Já havia escrito três
cartas e a tinta da sua caneta secara. Só então foi que ela se deu conta de que
havia quase terminado com o seu bloco de cartas. Esta ocorrência lhe causou um
pouco de desgosto. Havia ainda muitas
outras pessoas para as quais ela poderia escrever. Entretanto, pensando bem, se tornava monótono
demais, depois de um certo tempo, só ficar escrevendo: “Aqui há sol e areia. E
que delícia ter tempo para descansar e meditar!” O que ela dizia era a pura
verdade, mas não há quem não se canse de tentar exprimir por meio de palavras
sempre a mesma coisa de maneira diferente. . . Pois, na verdade, as condições
do ambiente não propiciavam nada mais de importante para descrever-se.
Bocejou. O sol a havia
deixado um pouco sonolenta. Depois do almoço iria deitar-se para dormir.
Levantou-se e, devagarinho, foi caminhando de volta à casa de pernoite.
Desejaria saber o que Blanche estaria fazendo a estas horas. Sem dúvida ela já
deveria ter chegado a Bagdá e se juntado ao seu marido. A expressão seu marido, no caso, lhe soava de
maneira até repulsiva.
Pobre Blanche! Como ela
decaiu horrivelmente na vida perdendo a sua posição social e estando metida,
agora, nesta parte do mundo. Se aquele Sujeitinho de boa aparência, aquele tal
Harry Marston, o veterinário, nunca tivesse cruzado na sua vida e se ela
tivesse encontrado um homem bom e atraente como Rodney, muito outra seria a sua
situação... Blanche mesma não disse que Rodney era muito charmoso? Sim ela
disse isso ou coisa parecida. Como foi mesmo que ela disse? Parece-me que ela
comentou que Rodney tinha o olhar sempre “irrequieto de galanteador”. Que
bobagem! O que ela disse não tem fundamento. Rodney nunca foi assim. Nunca.
Onde já se viu Rodney com o olhar irrequieto de um conquistador!
Nesse instante perpassou-lhe
pela mente a mesma visão que ela tivera na noite passada, parecendo vislumbrar
aquela faixa atravessando-se na sua frente, só que desta vez serpenteando mais
devagar.
A JOVEM RANDOLPH...
“Realmente — pensou Joan
um tanto perturbada e procurando acelerar os seus passos, como se quisesse
tomar a dianteira a algum pensamento importuno que insistisse em acompanhá-la —
não posso nem imaginar o motivo por que me vem este pensamento da jovem
Randolph! Não há razão alguma para isso. Eu é que fico imaginando coisas como
se Rodney...”
Não, é melhor não dizer
mais nada. A minha idéia não tem nenhum fundamento. Nunca houve nada.
Acontece simplesmente que
Myrna Randolph era um tipo de moça que... que inspira cuidados à mulher que zela
pelo que lhe pertence. Era um tipo de
morena de porte bem avantajado e de aspecto exuberante, que, quando agradava de
algum homem, não tinha pejo em propalar o fato.
Falando a pura verdade,
ela havia feito alguns galanteios a Rodney, tentando requestá-lo. Foi logo
dizendo que era maravilhoso e encantador. Ela sempre queria tê-lo como
companheiro no jogo de tênis. Nas
reuniões sociais tinha o hábito de ficar parada durante longo tempo,
devorando-o com os olhos.
Como é natural, Rodney
não deixava de sentir-se lisonjeado com a atitude dela. E qual é o homem que
não se sente lisonjeado em tais circunstâncias? Realmente teria sido até muito
ridículo se Rodney não tivesse ficado orgulhoso e desvanecido com as atenções
que lhe dispensava essa moça, que tinha alguns anos menos do que ele e que era
considerada a jovem de mais bela aparência na cidade.
Joan começou a pensar com
os seus botões: “Se eu não tivesse usado de esperteza e de tato desde o
princípio...”
Passou, então, a rememorar com uma crítica retrospectiva a atitude que tomara para contornar a situação. E não há dúvida de que ela se saiu muito bem.
Toca a campainha.
— Sua amiguinha está
esperando por você, Rodney. Não a deixe ficar esperando muito tempo... Myrna
Randolph, evidentemente... Oh, queridinho ela é assim... Realmente em certas
ocasiões ela se torna até ridícula.
Rodney murmurou:
— Não quero jogar tênis com
essa moça. Ela que procure tomar parte noutra equipe...
— Mas agora não seja
indelicado, Rodney. Você tem que jogar com ela.
Exatamente esta é que era
a maneira mais acertada de lidar com eles. Delicadamente. Brincando.
Demonstrando compreender que a atitude deles não devia ser levada a sério.
Mas é claro que não
deixariam de ser agradáveis para Rodney as investidas da moça, embora ele
fingidamente dissesse que as reprovava.
Às vezes ele até chegava a rosnar simulando irritação...
Myrna Randolph era o tipo
de jovem que praticamente todos os homens achavam atraente. Ela era inconstante
e até mesmo tratava seus admiradores com desprezo. Dizia-lhes palavras ásperas
e depois procurava atraí-los de novo para perto de si, lançando-lhes, de
esguelha, um rápido olhar brejeiro.
Realmente — assim pensava
Joan — ela, por causa do seu ardor sensual fora do comum, deve ser considerada
a moça mais detestável daquele meio.
Ela tinha feito todo o
possível para estragar a vida conjugal de Joan.
Entretanto, ela não
culpava Rodney pelo que acontecera, não! A moça é que era culpada de tudo...
Ora, os homens, quando embalados pela lisonja, não podem conter a explosão de
uma certa empáfia.
O período de dez anos é considerado pelos escritores entendidos no assunto a fase mais perigosa da vida conjugal. É a fase em que tanto o marido como a mulher podem manifestar ressaltada tendência para sair dos trilhos. E quanto tempo fazia, então, que Rodney estava casado? Dez anos? Onze anos? O casal estava ainda dentro dessa fase braba que deve ser levada com muita cautela.
Só envidando o máximo de
esforços para superar as dificuldades surgidas é que o casal conseguirá
restabelecer o equilíbrio e a tranquilidade no lar.
Ela e Rodney tiveram...
