sábado, 8 de maio de 2021

A ausência - Capítulo 04


Joan chegou à casa de pernoite quase sufocada pelo calor.  Inconscientemente havia acelerado os passos como que  procurando tomar a dianteira a esses pensamentos importunos que não  queriam se despregar da sua mente. 

O hindu fitou-a com certa curiosidade e perguntou-lhe:  Memsahib caminha muito ligeiro. Por que caminha ligeiro? Tem  muito tempo aqui. 

— Oh, Santo Deus! — exclamou Joan. — Realmente disponho de  muito tempo aqui! 

O hindu, a casa de pernoite, as galinhas, as latas velhas no  monturo de lixo e a cerca de arame farpado — tudo isso começava a  irritá-la fortemente, deixando-a atacada dos nervos. 

Dirigiu-se ao seu quarto e pegou o The Power House. Abriu o livro  e começou a ler. Leu a metade do livro até a hora de ir ao refeitório.  O almoço constava de omelete com feijão cozido no forno, salmão  com arroz e damascos enlatados. 

Joan comeu só um pouquinho. 

Voltou em seguida ao quarto e deitou-se. Era muito bom repousar  um pouco depois de ter caminhado apressadamente sob o sol  abrasador. 

Fechou os olhos mas o sono não veio. Ela permanecia bem  desperta prestando atenção em tudo. 

Levantou-se, tomou três aspirinas e deitou-se de novo. Cada vez  que ela fechava os olhos via o lindo dorso de Rodney que, empertigado e  ágil, saía da gare da estação. Isto até já estava se tornando  insuportável. 

Então abriu um pouco à cortina da janela para deixar entrar um  pouco de sol e começou a ler novamente The Power House. Faltando  algumas páginas para terminar o livro, pegou no sono.  Então sonhou que ia participar de um torneio com Rodney. Eles tiveram muita dificuldade em encontrar as bolas. Finalmente, depois de  um certo tempo, se encontravam no meio da quadra. Exatamente  quando ela começava a sacar verificou que eslava jogando contra  Rodney e a jovem Randolph. Dali por diante não fez outra coisa senão  cometer faltas. 

“Rodney vai me ajudar” — pensou ela. Mas qual nada! Quando ela  procurou ver onde ele estava, já havia sumido. Todo mundo já tinha ido  embora e começou a ficar escuro. 

“Estou completamente só! Estou completamente só!” 

Ela despertou num sobressalto. 

— Estou completamente só — repetiu baixinho. 

Ela não conseguiu livrar-se logo dos reflexos desse sonho.  Pareceu-lhe que as palavras que acabara de pronunciar eram realmente  aterradoras. 

Repetiu outra vez ainda: 

— Estou completamente só. 

O hindu enfiou a cabeça no quarto. 

Memsahib está chamando? 

— Sim. Traga-me um pouco de chá. 

Memsahib quer chá? Só às três horas. 

— Eu quero o chá agora. 

Ele saiu imediatamente e ela ouviu-o gritar: “Chai-chai”.  Ela levantou-se e foi postar-se diante daquele espelho todo  sarapintado e poluído pelas moscas a fim de verificar se o seu aspecto  era normal. 

Joan começou a falar consigo mesma enquanto se contemplava  no espelho: “Será que você não vai adoecer? Seu comportamento anda  muito esquisito”. 

Não teria sido por causa do sol? 

Quando o hindu lhe trouxe o chá, ela já tinha quase voltado ao  seu estado normal. Na verdade tudo o que se estava passando com ela  não deixava de ser estranho e engraçado. Ora, onde é que já se viu, ela,  Joan Scudamore, atacada dos nervos!! É claro que não se tratava de nervosismo. Só podia ser o efeito daquele sol abrasante... Ela não mais  faria as suas caminhadas enquanto o sol não estivesse quase a ponto  de sumir-se no horizonte. 

Ela tomou uma xícara de chá e comeu alguns biscoitos. Depois  acabou de ler The Power House. Logo que fechou o livro um  incontrolável receio invadiu-lhe o espírito. 

E, agora, nada mais tenho para ler — pensou ela. 

E de fato nada mais tinha para ler. O bloco de cartas também já  havia terminado. Nem mesmo com alguma costura ela podia entreter se, como era de seu hábito. Outra coisa ela, agora, não podia fazer  senão aguardar a chegada de um problemático trem que, talvez, só  viesse alguns dias mais tarde. 

Quando o hindu entrou para levar o aparelho de chá, ela  perguntou-lhe: 

— Que é que você está fazendo aqui? 

O homem ficou surpreso com esta pergunta. 

— Sou eu que atendo hóspedes passageiros, Memsahib. — Sim, eu sei (ela procurou conter-se, controlando a sua  impaciência e o seu nervosismo). Mas você gasta todo o seu tempo só  atendendo as pessoas? 

