sábado, 8 de maio de 2021

A ausência - Capítulo 03


 Joan parou bruscamente de escrever e olhou o mostrador do seu relógio. Passava um quarto do meio-dia. 

Já havia escrito três cartas e a tinta da sua caneta secara. Só então foi que ela se deu conta de que havia quase terminado com o seu bloco de cartas. Esta ocorrência lhe causou um pouco de desgosto.  Havia ainda muitas outras pessoas para as quais ela poderia escrever.  Entretanto, pensando bem, se tornava monótono demais, depois de um certo tempo, só ficar escrevendo: “Aqui há sol e areia. E que delícia ter tempo para descansar e meditar!” O que ela dizia era a pura verdade, mas não há quem não se canse de tentar exprimir por meio de palavras sempre a mesma coisa de maneira diferente. . . Pois, na verdade, as condições do ambiente não propiciavam nada mais de importante para descrever-se. 

Bocejou. O sol a havia deixado um pouco sonolenta. Depois do almoço iria deitar-se para dormir. Levantou-se e, devagarinho, foi caminhando de volta à casa de pernoite. Desejaria saber o que Blanche estaria fazendo a estas horas. Sem dúvida ela já deveria ter chegado a Bagdá e se juntado ao seu marido. A expressão seu marido, no caso, lhe soava de maneira até repulsiva. 

Pobre Blanche! Como ela decaiu horrivelmente na vida perdendo a sua posição social e estando metida, agora, nesta parte do mundo. Se aquele Sujeitinho de boa aparência, aquele tal Harry Marston, o veterinário, nunca tivesse cruzado na sua vida e se ela tivesse encontrado um homem bom e atraente como Rodney, muito outra seria a sua situação... Blanche mesma não disse que Rodney era muito charmoso? Sim ela disse isso ou coisa parecida. Como foi mesmo que ela disse? Parece-me que ela comentou que Rodney tinha o olhar sempre “irrequieto de galanteador”. Que bobagem! O que ela disse não tem fundamento. Rodney nunca foi assim. Nunca. Onde já se viu Rodney com o olhar irrequieto de um conquistador!

Nesse instante perpassou-lhe pela mente a mesma visão que ela tivera na noite passada, parecendo vislumbrar aquela faixa atravessando-se na sua frente, só que desta vez serpenteando mais devagar. 

A JOVEM RANDOLPH...

“Realmente — pensou Joan um tanto perturbada e procurando acelerar os seus passos, como se quisesse tomar a dianteira a algum pensamento importuno que insistisse em acompanhá-la — não posso nem imaginar o motivo por que me vem este pensamento da jovem Randolph! Não há razão alguma para isso. Eu é que fico imaginando coisas como se Rodney...” 

Não, é melhor não dizer mais nada. A minha idéia não tem nenhum fundamento. Nunca houve nada. 

Acontece simplesmente que Myrna Randolph era um tipo de moça que... que inspira cuidados à mulher que zela pelo que lhe pertence.  Era um tipo de morena de porte bem avantajado e de aspecto exuberante, que, quando agradava de algum homem, não tinha pejo em propalar o fato. 

Falando a pura verdade, ela havia feito alguns galanteios a Rodney, tentando requestá-lo. Foi logo dizendo que era maravilhoso e encantador. Ela sempre queria tê-lo como companheiro no jogo de tênis.  Nas reuniões sociais tinha o hábito de ficar parada durante longo tempo, devorando-o com os olhos. 

Como é natural, Rodney não deixava de sentir-se lisonjeado com a atitude dela. E qual é o homem que não se sente lisonjeado em tais circunstâncias? Realmente teria sido até muito ridículo se Rodney não tivesse ficado orgulhoso e desvanecido com as atenções que lhe dispensava essa moça, que tinha alguns anos menos do que ele e que era considerada a jovem de mais bela aparência na cidade. 

Joan começou a pensar com os seus botões: “Se eu não tivesse usado de esperteza e de tato desde o princípio...” 

Passou, então, a rememorar com uma crítica retrospectiva a atitude que tomara para contornar a situação. E não há dúvida de que ela se saiu muito bem. 

Toca a campainha. 

— Sua amiguinha está esperando por você, Rodney. Não a deixe ficar esperando muito tempo... Myrna Randolph, evidentemente... Oh, queridinho ela é assim... Realmente em certas ocasiões ela se torna até ridícula. 

Rodney murmurou: 

— Não quero jogar tênis com essa moça. Ela que procure tomar parte noutra equipe... 

— Mas agora não seja indelicado, Rodney. Você tem que jogar com ela. 

Exatamente esta é que era a maneira mais acertada de lidar com eles. Delicadamente. Brincando. Demonstrando compreender que a atitude deles não devia ser levada a sério. 

Mas é claro que não deixariam de ser agradáveis para Rodney as investidas da moça, embora ele fingidamente dissesse que as reprovava.  Às vezes ele até chegava a rosnar simulando irritação...  

Myrna Randolph era o tipo de jovem que praticamente todos os homens achavam atraente. Ela era inconstante e até mesmo tratava seus admiradores com desprezo. Dizia-lhes palavras ásperas e depois procurava atraí-los de novo para perto de si, lançando-lhes, de esguelha, um rápido olhar brejeiro. 

Realmente — assim pensava Joan — ela, por causa do seu ardor sensual fora do comum, deve ser considerada a moça mais detestável daquele meio. 

Ela tinha feito todo o possível para estragar a vida conjugal de Joan. 

Entretanto, ela não culpava Rodney pelo que acontecera, não! A moça é que era culpada de tudo... Ora, os homens, quando embalados pela lisonja, não podem conter a explosão de uma certa empáfia. 

O período de dez anos é considerado pelos escritores entendidos no assunto a fase mais perigosa da vida conjugal. É a fase em que tanto o marido como a mulher podem manifestar ressaltada tendência para sair dos trilhos. E quanto tempo fazia, então, que Rodney estava casado? Dez anos? Onze anos? O casal estava ainda dentro dessa fase braba que deve ser levada com muita cautela. 

Só envidando o máximo de esforços para superar as dificuldades surgidas é que o casal conseguirá restabelecer o equilíbrio e a tranquilidade no lar. 

