sábado, 8 de maio de 2021

A ausência - Capítulo 05 - Fim

A tarde passava com uma lentidão horrível. 

Joan não queria sair para dar uma nova caminhada antes que o  sol não estivesse bem baixo no horizonte. Por isso tinha que ficar  sentada dentro da casa de pernoite. 

Depois de passada mais ou menos meia hora, achou que se  tornava insuportável só permanecer ali sentada numa cadeira. Ela foi,  então, ao seu quarto e começou a desempacotar as suas coisas para  depois empacotá-las de novo, ajeitando tudo direitinho, já que os  embrulhos lhe pareceram ter sido mal preparados antes. Só assim foi  que conseguiu achar um bom servicinho para entreter-se. 

Executou este trabalho prazerosamente e com desembaraço.  Bem, finalmente chegou a hora em que ela poderia sair sem  maiores transtornos. Dentro da casa de pernoite o ambiente era muito  depressivo. Se, pelo menos, ela tivesse algo para ler... ou até mesmo  algum quebra-cabeça... qualquer brinquedo de armar para passar o  tempo. 

Lá fora ela olhou com repugnância para as latas amontoadas,  para as galinhas e para o arame farpado. Que lugar horrível era esse  onde ela se encontrava! Extremamente horrível. 

No intuito de variar um pouco passou a caminhar desta vez numa  direção paralela à estrada de ferro, margeando a fronteira turca. Com  esta simples variação chegou a ter uma sensação momentânea de  agradável novidade... Entretanto, depois de decorridos uns quinze  minutos, voltou a ter a mesma impressão que tinha antes. Os trilhos da  via férrea estendendo-se a uma distância de cerca de um quarto de  milha à sua direita não podiam ser considerados uma boa companhia. 

Nada mais havia senão silêncio... Silêncio e luz solar. 

Ocorreu, então, a Joan que ela poderia recitar alguma poesia.  Ela sempre fora tida, no seu tempo de colégio, como uma aluna  que lia e declamava poesias muito bem... Não deixava de ser

interessante verificar quais as poesias que ela poderia rememorar  depois de tantos anos... Houve uma época em que sabia de cor uma boa  porção de versos. 

“O nobre atributo de compaixão e clemência não pode ser  [conseguido à força, 

Ele cai do céu tão suavemente como a chuva mansa que  [traz refrigério.” 

(The quality of mercy is not strained 

It droppeth as the gentle rain from heaven) 

Que é que vem depois? “Que bobinha que eu sou!” —  Simplesmente ela não se lembrava do resto... 

“Não mais temas o sufocante calor de um sol abrasador.” 

De qualquer forma ela começou bem. Será que ela conseguiria  recitar toda a poesia? 

“Nem tampouco a violenta fúria do inverno inclemente  Tu, completada a tua tarefa terrena 

Voltas para casa depois de ter recebido a tua recompensa.  Florescentes rapazes e meninas 

deverão vir, quais limpadores de chaminés para tirar o pó”. 

(Fear no more the heat of the sun 

Nor the furious winter’s rages 

Thou thy wordly task has done 

Home art gone and ta’en thy wages 

Golden lads and girls all must 

As chimney sweepers come to dust) 

Não, esta poesia não é lá muito agradável. Será que ela se  lembraria de algum soneto? Ela sempre teve o hábito de recitar sonetos.  O soneto “A união de duas almas autênticas” e aquele outro que certa  vez Rodney pedira que ela recitasse seriam importantes.

Foi até bem engraçada a maneira como ele inopinadamente lhe  disse: 

— “E o teu eterno verão jamais acabará”. Este é de Shakespeare,  não é? 

— Sim, é um dos sonetos dele. Então ele passou a citar outro  soneto. 

— “Que eu nunca admita que haja impedimento para a união de  duas almas autênticas.” Você não quer recitar este? 

— Não. Acho melhor recitar aquele que começa assim:  “Comparar-te-ei a um dia de verão”. 

Ela, então, recitou-lhe o soneto inteiro, até mesmo com certa  finura nos gestos e com uma expressão bem própria para dar ênfase à  sua interpretação. 

Quando ela terminou, ele, ao invés de dar-lhe a sua aprovação,  simplesmente passou a repetir, com sentimento: 

“O vento borrascoso sacode impetuosamente os tenros raminhos  de maio...” 

(Rough winds do shake the darlings buds of May...) 

— Mas não estamos em maio, estamos em outubro, não é  verdade? 

Ele então fez menção de ter uma coisa importante para  perguntar-lhe. Ela fitou-o. 

— Mas você não sabe aquele outro soneto? Aquele sobre a união  de almas autênticas? 

— Claro que sei. 

Ela fez uma pequena pausa e começou a recitá-lo: 

Que eu não veja empecilhos na sincera 

União de duas almas. Não amor 

É o que encontrando alterações se altera 

Ou diminui se o atinge o desamor. 

Oh, não! amor é ponto assaz constante

Que ileso os bravos temporais defronta. 

É a estrela guia do baixei errante, 

De brilho certo, mas valor sem conta. 

O Amor não é jogral do Tempo, embora 

Em seu declínio os lábios nos entorte. 

O Amor não muda com o dia e a hora, 

Mas persevera ao limiar da Morte. 

E, se se prova que num erro estou, 

Nunca fiz versos nem jamais se amou. 

(Let me not to the marriage of true minds 

Admit impediments. Love is not love 

Which alters where it alteration finds, 

Or bends with the remover to remove: 

O, no, it is an ever-fixed mark 

That looks on tempests and is never shaken, 

It is the star to every wandering bark 

Whose worth’s unknowun, although his height be taken  Love’s not Fime’s fool, though rosy and cheeks 

Within his bending sickle’s compass come; 

Love alters not with his brief hours and weeks, 

But bears it out even to the edge of doom. 

If this be error, and upon me prov’d 

I never writ, nor no man ever lov’d). 

Ela terminou dando ênfase aos últimos versos, com uma  expressão dramática. 

— Você não acha que eu recito Shakespeare regularmente? No  meu tempo de colégio todo mundo dizia que eu recitava bem e  declamava com bastante expressão. 

Entretanto Rodney, como que absorto, respondeu simplesmente:  — Eu não preciso da expressão. Bastam-me as palavras.  Ela deu um suspiro e murmurou: 

— Shakespeare é maravilhoso, você não acha? 

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