E por que não? — teria dito
Desmond Lee-Wortley. Num momento de exasperação
Sarah sentiu que ele deveria saber por que não! Não se devia
aborrecer velhinhos tão queridos como o
vovô e a querida Em, a não ser em caso
de necessidade. Na verdade, eles tinham sido extremamente bondosos permitindo que ela levasse sua própria vida,
sem entender nem um pouquinho por que
ela preferia morar em Chelsea daquela maneira,
mas aceitando o fato. É claro que aquilo era coisa de Em. O avô nem hesitaria em aprontar o maior rebuliço.
Sarah não se iludia em
relação à atitude do avô. Ela sabia que
não fora pelo avô que Desmond tinha sido convidado para Kings
Lacey. Fora por Em, e Em era muito
querida, como sempre tinha sido.
Quando Desmond saiu para
buscar o carro, Sarah enfiou a cabeça na
sala de estar.
— Nós vamos dar um pulo
em Market Ledbury — falou. — Vamos beber
alguma coisa no White Hart.
Havia um ligeiro desafio
em seu tom de voz, mas a Sra. Lacey não
pareceu perceber.
— Muito bem, querida —
disse. — Tenho certeza de que irão se
divertir. David e Diana foram dar uma volta. Fico tão contente. Eu realmente acho que foi uma idéia brilhante de
minha parte ter convidado Diana para vir
aqui. Que tristeza ficar viúva tão jovem —
apenas vinte e dois anos — espero que ela se case logo, logo.
Sarah lançou-lhe um olhar cortante.
— O que você está pretendendo, Em?
— É um pequenino plano —
respondeu a Sra. Lacey alegremente. —
Acho que ela é ideal para David. Ê claro que sei que ele estava terrivelmente apaixonado por você, Sarah querida, mas você não
serve para ele e creio que ele não é seu
tipo. Mas não quero que ele continue
infeliz, e acho que Diana combina muito bem com ele.
— Que grande alcoviteira você é, Em — disse Sarah.
— Sei disso — retrucou a
Sra. Lacey. — As velhas sempre são
alcoviteiras. Diana já gosta imensamente dele, creio eu. Você não
acha que ela seria perfeita para
ele?
— Eu não diria isso —
respondeu Sarah. — Acho Diana
extremamente... bem, profunda demais, séria demais. Acho que David ficaria entediado se se casasse com ela.
— Bem, veremos — disse a
Sra. Lacey. — De qualquer maneira, você não quer casar com ele, não é
querida?
— Não mesmo — respondeu
Sarah rapidamente, e acrescentou de
súbito: — Você realmente gosta
de Desmond, não gosta, Em? — Tenho
certeza de que ele é muito simpático — respondeu a Sra. Lacey.
— O vovô não gosta dele.
— E nem você poderia
esperar que gostasse, poderia? — disse a
Sra. Lacey sensatamente. — Mas ouso dizer que ele cederá assim que
se acostumar com a idéia. Você não deve
apressá-lo, Sarah querida. Os velhos
custam muito a mudar de idéia, e seu avô é
deveras obstinado.
— Não me importo com o
que vovô pense ou diga — replicou Sarah.
— Eu vou me casar com Desmond quando eu quiser!
— Eu sei, querida, eu sei. Mas procure ser realista. Seu avô poderia criar uma série de problemas, você
sabe disso. Você não é maior ainda.
Daqui a um ano você poderá fazer o que quiser. Espero que Horace tenha mudado de idéia muito antes
disso.
— Você está do meu lado,
não está, querida? — perguntou Sarah.
Jogou os braços em volta do pescoço da avó e deu-lhe um beijo afetuoso.
— Quero que você seja
feliz — disse a Sra. Lacey. — Ah! Lá está o
seu jovem trazendo o carro. Sabe, eu gosto dessas calças bem
apertadas que os rapazes usam hoje em
dia. São tão elegantes... só que, é claro,
realçam os joelhos pontudos.
É mesmo, pensou Sarah, os
joelhos de Desmond eram pontudos e ela
nunca percebera isso antes...
— Vá, minha querida, e divirta-se.
Viu a neta se encaminhar
para o carro e depois, lembrando-se de
seu convidado estrangeiro, dirigiu-se para a biblioteca. Ao chegar lá,
viu que Hercule Poirot tirava uma
agradável soneca e, sorrindo para si
mesma, atravessou o vestíbulo e foi para a cozinha conferenciar com
a Sra. Ross.
— Vamos, beleza — disse
Desmond. — Sua família estava criando
caso porque você vai a um bar? Eles vivem há anos atrás da
realidade, não é mesmo?
— É claro que não estavam
criando caso nenhum — respondeu Sarah
asperamente, ao entrar no carro.
— Que idéia foi essa de
trazer esse estrangeiro para cá? Ele é
detetive, não é? O que é que tem aqui para ele descobrir? — Ah, mas ele não veio como profissional,
Edwina Morecombe, minha madrinha,
perguntou se ele podia vir. Acho que ele já se
aposentou há muito tempo.
— Ele parece uma carroça
quebrada, bem velha — disse
Desmond.
— Ele queria ver um Natal
inglês tradicional, creio eu — disse
Sarah vagamente.
Desmond sorriu zombeteiramente.