— Eu dou a refeição da manhã, o almoço, o chá... 

— Não, não quero me referir a isso. Você não tem ajudantes?  — Jovem árabe. Muito estúpido, muito preguiçoso, muito sujo.  Eu é que tenho que providenciar tudo. Não confio nele. Ele só traz água  para banho e depois retira a água suja usada no banho...  — Mas vocês aqui são três: você, o cozinheiro e o rapaz árabe.  Você deve ter muito tempo de sobra, não é verdade? Você sabe ler?  — Ler? Ler o quê? 

— Livros. 

— Eu não sei ler. 

— Então que é que você faz quando não está trabalhando?  — Fico esperando até que apareça serviço. 

É inútil conversar com eles — refletiu Joan. — Eles nunca

compreendem o significado da conversa da gente. Esse indivíduo  permanece sempre aqui, meses após meses. Lá uma vez ou outra —  assim era de supor-se — ele tira umas pequenas ferias e vai à cidade  para comprar alguma coisa e visitar os amigos. Afora isso, ele não  arreda pé deste lugar. É bem verdade que tem a companhia do  cozinheiro e do rapaz árabe... 

O árabe, quando não carrega água, deita-se ao sol e fica  dormindo. Assim, ele vai levando a vida mais fácil deste mundo. Joan  pensou: 

“Eles não me agradam nada. O único assunto sobre o qual o  hindu sabe falar, em inglês, se refere a comida e bebida. Da sua boca  não sai outra frase senão: ‘Tempo muito lindo!’” 

O hindu se retirou. Joan, nervosa, movimentava-se no quarto de  um canto ao outro. 

— Sou capaz até de ficar louca. Tenho que procurar fazer algo...  tenho que achar algum entretimento para passar o tempo... Seria bom  até que eu me decidisse a pensar... pensar... pensar em mim própria.  De forma alguma eu devo... Bem — falando com clareza — não devo  permitir que o medo me domine nem devo ficar atrapalhada nesta  situação. A verdade é que sempre levei uma vida atarefada, ocupando  todo o meu tempo. E sempre me dediquei muito ao meu trabalho. Mas  tratava-se de uma vida num meio civilizado. 

Fazendo, agora, um confronto entre os dois sistemas de vida,  conclui-se logo que uma pessoa operosa terá que sentir-se  completamente desalentada e desajeitada ao ter que passar tanto tempo  assim sem fazer absolutamente nada. 

Isso não quer dizer que não haja pessoas que, mesmo estando em  casa, não possam descansar, passando horas e horas sem fazer nada.  Provavelmente se sentem muito felizes com a vida que levam. Até a  própria Sra. Sherston, que normalmente devia trabalhar por dois, às  vezes encontrava tempo suficiente para ficar sentada, sem fazer nada.  Isto ela fazia principalmente quando saía para dar as suas caminhadas  despendendo muita energia. Então sentava-se ela sobre um tronco de árvore ou atirava-se sobre o chão coberto de grama e ali permanecia du rante um longo tempo contemplando como que absorta o espaço em  redor. 

Foi precisamente num dia em que a Sra. Sherston estava sentada  dessa maneira, lançando seus olhos para longe, numa atitude de  profunda meditação, que Joan teve a impressão de ter vislumbrado,  numa visão fugidia, o vulto da jovem Randolph... 

Ao recordar este fato, Joan ficou com as faces um tanto  ruborizadas. E, na verdade, ela não podia dizer que não esteve  bancando a espiã. Por isso, agora, sentiu-se envergonhada... Ela não  era absolutamente desse tipo de mulher. 

Mas, Santo Deus, por que terá ela que preocupar-se de novo com  Myrna Randolph? Por quê? Um tipo de moça que não possui nenhum  senso de moral. 

Joan, então, não pôde resistir à tentação de relembrar como foi  mesmo que ela se decidiu a espionar a Sra. Sherston. Tudo aconteceu  num dia em que Joan estivera comprando flores da velha Sra. Garnett.  Precisamente no momento em que ela saía daquela casinha de campo,  ouviu a voz de Rodney que passava na estrada, no outro lado da cerca  de sebe. A voz dele e uma voz feminina que lhe respondia. 

Joan apressou-se em dizer adeus a Sra. Garnett e saiu  caminhando em direção à estrada. Em seguida conseguiu divisar os  vultos de Rodney e da jovem Randolph, quase no instante em que  ambos iam atingindo a volta da estrada que conduzia a Asheldown. 

Neste ponto, é bom que se frise de novo: ela não ficou muito  satisfeita com o que fez nesse dia... Não era do seu hábito proceder  assim. Mas o fato é que ela não pôde resistir a procurar certificar-se do  que havia entre eles. Absolutamente ela não culpava Rodney. Todo  mundo sabia que tipo de mulher era Myrna Randolph. 