Não... Ela nem deve
falar. Na verdade, ela nunca o culpou nem mesmo naquele dia em que ela
surpreendeu a ambos beijando-se... Isto
aconteceu debaixo do caramanchão de visgueiros.
E a moça teve o descaramento de dizer, logo que entrou no gabinete de
Rodney.
— Estávamos inaugurando o
caramanchão, Sra. Scudamore. Suponho que
a senhora não se importa...
Joan se lembra
perfeitamente de como não perdeu a cabeça naquele momento e nada deixou
transparecer.
— Bem, agora solte o meu
homem, Myrna, e vá procurar outro bonitão por aí afora...
Então, rindo, ela foi
empurrando Myrna para fora da sala, dando a impressão de estar levando tudo na
brincadeira.
Depois que Myrna saiu, Rodney lhe disse:
— Sinto muito, Joan, mas
ela não passa de uma rapariga que só possui alguns atrativos. E estamos no dia
de Natal...
Ele continuou na sala
rindo e zombando da moça. Desse modo ele procurava desculpar-se. Mas não
demonstrava absolutamente estar embaraçado ou perturbado. Procurava dar a
entender que o caso realmente não
passava disso...
E disso não passaria de
forma alguma dali por diante. Esta foi a resolução que ela tomara
energicamente, Joan faria tudo para evitar que Myrna Randolph se atravessasse
no seu caminho. Quando chegou a Páscoa, Myrna já havia ficado noiva do jovem
Arlihgton.
Desse modo, todo o incidente deu exatamente em nada. Talvez o caso tivesse sido divertido só para Rodney. Mas não teve maiores consequências. Pobre velho Rodney! Ele precisava realmente de um pouco de divertimento. Ele trabalhava tanto...
Dez anos! É
indubitavelmente uma fase perigosa... tanto assim que até ela própria teve um casinho que lhe trouxe algumas
inquietações. Como ela se lembra direitinho de tudo!
Foi com aquele jovem de
aspecto romântico, aquele pintor. — Como
era mesmo o nome dele? Ela já não se lembrava mais. Não teria ela, de fato,
começado a se apaixonar pelo jovem?
Joan, pensando nesta
ocorrência, teve que admitir ter sido um pouco imprudente...
O pintor ficara deveras
apaixonado. Então passou a fitá-la com um olhar cheio de ternura. Lá um belo
dia ele perguntou se Joan não queria posar para ele no seu estúdio. Era um
pretexto, evidentemente.
Ele chegou a fazer um ou
dois retratos dela a crayon, depois
rasgou-os dizendo que não devia conservar
o seu semblante para exibição aos fregueses.
Como Joan se sentira lisonjeada com isso!
“Pobre rapaz, como ele
está ficando caído de amor por mim!” —
Pensou Joan.
Sim, não há como negar,
ela teve a oportunidade de sentir, durante um mês inteirinho, uma grande
satisfação íntima, muito embora este seu casinho
tivesse tido um epílogo meio embaraçoso...
Nada saiu conforme ela esperava.
De fato, Michael Callaway
(exatamente este era o seu nome:
Callaway!) revelou-se um tipo de indivíduo que não era lá muito
satisfatório.
Eles haviam saído para
fazer juntos uma caminhada em Harling Woods, ao longo do Medaway que, provindo
das elevações de Asheldown, fazia o seu curso dando muitas voltas. Ela não poderá
esquecer tão facilmente assim o momento em que Michael Callaway lhe fez o
convite para esse passeio, com uma voz rouca, demonstrando acanhamento e
desconfiança.
Ela, é claro, começou logo a fazer prognósticos sobre a provável
conversa que surgiria
entre ambos. Talvez ele quisesse dizer a Joan que a amava. Ela forçosamente
teria que ser delicada, gentil e compreensiva para com ele, embora sem deixar
de mostrar-se um pouco — um pouquinho só! — pesarosa e arrependida. Ela pensou
logo em tantas coisas encantadoras para dizer a Michael... coisas que, no
futuro, ele sempre haveria de lembrar prazerosamente.
Entretanto este encontro
não foi como ela esperava. Saiu tudo às avessas.
Michael Callaway, de
repente, sem mais nem menos, agarrou-a fortemente, beijando-a com uma violência
tão impetuosa e brutal que quase a sufocou. Depois de largá-la, exclamou em voz
baixa como que a exprimir sua satisfação:
— Meu Deus, como eu desejei isso!
Em seguida começou a
encher o seu cachimbo numa atitude que denotava absoluta tranquilidade e
indiferença, permanecendo aparentemente insensível às censuras de Joan, que lhe
falava indignada e cheia de raiva.
Mas ele, bocejando e
espreguiçando-se com os braços esticados, respondeu simplesmente:
— Agora, estou me sentindo melhor.
Joan se lembrava muito
bem de que ele pronunciou esta frase cheio de alívio, como um indivíduo sedento
depois de ter bebido um copo de cerveja num dia de calor abrasante.
Após esta cena ambos
voltaram para casa em silêncio — ou, melhor dizendo, só Joan estava silenciosa
e quieta, porque ele fazia um verdadeiro alarido, experimentando cantarolar uma
melodia qualquer.
Foi somente quando
atingiram a orla da floresta, um pouco antes de surgir a estrada alta para
Crayminster Market Way, que ele se deteve um pouco e passou a examiná-la
calmamente, dizendo-lhe:
— Você sabia que é o tipo
de mulher que deve ser violentamente arrebatada? Isto lhe faz muito bem...
E, enquanto ela
permanecia na sua frente enfurecida e perplexa, sem pronunciar uma palavra
sequer, ele continuou:
— Até que eu gostaria
mesmo de tê-la raptado, para ver se você depois iria mudar, embora ficando
diferente só um pouquinho. Dito isto,
ele saiu caminhando em direção à estrada alta e, tendo desistido de cantarolar,
principiou a assobiar, satisfeito e alegre.
Evidentemente, depois desta ocorrência ela nunca mais falou com ele.
Alguns dias mais tarde ele saiu de Crayminster. O que houve foi, sem dúvida
alguma, um incidente desagradável que poderia ter-lhe trazido algumas
inquietações.
Além do mais, não se
tratava de um incidente que Joan tivesse interesse em recordar. Pelo contrário,
ela até estava admirada de ter-se lembrado do fato precisamente agora, numa
situação dessas.
