A noite foi bem
movimentada. Azevinho e visco foram trazidos em
grande quantidade, e uma árvore de Natal foi feita numa das extremidades da sala de jantar. Todos
ajudaram a decorá-la, a arrumar os ramos
de azevinho atrás dos quadros e a pendurar o visco num lugar adequado do vestíbulo.
— Nunca pensei que ainda
existisse coisa tão arcaica — murmurou
Desmond a Sarah, com ar de deboche.
— Sempre fizemos isso — respondeu Sarah, na defensiva. — Bela explicação!
— Ora, não seja enjoado, Desmond. Eu acho divertido. — Sarah,
minha boneca, não é possível!
— Bem, pode ser que não,
mas de certa forma eu acho. — Quem vai
enfrentar a neve para ir à Missa do Galo? —
perguntou a Sra. Lacey, aos vinte minutos para a meia-noite. — Eu não — disse Desmond. — Venha cá,
Sarah.
Segurando o braço da
moça, Desmond levou-a para a biblioteca e
foram para junto do gravador.
— Tudo tem limites, querida — disse Desmond. — Missa do Galo! — É sim — disse Sarah. — É mesmo.
Vestindo os casacos e
pisando firme no chão, quase todos os
demais saíram, em meio a muita risada. Os dois meninos, David e
Diana, se dispuseram a
caminhar durante dez minutos, com a neve
caindo, até a igreja. As risadas foram sumindo na distância. — Missa do Galo! — exclamou o Coronel Lacey,
bufando. — Nunca fui à Missa do Galo em
minha juventude! Missa, essa é
boa! Carolice, isso sim! Oh, perdão, M.
Poirot.
Poirot fez um aceno com a mão.
— Está tudo bem. Não se preocupe comigo.
— As missas matinais são
suficientes para todo mundo, diria eu —
acrescentou o Coronel. — Como as missas das manhãs de domingo. “Escutai os anjos cantando” e todos os belos
hinos de Natal. E depois a ceia de
Natal. Isso é o bastante, não é, Em?
— É, querido — respondeu
a Sra. Lacey. — Isto é o que nós fazemos. Mas os jovens gostam de missa da
meia-noite. E acho mesmo muito bom que
eles queiram ir.
— Sarah e aquele sujeito não quiseram ir.
— Bem, querido, acho que
você está enganado — disse a Sra. Lacey.
— Sarah, você bem sabe, queria ir,
embora não quisesse admiti lo.
— Não entendo como ela se
preocupa com a opinião daquele
sujeito.
— Ela é realmente muito
jovem — disse a Sra. Lacey placidamente.
— O senhor vai se deitar, M. Poirot? Boa noite. Espero que durma bem.
— E a senhora, Madame? Não vai se deitar ainda?
— Daqui a pouquinho —
respondeu a Sra. Lacey. — Tenho que
encher as meias, o senhor sabe. Ah, eu sei que já são todos praticamente adultos, mas eles realmente gostam das meias. A gente
faz umas brincadeirinhas! Coisa tola,
mas sempre serve para alegrar um
bocado.
— A senhora trabalha
demais para tornar esta casa feliz no Natal
— disse Poirot. — Meus cumprimentos.
Poirot levou a mão dela a
seus lábios, de maneira cortês. — Ha —
grunhiu o Coronel Lacey quando Poirot saiu. — Um tipo
um tanto rebuscado. Ainda
assim ... ele parece gostar de você. A
Sra. Lacey sorriu para ele.
— Você reparou, Horace,
que eu estou debaixo de um visco? —
perguntou, com o decoro de uma menina de dezenove anos. Hercule Poirot entrou em seu quarto. Era bastante
grande, equipado com radiadores. Ao se
encaminhar para sua imponente cama,
observou um envelope em cima do travesseiro. Abriu-o e retirou um pedaço de papel. Era uma mensagem escrita com
letras tremidas e maiúsculas:
“NÃO COMA NENHUM PEDAÇO DO
PUDIM DE PASSAS. UMA PESSOA QUE LHE QUER
BEM.”
Hercule Poirot olhou a
mensagem fixamente. Levantou as
sobrancelhas.
— Enigmático — murmurou — e altamente inesperado.

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