sábado, 8 de maio de 2021

A aventura do pudim de Natal - Capítulo 01

INTRODUÇÃO 

Este livro de ceia de Natal pode ser descrito como “As Sugestões  do Cozinheiro-Chefe”. Eu sou o cozinheiro-chefe! 

Os pratos principais são dois: A Aventura do Pudim de Natal e o  Mistério do Baú Espanhol; várias são as Entrées: A Extravagância de  Greenshaw, O Sonho, e O Reprimido, e há, também, um sorvete de  frutas: O Caso das Amoras Pretas. 

O Mistério do Baú Espanhol pode ser classificado como um  Especial de Hercule Poirot. E um caso em que ele considera ter estado  em sua melhor forma! Miss Marple, por sua vez, sempre se orgulha de  sua perspicácia em A Extravagância de Greenshaw. 

A Aventura do Pudim de Natal é um deleite para mim mesma,  uma vez que me faz lembrar, com prazer enorme, dos Natais de minha  juventude. 

Depois da morte de meu pai, minha mãe e eu sempre passávamos  o Natal com a família de meu cunhado, no norte da Inglaterra — e que  Natais soberbos para a mente de uma criança! Em Abney Hall havia de  tudo! O jardim ostentava uma cascata, um riacho e um túnel sob a  passagem para os carros! A ceia de Natal atingia proporções colossais.  Eu era uma criança magricela, aparentando delicadeza, mas, na  verdade, tinha uma saúde de ferro e estava permanentemente faminta!  Os meninos da família e eu costumávamos competir para ver quem  conseguia comer mais no dia de Natal. Sopa de Ostra e Linguado eram  devorados com excessivo prazer, mas depois vinham Peru Assado, Peru  Cozido e um enorme Filé. Os meninos e eu comíamos dois pratos de  todos os três quitutes! Depois serviam Pudim de Passas, Tortas de  Frutas, Bolo de Amêndoas, todos os tipos de sobremesa. Durante a  tarde, comíamos chocolate a valer. Em momento algum nos sentíamos  enjoados. Que maravilha ser uma criança gulosa de onze anos! 

Que delícia era o dia de pôr as “Meias” junto da cama, pela  manhã, e depois a Igreja e os hinos de Natal, a ceia de Natal, os

Presentes e, Finalmente, o acender das luzinhas da Árvore de Natal!  E quão profunda a minha gratidão à bondosa e hospitaleira  anfitriã, que devia trabalhar tão arduamente, que o Dia de Natal é, até  hoje na minha velhice, uma lembrança maravilhosa. 

Então, deixem-me dedicar este livro à memória de Abney Hall — à  sua bondade e hospitalidade. 

E um Feliz Natal a todos que o lerem. 

AGATHA CHRISTIE


— Sinto muitissimamente — disse M. Hercule Poirot. 

Foi interrompido. Não rudemente interrompido. A interrupção foi  delicada, jeitosa, mais persuasiva do que contraditória.  — Por favor, não recuse precipitadamente, M. Poirot. Trata-se de  um grave problema de Estado. Sua cooperação será apreciada nos mais  altos escalões. 

— Muita bondade sua — Poirot fez um aceno com a mão — mas,  realmente, não posso fazer o que o senhor me pede. Nesta época do  ano... 

Novamente o Sr. Jesmond o interrompeu. 

— Natal — disse ele persuasivamente. — Um Natal como os de  antigamente, no campo inglês. 

Hercule Poirot estremeceu. A idéia do campo inglês nesta época  do ano não o atraía. 

— Um Natal bom como os de antigamente! — enfatizou o Sr.  Jesmond. 

— Quanto a mim, eu não sou inglês — disse Hercule Poirot. — No  meu país, o Natal é das crianças. O Ano Novo, sim, este nós  comemoramos. 

— Ah — falou o Sr. Jesmond, — mas o Natal na Inglaterra é uma  grande instituição, e eu lhe garanto que em Kings Lacey o senhor o verá  em sua melhor forma. O senhor poderá conhecer um velho casarão  maravilhoso. Basta dizer que uma das alas data do século quatorze. 