Foi um acontecimento
horrível. Bem que ela queria extirpá-lo da memória para sempre. Afinal, quem
gostaria de rememorar coisas desagradáveis, dispondo de sol e areia para fazer
um descanso reparador? Havia tantas coisas agradáveis e estimulantes em que ela
poderia pensar.
O almoço talvez já
estivesse pronto. Ela olhou mais uma vez o relógio, mas faltava ainda um quarto
para uma.
Logo que chegou à casa de
pernoite, dirigiu-se imediatamente ao seu quarto a fim de verificar se, na sua
valise, ainda havia alguns papéis de carta. Não havia mais nada. Oh, não tinha
a menor importância! Ela já estava cansada de tanto escrever. Não havia muita
coisa para contar. Qualquer pessoa se enfada facilmente quando fica a repetir
sempre as mesmas frases. Quais os livros que ela havia trazido na mala? Lady Catherine, naturalmente. E uma
estória policial que William lhe dera antes da despedida. Foi muita gentileza
da parte dele, mas ela realmente não se interessava em estórias desse gênero. Além
desses dois, ela havia trazido, também, The
Power House, escrito por Buchan. Seguramente era um livro muito antigo. Já
fazia anos que ela o havia lido.
Bem... mas ela poderia
comprar mais alguns livros na estação de Aleppo.
O almoço consistiu de omelete (um pouco dura e frita demais),
ovos preparados num molho
de especiarias, um prato de salmão (enlatado), feijão cozido no fogão da casa e
pêssegos (enlatados). Tratava-se de uma
refeição um pouco pesada para digerir.
Depois do almoço Joan foi deitar-se.
Dormiu durante uns três
quartos de hora. Logo que se despertou começou a ler o livro de Lady Catherine Dysart. Ficou entretida com
essa leitura até a hora do chá.
Tomou o chá com leite
(enlatado), acompanhado de biscoitos.
Depois saiu para espairecer um pouco, caminhando ali por perto, mas em
seguida voltou a entreter-se com a leitura do livro de Lady Catherine Dysart.
Mais tarde lhe foi
servido o jantar: omelete, salmão cozido no forno com arroz, um prato de ovos e
damascos enlatados. Só aí foi que ela começou a ler a estória policial.
Terminou de ler completamente o livro um pouco antes de ir para a cama.
O hindu apareceu na porta
do quarto com o semblante alegre. — Boa
noite, Memsahib! Trem chega amanhã de
manhã às sete e meia, mas não partirá antes da noite. Às oito e meia.
Era mais um dia que ela
teria de passar naquele local. Ela dispunha ainda do The Power House para ler. Pena que fosse um livro tão pequeno.
Então ocorreu-lhe perguntar ao hindu:
— Chegarão alguns
passageiros com o trem? Mas eles sem dúvida seguirão imediatamente para Mosul,
não é verdade?
O homem balançou a cabeça.
— Não amanhã. Eu acho que
não. Nenhum carro chega hoje. Acho que
estrada para Mosul está muito ruim. Carros ficam atolados muitos dias.
Joan sentiu um vislumbre
de alegria, recobrando um pouco o ânimo. Só assim os passageiros teriam que
descer do trem e hospedar se também na casa de pernoite. Não deixava de ser uma
circunstância agradável, pois desse modo certamente ela encontraria alguém com
quem pudesse conversar.
Deitou-se sentindo-se mais disposta do que estava dez minutos antes. No quarto, o ar estava impregnado de um fétido quase insuportável. Só podia ser o horripilante cheiro de gordura rançosa. Na manhã seguinte ela despertou às oito horas. Levantou-se logo em seguida e vestiu-se. Foi diretinho ao refeitório. Uma única mesa havia sido posta. Ela chamou o hindu, que apareceu logo. Sem poder ocultar o seu nervosismo, ele foi logo dizendo:
— Trem não vem, Memsahib.
— Não vem?! Você quer dizer que ele está atrasado?
— Trem parou de fazer
viagem. Fortes chuvaradas caíram sobre os trilhos. Na outra banda de Nissibin.
Estrada de ferro está coberta pela água. Trem não pode rodar durante três,
quatro, cinco... talvez seis dias.
Joan encarou-o aflita.
— Mas então que é que eu devo fazer?
— A senhora fica aqui, Memsahib. Bastante comida, bastante
cerveja, bastante chá. Tudo muito lindo. A senhora fica aqui até trem vir.
“Santo Deus, como são
esses orientais! O tempo não significa nada para eles” — pensou Joan. Ela
perguntou-lhe:
— Será que eu não poderia
conseguir um carro? Ele pareceu até ter achado engraçada esta pergunta.
— Automóvel? Como pode a
senhora conseguir automóvel? Estrada
para Mosul muito ruim. Carro fica atolado no rio. — Será que você não poderia telefonar?
— Telefone onde? Só na
linha turca. Turco é povo difícil para lidar. Não faz nada. Turco só conduz
trem.
Joan, agora fazendo troça
de si própria por haver achado agradável o lugar, começou a convencer-se de que
ela se encontrava num ambiente completamente isolado da civilização. Não havia
telefones, nem telégrafo, nem carros.
O hindu, tentando confortá-la, ponderou:
— Tempo muito lindo! Bastante comida. Tudo muito confortável. Realmente — refletiu Joan — o tempo é muito agradável. E isto constitui uma felicidade. Como seria horrível se ela durante todo o dia só tivesse que ficar dentro de casa.
Como se tivesse lido o
pensamento dela o hindu prosseguiu: —
Tempo sempre bom aqui. Chuvas muito raras. Só chove perto de Mosul. Lá chuva
tapa estrada de ferro.
Joan sentou-se na mesinha
que estava posta e ficou esperando que lhe trouxessem a refeição. Já tinha
superado aquela aflição ocasionada pelo impacto da notícia. Nada adiantaria
ficar nervosa e fazer espalhafato. Um transtorno desses realmente não era de se
esperar. Entretanto já não se podia mais evitar que houvesse perda de tempo.