Ela e Rodney tiveram... 

Não... Ela nem deve falar. Na verdade, ela nunca o culpou nem mesmo naquele dia em que ela surpreendeu a ambos beijando-se...  Isto aconteceu debaixo do caramanchão de visgueiros.  E a moça teve o descaramento de dizer, logo que entrou no gabinete de Rodney. 

— Estávamos inaugurando o caramanchão, Sra. Scudamore.  Suponho que a senhora não se importa... 

Joan se lembra perfeitamente de como não perdeu a cabeça naquele momento e nada deixou transparecer. 

— Bem, agora solte o meu homem, Myrna, e vá procurar outro bonitão por aí afora... 

Então, rindo, ela foi empurrando Myrna para fora da sala, dando a impressão de estar levando tudo na brincadeira. 

Depois que Myrna saiu, Rodney lhe disse: 

— Sinto muito, Joan, mas ela não passa de uma rapariga que só possui alguns atrativos. E estamos no dia de Natal... 

Ele continuou na sala rindo e zombando da moça. Desse modo ele procurava desculpar-se. Mas não demonstrava absolutamente estar embaraçado ou perturbado. Procurava dar a entender que o caso realmente não passava disso... 

E disso não passaria de forma alguma dali por diante. Esta foi a resolução que ela tomara energicamente, Joan faria tudo para evitar que Myrna Randolph se atravessasse no seu caminho. Quando chegou a Páscoa, Myrna já havia ficado noiva do jovem Arlihgton. 

Desse modo, todo o incidente deu exatamente em nada. Talvez o caso tivesse sido divertido só para Rodney. Mas não teve maiores consequências. Pobre velho Rodney! Ele precisava realmente de um pouco de divertimento. Ele trabalhava tanto... 

Dez anos! É indubitavelmente uma fase perigosa... tanto assim que até ela própria teve um casinho que lhe trouxe algumas inquietações. Como ela se lembra direitinho de tudo! 

Foi com aquele jovem de aspecto romântico, aquele pintor. —  Como era mesmo o nome dele? Ela já não se lembrava mais. Não teria ela, de fato, começado a se apaixonar pelo jovem? 

Joan, pensando nesta ocorrência, teve que admitir ter sido um pouco imprudente... 

O pintor ficara deveras apaixonado. Então passou a fitá-la com um olhar cheio de ternura. Lá um belo dia ele perguntou se Joan não queria posar para ele no seu estúdio. Era um pretexto, evidentemente. 

Ele chegou a fazer um ou dois retratos dela a crayon, depois rasgou-os dizendo que não devia conservar o seu semblante para exibição aos fregueses. 

Como Joan se sentira lisonjeada com isso! 

“Pobre rapaz, como ele está ficando caído de amor por mim!” —  Pensou Joan. 

Sim, não há como negar, ela teve a oportunidade de sentir, durante um mês inteirinho, uma grande satisfação íntima, muito embora este seu casinho tivesse tido um epílogo meio embaraçoso...  Nada saiu conforme ela esperava. 

De fato, Michael Callaway (exatamente este era o seu nome:  Callaway!) revelou-se um tipo de indivíduo que não era lá muito satisfatório. 

Eles haviam saído para fazer juntos uma caminhada em Harling Woods, ao longo do Medaway que, provindo das elevações de Asheldown, fazia o seu curso dando muitas voltas. Ela não poderá esquecer tão facilmente assim o momento em que Michael Callaway lhe fez o convite para esse passeio, com uma voz rouca, demonstrando acanhamento e desconfiança. 

Ela, é claro, começou logo a fazer prognósticos sobre a provável

conversa que surgiria entre ambos. Talvez ele quisesse dizer a Joan que a amava. Ela forçosamente teria que ser delicada, gentil e compreensiva para com ele, embora sem deixar de mostrar-se um pouco — um pouquinho só! — pesarosa e arrependida. Ela pensou logo em tantas coisas encantadoras para dizer a Michael... coisas que, no futuro, ele sempre haveria de lembrar prazerosamente. 

Entretanto este encontro não foi como ela esperava. Saiu tudo às avessas. 

Michael Callaway, de repente, sem mais nem menos, agarrou-a fortemente, beijando-a com uma violência tão impetuosa e brutal que quase a sufocou. Depois de largá-la, exclamou em voz baixa como que a exprimir sua satisfação: 

— Meu Deus, como eu desejei isso! 

Em seguida começou a encher o seu cachimbo numa atitude que denotava absoluta tranquilidade e indiferença, permanecendo aparentemente insensível às censuras de Joan, que lhe falava indignada e cheia de raiva. 

Mas ele, bocejando e espreguiçando-se com os braços esticados, respondeu simplesmente: 

— Agora, estou me sentindo melhor. 

Joan se lembrava muito bem de que ele pronunciou esta frase cheio de alívio, como um indivíduo sedento depois de ter bebido um copo de cerveja num dia de calor abrasante. 

Após esta cena ambos voltaram para casa em silêncio — ou, melhor dizendo, só Joan estava silenciosa e quieta, porque ele fazia um verdadeiro alarido, experimentando cantarolar uma melodia qualquer. 

Foi somente quando atingiram a orla da floresta, um pouco antes de surgir a estrada alta para Crayminster Market Way, que ele se deteve um pouco e passou a examiná-la calmamente, dizendo-lhe: 

— Você sabia que é o tipo de mulher que deve ser violentamente arrebatada? Isto lhe faz muito bem... 

E, enquanto ela permanecia na sua frente enfurecida e perplexa, sem pronunciar uma palavra sequer, ele continuou:

— Até que eu gostaria mesmo de tê-la raptado, para ver se você depois iria mudar, embora ficando diferente só um pouquinho.  Dito isto, ele saiu caminhando em direção à estrada alta e, tendo desistido de cantarolar, principiou a assobiar, satisfeito e alegre.  Evidentemente, depois desta ocorrência ela nunca mais falou com ele. Alguns dias mais tarde ele saiu de Crayminster. O que houve foi, sem dúvida alguma, um incidente desagradável que poderia ter-lhe trazido algumas inquietações. 