Novamente Poirot estremeceu. A idéia de uma mansão inglesa do  século quatorze encheu-o de apreensão. Ele já sofrera, com muita  freqüência até, nas históricas casas de campo da Inglaterra. Passou os  olhos, com satisfação, por seu apartamento moderno e confortável, com

aparelhos de calefação e os mais recentes artifícios para eliminar  quaisquer tipos de correntes de ar. 

— No inverno — falou com firmeza, — eu não saio de Londres.  — Acho que o senhor não percebeu exatamente, M. Poirot, a  gravidade do assunto. — O Sr. Jesmond deu uma rápida olhada para  seu companheiro, e depois voltou-se novamente para Poirot.  Até aquele momento, o segundo visitante de Poirot limitara-se a  dizer, apenas, um “Como vai o senhor” educado e formal. Ele estava  sentado, os olhos perdidos em seus sapatos muito bem polidos, o rosto  cor de café expressando a mais profunda melancolia. Era um jovem de  vinte e três anos no máximo, e encontrava-se, visivelmente, num estado  de completo abandono. 

— Sei, sei — disse Hercule Poirot. — Ê claro que o assunto é  grave. Já percebi, sim. Sua Alteza merece minhas sinceras  condolências. 

— A situação é extremamente delicada — replicou o Sr. Jesmond.  Poirot transferiu seu olhar do jovem para o seu companheiro mais  velho. Se se quisesse resumir o Sr. Jesmond em uma única palavra,  essa palavra seria discrição. Tudo no Sr. Jesmond era discreto. As  roupas eram bem talhadas, mas sóbrias, a voz suave e educada, que  raramente abandonava o tom agradavelmente monótono, o cabelo  castanho-claro, começando a escassear junto das têmporas, o rosto  pálido e sério. A impressão de Hercule Poirot era que ele não conhecera  apenas um Sr. Jesmond, mas uma dúzia de Srs. Jesmonds em toda a  sua vida, sendo que todos eles, mais cedo ou mais tarde acabavam 

dizendo a mesma frase — “uma posição extremamente delicada”.  — A polícia — disse Hercule Poirot — também pode ser muito  discreta, o senhor sabe. 

O Sr. Jesmond abanou a cabeça com firmeza: 

— A polícia, não. Para recuperar o... é... o que queremos  recuperar, será preciso, quase que inevitavelmente, recorrer às cortes  de justiça, e nós sabemos muito pouca coisa. Nós suspeitamos, mas não  sabemos.

— O senhor merece minhas condolências — disse Hercule Poirot  novamente. 

Se ele imaginava que suas condolências teriam algum significado  para os dois visitantes, enganava-se. Eles não queriam condolências,  queriam ajuda prática. O Sr. Jesmond, mais uma vez, começou a falar  sobre as delícias do Natal inglês. 

— Está em extinção, o senhor sabe — explicou ele —, o verdadeiro  Natal de antigamente. Hoje em dia as pessoas passam-no em hotéis.  Mas o Natal inglês com toda a família reunida, as crianças e suas meias  penduradas, a árvore de Natal, o peru e o pudim de passas, os fogos de  Natal. O boneco de neve visto pela janela... 

Em nome da exatidão, Hercule Poirot interveio: 

— Para se fazer um boneco de neve, é necessário que se tenha  neve — observou com severidade. — E não é possível fazer um pedido  de neve, nem mesmo para um Natal inglês. 

— Hoje mesmo estive falando com um amigo meu que trabalha no  serviço de meteorologia — explicou o Sr. Jesmond — e ele me disse que  é muito provável que tenhamos neve neste Natal. 

Não foi a coisa mais acertada para se dizer. Hercule Poirot  estremeceu com mais violência do que todas as outras vezes.  — Neve no campo — falou. — Seria mais abominável ainda. Uma  mansão de pedra, grande e fria. 