Joan, com os lábios
distendidos num sorriso inexpressivo, pensou consigo mesma: “Até parece que
está acontecendo exatamente como eu dissera a Blanche que gostaria que
acontecesse. Lembro-me de que eu lhe declarei que ficaria muito satisfeita se
viesse a ter um prolongado período de descanso para acalmar os meus nervos. E
não é que esta oportunidade me surge agora! Aqui não há nada para fazer. Nem
mesmo livro algum para ler. Certamente esta situação deve ser boa para mim.
Terei a oportunidade de fazer uma cura repousando no deserto”.
A lembrança de Blanche
evocava-lhe por associação de idéias um pensamento desagradável... Algo que ela
definitivamente não queria recordar.
Afinal, por que ficar pensando em Blanche, agora?
Depois da refeição ela
saiu da casa. Como da outra vez, caminhando, percorreu uma razoável distância e
depois sentou-se naquele chão de areia. Ficou sentada durante um bom tempinho em
absoluta calma, conservando os olhos semicerrados.
É maravilhoso — pensou
ela — sentir esta paz e esta calma como que a inundar a alma. Joan simplesmente
sentia o bem que isso lhe estava fazendo. O ar saudável, o agradável calor do
sol, a calma reinante, tudo lhe propiciava uma grande satisfação.
Permaneceu assim bastante
tempo. Depois olhou o mostrador do relógio. Passavam dez minutos das dez. Como
a manhã estava
passando ligeiro!
Não seria bom que ela
escrevesse algumas linhas a Bárbara?
Realmente, como foi que ela não teve idéia de escrever, a Bárbara ontem
ao invés de rabiscar aquelas cartas tolas e sem fundamento para as suas amigas
na Inglaterra?
Pegou o bloco e a caneta e começou a escrever:
“Querida Bárbara.
A minha viagem não está
sendo muito feliz. Perdi o trem que deveria partir na noite de segunda-feira e
agora, ao que parece, terei que
permanecer aqui durante dias. É um lugar muito calmo e o sol é agradável. Por
isso eu me sinto bem feliz...”
Fez uma pausa. Que mais
deveria ela dizer? Algo acerca do bebê?
Falar sobre William? Mas que será que Blanche quis insinuar quando disse:
“Não fique preocupada com Bárbara?” Era exatamente por isso que Joan não queria
pensar em Blanche. Blanche fez certos comentários a respeito de Bárbara de
maneira tão esquisita... Ela falou como se Joan, a mãe de Blanche, não soubesse
de tudo o que se passava com a sua própria filha.
Estou certa de que tudo
vai ficar bem agora.
Esta frase não
significará que de fato houve algo de anormal? Mas como? Parece que Blanche
comentou que Bárbara se casara muito jovem ainda. Joan, apreensiva, começou a
agitar-se. Ela se lembrou de que na época do casamento de Bárbara, Rodney havia
dito algo parecido. Ele, subitamente e de maneira pouco habitual, declarou
peremptoriamente:
— Não estou contente com este casamento, Joan.
— Oh, Rodney, mas por
quê? William é tão amável e ambos parecem combinar muito bem.
— Não digo o contrário.
Ele é um rapaz amável e bastante jovem, mas Bárbara não o ama, Joan!
Ela chegou a ficar
perplexa, completamente estupefata ante tal afirmativa do marido.
— Rodney, sinceramente,
que ridícula é essa idéia! É evidente que ela o ama. Se não fosse assim por que
então ela se decidiu a casar com ele?
Rodney passou a
responder-lhe de maneira um tanto obscura:
— É exatamente por isso que eu tenho medo. Por causa dessa decisão que
ela tomou.
— Mas, queridinho, será
que você não está sendo um pouco ridículo?
Parecendo não ter
percebido o tom de voz brando e delicado com que Joan propositadamente se
expressara, ele retrucou: — Se ela não o
ama, não deve absolutamente casar-se com ele.
Bárbara é muito jovem para isso e, também, excessivamente temperamental.
— Bem, Rodney, que é que
você sabe com relação ao temperamento das pessoas?
Nada adiantou ter ela
procurado tornar-se alegre e divertida pois Rodney nem sequer fez esboço de um
sorriso. Ele continuou: — Muitas vezes
as moças se casam só para poderem sair de casa.
Ante tal afirmativa, Joan não pôde conter uma risadinha e retrucou-lhe:
— Mas não de uma casa
como a de Bárbara! E digo isso porque moça alguma jamais teve um lar tão feliz
como o de Bárbara. — Você realmente
pensa assim, Joan?
— Por que deveria eu
pensar o contrário? Aqui fazemos tudo o que é possível para a felicidade de
nossos filhos.
— Não me parece que
nossos filhos tenham o prazer de convidar seus amigos com muita frequência...
— Ora, queridinho, eu
sempre faço reuniões aqui em casa e convido os jovens. Coloco um ponto final
nesta conversa dizendo que era Bárbara que não gostava que eu fizesse recepções
e não queria que eu convidasse as pessoas...
Rodney sacudiu a cabeça denotando descontentamento. Mais tarde, ainda nesse mesmo dia, Joan entrou no quarto de Bárbara e ouviu que ela exclamava impaciente:
— Não dá, papai! Já
resolvi ir embora. Não posso ficar aqui por mais tempo. E não me aconselhe a
sair para procurar trabalho nalgum outro lugar que eu não gosto disso!
— Mas, afinal, por que
todo esse barulho? — perguntou Joan.
Após uma diminuta pausa, Bárbara, com a face enrubescida, passou a
explicar-lhe:
— Eu estava gritando
porque papai sempre acha que compreende a minha situação melhor do que eu. Ele
quer que eu prolongue o meu noivado por alguns anos. Respondi-lhe que eu não posso
fazer isso e que eu quero me casar com William a fim de ir embora para
Bagdá. Acho que lá é uma verdadeira
maravilha.
— Oh, minha querida —
respondeu-lhe Joan —, eu não queria que você fosse tão longe assim. Gostaria de
ter você sob os meus olhos como sempre a tive até agora.
— Oh, mamã!