Joan tomou o caminho que subia através de Haling Wood e veio  sair na estrada limpa, completamente desprovida de vegetação, que se  estendia até Asheldown. Aí, então, ela pôde divisar, com os contornos  mais bem definidos, os vultos de ambos — duas criaturas sentadas à beira do caminho, contemplando absortas e imóveis o panorama que se  descortinava lá embaixo, naquela região Campestre profusamente  iluminada por um sol radiante. 


Que alívio sentiu Joan quando verificou que não era Myrna  Randolph que ali estava com Rodney, mas sim a Sra. Sherston. Eles até  que não estavam sentados muito perto um do outro. Havia um espaço  de, pelo menos, quatro pés entre ambos. Realmente uma distância  dificilmente aceitável para pessoas amigas... Mas naquela época Leslie  Sherston não era ainda uma pessoa muito achegada a eles. Não se  podia dizer, portanto, que entre as duas famílias houvesse uma amizade  já consolidada. E além disso a Sra. Sherston certamente não podia ser  tida por uma fascinante e tentadora sereia. Tal suposição seria  simplesmente ridícula. Não... 

Talvez ela tivesse saído para dar uma das suas costumeiras  caminhadas pelo campo, tendo sido alcançada por Rodney que, então,  passou a acompanhá-la por simples cortesia como era do seu hábito  fazer. 

Sem dúvida eles, depois de terem subido aquela estrada íngreme,  caminhando sem parar até atingir a crista de Ashel down Ridge,  resolveram fazer uma pequena pausa e contemplar o panorama  encantador que ali se vislumbrava. 

Todavia realmente espantoso era o fato de permanecerem ambos  imóveis e calados. Não era uma atitude muito sociável — pensou Joan.  Oh, mas certamente cada qual tinha os seus próprios pensamentos  para ruminar. Talvez eles tivessem compreendido que seria melhor um  não importunar o outro com conversa enquanto ambos estivessem  absortos nas suas reflexões. 

Foi precisamente por essa época que os Scudamores ficaram  conhecendo melhor Leslie Sherston. 

A descoberta dos desfalques de Sherston explodiu sobre a  consternada Crayminster como uma verdadeira bomba. Sherston foi  para a cadeia, a fim de cumprir sua sentença. Rodney foi o advogado  que atuou em sua defesa perante o tribunal, tendo também sido o advogado de Leslie. Ele tinha muita pena da pobre mulher,  desamparada, com duas crianças pequenas e sem dinheiro.  Todo mundo em Crayminster, considerando-se as circunstâncias  do caso, estava propenso a ter pena da Sra. Sherston... E se aquela  gente, algum tempo depois, não continuou a manifestar com a mesma  intensidade a sua compaixão para com ela, isto aconteceu  exclusivamente por culpa da própria Sra. Sherston. A sua expansiva  alegria chocou um pouco muitas pessoas. 

Joan disse a Rodney: 

— Acho que ela não é lá muito sentimental... 

Ele apenas respondeu-lhe, com certa aspereza, que Leslie  Sherston tinha mais coragem do que qualquer outra pessoa com a qual  ele tivesse tratado até então. 

Joan voltou a argumentar: 

— Oh, sim... coragem! Mas coragem não é tudo. 

— Então coragem não é tudo? — repetiu Rodney com uma  expressão esquisita no semblante e, em seguida, saiu para o seu  escritório. 

Coragem era uma virtude que certamente ninguém podia dizer  que faltava a Leslie Sherston. De fato, ela se viu na contingência de ter  que enfrentar sérios problemas, mantendo-se a si mesma e duas  crianças sem que tivesse lá muito boas qualificações para a espécie de  trabalho em que se envolvera. 

Ela foi trabalhar numa chácara que fornecia verduras para o  mercado, tendo sido obrigada a aceitar, nesse meio tempo, a ajuda de  uma tia e a viver com os seus dois filhinhos num quarto. Quando  Sherston saiu da cadeia, ele a encontrou trabalhando num meio muito  diferente, produzindo hortaliças e legumes para vender no mercado. Ela  escolhera uma localidade distante. Ele mesmo transportava os produtos  para as cidades próximas e os meninos o ajudavam. Eles procuravam  levar a coisa da melhor forma possível e amenizar as asperezas do  trabalho. Não há dúvida de que a Sra. Sherston se esforçou como uma  verdadeira heroína e sua ação teve um mérito todo especial porque foi exatamente por essa época que ela começou a sofrer da doença que,  depois de muitas dores e sofrimentos, deu cabo da sua existência.  Oh, bem — pensou Joan — certamente ela amava o seu marido.  Sherston era tido como um indivíduo de boa aparência que atraía as  mulheres. Na prisão, seu aspecto mudara bastante. Joan, depois que  ele saiu da cadeia, teve oportunidade de vê-lo só uma vez. Chegou  quase a ficar chocada com a mudança que se operara na sua aparência.  Ele continuava com os mesmos olhos astutos de um velhaco incorrigível  mas já muito abatido. Mostrava-se um tanto rompante mas já não  passava de um destroço humano. Depois que ele saiu da cadeia, sua  mulher continuou a amá-lo como antes. Nunca o abandonou nem  deixou de ampará-lo. Era precisamente por isso que Joan respeitava  Leslie Sherston sempre reverenciando a sua memória. 