— De maneira nenhuma — replicou o Sr. Jesmond. — As coisas  mudaram muito nos últimos dez anos. Já tem aquecimento central.  — Eles têm aquecimento central em Kings Lacey? — perguntou  Poirot. Pela primeira vez pareceu hesitar. 

O Sr. Jesmond se agarrou à oportunidade: 

— Mas é claro! E um esplêndido sistema de água quente.  Radiadores em todos os quartos. Posso lhe garantir, meu caro M. Poirot,  que Kings Lacey é a personificação do conforto no inverno. Talvez o  senhor até ache a casa quente demais.

— Isto é bastante improvável — disse Hercule Poirot. 

Com grande habilidade, o Sr. Jesmond mudou um pouco de

assunto. 

— O senhor bem percebe o terrível dilema em que nos  encontramos — disse em tom confidencial. 

Hercule Poirot assentiu com a cabeça. Na verdade, o problema  não era dos mais felizes. Um jovem futuro potentado, filho único do  governante de uma Nação estrangeira, chegara a Londres há umas  poucas semanas. Seu país passara por um período de agitação e  descontentamento. Embora leal ao pai, cujo modo de vida permanecera  estritamente oriental, a opinião popular era um tanto ambígua em  relação ao jovem. Suas farras tinham sido tipicamente ocidentais e, por  causa disto, vistas com desaprovação. 


Recentemente, no entanto, seu noivado fora anunciado. Ele  deveria se casar com uma prima do mesmo sangue. Uma jovem que,  embora educada em Cambridge, tinha o cuidado de não demonstrar,  em seu próprio país, as influências sofridas no ocidente. O dia do  casamento fora anunciado e o jovem príncipe viajara para a Inglaterra,  trazendo algumas das famosas jóias de sua casa para receberem  engastes mais modernos por Cartier. Dentre elas, vinha um famoso  rubi, que fora retirado de um colar antiquado e pesadão, e ganhara uma  nova aparência nas mãos dos famosos joalheiros. Até aí, nada de mais,  mas foi então que aconteceu a coisa. Não era de se esperar que um  rapaz jovem, possuidor de grande fortuna, propensão festeira, não  cometesse algumas tolices do tipo mais agradável. Quanto a isso,  ninguém teria o direito de censurá-lo. Todos imaginavam que os jovens  príncipes devessem se divertir dessa forma. Se um príncipe levasse a  sua namorada do momento para um passeio a pé em Bond Street, e lhe  desse uma pulseira de esmeraldas ou uma presilha de diamantes como  recompensa pelo prazer que lhe proporcionara, o fato seria visto com  bastante naturalidade, correspondendo, a bem da verdade, aos  Cadillacs que seu pai, invariavelmente, dava de presente às suas  dançarinas preferidas na ocasião. 

Mas o príncipe fora bem mais indiscreto do que isso. Lisonjeado  pelo interesse da moça, o príncipe lhe mostrara o famoso rubi em seu

novo engaste e cometera, finalmente, a insensatez de permitir que ela o  usasse — apenas por uma noite! 

O resultado foi curto e triste. A moça se retirara da mesa de  jantar para empoar o rosto. Passou-se o tempo. Ela não voltou. Saíra do  restaurante por uma outra porta e, desde então, sumira no espaço. O  fato mais importante e trágico é que o rubi em seu novo engaste  desaparecera com ela. 

Estes eram os fatos que não podiam ser tornados públicos sem as  mais calamitosas conseqüências. O rubi era mais do que um rubi, era  um objeto histórico de grande significado para seu possuidor, e as  circunstâncias de seu desaparecimento eram tais, que qualquer  publicidade indevida traria conseqüências políticas da maior gravidade. 

O Sr. Jesmond não era do tipo de expor estes fatos em linguagem  simples. Ele os embrulhava, por assim dizer, num monte de  verbosidade. Quem era exatamente o Sr. Jesmond, Hercule Poirot não  sabia. Conhecera outros Srs. Jesmonds ao longo de sua carreira. Se ele  pertencia ao Ministério do Interior, ao Ministério de Relações Exteriores,  ou a algum outro ramo do serviço público, isto não estava explícito. Ele  agia no interesse do país. O rubi tinha que ser recuperado. 