Além do mais, não se tratava de um incidente que Joan tivesse interesse em recordar. Pelo contrário, ela até estava admirada de ter-se lembrado do fato precisamente agora, numa situação dessas. 

Foi um acontecimento horrível. Bem que ela queria extirpá-lo da memória para sempre. Afinal, quem gostaria de rememorar coisas desagradáveis, dispondo de sol e areia para fazer um descanso reparador? Havia tantas coisas agradáveis e estimulantes em que ela poderia pensar. 

O almoço talvez já estivesse pronto. Ela olhou mais uma vez o relógio, mas faltava ainda um quarto para uma. 

Logo que chegou à casa de pernoite, dirigiu-se imediatamente ao seu quarto a fim de verificar se, na sua valise, ainda havia alguns papéis de carta. Não havia mais nada. Oh, não tinha a menor importância! Ela já estava cansada de tanto escrever. Não havia muita coisa para contar. Qualquer pessoa se enfada facilmente quando fica a repetir sempre as mesmas frases. Quais os livros que ela havia trazido na mala? Lady Catherine, naturalmente. E uma estória policial que William lhe dera antes da despedida. Foi muita gentileza da parte dele, mas ela realmente não se interessava em estórias desse gênero. Além desses dois, ela havia trazido, também, The Power House, escrito por Buchan. Seguramente era um livro muito antigo. Já fazia anos que ela o havia lido. 

Bem... mas ela poderia comprar mais alguns livros na estação de Aleppo. 

O almoço consistiu de omelete (um pouco dura e frita demais),

ovos preparados num molho de especiarias, um prato de salmão (enlatado), feijão cozido no fogão da casa e pêssegos (enlatados).  Tratava-se de uma refeição um pouco pesada para digerir.  Depois do almoço Joan foi deitar-se. 

Dormiu durante uns três quartos de hora. Logo que se despertou começou a ler o livro de Lady Catherine Dysart. Ficou entretida com essa leitura até a hora do chá. 

Tomou o chá com leite (enlatado), acompanhado de biscoitos.  Depois saiu para espairecer um pouco, caminhando ali por perto, mas em seguida voltou a entreter-se com a leitura do livro de Lady Catherine Dysart.

Mais tarde lhe foi servido o jantar: omelete, salmão cozido no forno com arroz, um prato de ovos e damascos enlatados. Só aí foi que ela começou a ler a estória policial. Terminou de ler completamente o livro um pouco antes de ir para a cama. 

O hindu apareceu na porta do quarto com o semblante alegre.  — Boa noite, Memsahib! Trem chega amanhã de manhã às sete e meia, mas não partirá antes da noite. Às oito e meia. 

Era mais um dia que ela teria de passar naquele local. Ela dispunha ainda do The Power House para ler. Pena que fosse um livro tão pequeno. Então ocorreu-lhe perguntar ao hindu: 

— Chegarão alguns passageiros com o trem? Mas eles sem dúvida seguirão imediatamente para Mosul, não é verdade? 

O homem balançou a cabeça. 

— Não amanhã. Eu acho que não. Nenhum carro chega hoje.  Acho que estrada para Mosul está muito ruim. Carros ficam atolados muitos dias. 

Joan sentiu um vislumbre de alegria, recobrando um pouco o ânimo. Só assim os passageiros teriam que descer do trem e hospedar se também na casa de pernoite. Não deixava de ser uma circunstância agradável, pois desse modo certamente ela encontraria alguém com quem pudesse conversar. 

Deitou-se sentindo-se mais disposta do que estava dez minutos antes. No quarto, o ar estava impregnado de um fétido quase insuportável. Só podia ser o horripilante cheiro de gordura rançosa.  Na manhã seguinte ela despertou às oito horas. Levantou-se logo em seguida e vestiu-se. Foi diretinho ao refeitório. Uma única mesa havia sido posta. Ela chamou o hindu, que apareceu logo. Sem poder ocultar o seu nervosismo, ele foi logo dizendo: 

— Trem não vem, Memsahib.

— Não vem?! Você quer dizer que ele está atrasado? 

— Trem parou de fazer viagem. Fortes chuvaradas caíram sobre os trilhos. Na outra banda de Nissibin. Estrada de ferro está coberta pela água. Trem não pode rodar durante três, quatro, cinco... talvez seis dias. 

Joan encarou-o aflita. 

— Mas então que é que eu devo fazer? 

— A senhora fica aqui, Memsahib. Bastante comida, bastante cerveja, bastante chá. Tudo muito lindo. A senhora fica aqui até trem vir. 

“Santo Deus, como são esses orientais! O tempo não significa nada para eles” — pensou Joan. Ela perguntou-lhe: 

— Será que eu não poderia conseguir um carro? Ele pareceu até ter achado engraçada esta pergunta. 

— Automóvel? Como pode a senhora conseguir automóvel?  Estrada para Mosul muito ruim. Carro fica atolado no rio.  — Será que você não poderia telefonar? 

— Telefone onde? Só na linha turca. Turco é povo difícil para lidar. Não faz nada. Turco só conduz trem. 

Joan, agora fazendo troça de si própria por haver achado agradável o lugar, começou a convencer-se de que ela se encontrava num ambiente completamente isolado da civilização. Não havia telefones, nem telégrafo, nem carros. 

O hindu, tentando confortá-la, ponderou: 

— Tempo muito lindo! Bastante comida. Tudo muito confortável.  Realmente — refletiu Joan — o tempo é muito agradável. E isto constitui uma felicidade. Como seria horrível se ela durante todo o dia só tivesse que ficar dentro de casa. 

Como se tivesse lido o pensamento dela o hindu prosseguiu:  — Tempo sempre bom aqui. Chuvas muito raras. Só chove perto de Mosul. Lá chuva tapa estrada de ferro. 

Joan sentou-se na mesinha que estava posta e ficou esperando que lhe trouxessem a refeição. Já tinha superado aquela aflição ocasionada pelo impacto da notícia. Nada adiantaria ficar nervosa e fazer espalhafato. Um transtorno desses realmente não era de se esperar. Entretanto já não se podia mais evitar que houvesse perda de tempo. 