— Um monte de baboseiras,
esse negócio todo. Não sei como é que
você agüenta.
Sarah jogou os cabelos
vermelhos para trás e levantou seu
queixinho agressivo.
— Eu me divirto! — respondeu Sarah.
— Não é possível, baby. Vamos acabar com isso amanhã.
Vamos para Learborough, ou para qualquer
outro lugar.
— Não posso fazer isso.
— Por que não?
— Ah, eles ficariam magoados.
— Ai, caramba! Você sabe
que não gosto desta porcaria
sentimentalóide e infantil.
— Bem, talvez não, mas... — Sarah desmoronou. Ela percebeu,
com sensação de culpa,
que esperava com verdadeira ansiedade as
comemorações do Natal. Ela gostava da movimentação toda, mas tinha vergonha de admiti-lo a Desmond. Por um momento
ela desejou que Desmond não tivesse
vindo no Natal. Era muito mais divertido ver
Desmond em Londres do que em casa.
Enquanto isso, os meninos
e Bridget voltavam do lago, ainda
discutindo seriamente os problemas da patinação. Os flocos de neve continuavam a cair e, olhando-se para o céu,
poder-se-ia profetizar que dentro em
breve haveria neve pesada.
— Vai nevar a noite toda
— disse Collin. — Aposto com vocês que
na manhã de Natal teremos uns sessenta centímetros de neve. A perspectiva era agradável.
— Vamos fazer um boneco de neve — disse Michael.
— Nossa! — exclamou
Colin. — Eu não faço um boneco de neve
desde... bem, desde que eu tinha uns quatro anos.
— Não acho que seja assim
tão fácil de fazer — disse Bridget. —
Quer dizer, é preciso saber fazer.
— Poderíamos fazer a
efígie do M. Poirot — acrescentou Colin. —
A gente bota um bigodão preto. Tem um lá no baú de fantasias. — Eu não entendo, sabe — disse Michael,
pensativo — como é que o M. Poirot podia
ser detetive. Não vejo como ele podia se disfarçar. — É mesmo — concordou Bridget, — e não dá
para imaginar ele com uma lente,
procurando pistas e medindo pegadas. —
Tive uma idéia — disse Colin. — Vamos fazer uma encenação para ele!
— O que é que você quer
dizer com encenação? — perguntou Bridget.
— Bem, preparar um crime para ele.
— Que idéia brilhante! —
exclamou Bridget. — Você quer dizer um
corpo na neve — esse tipo de coisa?
— Exatamente. Ele se
sentiria em casa, não é mesmo? Bridget
deu uma risadinha.
— Nunca pensei que eu pudesse chegar a tanto.
— Se nevar — disse Colin,
— teremos um ambiente perfeito. Um corpo
e pegadas — teremos que combinar tudo cuidadosamente, apanhar um dos punhais do vovô e fazer um
pouco de sangue.
Deram uma parada e,
esquecidos da neve que caía rapidamente,
iniciaram uma discussão animada.
— Tem uma caixa de tinta
lá na velha sala de aula. Poderíamos
preparar um pouco de sangue — carmesim, eu acho.
— Carmesim é muito
rosado, eu acho — discordou Bridget.
— Tem que ser um pouco mais puxado para
o marrom.
— Quem vai ser o corpo? — perguntou Michael.
— Eu! — respondeu Bridget rapidamente.
— Ah, essa não — disse Colin. — A idéia foi minha.
— Não, não e não —
retrucou Bridget, — tem que ser eu. Tem que
ser uma menina. É mais emocionante. Bela menina estendida morta sobre a neve.
— Bela menina! Ah-ha — disse Michael zombando.
— Além do mais, meu cabelo é preto — acrescentou Bridget. — E daí?
— Bem, é que sobressai na
neve, e aí eu visto meu pijama
vermelho.
— Se você usar pijama
vermelho, as manchas de sangue não vão
aparecer — disse Michael, com espírito prático.
— Mas causa tanto efeito
na neve — disse Bridget, — e é enfeitado
de branco, onde poderia ficar o sangue. Não vai ser ótimo? Vocês acham que ele vai acreditar mesmo?
— Vai sim, se nós
capricharmos — disse Michael. — Vamos fazer
as suas pegadas na neve e as de uma outra pessoa indo até o corpo e voltando — um homem, é claro. Ele não vai
querer desmanchá-las, e aí não vai saber
que você não está morta de verdade. Vocês não acham — Michael parou subitamente, atingido por uma
idéia. Os outros olharam para ele. —
Vocês não acham que ele pode ficar chateado
com a brincadeira?
— Ah, eu acho que não — respondeu Bridget, de otimismo fácil.
— Tenho certeza que ele
vai entender que fizemos a brincadeira só
para diverti-lo. Uma espécie de trote de Natal.
— Acho que não deveríamos fazer no dia de Natal — disse Colin pensativo. — Acho que vovô não ia
gostar muito. — Um dia depois do Natal,
então — disse Bridget.
— Está bem — concordou Michael.
— E nós teremos mais
tempo, também — prosseguiu Bridget. —
Afinal de contas, temos muito o que fazer. Vamos dar uma olhada nas coisas que a gente vai usar.
Correram para dentro da casa.

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