— Bem compreendo,
queridinha, o seu desejo... Mas você nem pode fazer idéia de como é tão jovem
ainda... e tão inexperiente. Eu poderia ajudá-la muito se você não fosse morar
tão longe. Bárbara sorriu e
respondeu-lhe:
— Bem, eu própria terei
que remar para conduzir o meu barco, sem poder valer-me da sua experiência e da
sua sabedoria... E enquanto Rodney,
devagarinho, ia saindo do quarto, ela correu apressada para perto dele.
Abraçou-o fortemente dizendo-lhe: —
Papaizinho querido. Querido, querido, querido... Realmente — este foi o
raciocínio de Joan —, a menina está se tornando muito efusiva na demonstração
do seu afeto. Mas de qualquer forma ficou provado que a suposição de Rodney
estava errada. Bárbara regozijava se com a idéia de ir para o Oriente Próximo,
acompanhando o seu querido William. E como era comovente observar o lindo par enamorado
fazendo os seus planos para o futuro!
Era até bem surpreendente e estranho o fato de se ter propalado através de toda Bagdá o comentário de que Bárbara havia sido infeliz no seu lar. Mas Bagdá parece ser uma cidade onde os boatos sem fundamento se propalam com muita facilidade. São tantos os falatórios, que dificilmente uma pessoa gosta de referir-se a qualquer outra. O major Reid, por exemplo.
Joan, pessoalmente, nunca
se encontrara com o major Reid mas ele era sempre muito citado nas cartas que
Bárbara lhe escrevia. “Major Reid esteve aqui em casa jantando conosco. Fomos
praticar tiro ao alvo com o major Reid” — e assim por diante.
Bárbara, durante os meses
de verão, passou em Arkandous. Lá ela e outra jovem senhora casada alugaram um
chalé em sociedade. O major Reid na mesma época também se dirigiu àquela
localidade. Eles tiveram uma competição de tênis em Arkandous. Por fim, Bárbara
e ele, no clube local, venceram a dupla formada por sócios da própria entidade.
Desse modo nada havia de
espantoso no fato de Joan ter feito indagações acerca do major Reid. Tanto ela
ouvira falar a respeito dele que já não mais podia conter a sua ânsia de
conhecê-lo.
Foi realmente ridículo e
absurdo o embaraço causado por esta sua pergunta. Bárbara empalideceu
bruscamente e William enrubesceu. Decorridos alguns segundos, ele respondeu com
um tom de voz bem esquisito, parecendo estar grunhindo:
— Nada sabemos a respeito dele agora.
A maneira como ele se
expressou foi tão estranha que Joan resolveu não mais prosseguir com suas
indagações. Contudo, mais tarde, depois que Bárbara já havia ido para a cama,
ela voltou ao assunto dizendo sorridente e com um certo fingimento que lhe parecia
ter feito momentos antes uma pergunta com relação ao major Reid, o qual ela
julgava ser um amigo íntimo da família.
William levantou-se da
cadeira e, como que maquinalmente, começou a bater de leve no seu
cachimbo.
— Nada sei — respondeu
ele vagamente. — Apenas praticamos juntos tiro ao alvo algumas vezes e nada
mais. Já faz muito tempo que não ouvimos falar a respeito dele.
Joan percebeu
imediatamente ter havido entre eles algo que não deu certo. Ela sorriu ao ver
como os homens deixam transparecer tudo facilmente. Chegou até a achar
engraçada e bem antiquada a atitude reticente de William. Provavelmente ele supunha
— pensou Joan — que ela fosse uma mulher excessivamente austera e imbuída do
espírito de um rígido puritanismo — enfim, que ela fosse uma verdadeira sogra cônscia do seu papel.
Então disse ela:
— Já sei. Houve algum escândalo.
—Que é que a senhora quer
insinuar? — perguntou William voltando-se para ela sem poder ocultar a sua
irritação. — Meu caro rapaz (Joan
sorriu-lhe), a gente nota logo pela sua maneira de expressar-se. Acho que você
descobriu, a respeito desse homem, algo que o forçou a interromper suas
relações com ele. Oh, não mais farei
perguntas a respeito dele. Eu bem sei que às vezes surgem casos que são constrangedores.
William passou a falar
lentamente, como que pesando as próprias
palavras:
— Sim... sim, a senhora
tem razão. Há casos que são de fato constrangedores.
Joan prosseguiu:
— A gente sempre deve
procurar os amigos levando em conta o
valor e a dignidade que eles possuem. Mas sei que é realmente desagradável quando se descobre que uma
determinada pessoa considerada amiga não
presta.
— Ele já saiu deste país,
felizmente. Foi para a África Oriental.
Subitamente Joan se lembrou de alguns fragmentos de conversa que ouvira no Alwyah Club. Era uma conversa
que se relacionava com a ida de Nobby
Reid para Uganda.
Disse uma das mulheres
que estavam ali conversando: — Coitado do
Nobby! Ele não tem culpa de ser perseguido por
essas jovens idiotas que correm atrás dele procurando requestá-lo à força com seus galanteios.
Uma outra mulher mais
idosa soltou uma gargalhada e retrucou
cheia de rancor:
— Ele levou junto para
Uganda uma boa carga de culpas na
consciência. De jovens meigas e ingênuas é que ele gosta. Dessas pobres mulheres recém-casadas, jovens e
inexperientes ainda. Mas devo admitir
que ele emprega uma técnica admirável. Torna-se terrivelmente simpático e sedutor. A jovem fica pensando
que ele de fato a ama apaixonadamente.
Mas enquanto a inocente bobinha pensa que ele
anda caído de amores para o lado dela, ele já anda tratando de encontrar uma outra ingênua para iludir.
— Bem, seja lá como for —
obtemperou a primeira mulher —, nós
todas vamos sentir falta dele. Ele era tão divertido!
A outra interlocutora
soltou uma nova gargalhada e disse: — Há
aqui nesta cidade um marido ou dois que não ficaram nada aborrecidos com a saída do simpático
conquistador. Falando a pura verdade,
quase nenhum homem gostava dele.
— Realmente, nesta cidade ninguém o suportava.
— Púúú!! — fez a segunda
mulher e começou a falar baixinho como
se estivesse segredando algum fato sigiloso à outra. Dali por diante Joan não pôde entender mais nada.