Joan, com os lábios distendidos num sorriso inexpressivo, pensou consigo mesma: “Até parece que está acontecendo exatamente como eu dissera a Blanche que gostaria que acontecesse. Lembro-me de que eu lhe declarei que ficaria muito satisfeita se viesse a ter um prolongado período de descanso para acalmar os meus nervos. E não é que esta oportunidade me surge agora! Aqui não há nada para fazer. Nem mesmo livro algum para ler. Certamente esta situação deve ser boa para mim. Terei a oportunidade de fazer uma cura repousando no deserto”. 

A lembrança de Blanche evocava-lhe por associação de idéias um pensamento desagradável... Algo que ela definitivamente não queria recordar. 

Afinal, por que ficar pensando em Blanche, agora? 

Depois da refeição ela saiu da casa. Como da outra vez, caminhando, percorreu uma razoável distância e depois sentou-se naquele chão de areia. Ficou sentada durante um bom tempinho em absoluta calma, conservando os olhos semicerrados. 

É maravilhoso — pensou ela — sentir esta paz e esta calma como que a inundar a alma. Joan simplesmente sentia o bem que isso lhe estava fazendo. O ar saudável, o agradável calor do sol, a calma reinante, tudo lhe propiciava uma grande satisfação. 

Permaneceu assim bastante tempo. Depois olhou o mostrador do relógio. Passavam dez minutos das dez. Como a manhã estava

passando ligeiro! 

Não seria bom que ela escrevesse algumas linhas a Bárbara?  Realmente, como foi que ela não teve idéia de escrever, a Bárbara ontem ao invés de rabiscar aquelas cartas tolas e sem fundamento para as suas amigas na Inglaterra? 

Pegou o bloco e a caneta e começou a escrever: 

“Querida Bárbara. 

A minha viagem não está sendo muito feliz. Perdi o trem que deveria partir na noite de segunda-feira e agora, ao que parece, terei  que permanecer aqui durante dias. É um lugar muito calmo e o sol é agradável. Por isso eu me sinto bem feliz...” 

Fez uma pausa. Que mais deveria ela dizer? Algo acerca do bebê?  Falar sobre William? Mas que será que Blanche quis insinuar quando disse: “Não fique preocupada com Bárbara?” Era exatamente por isso que Joan não queria pensar em Blanche. Blanche fez certos comentários a respeito de Bárbara de maneira tão esquisita... Ela falou como se Joan, a mãe de Blanche, não soubesse de tudo o que se passava com a sua própria filha. 

Estou certa de que tudo vai ficar bem agora.

Esta frase não significará que de fato houve algo de anormal? Mas como? Parece que Blanche comentou que Bárbara se casara muito jovem ainda. Joan, apreensiva, começou a agitar-se. Ela se lembrou de que na época do casamento de Bárbara, Rodney havia dito algo parecido. Ele, subitamente e de maneira pouco habitual, declarou peremptoriamente: 

— Não estou contente com este casamento, Joan. 

— Oh, Rodney, mas por quê? William é tão amável e ambos parecem combinar muito bem. 

— Não digo o contrário. Ele é um rapaz amável e bastante jovem, mas Bárbara não o ama, Joan! 

Ela chegou a ficar perplexa, completamente estupefata ante tal afirmativa do marido.

— Rodney, sinceramente, que ridícula é essa idéia! É evidente que ela o ama. Se não fosse assim por que então ela se decidiu a casar com ele? 

Rodney passou a responder-lhe de maneira um tanto obscura:  — É exatamente por isso que eu tenho medo. Por causa dessa decisão que ela tomou. 

— Mas, queridinho, será que você não está sendo um pouco ridículo? 

Parecendo não ter percebido o tom de voz brando e delicado com que Joan propositadamente se expressara, ele retrucou:  — Se ela não o ama, não deve absolutamente casar-se com ele.  Bárbara é muito jovem para isso e, também, excessivamente temperamental. 

— Bem, Rodney, que é que você sabe com relação ao temperamento das pessoas? 

Nada adiantou ter ela procurado tornar-se alegre e divertida pois Rodney nem sequer fez esboço de um sorriso. Ele continuou:  — Muitas vezes as moças se casam só para poderem sair de casa.  Ante tal afirmativa, Joan não pôde conter uma risadinha e retrucou-lhe: 

— Mas não de uma casa como a de Bárbara! E digo isso porque moça alguma jamais teve um lar tão feliz como o de Bárbara.  — Você realmente pensa assim, Joan? 

— Por que deveria eu pensar o contrário? Aqui fazemos tudo o que é possível para a felicidade de nossos filhos. 

— Não me parece que nossos filhos tenham o prazer de convidar seus amigos com muita frequência... 

— Ora, queridinho, eu sempre faço reuniões aqui em casa e convido os jovens. Coloco um ponto final nesta conversa dizendo que era Bárbara que não gostava que eu fizesse recepções e não queria que eu convidasse as pessoas... 

Rodney sacudiu a cabeça denotando descontentamento. Mais tarde, ainda nesse mesmo dia, Joan entrou no quarto de Bárbara e ouviu que ela exclamava impaciente: 

— Não dá, papai! Já resolvi ir embora. Não posso ficar aqui por mais tempo. E não me aconselhe a sair para procurar trabalho nalgum outro lugar que eu não gosto disso! 

— Mas, afinal, por que todo esse barulho? — perguntou Joan.  Após uma diminuta pausa, Bárbara, com a face enrubescida, passou a explicar-lhe: 

— Eu estava gritando porque papai sempre acha que compreende a minha situação melhor do que eu. Ele quer que eu prolongue o meu noivado por alguns anos. Respondi-lhe que eu não posso fazer isso e que eu quero me casar com William a fim de ir embora para Bagdá.  Acho que lá é uma verdadeira maravilha. 

— Oh, minha querida — respondeu-lhe Joan —, eu não queria que você fosse tão longe assim. Gostaria de ter você sob os meus olhos como sempre a tive até agora. 

— Oh, mamã! 