Por outro lado, Joan achava que Leslie procedera de maneira  absolutamente errada com relação aos seus filhinhos. Aquela mesma  sua tia que lhe prestara auxílio financeiro quando Sherston foi  condenado, fez-lhe uma proposta muito digna de acatamento. Isto se  deu na época em que o marido estava quase para sair da cadeia. 

A tia lhe propusera adotar legalmente o menor dos dois meninos e  lhe declarara que havia persuadido um outro tio de Leslie a custear o  colégio do seu filhinho mais velho. Os meninos poderiam passar as  férias com ela e adotariam, mediante um ato legal, o sobrenome do tio. 

Assegurou-lhe ainda esta sua tia que ela e o tio de Leslie  assumiriam a responsabilidade de, para o futuro, garantir às duas  crianças o indispensável amparo financeiro. 

Leslie Sherston recusou terminantemente esta proposta. Joan  achou que com tal atitude ela se mostrara muito orgulhosa. Por causa  da sua obstinação os meninos perderam a oportunidade de ter uma  vida muito melhor e de livrar-se da nódoa de uma ignominiosa  vergonha. Por mais que ela amasse as suas crianças, Leslie deveria ter  pensado, antes de mais nada, no futuro delas. Esta era a opinião de  Joan com a qual Rodney também concordava. 

Mas Leslie foi inflexível na sua recusa e Rodney, então, na

qualidade de seu advogado lavou as mãos eximindo-se de toda e  qualquer responsabilidade. 

Naquela ocasião, Rodney, dando um profundo suspiro.  confidenciou a Joan que se vira forçado a admitir que a Sra. Sherston  indubitavelmente deveria conhecer as particularidades da sua própria  vida melhor do que ele. Joan retrucou-lhe dizendo que achava Leslie  uma criatura obstinada. 

Movimentando-se agitada de um lado para outro na casa de  pernoite, Joan não conseguia de forma alguma afugentar da sua mente  a lembrança de como vira a amiga naquele dia, sentada no topo da  colina em Asheldown Ridge. 

Ela estava sentada com o tronco encurvado para a frente,  cotovelos apoiados sobre os joelhos, segurando o queixo com as mãos.  Permanecia imóvel. Contemplava, como que extasiada, toda aquela  vasta região agreste, com as terras aradas, que os carvalhos e as  frondosas faias da floresta de Little Havering haviam feito adquirir uma  tonalidade vermelho-dourada. 

Ela e Rodney sentados ali! Tão calados e em completa  imobilidade. Contemplando o panorama que se descortinava na frente  de ambos. 

Joan até nem podia explicar a razão por que não foi falar com eles  ou mesmo juntar-se a eles para fazer a sua caminhada de volta para  casa. Não teria sido porque a sua consciência denotava a culpa de ter  suspeitado malevolamente de Myrna Randolph? 

Mas seja lá como for, ela não falou nada. Pelo contrário, ela  prosseguiu sozinha o seu caminho para casa, passando através das  árvores de copas frondosas a fim de ocultar-se deles. 

Foi, de fato, um incidente que ela não gostava de relembrar, tanto  assim que nunca o mencionou a Rodney. Ele poderia ter pensado que  ela, Joan, tivesse alguma idéia estrambótica a respeito dele... A respeito  dele e de Myrna Randolph, naturalmente... 

Rodney, todo empertigado, caminhando com desenvoltura e a  passos largos sobre a plataforma da estação Vitória!

Oh, Santo Deus, será que vai começar tudo de novo, encordoando  sempre as mesmas idéias e lembranças? 

Mas como foi, diabo, que esses pensamentos se introduziram no  seu cérebro? Que motivos tinha ela para pensar que Rodney (que  sempre lhe fora devotado) estaria agora desinibidamente gozando a  vida, satisfeito com a ausência dela? 

Que pensamento bobo! Como se ela simplesmente pela maneira  de Rodney caminhar pudesse depreender tudo isso! 

Teria que tirar da cabeça todas essas ridículas fantasias.  Não mais devia pensar em Rodney... imaginando essas coisas  bobas a respeito dele. Até agora ela nunca tinha sido uma mulher  propensa a imaginar coisas fantásticas. 

Deve ser o efeito do sol.

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