M. Poirot, de acordo com a delicada insistência do Sr. Jesmond,  era o homem capaz de recuperá-lo. 

— Talvez... sim — admitiu Poirot — mas as informações são tão  poucas. Sugestão... suspeita... não é muito para se começar.  — Ora, Monsieur Poirot, tenho certeza de que o caso não está  além de sua capacidade. Ah, deixe disso. 

— Nem sempre eu resolvo tudo. 

Mas isso era falsa modéstia. O tom de voz de Poirot indicava  claramente que, quando ele assumia uma missão, era quase sinônimo  de ser bem sucedido. 

— Sua Alteza é muito jovem — acrescentou o Sr. Jesmond. —  Seria triste se toda a sua vida fosse arruinada por uma simples tolice  cometida na juventude. 

Poirot olhou com bondade para o abatido rapaz.

— A juventude é que é o tempo certo de se fazer pequenas  loucuras — disse para encorajá-lo — e, em se tratando de um jovem  comum, não tem muita importância. O bondoso papai, este paga;  advogado da família, este o ajuda a se desembaraçar dos  inconvenientes; quanto ao jovem, este aprende por experiência própria,  e tudo acaba bem. Já na sua posição, aí sim, fica verdadeiramente  difícil. Seu casamento se aproxima... 

— É isso. É exatamente isso. — Pela primeira vez, as palavras  jorravam da boca do rapaz. — Ela é muito, muito séria, o senhor  entende? Ela leva a vida a sério. Em Cambridge, ela adquiriu muitas  idéias bastante sérias. É preciso que haja educação em meu país. É  preciso que haja escolas. É preciso que haja diversas coisas. Tudo em  nome do progresso, entende, da democracia. Nada vai ser, diz ela, como  no tempo de meu pai. Naturalmente ela imaginava que eu iria me  divertir em Londres, mas não me meter em escândalos. Não! O  escândalo é que me preocupa. Veja o senhor que este rubi é muito,  muito famoso. Há toda uma história por detrás dele. Muito  derramamento de sangue — muitas mortes! 

— Mortes — disse Hercule Poirot, pensativo. Olhou para o Sr.  Jesmond. — Espero que não chegue a tanto. 

O Sr. Jesmond fez um barulho estranho, como o de uma galinha  que havia decidido pôr um ovo e depois mudou de idéia.  — Não, não, realmente — falou, parecendo um tanto afetado. —  Não existe a menor hipótese, tenho certeza, de nada deste tipo.  — O senhor não pode ter certeza — replicou Hercule Poirot. —  Alguém está de posse do rubi no momento, mas pode haver outras  pessoas desejando possuí-lo, e que não se prenderiam a detalhes, meu  amigo. 

— Realmente não creio — voltou o Sr. Jesmond, parecendo mais  afetado do que nunca — que devamos entrar em especulações deste  tipo. Seria bastante inócuo. 

— Quanto a mim — disse Hercule Poirot, subitamente se  tornando deveras estrangeiro —, eu examino todas as possibilidades,

como os políticos. 

O Sr. Jesmond olhou para ele com ar de dúvida. Readquirindo o  domínio de si, falou: 

— Bem, então está combinado, M. Poirot? O senhor irá a Kings  Lacey? 

— E como explicarei minha presença lá? — perguntou Hercule  Poirot. 

O Sr. Jesmond sorriu confiantemente. 

— Isto, creio eu, pode ser arranjado com facilidade — falou. —  Posso lhe garantir que tudo parecerá bastante natural. O senhor achará  os Laceys encantadores. Gente deliciosa. 

— E o senhor não está me enganando quanto ao aquecimento  central? 

— Não, não, de maneira nenhuma — o Sr. Jesmond parecia  deveras ofendido. — Tenho certeza que o senhor terá todo o conforto.  — Tout confort moderne — murmurou Poirot para si mesmo, como  quem se recorda de alguma coisa. — Eh bien, eu aceito.   

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