— Bem compreendo, queridinha, o seu desejo... Mas você nem pode fazer idéia de como é tão jovem ainda... e tão inexperiente. Eu poderia ajudá-la muito se você não fosse morar tão longe.  Bárbara sorriu e respondeu-lhe: 

— Bem, eu própria terei que remar para conduzir o meu barco, sem poder valer-me da sua experiência e da sua sabedoria...  E enquanto Rodney, devagarinho, ia saindo do quarto, ela correu apressada para perto dele. Abraçou-o fortemente dizendo-lhe:  — Papaizinho querido. Querido, querido, querido... Realmente — este foi o raciocínio de Joan —, a menina está se tornando muito efusiva na demonstração do seu afeto. Mas de qualquer forma ficou provado que a suposição de Rodney estava errada. Bárbara regozijava se com a idéia de ir para o Oriente Próximo, acompanhando o seu querido William. E como era comovente observar o lindo par enamorado fazendo os seus planos para o futuro! 

Era até bem surpreendente e estranho o fato de se ter propalado através de toda Bagdá o comentário de que Bárbara havia sido infeliz no seu lar. Mas Bagdá parece ser uma cidade onde os boatos sem fundamento se propalam com muita facilidade. São tantos os falatórios, que dificilmente uma pessoa gosta de referir-se a qualquer outra.  O major Reid, por exemplo. 

Joan, pessoalmente, nunca se encontrara com o major Reid mas ele era sempre muito citado nas cartas que Bárbara lhe escrevia. “Major Reid esteve aqui em casa jantando conosco. Fomos praticar tiro ao alvo com o major Reid” — e assim por diante. 

Bárbara, durante os meses de verão, passou em Arkandous. Lá ela e outra jovem senhora casada alugaram um chalé em sociedade. O major Reid na mesma época também se dirigiu àquela localidade. Eles tiveram uma competição de tênis em Arkandous. Por fim, Bárbara e ele, no clube local, venceram a dupla formada por sócios da própria  entidade. 

Desse modo nada havia de espantoso no fato de Joan ter feito indagações acerca do major Reid. Tanto ela ouvira falar a respeito dele que já não mais podia conter a sua ânsia de conhecê-lo. 

Foi realmente ridículo e absurdo o embaraço causado por esta sua pergunta. Bárbara empalideceu bruscamente e William enrubesceu. Decorridos alguns segundos, ele respondeu com um tom de voz bem esquisito, parecendo estar grunhindo: 

— Nada sabemos a respeito dele agora. 

A maneira como ele se expressou foi tão estranha que Joan resolveu não mais prosseguir com suas indagações. Contudo, mais tarde, depois que Bárbara já havia ido para a cama, ela voltou ao assunto dizendo sorridente e com um certo fingimento que lhe parecia ter feito momentos antes uma pergunta com relação ao major Reid, o qual ela julgava ser um amigo íntimo da família. 

William levantou-se da cadeira e, como que maquinalmente, começou a bater de leve no seu cachimbo. 

— Nada sei — respondeu ele vagamente. — Apenas praticamos juntos tiro ao alvo algumas vezes e nada mais. Já faz muito tempo que não ouvimos falar a respeito dele.

Joan percebeu imediatamente ter havido entre eles algo que não deu certo. Ela sorriu ao ver como os homens deixam transparecer tudo facilmente. Chegou até a achar engraçada e bem antiquada a atitude reticente de William. Provavelmente ele supunha — pensou Joan — que ela fosse uma mulher excessivamente austera e imbuída do espírito de um rígido puritanismo — enfim, que ela fosse uma verdadeira sogra cônscia do seu papel.

Então disse ela: 

— Já sei. Houve algum escândalo. 

—Que é que a senhora quer insinuar? — perguntou William voltando-se para ela sem poder ocultar a sua irritação.  — Meu caro rapaz (Joan sorriu-lhe), a gente nota logo pela sua maneira de expressar-se. Acho que você descobriu, a respeito desse homem, algo que o forçou a interromper suas relações com ele. Oh, não  mais farei perguntas a respeito dele. Eu bem sei que às vezes surgem  casos que são constrangedores. 

William passou a falar lentamente, como que pesando as próprias  palavras: 

— Sim... sim, a senhora tem razão. Há casos que são de fato constrangedores.

Joan prosseguiu: 

— A gente sempre deve procurar os amigos levando em conta o  valor e a dignidade que eles possuem. Mas sei que é realmente  desagradável quando se descobre que uma determinada pessoa  considerada amiga não presta. 

— Ele já saiu deste país, felizmente. Foi para a África Oriental.  Subitamente Joan se lembrou de alguns fragmentos de conversa  que ouvira no Alwyah Club. Era uma conversa que se relacionava com a  ida de Nobby Reid para Uganda. 

Disse uma das mulheres que estavam ali conversando:  — Coitado do Nobby! Ele não tem culpa de ser perseguido por  essas jovens idiotas que correm atrás dele procurando requestá-lo à  força com seus galanteios.

Uma outra mulher mais idosa soltou uma gargalhada e retrucou  cheia de rancor: 

— Ele levou junto para Uganda uma boa carga de culpas na  consciência. De jovens meigas e ingênuas é que ele gosta. Dessas  pobres mulheres recém-casadas, jovens e inexperientes ainda. Mas devo  admitir que ele emprega uma técnica admirável. Torna-se terrivelmente  simpático e sedutor. A jovem fica pensando que ele de fato a ama  apaixonadamente. Mas enquanto a inocente bobinha pensa que ele  anda caído de amores para o lado dela, ele já anda tratando de  encontrar uma outra ingênua para iludir. 

— Bem, seja lá como for — obtemperou a primeira mulher —, nós  todas vamos sentir falta dele. Ele era tão divertido! 

A outra interlocutora soltou uma nova gargalhada e disse:  — Há aqui nesta cidade um marido ou dois que não ficaram nada  aborrecidos com a saída do simpático conquistador. Falando a pura  verdade, quase nenhum homem gostava dele. 

— Realmente, nesta cidade ninguém o suportava. 

— Púúú!! — fez a segunda mulher e começou a falar baixinho  como se estivesse segredando algum fato sigiloso à outra. Dali por  diante Joan não pôde entender mais nada. 

Ela, naquele dia, não ligou muita importância a essa conversa  que, agora, inesperadamente lhe surgia na lembrança. Se William nada  quis responder quando ela indagou a respeito do major Reid, Bárbara  devia ter-se mostrado menos reticente. Entretanto foi a própria  Bárbara, demonstrando um certo desagrado no seu tom de voz, que  declarou: 

— Eu não quero falar a respeito dele, mamã. A senhora me  entendeu? 