Ela, naquele dia, não
ligou muita importância a essa conversa
que, agora, inesperadamente lhe surgia na lembrança. Se William
nada quis responder quando ela indagou a
respeito do major Reid, Bárbara devia
ter-se mostrado menos reticente. Entretanto foi a própria Bárbara, demonstrando um certo desagrado no
seu tom de voz, que declarou:
— Eu não quero falar a
respeito dele, mamã. A senhora me
entendeu?
Joan passou a refletir
que Bárbara, enquanto ela permaneceu na
casa dela, não quis nunca falar a respeito de nada. Sua filha fora incrivelmente reservada quanto à doença que a
prostrara e mostrava-se sensível e
irritadiça quando Joan lhe indagava sobre a possível causa dos seus incômodos.
Respondia quase sempre
com evasivas dizendo apenas que tudo
começara com uma espécie de envenenamento. Joan naturalmente supôs que se tratava de envenenamento
ocasionado por alimentos deteriorados ou
coisa semelhante, mesmo porque as intoxicações pela ptomaína são muito comuns nos climas quentes.
Mas tanto William como Bárbara se
esquivavam de entrar em maiores detalhes. Até o
próprio médico ao qual ela se dirigira na sua qualidade de mãe de Bárbara se mostrou taciturno, reservado e
pouco comunicativo. O principal cuidado
do médico era salientar, empregando veemência nas suas palavras, que a Sra. Wray não devia ser
interrogada acerca dos seus incômodos e
nem forçada a falar sobre eles.
— Ela só precisa, agora,
de muito carinho para recuperar-se. Nada
adianta querer saber o porquê dos seus males. Insistir com tais indagações não seria nada bom para a doente.
Esta é apenas uma sugestão que eu lhe
estou dando, Sra. Scudamore.
Joan achou que o médico
fora pouco amável mostrando-se
inflexível. Ele devia ser mais compreensivo para uma devotada mãe
que, ao saber da doença da filha, se
abalara a toda pressa de lá da
Inglaterra.
Oh, sim, mas em todo caso
Bárbara ficou muito agradecida à sua
mãe. Pelo menos esta era a suposição de Joan. Sua filha lhe
externara seus agradecimentos com
palavras ternas.
Quando Joan disse que
gostaria de ficar com eles mais alguns
dias, William respondeu-lhe que este era seu desejo também. Foi ela própria que pediu que eles não insistissem
com ela para ficar porque, embora muito
desejasse passar o inverno em Bagdá, ela não poderia esquecer-se de que havia também o pai de
Bárbara. Não seria correto deixá-lo
sozinho na Inglaterra.
Bárbara, com uma voz
lânguida, quase sumida, exclamou: —
Querido papai!
Só depois de decorridos
alguns segundos foi que ela disse: —
Escute, mamãe; por que é que a senhora não fica?
— Pense também no seu pai, queridinha!
Bárbara retrucou com um
tom de voz um tanto áspero — como era,
aliás, do seu hábito fazer às vezes — que ela nunca deixava de pensar nele.
Aí, então, Joan ponderou
mais uma vez que ela não podia deixar o
pobre Rodney entregue aos criados.
Alguns dias antes da sua
partida da casa de Bárbara, houve um
momento em que Joan quase mudara de idéia tendo resolvido permanecer ali pelo menos mais um mês. Mas
William lhe fez muitas ponderações
enumerando as dificuldades que poderia acarretar-lhe uma viagem através do deserto, feita durante
a estação chuvosa. Então ela ficou
pressurosa e achou que seria melhor mesmo iniciar a viagem de regresso no dia marcado anteriormente.
Depois disso, William e Bárbara passaram
a cercá-la de tantas amabilidades que ela quase
esteve a ponto de mudar de idéia novamente — mas não chegou a revelar esta sua intenção.
Por mais atraso que ela
tivesse tido em sair de Bagdá nada de
pior do que esta situação lhe poderia acontecer.
Joan deu mais uma olhada
no seu relógio. Faltavam cinco minutos
para as onze. Pareceu-lhe até ser quase impossível que alguém pudesse rememorar tantas coisas em tão pouco
tempo.
Ela, naquele instante,
lamentou não ter trazido junto The
Power House. Entretanto, como era o
único livro de que ela dispunha para ler,
achou melhor deixá-lo de reserva.
Faltavam ainda duas horas
para o almoço. Ela havia dito que
desejava nesse dia almoçar à uma hora. Talvez seria melhor que ela caminhasse um pouco. Mas também que estupidez
ficar andando por ali a esmo sem ter
nenhum lugar designado para onde dirigir-se.
E o sol já estava bem quente.
Bem... mas quantas vezes
não desejara poder dispor de um pouco de
tempo para dedicar-se exclusivamente a si própria, meditando sobre a sua vida. E agora — melhor do que nunca —
lhe surgiu esta oportunidade. Quais
seriam as coisas nas quais preferentemente ela
gostaria de pensar?
Joan começou a repassar o
arquivo da sua memória mas os assuntos
que surgiam pareciam-lhe ter apenas um interesse que se limitava às vivências do seu ambiente — como,
por exemplo, lembrar-se onde ela havia
colocado isto ou aquilo, decidir sobre qual seria a melhor maneira de conceder as férias de verão aos
criados, fazer projetos sobre a nova
decoração da velha sala da escola.
Todas essas coisas,
agora, não lhe pareciam ser de muita
importância e não requeriam tanta urgência.
Novembro ainda se achava
um pouco longe para que ela se
preocupasse desde já com as férias dos seus empregados. Ademais,
ela teria que saber em que dia irá cair
a festa de Pentecostes e ver o que marca
o calendário do próximo ano. Entretanto ela poderia tomar algumas decisões com relação à sala de aula.
Que tal, para as paredes, um
revestimento com as nuanças do bege e da cor da papa feita com farinha de aveia? E umas lindas almofadas com
tonalidades vivas? Ficaria muito bem,
sem dúvida.
Já passavam dez minutos
das onze. Até que para renovar a
decoração da sala de aula não levou muito tempo. Em seguida Joan começou a refletir: — Se eu soubesse o que
iria me acontecer, teria trazido algum
livro interessante que versasse sobre a ciência moderna e sobre as mais recentes descobertas
científicas. Um livro que explanasse a
teoria dos quanta, por exemplo.
Depois ela própria,
admirada, ficou imaginando como lhe poderia
ter surgido na mente esta idéia da teoria quântica.
Deve ter sido
evidentemente por causa do revestimento da parede e da Sra. Sherston. Pois ela se lembrou de
que certo dia estivera discutindo o tão
debatido problema dos tecidos de chita e de cretone com a Sra. Sherston, esposa do gerente do
banco, e ela, bem no meio da conversa,
declarou Inopinadamente:
— Como eu desejaria ter
inteligência bastante para poder
compreender a teoria dos quanta. É um assunto sumamente fascinante, não é? Dizer que toda a energia se acha
armazenada em diminutas partículas!
Joan fitou-a com ar de
surpresa pois não podia entender o que é
que uma teoria científica tinha a ver com chitas e cretones. A Sra. Sherston ficou um pouco vermelha e
exclamou:
— Que imbecil que eu sou!
Mas você compreende, não é? Muitas vezes
uma idéia entra no crânio subitamente, sem mais nem menos. E esta é uma idéia interessante, você não
acha?
Joan pessoalmente não
achou que a idéia fosse lá muito
fascinante e a conversa sobre este assunto parou aí mesmo. Joan
então fixou a sua mente na lembrança dos
cretones da Sra. Sherston — ou, melhor
dizendo, dos seus revestimentos de linho estampados a mão mostrando desenhos de folhagens com as cores
castanhas, cinza e vermelha.
Joan disse à amiga:
— Estas cores não são
muito comuns. Saíram muito caros estes
revestimentos?
A Sra. Sherston respondeu
que realmente eles foram dispendiosos,
acrescentando que ela os havia adquirido só porque gostava imensamente de árvores e de folhagens
e que o seu maior sonho na vida seria ir
para algum lugar como Burma ou Malaia, onde
as árvores medram realmente depressa. E as palavras realmente depressa ela
pronunciou com um tom de voz que revelava ansiedade, fazendo com as mãos um gesto disforme para
exprimir a sua impaciência.
Esse tecido de linho
deveria ter custado, no mínimo, dezoito libras
e seis xelins a jarda, calculou Joan. Era um preço verdadeiramente exorbitante para aquela época. Bastava apenas
que se procurasse saber a quantia que o
capitão Sherston entregava à sua esposa para a
manutenção da casa e para os gastos pessoais a fim de se ter uma
idéia do que estava por acontecer mais
tarde...
Na verdade, Joan pessoalmente nunca pôde gostar daquele homem. Ela se recorda de tê-lo visto uma vez no seu gabinete lá no banco discutindo planos de investimentos de ações. Sherston estava sentado na sua mesa de trabalho, em frente dela. Ele era um tipo corpulento e cheio de vivacidade que parecia exsudar bonomia. Tinha maneiras excessivamente afetadas.
— Eu sou um homem do
mundo, distinta senhora. Não faça uma
idéia de mim como se eu fosse simplesmente uma inexaurível máquina de fabricar dinheiro, Eu gosto de jogar tênis
e golfe, de dançar e de me entreter numa
rodinha de bridge. Os verdadeiros característicos da minha personalidade a senhora encontrará, por
exemplo, no camarada alegre que toma
parte nas reuniões sociais e não no funcionário
categorizado de um banco que, às vezes, se vê obrigado a dizer:
“Chega de saques a descoberto daqui para
diante”.
Ele não passava de um saco cheio de ar, de um paroleiro
qualquer metido a rompante e inflado de
orgulho. Este foi o juízo que Joan fez
dele. Devia ter sido nessa mesma época que ele começou a falsificar a escrita e a fazer trapaças.
E dizer que todo mundo
gostava dele! Afirmavam que ele era um
gerente de banco muito diferente dos outros.
Pensando bem, esta
afirmativa tinha, de fato, um certo viso de
verdade: só um gerente de banco muito diferente dos outros é que
seria capaz de apropriar-se
fraudulentamente do dinheiro da sua instituição.
Bem, de qualquer forma Leslie Sherston conseguiu os revestimentos de linho estampado. Não que se queira insinuar com isso que ela tenha compelido Sherston a praticar atos desonestos por ser uma esposa extravagante e descontrolada nos gastos. Pelo contrário, qualquer pessoa, observando Leslie Sherston, perceberia logo que ela particularmente pouco proveito tirou desse dinheiro. Na verdade, para ela o dinheiro não tinha grande significação. Coitada dela, quase sempre usando o mesmo vestido de pano de lã axadrezado, já meio gasto e puído. e capinando seu jardim. Quando saía para dar uma voltinha pela redondeza, só andava a pé. Também nunca se preocupou muito com a roupa dos filhos. Joan lembrou-se de uma tarde em que Leslie Sherston servira o chá na sua casa, trazendo um pão bem grande, um pacotinho de manteiga, doce de frutas feito em casa, as xícaras e o bule de chá, tudo desordenadamente dentro de uma bandeja.
Ela era um tipo de mulher
negligente que se descuidava da sua
aparência mas andava sempre alegre e jovial. Quando caminhava, dava a impressão de ter postura só de um lado. Da
mesma forma ela parecia mostrar feitio
de face só num lado do rosto. Mesmo assim, aquele seu sorriso unilateral
era amável e toda gente gostava muito dela.
Oh, sim, a pobre Sra.
Sherston tinha uma vida triste e atribulada!
Joan fez um brusco movimento. Como foi que surgiu na sua mente esta expressão: Vida triste e atribulada?
Estas palavras
forçavam-na a evocar a lembrança de Blanche
Haggard (embora a desta última fosse um tipo de vida triste muito diferente).
E pensando em Blanche,
ela inevitavelmente via-se compelida a
rememorar as circunstâncias que envolveram a doença de Bárbara e isto poderia levá-la a um rumo inesperado
capaz de lhe ocasionar aflições.
Ela olhou de novo o
mostrador do seu relógio. Os tecidos de linho
e a pobre Sra. Sherston fizeram com que Joan despendesse meia hora, no mínimo. E, agora, em que deveria ela
pensar? Teria que ser algo agradável e
não bobagens que só causam perturbação de espírito. Rodney poderia servir de assunto naquele
momento. E era sempre com grande prazer
que a mente de Joan evocava a figura do seu marido. Ela parecia vê-lo postado na gare da estação
Vitória dando-lhe adeus no instante da
partida.
Sim, o querido Rodney. Lá na plataforma ele permanecia observando-a, com o sol batendo em cheio na sua face. Notavam-se nos seus olhos sulcos profundos que se entrelaçavam nas extremidades das pálpebras. Ele tinha os olhos de uma pessoa cansada. Olhos que exprimiam profunda melancolia. (Não que Rodney fosse triste — pensou Joan. Trata-se simplesmente de um artifício de linguagem para facilitar a construção da frase. A gente não diz também que alguns animais têm os olhos tristes?) Ele habitualmente usava óculos e por isso não se podia notar a tristeza nos seus olhos. E não havia dúvida de que a sua aparência era a de um homem cansado. Também não era para menos. Ele trabalhou tanto na vida. Praticamente ele nunca faltou ao serviço nem um dia. Quando eu chegar de volta em casa vou modificar tudo. Rodney deve dispor de mais tempo de lazer.
Bem que eu deveria ter pensado nisso antes!
Rodney, observado agora
sob a intensa claridade da luz do sol,
parecia muito mais velho. Antes da partida do trem eles ficaram se olhando durante um bom tempinho e depois
trocaram as últimas palavras que
habitualmente se empregam para a estúpida saudação de despedida.
— Eu acho que em Callais
você não precisará passar pelo posto da
alfândega.
— Também acho que não. É
bem provável que os passageiros passem
logo para o expresso de Simpson.
— E lembre-se do
transporte em Brindisi. Espero que o
Mediterrâneo esteja calmo e lhe propicie uma viagem agradável. — Como eu gostaria de passar um ou dois dias
no Cairo. — E por que você não
passa?
— Queridinho, você bem
sabe que eu não posso demorar por causa
de Bárbara. Existe serviço aéreo somente uma vez por semana. — É verdade. Eu me havia esquecido disso.
Soou o apito. Ele sorriu para ela.
— Cuide-se bem, minha pequena Joan!
— Goodbye! E que você não sinta muito minha ausência. O trem arrancou, dando um solavanco. Joan puxou a cabeça para dentro. Rodney acenava-lhe abanando o braço. Depois, com a agilidade de um atleta, rodopiou na ponta dos pés, virando-se para ir embora. Joan não pôde conter o impulso de debruçar-se mais uma vez sobre a janela para observá-lo. Nesse instante ele estava subindo a passos largos, bem empertigado, os degraus da escada da plataforma. Ela sentiu um súbito tremor: pareceu-lhe que Rodney, de um momento para outro, sofrera uma brusca mudança ficando muito mais jovem. Caminhava com desenvoltura, a cabeça erguida e o busto bem ereto. Ela quase teve um choque...
Teve a impressão de ter
visto um jovem despreocupado e feliz
subindo os degraus da plataforma e não o pobre Rodney com a carcaça toda encarquilhada.
Este fato trouxe-lhe à
lembrança o primeiro encontro que ela
tivera com Rodney Scudamore. Ela havia sido apresentada a ele num jogo de tênis. Não demorou muito e eles
penetraram na quadra para a
competição.
Ele perguntou-lhe:
— Sou eu quem vai jogar junto à rede?
Foi aí que ela,
observando-o atentamente, viu como ele se
movimentava a passos largos, bem empertigado. Achou que Rodney tinha um lindo dorso de atleta... Admirava a
sua maneira de andar, o formato da sua
cabeça e do seu pescoço.
Lá na quadra de tênis, de
repente ela ficou nervosa: cometera duas
faltas no jogo e começou a sentir calor e a ficar aborrecida. Rodney virou a cabeça e procurou encorajá-la,
sorrindo-lhe com aquele sorriso amável
que lhe era tão peculiar.
Que jovem atraente era ele!
Foi assim que Joan começou a enamorar-se dele.
Observando da janela do
trem já em movimento a desenvoltura com
que Rodney caminhava até desaparecer no meio da multidão, forçosamente Joan não podia deixar de evocar
aquele dia de verão em que tivera o seu
primeiro encontro com ele na quadra de tênis. Fazia já tantos anos!
Mas... agora Rodney, de
um momento para outro, inesperadamente,
passou a caminhar com agilidade, parecendo até que o peso dos anos fora sacudido e que ele se
tornara novamente um jovem esbelto e
vaidoso.
Parecendo até que o peso dos anos fora sacudido do seu lombo! Subitamente ela, em pleno deserto, com o sol abrasador batendo lhe
em cheio, sentiu um calafrio a perpassar-lhe pelo corpo... “Não... não quero mais continuar pensando
nisso...” — exclamou
ela como que monologando.
Vejam só! Rodney subindo
os degraus da plataforma a passos
largos, bem empertigado, com a agilidade de um atleta. Até parecia
que a sua corcova tivesse desaparecido
como que por encanto, deixando-o
aliviado de uma pesada carga.
Pensando bem, por que deveria
ela estar rememorando ali esse fato? É
claro que ela só estava imaginando coisas... coisas sem fundamento. Foram seus olhos que a enganaram,
pregando-lhe uma peça...
Mas por que será que ele
não esperou o trem tomar uma certa
distância? Bem, em todo caso...
Será que ele poderia
mesmo ter permanecido um pouquinho mais
na gare? Também é preciso dizer que ele tinha alguns negócios
urgentes para resolver em Londres. E
além disso há gente que não gosta de
presenciar a partida de um trem quando viaja uma pessoa amada.
Mas seria possível que
qualquer criatura fixasse melhor do que
ela a postura elegante do dorso de Rodney e a sua agilidade? Bobagem! Pura imaginação!
Ponto final! Não é
pensando agora no caso que ela poderia
melhorar a situação.
Quem imagina coisas assim
é porque já tinha na cabeça idéias
desvirtuadas da realidade.
Nada do que ela imaginava
podia ser verdade. Ela estava tirando
certas conclusões que absolutamente não tinham nenhum fundamento. Era como se ela própria dissesse a si mesma
(então não era ela própria que imaginava
tudo isso?!) que Rodney se sentia alegre e
satisfeito porque ela estava indo embora.
E isso absolutamente não podia ser verdade!

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