Joan passou a refletir que Bárbara, enquanto ela permaneceu na  casa dela, não quis nunca falar a respeito de nada. Sua filha fora  incrivelmente reservada quanto à doença que a prostrara e mostrava-se  sensível e irritadiça quando Joan lhe indagava sobre a possível causa  dos seus incômodos.

Respondia quase sempre com evasivas dizendo apenas que tudo  começara com uma espécie de envenenamento. Joan naturalmente  supôs que se tratava de envenenamento ocasionado por alimentos  deteriorados ou coisa semelhante, mesmo porque as intoxicações pela  ptomaína são muito comuns nos climas quentes. Mas tanto William  como Bárbara se esquivavam de entrar em maiores detalhes. Até o  próprio médico ao qual ela se dirigira na sua qualidade de mãe de  Bárbara se mostrou taciturno, reservado e pouco comunicativo. O  principal cuidado do médico era salientar, empregando veemência nas  suas palavras, que a Sra. Wray não devia ser interrogada acerca dos  seus incômodos e nem forçada a falar sobre eles. 

— Ela só precisa, agora, de muito carinho para recuperar-se.  Nada adianta querer saber o porquê dos seus males. Insistir com tais  indagações não seria nada bom para a doente. Esta é apenas uma  sugestão que eu lhe estou dando, Sra. Scudamore. 

Joan achou que o médico fora pouco amável mostrando-se  inflexível. Ele devia ser mais compreensivo para uma devotada mãe que,  ao saber da doença da filha, se abalara a toda pressa de lá da  Inglaterra. 

Oh, sim, mas em todo caso Bárbara ficou muito agradecida à sua  mãe. Pelo menos esta era a suposição de Joan. Sua filha lhe externara  seus agradecimentos com palavras ternas. 

Quando Joan disse que gostaria de ficar com eles mais alguns  dias, William respondeu-lhe que este era seu desejo também. Foi ela  própria que pediu que eles não insistissem com ela para ficar porque,  embora muito desejasse passar o inverno em Bagdá, ela não poderia  esquecer-se de que havia também o pai de Bárbara. Não seria correto  deixá-lo sozinho na Inglaterra. 

Bárbara, com uma voz lânguida, quase sumida, exclamou:  — Querido papai! 

Só depois de decorridos alguns segundos foi que ela disse:  — Escute, mamãe; por que é que a senhora não fica? 

— Pense também no seu pai, queridinha!

Bárbara retrucou com um tom de voz um tanto áspero — como  era, aliás, do seu hábito fazer às vezes — que ela nunca deixava de  pensar nele. 

Aí, então, Joan ponderou mais uma vez que ela não podia deixar  o pobre Rodney entregue aos criados. 

Alguns dias antes da sua partida da casa de Bárbara, houve um  momento em que Joan quase mudara de idéia tendo resolvido  permanecer ali pelo menos mais um mês. Mas William lhe fez muitas  ponderações enumerando as dificuldades que poderia acarretar-lhe  uma viagem através do deserto, feita durante a estação chuvosa. Então  ela ficou pressurosa e achou que seria melhor mesmo iniciar a viagem  de regresso no dia marcado anteriormente. Depois disso, William e  Bárbara passaram a cercá-la de tantas amabilidades que ela quase  esteve a ponto de mudar de idéia novamente — mas não chegou a  revelar esta sua intenção. 

Por mais atraso que ela tivesse tido em sair de Bagdá nada de  pior do que esta situação lhe poderia acontecer. 

Joan deu mais uma olhada no seu relógio. Faltavam cinco  minutos para as onze. Pareceu-lhe até ser quase impossível que alguém  pudesse rememorar tantas coisas em tão pouco tempo. 

Ela, naquele instante, lamentou não ter trazido junto The Power  House. Entretanto, como era o único livro de que ela dispunha para ler,  achou melhor deixá-lo de reserva. 

Faltavam ainda duas horas para o almoço. Ela havia dito que  desejava nesse dia almoçar à uma hora. Talvez seria melhor que ela  caminhasse um pouco. Mas também que estupidez ficar andando por  ali a esmo sem ter nenhum lugar designado para onde dirigir-se. 

E o sol já estava bem quente. 

Bem... mas quantas vezes não desejara poder dispor de um pouco  de tempo para dedicar-se exclusivamente a si própria, meditando sobre  a sua vida. E agora — melhor do que nunca — lhe surgiu esta  oportunidade. Quais seriam as coisas nas quais preferentemente ela  gostaria de pensar?

Joan começou a repassar o arquivo da sua memória mas os  assuntos que surgiam pareciam-lhe ter apenas um interesse que se  limitava às vivências do seu ambiente — como, por exemplo, lembrar-se  onde ela havia colocado isto ou aquilo, decidir sobre qual seria a melhor  maneira de conceder as férias de verão aos criados, fazer projetos sobre  a nova decoração da velha sala da escola. 

Todas essas coisas, agora, não lhe pareciam ser de muita  importância e não requeriam tanta urgência. 

Novembro ainda se achava um pouco longe para que ela se  preocupasse desde já com as férias dos seus empregados. Ademais, ela  teria que saber em que dia irá cair a festa de Pentecostes e ver o que  marca o calendário do próximo ano. Entretanto ela poderia tomar  algumas decisões com relação à sala de aula. Que tal, para as paredes,  um revestimento com as nuanças do bege e da cor da papa feita com  farinha de aveia? E umas lindas almofadas com tonalidades vivas?  Ficaria muito bem, sem dúvida. 

Já passavam dez minutos das onze. Até que para renovar a  decoração da sala de aula não levou muito tempo. Em seguida Joan  começou a refletir: — Se eu soubesse o que iria me acontecer, teria  trazido algum livro interessante que versasse sobre a ciência moderna e  sobre as mais recentes descobertas científicas. Um livro que explanasse  a teoria dos quanta, por exemplo. 

Depois ela própria, admirada, ficou imaginando como lhe poderia  ter surgido na mente esta idéia da teoria quântica. 

Deve ter sido evidentemente por causa do revestimento da parede  e da Sra. Sherston. Pois ela se lembrou de que certo dia estivera  discutindo o tão debatido problema dos tecidos de chita e de cretone  com a Sra. Sherston, esposa do gerente do banco, e ela, bem no meio da  conversa, declarou Inopinadamente: 

— Como eu desejaria ter inteligência bastante para poder  compreender a teoria dos quanta. É um assunto sumamente fascinante,  não é? Dizer que toda a energia se acha armazenada em diminutas  partículas!

Joan fitou-a com ar de surpresa pois não podia entender o que é  que uma teoria científica tinha a ver com chitas e cretones. A Sra.  Sherston ficou um pouco vermelha e exclamou: 

— Que imbecil que eu sou! Mas você compreende, não é? Muitas  vezes uma idéia entra no crânio subitamente, sem mais nem menos. E  esta é uma idéia interessante, você não acha? 

Joan pessoalmente não achou que a idéia fosse lá muito  fascinante e a conversa sobre este assunto parou aí mesmo. Joan então  fixou a sua mente na lembrança dos cretones da Sra. Sherston — ou,  melhor dizendo, dos seus revestimentos de linho estampados a mão  mostrando desenhos de folhagens com as cores castanhas, cinza e  vermelha. 

Joan disse à amiga: 

— Estas cores não são muito comuns. Saíram muito caros estes  revestimentos? 

A Sra. Sherston respondeu que realmente eles foram  dispendiosos, acrescentando que ela os havia adquirido só porque  gostava imensamente de árvores e de folhagens e que o seu maior  sonho na vida seria ir para algum lugar como Burma ou Malaia, onde  as árvores medram realmente depressa. E as palavras realmente  depressa ela pronunciou com um tom de voz que revelava ansiedade,  fazendo com as mãos um gesto disforme para exprimir a sua  impaciência. 

Esse tecido de linho deveria ter custado, no mínimo, dezoito libras  e seis xelins a jarda, calculou Joan. Era um preço verdadeiramente  exorbitante para aquela época. Bastava apenas que se procurasse saber  a quantia que o capitão Sherston entregava à sua esposa para a  manutenção da casa e para os gastos pessoais a fim de se ter uma idéia  do que estava por acontecer mais tarde... 

Na verdade, Joan pessoalmente nunca pôde gostar daquele  homem. Ela se recorda de tê-lo visto uma vez no seu gabinete lá no  banco discutindo planos de investimentos de ações. Sherston estava  sentado na sua mesa de trabalho, em frente dela. Ele era um tipo corpulento e cheio de vivacidade que parecia exsudar bonomia. Tinha  maneiras excessivamente afetadas. 

— Eu sou um homem do mundo, distinta senhora. Não faça uma  idéia de mim como se eu fosse simplesmente uma inexaurível máquina  de fabricar dinheiro, Eu gosto de jogar tênis e golfe, de dançar e de me  entreter numa rodinha de bridge. Os verdadeiros característicos da  minha personalidade a senhora encontrará, por exemplo, no camarada  alegre que toma parte nas reuniões sociais e não no funcionário  categorizado de um banco que, às vezes, se vê obrigado a dizer: “Chega  de saques a descoberto daqui para diante”. 

Ele não passava de um saco cheio de ar, de um paroleiro qualquer  metido a rompante e inflado de orgulho. Este foi o juízo que Joan fez  dele. Devia ter sido nessa mesma época que ele começou a falsificar a  escrita e a fazer trapaças. 

E dizer que todo mundo gostava dele! Afirmavam que ele era um  gerente de banco muito diferente dos outros. 

Pensando bem, esta afirmativa tinha, de fato, um certo viso de  verdade: só um gerente de banco muito diferente dos outros é que seria  capaz de apropriar-se fraudulentamente do dinheiro da sua instituição. 

Bem, de qualquer forma Leslie Sherston conseguiu os  revestimentos de linho estampado. Não que se queira insinuar com isso  que ela tenha compelido Sherston a praticar atos desonestos por ser  uma esposa extravagante e descontrolada nos gastos. Pelo contrário,  qualquer pessoa, observando Leslie Sherston, perceberia logo que ela  particularmente pouco proveito tirou desse dinheiro. Na verdade, para  ela o dinheiro não tinha grande significação. Coitada dela, quase  sempre usando o mesmo vestido de pano de lã axadrezado, já meio  gasto e puído. e capinando seu jardim. Quando saía para dar uma  voltinha pela redondeza, só andava a pé. Também nunca se preocupou  muito com a roupa dos filhos. Joan lembrou-se de uma tarde em que  Leslie Sherston servira o chá na sua casa, trazendo um pão bem  grande, um pacotinho de manteiga, doce de frutas feito em casa, as  xícaras e o bule de chá, tudo desordenadamente dentro de uma bandeja. 

Ela era um tipo de mulher negligente que se descuidava da sua  aparência mas andava sempre alegre e jovial. Quando caminhava, dava  a impressão de ter postura só de um lado. Da mesma forma ela parecia  mostrar feitio de face só num lado do rosto. Mesmo assim, aquele seu  sorriso unilateral era amável e toda gente gostava muito dela. 

Oh, sim, a pobre Sra. Sherston tinha uma vida triste e atribulada!  Joan fez um brusco movimento. Como foi que surgiu na sua  mente esta expressão: Vida triste e atribulada?

Estas palavras forçavam-na a evocar a lembrança de Blanche  Haggard (embora a desta última fosse um tipo de vida triste muito  diferente). 

E pensando em Blanche, ela inevitavelmente via-se compelida a  rememorar as circunstâncias que envolveram a doença de Bárbara e  isto poderia levá-la a um rumo inesperado capaz de lhe ocasionar  aflições. 

Ela olhou de novo o mostrador do seu relógio. Os tecidos de linho  e a pobre Sra. Sherston fizeram com que Joan despendesse meia hora,  no mínimo. E, agora, em que deveria ela pensar? Teria que ser algo  agradável e não bobagens que só causam perturbação de espírito.  Rodney poderia servir de assunto naquele momento. E era sempre com  grande prazer que a mente de Joan evocava a figura do seu marido. Ela  parecia vê-lo postado na gare da estação Vitória dando-lhe adeus no  instante da partida. 

Sim, o querido Rodney. Lá na plataforma ele permanecia  observando-a, com o sol batendo em cheio na sua face. Notavam-se nos  seus olhos sulcos profundos que se entrelaçavam nas extremidades das  pálpebras. Ele tinha os olhos de uma pessoa cansada. Olhos que  exprimiam profunda melancolia. (Não que Rodney fosse triste — pensou  Joan. Trata-se simplesmente de um artifício de linguagem para facilitar  a construção da frase. A gente não diz também que alguns animais têm  os olhos tristes?) Ele habitualmente usava óculos e por isso não se  podia notar a tristeza nos seus olhos. E não havia dúvida de que a sua aparência era a de um homem cansado. Também não era para menos.  Ele trabalhou tanto na vida. Praticamente ele nunca faltou ao serviço  nem um dia. Quando eu chegar de volta em casa vou modificar tudo.  Rodney deve dispor de mais tempo de lazer. 

Bem que eu deveria ter pensado nisso antes! 

Rodney, observado agora sob a intensa claridade da luz do sol,  parecia muito mais velho. Antes da partida do trem eles ficaram se  olhando durante um bom tempinho e depois trocaram as últimas  palavras que habitualmente se empregam para a estúpida saudação de  despedida. 

— Eu acho que em Callais você não precisará passar pelo posto  da alfândega. 

— Também acho que não. É bem provável que os passageiros  passem logo para o expresso de Simpson. 

— E lembre-se do transporte em Brindisi. Espero que o  Mediterrâneo esteja calmo e lhe propicie uma viagem agradável.  — Como eu gostaria de passar um ou dois dias no Cairo.  — E por que você não passa? 

— Queridinho, você bem sabe que eu não posso demorar por  causa de Bárbara. Existe serviço aéreo somente uma vez por semana.  — É verdade. Eu me havia esquecido disso. Soou o apito. Ele  sorriu para ela. 

— Cuide-se bem, minha pequena Joan! 

Goodbye! E que você não sinta muito minha ausência.  O trem arrancou, dando um solavanco. Joan puxou a cabeça para  dentro. Rodney acenava-lhe abanando o braço. Depois, com a agilidade  de um atleta, rodopiou na ponta dos pés, virando-se para ir embora.  Joan não pôde conter o impulso de debruçar-se mais uma vez  sobre a janela para observá-lo. Nesse instante ele estava subindo a  passos largos, bem empertigado, os degraus da escada da plataforma.  Ela sentiu um súbito tremor: pareceu-lhe que Rodney, de um  momento para outro, sofrera uma brusca mudança ficando muito mais  jovem. Caminhava com desenvoltura, a cabeça erguida e o busto bem ereto. Ela quase teve um choque... 

Teve a impressão de ter visto um jovem despreocupado e feliz  subindo os degraus da plataforma e não o pobre Rodney com a carcaça  toda encarquilhada. 

Este fato trouxe-lhe à lembrança o primeiro encontro que ela  tivera com Rodney Scudamore. Ela havia sido apresentada a ele num  jogo de tênis. Não demorou muito e eles penetraram na quadra para a  competição. 

Ele perguntou-lhe: 

— Sou eu quem vai jogar junto à rede? 

Foi aí que ela, observando-o atentamente, viu como ele se  movimentava a passos largos, bem empertigado. Achou que Rodney  tinha um lindo dorso de atleta... Admirava a sua maneira de andar, o  formato da sua cabeça e do seu pescoço. 

Lá na quadra de tênis, de repente ela ficou nervosa: cometera  duas faltas no jogo e começou a sentir calor e a ficar aborrecida.  Rodney virou a cabeça e procurou encorajá-la, sorrindo-lhe com  aquele sorriso amável que lhe era tão peculiar. 

Que jovem atraente era ele! 

Foi assim que Joan começou a enamorar-se dele. 

Observando da janela do trem já em movimento a desenvoltura  com que Rodney caminhava até desaparecer no meio da multidão,  forçosamente Joan não podia deixar de evocar aquele dia de verão em  que tivera o seu primeiro encontro com ele na quadra de tênis. Fazia já  tantos anos! 

Mas... agora Rodney, de um momento para outro,  inesperadamente, passou a caminhar com agilidade, parecendo até que  o peso dos anos fora sacudido e que ele se tornara novamente um jovem  esbelto e vaidoso. 

Parecendo até que o peso dos anos fora sacudido do seu lombo! Subitamente ela, em pleno deserto, com o sol abrasador batendo lhe em cheio, sentiu um calafrio a perpassar-lhe pelo corpo...  “Não... não quero mais continuar pensando nisso...” — exclamou

ela como que monologando. 

Vejam só! Rodney subindo os degraus da plataforma a passos  largos, bem empertigado, com a agilidade de um atleta. Até parecia que  a sua corcova tivesse desaparecido como que por encanto, deixando-o  aliviado de uma pesada carga. 

Pensando bem, por que deveria ela estar rememorando ali esse  fato? É claro que ela só estava imaginando coisas... coisas sem  fundamento. Foram seus olhos que a enganaram, pregando-lhe uma  peça... 

Mas por que será que ele não esperou o trem tomar uma certa  distância? Bem, em todo caso... 

Será que ele poderia mesmo ter permanecido um pouquinho mais  na gare? Também é preciso dizer que ele tinha alguns negócios urgentes  para resolver em Londres. E além disso há gente que não gosta de  presenciar a partida de um trem quando viaja uma pessoa amada. 

Mas seria possível que qualquer criatura fixasse melhor do que  ela a postura elegante do dorso de Rodney e a sua agilidade?  Bobagem! Pura imaginação!  

Ponto final! Não é pensando agora no caso que ela poderia  melhorar a situação. 

Quem imagina coisas assim é porque já tinha na cabeça idéias  desvirtuadas da realidade. 

Nada do que ela imaginava podia ser verdade. Ela estava tirando  certas conclusões que absolutamente não tinham nenhum fundamento.  Era como se ela própria dissesse a si mesma (então não era ela  própria que imaginava tudo isso?!) que Rodney se sentia alegre e  satisfeito porque ela estava indo embora. 

E isso absolutamente não podia ser verdade!

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS