sexta-feira, 7 de maio de 2021

A ausência - Capítulo 02


 Estava chovendo quando Joan Scudamore, na manhã do dia seguinte, deixou a casa de pernoite. Caía uma chuva fininha, fenômeno que não era lá muito comum naquela parte do mundo. 

Ela percebeu logo ser a única pessoa que, nesse dia, viajava para o Ocidente — uma ocorrência que parecia deveras extraordinária, embora o tráfego rodoviário, nessa época do ano, não fosse muito intenso. Na sexta-feira anterior havia partido um veículo bem amplo. 

Um tipo de carro apropriado para viagens turísticas, desses que pareciam sacudir bastante, estava aguardando a hora da partida, com o respectivo motorista, um europeu, e o seu ajudante-substituto, um nativo. 

O gerente da casa de pernoite estava de pé desde a madrugada.  Despertou Joan e ficou gritando com os árabes que ali trabalhavam para que eles ajeitassem as bagagens a seu inteiro contento. Depois, desejou à Mademoiselle (era assim que ele chamava todas as senhoras, suas hóspedes) uma feliz e confortável viagem. Curvando-se respeitosamente entregou a Joan uma embalagem de papelão contendo o seu almoço. 

O motorista, revelando boa disposição de espírito, começou a gritar enquanto se aprestava para partir: 

— Bai-Bai, Satan! Até amanhã de noite ou até a próxima semana!... Mas parece que é mais acertado dizer: “Até a próxima semana!” 

O carro arrancou. Não demorou muito começou a serpear através dos meandros formados por aquelas ruas e vielas irregulares, com as características próprias das cidades do Oriente Médio, onde se viam, também, de maneira inesperada, blocos de edificações construídas de acordo com a arquitetura ocidental. 

A buzina não parava de tocar. Jumentos espantados se desviavam para a beira do caminho e crianças fugiam correndo. O carro

seguia na direção do portão ocidental da cidade, penetrando numa estrada irregularmente pavimentada que, pela sua importância, parecia conduzir até o fim do mundo. 

Depois de um percurso de cerca de dois quilômetros, a estrada larga terminou, surgindo em seu lugar uma rodovia estreita, um caminho muito irregular e pedregoso. 

Joan sabia que, com bom tempo, levariam mais ou menos sete horas para chegar em Tell Abu Hamid, que era o ponto terminal da estrada de ferro turca. O trem, vindo de Estambul, havia chegado de manhã e regressaria às oito e meia da noite. Havia em Tell Abu Hamid uma pequena casa de pernoite destinada aos passageiros, onde lhes eram servidas as refeições. 

As pessoas desembarcadas do trem, que prosseguiam a viagem, deveriam encontrar-se com a condução vinda do lado oriental mais ou menos na metade dessa rodovia. O caminho ia-se tornando cada vez mais escabroso e acidentado. O carro dava fortes solavancos. Joan era arremessada para cima e para baixo, no seu assento. O motorista virava-se dizendo sempre, à quisa de desculpa, que esperava que ela se estivesse sentindo bem. Explicou que o trecho de estrada por onde passavam era acidentado e cheio de buracos. Entretanto, ele tinha que acelerar a marcha do carro o máximo possível a fim de conseguir atravessar o leito dos rios, que formam vau, antes das chuvas ocasionarem dificuldades. 

De tempos em tempos ela observava ansiosamente o céu. A chuva ia-se tornando gradativamente mais intensa e o veículo às vezes patinava, ziguezagueando de um lado para o outro, chegando mesmo quase a derrapar. 

Faltava pouco para as onze quando atingiram o primeiro leito de rio. Já havia água nele. Depois de um pequeno ameaço de ficar atolado no barranco da ribanceira da margem oposta, o carro, arrancando com ímpeto, conseguiu transpor o obstáculo. Dois quilômetros mais adiante o veículo começou a rodar sobre um chão liso e mole, de natureza pantanosa, sendo forçado a parar com as rodas atoladas.

Joan enfiou o seu casaco impermeável de borracha e saiu do veículo. Abriu a caixinha de papelão contendo o seu almoço. Enquanto comia, caminhava de um lado para o outro e observava os dois homens que trabalhavam cavando a terra com pás, arremessando peças do macaco um para o outro e colocando debaixo das rodas as pranchas que haviam trazido junto. 

Eles praguejavam, fazendo um esforço danado. As rodas suspensas pelos macacos giravam furiosamente, mas o veículo não avançava. Para Joan esta situação parecia uma das mais difíceis, mas o motorista garantiu-lhe que o trecho de estrada em que estavam não era dos piores. 

Finalmente, depois de muito esforço, as rodas se desenterraram com uma rapidez enervante e o carro avançou, indo parar sobre um chão mais seco e mais duro. 

Um pouco mais adiante, encontraram-se com dois carros. Todos os veículos pararam e os motoristas se consultaram reciprocamente a fim de obterem informes sobre as condições da estrada. Nos outros dois carros viajavam uma mulher com uma criancinha de colo, um jovem oficial francês, um velho de nacionalidade armênia e dois ingleses que pareciam ser comerciantes. Depois desta pequena parada, o carro prosseguiu. As rodas atolaram mais duas vezes ainda. Foi preciso, cada vez, executar os mesmos pesados trabalhos de levantar as rodas com o macaco e de escavar a terra com as pás. O segundo leito de rio foi mais difícil de atravessar que o primeiro. Já estava escurecendo quando atingiram a sua margem e a água ali corria com certo ímpeto. 

Joan, demonstrando muita ansiedade, interrogou o motorista:  — Será que o trem esperará nossa chegada? 

— Ele habitualmente espera durante uma hora. Este atraso pode ser tirado depois com o aumento da velocidade, Mas nunca parte depois das nove e meia da noite. Felizmente, daqui para diante a estrada é melhor, pois as condições do terreno são bem diferentes. Já estamos penetrando numa região aberta de deserto. 

Os motoristas gastaram muito tempo limpando o leito do rio, pois

as bordas mais afastadas das ribanceiras continham puro lodo escorregadio. 

Já era noite quando o veículo começou a rodar sobre o terreno seco. 

Realmente, depois de haver sido transposto o segundo leito de rio, a viagem transcorreu sem nenhum transtorno, mas, mesmo assim, o carro só conseguiu chegar em Tell Abu Hamid quinze minutos depois das dez da noite e o trem com destino a Estambul já havia partido. 

Joan estava tão exausta que quase não podia notar nada do que havia em seu redor. Meio cambaleante, entrou no refeitório da casa de pernoite onde se viam as mesas em forma de tripeças. Recusou alimento, mas pediu um chá. Em seguida dirigiu-se ao seu quarto, com as paredes quase desconjuntadas e fracamente iluminado por uma luz pálida. Haviam sido colocadas ali três camas de ferro. Tirou da mala as coisas estritamente necessárias e atirou-se numa das camas, pegando no sono imediatamente. 

Na manhã seguinte, vencido o abatimento da véspera, ela despertou o seu espírito egocêntrico retomando a calma que lhe era habitual e o interesse pelas coisas. Sentou-se na cama e olhou a hora no seu relógio. Os ponteiros marcavam nove e meia da manhã.  Levantou-se, vestiu-se e foi direto ao refeitório. Um hindu, com um artístico turbante enrolado na cabeça, se apresentou na sua frente e ela pediu que ele lhe servisse a refeição matinal. Depois dirigiu-se até a porta e ficou olhando para fora. Percebeu logo que esta viagem de regresso levaria quase o dobro do tempo da viagem de ida. 

Na sua vinda ela viajara do Cairo a Bagdá, rota que lhe era totalmente desconhecida. Na realidade, leva-se de Londres a Bagdá sete dias: três dias de trem de Londres a Estambul e, partindo desta cidade, mais dois dias até atingir Aleppo. De Aleppo até o ponto terminal da via férrea em Tell Abu Hamid viaja-se de noite. Dali, então, de carro, roda

se durante mais um dia, com descanso noturno numa casa de pernoite.  Continua-se depois, durante mais um dia, de carro, até Kirkuk, onde se toma o trem que chega a Bagdá no mesmo dia.

Não havia sinal de chuva nessa manhã. O céu estava azul e sem nuvens. A própria areia, por ali em torno, apresentava uma tonalidade dourado-escura. Ao lado da casa de pernoite havia um emaranhado de arame farpado cercando uma área dentro da qual se via um montão de latas vazias, atiradas ao lixo. Dentro desse cercado umas galinhas magras corriam de um lado para outro cacarejando fortemente. Nuvens de moscas pousavam sobre as latinhas que ainda continham resíduos de alimento já em vias de putrefação. Algo que parecia um monte de trapo repentinamente se levanta, deixando ver que se tratava de um jovem árabe. 

Um pouco mais adiante, contornada por outra cerca de arame farpado, via-se uma casinha acaçapada que mais parecia a toca de um bicho. Tratava-se, sem dúvida, da estação ferroviária local. Ao lado dessa casinha Joan observou algo que parecia um poço artesiano ou um enorme tanque de água. Na direção norte divisava-se, como que adentrando no longínquo horizonte, o perfil de uma cordilheira. 

Afora isto, nada mais se via ali: — nenhum marco divisório, nenhuma vegetação, nenhuma criatura humana. 

Uma estaçãozinha, os trilhos da ferrovia, algumas galinhas, aquilo que parecia ser um emaranhado de fios de arame farpado — eis tudo o que havia naquele lugar. 

Joan achou até muito engraçado o fato de manterem um local nessas condições. 

O criado hindu aproximou-se dela e anunciou que a refeição da Memsahib estava pronta. Joan entra no refeitório. Predominava ali aquela ambiência bem típica das casas de pernoite: sala escura, cheiros de gordura de carneiro, de petróleo e de inseticidas. Tudo isto ocasionava-lhe uma sensação não muito agradável. 

A refeição consistia de café com leite (leite enlatado), um prato de ovos fritos, algumas fatias de pão torrado, bem duro, um prato de doces de frutas e um pouco de ameixas secas, de aspecto um tanto duvidoso. 

Joan comia com grande apetite. Nesse instante reaparece o criado hindu perguntando a que hora Memsahib desejaria ter o seu almoço.

Joan respondeu-lhe que não queria que o almoço retardasse muito.  Concordaram, então, em que seria servido à uma e meia da tarde.  Como Joan sabia muito bem, o trem partia daquele lugarejo três vezes por semana: às segundas, às quartas e às sextas-feiras. Era terça feira de manhã. Portanto ela só poderia prosseguir a sua viagem no dia seguinte, à noite. Para certificar-se melhor, perguntou ao hindu se este horário estava certo e ele respondeu-lhe confirmando: 

— Muito certo. Memsahib perdeu trem noite passada. Muito infeliz. Estrada muito ruim. Esta noite choveu muito. Carro não pode ir a Mosul nem vir de Mosul, por alguns dias. Mas o trem pode trafegar normalmente, não é verdade? — interrogou Joan que, afinal, não tinha nenhum interesse em saber acerca das condições da estrada para Mosul. 

— Oh, sim. Trem vai chegar amanhã cedo. Depois vai partir de noite. 

Joan acenou-lhe afirmativamente com a cabeça, demonstrando ter entendido. Perguntou então onde estava o carro que a trouxera no dia anterior. 

— Partiu hoje muito cedo. Motorista espera conseguir atravessar rios ainda sem dificuldade. Mas acho que não. Acho que carro vai ficar atolado durante um ou dois dias. 

Joan também achou que isto seria muito provável, embora sem demonstrar nenhum interesse pelo caso. O criado continuou prestando informações: 

— Ali está a estação, Memsahib.

Joan respondeu-lhe que, de fato, já havia suposto ser aquela casinha a estação. 

— Estação turca. Ela está na Turquia. Estrada de ferro turca.  Está do outro lado da cerca de arame, veja. Cerca marca fronteira.  Joan observou aquela cerca demarcatória da fronteira e começou a imaginar como são esquisitas as fronteiras. 

— Almoço à uma e meia exatamente! — declarou mais uma vez o hindu, com uma expressão de alegria no semblante e saiu correndo

para o interior da casa. Alguns momentos após, lá nos fundos, estava ele gritando bem alto. Duas outras vozes faziam coro com a dele. Um verdadeiro turbilhão de palavras árabes, pronunciadas com irritação, inundava o ar. 

Joan admirou-se pelo fato de, naquelas regiões, serem incumbidos de tomar conta das casas de pernoite somente hindus.  Talvez fosse porque eles conhecem melhor os hábitos dos europeus.  Bem, mas este era um assunto que pouco lhe interessava agora. Que poderia ela fazer para passar o tempo nessa manhã? Poderia ler o divertido livro As Memórias de Lady Catherine Dysart ou bem que ela poderia escrever algumas cartas. Ser-lhe-ia fácil colocá-las no correio quando o trem chegasse a Aleppo. Ela trazia consigo um bloco de papel e alguns envelopes. Mas ao transpor o limiar da casa de pernoite hesitou: lá dentro não havia muita claridade e o mau cheiro invadia todas as salas. Talvez fosse melhor dar uma caminhada. Foi buscar o seu chapéu grosso de feltro embora o sol, nesta época do ano, não ocasionasse nenhum mal. Entretanto, é sempre bom tomar alguma precaução. 

Colocou os óculos escuros e enfiou na bolsa o bloco de cartas e a caneta-tinteiro. 

Então, caminhando em sentido oposto à estação rodoviária e passando ligeiro por perto do monturo de lixo e de latas vazias, limitou se a andar um pouco por ali mesmo sem transpor a fronteira a fim de evitar qualquer complicação internacional. 

Pensou consigo mesma: “Como é estranho fazer-se uma caminhada aqui!... Não há nenhum lugar para onde se dirigir”.  Seria até original e interessante a idéia de caminhar sobre dunas, de atravessar charnecas, de fazer um percurso ao longo duma praia, de percorrer uma estrada. Evidentemente, isto é possível só nos lugares onde se pode escolher objetivos assim caracterizados. Não causaria nenhum espanto e seria até muito corriqueiro dizer-se: “Vou até o topo daquela colina, até aquele capão ou até aquela touceira de capim. Vou descer aquele atalho que conduz à fazenda, vou caminhar pela estrada

principal até o próximo povoado, vou contornar as sinuosidades daquele vale estreito na costa do morro ...” 

Mas aqui... nada disso se podia dizer: tinha-se a única opção de sair de um lugar designado... para um nada! Podia-se dizer, por exemplo, sem maiores detalhes acerca de pontos de referência: “Vou sair da casa de pernoite”. Só isto. Pelo lado direito, pelo lado esquerdo, diretamente em frente — ou na direção da parte do horizonte que está escura. 

Ela caminhava ao léu por ali, não se sentindo muito animada. O ar estava agradável. Faria calor, mas não, um calor excessivo. Ela achava que um termômetro marcaria cerca de 21 graus. Soprava uma brisa muito fraca. 

Andou uns dez minutos sem virar a cabeça. A casa de pernoite com aquele seu cercado imundo ficara a uma distância ainda bem cômoda para ser percorrida. Dali onde Joan se encontrava agora a casa tinha até um aspecto agradável. Lá do outro lado via-se a estação ferroviária que parecia um monumento sepulcral feito de pedras. 

Joan não parava de sorrir enquanto fazia o seu passeio vagando ao acaso. Como o ar estava delicioso! Um ar puro e fresco. A atmosfera não era viciada nem trazia o mínimo resquício da poluição que existe nos ambientes civilizados. O sol, o céu, o chão de areia, eis tudo o que havia ali. E, mesmo assim, ela tinha a impressão de inebriar-se ao respirar em fortes haustos aquele ar puro. Na verdade, ela se divertia com tudo aquilo. Até parecia que estava vivendo momentos de uma grande aventura surgida oportunamente para quebrar a monotonia da sua vida rotineira. Chegou até a achar muito bom ter perdido o trem. Só assim ela poderia passar vinte e quatro horas em absoluta calma e paz, o que era muito bom para ela. Não havia lá aquela grande necessidade do seu imediato regresso. Ela poderia telefonar a Rodney, de Estambul, explicando-lhe o motivo da demora. 

Pobre velho Rodney! Teria ele a curiosidade de saber o que ela estava fazendo? Não. Realmente não! Tinha ela outras coisas com que se preocupar. Quanto a Rodney, ela sabia perfeitamente o que ele fazia.

Passava o dia sentado em seu escritório em Alderman, sob a razão social Scudamore & Witney, numa sala muito linda localizada no primeiro andar, com vista para o Market Square. Ele transferira seu escritório para lá logo após a morte do velho Witney. Rodney gostava imensamente daquela sala. 

Joan começou a lembrar-se de um certo dia em que entrara naquela sala, tendo encontrado o marido de pé, à janela, completamente absorto na contemplação do movimento do mercado (era  dia de funcionamento da feira). Ela entrara no exato momento em que uma tropa de bois ia sendo conduzida para dentro. 

— Linda tropa de shorthorns! — exclamou ele. (Talvez nem fossem da raça shorthorn aqueles bois; na verdade, Joan não era perita na classificação das raças de gado, mas, de qualquer forma, vale a citação pela semelhança.) 

Sem mais delongas disse ela ao marido: 

— Quanto à caldeira do aquecimento central, acho que o orçamento calculado por Golbraith é muito alto. Não seria interessante que eu procurasse saber qual seria a estimativa de Chamberlain? 

Estava bem nítida na lembrança de Joan a maneira como Rodney, com um ar tão distraído, parecendo não ter percebido a sua presença, embora encarando-a frontalmente, indagou-lhe: “Caldeira?!”  Pronunciou esta palavra dando a impressão de estar falando de um objeto vago de que nunca ouvira falar antes, e, em seguida, obtemperou — falando de maneira realmente um tanto desconexa: 

— Acredito que Hoddesdon está propenso a vender aquele touro da sua fazenda. Acho que ele precisa de dinheiro. 

Ela notou que Rodney não ocultava um certo quê de simpatia por Hoddesdon ao demonstrar interesse pela fazenda Lower Mad, de propriedade do pobre velho que, como todo mundo sabia e comentava, já estava indo à breca. E, falando a pura verdade, muito agradaria a Joan que Rodney fosse mais esperto sem dar excessivo crédito a tudo que lhe entrava pelos ouvidos. Não há dúvida de que toda gente espera que um advogado seja sempre esperto e vigilante. Se Rodney passasse a

atender os seus clientes daquela maneira vaga e indecisa, claro está que ele lhes causaria péssima impressão. Por isso, falou-lhe com impaciência, embora conservando nas suas palavras o tom carinhoso: 

— Deixe desses devaneios, Rodney! É sobre a caldeira que estou falando: a caldeira para o aquecimento central do nosso apartamento.  Rodney apenas obtemperou que certamente ela poderia obter um novo orçamento, contudo os gastos seriam sempre altos, pois são os próprios vendedores que fazem os cálculos ao seu arbítrio.  Então ele passou a observar, de relance, a enorme pilha de papéis que se formara sobre sua mesa. Ela se lembrava perfeitamente de ter lhe dito que não mais iria interrompê-lo pois que, conforme ela própria verificara, a tarefa do marido se apresentava bem volumosa nesse dia.  Rodney, sorrindo, explicou-lhe que não havia feito outra coisa senão amontoar papéis, pois perdera muito tempo observando o movimento da feira. 

— É por isso que eu gosto desta sala. Durante a semana só fico esperando a chegada da quinta-feira a fim de poder presenciar o movimento do mercado. Escute!... Escute bem, agora! 

Com o dedo em riste ele apontou para fora. Então, ela passou a ouvir mugidos de vacas, berros de touros e balidos de ovelhas. Uma desagradável e barulhenta confusão de berreiros que, mesmo assim, parecia encantar os ouvidos de Rodney. E ele, postado de pé à janela, inclinou um pouco a cabeça para o lado e começou a sorrir de tanta satisfação... 

Oh, mas também hoje não é dia de feira lá no mercado. Portanto, não tendo tais distrações, Rodney só poderá estar sentado à sua mesa de trabalho, dando andamento nos papéis encaminhados. Além disso, sinceramente não tem fundamento algum o temor dela de que os clientes possam pensar que Rodney seja um homem indeciso, sempre absorto em imaginações desvairadas. Já faz muito tempo que ele é reputado como o sócio da firma que mais goza da estima geral. Todo mundo gosta dele e esta circunstância, na carreira de um solicitador judicial, significa meia batalha ganha.

“E dizer que se não fosse por minha causa (pensou Joan com uma irreprimível satisfação íntima) ele teria rejeitado precisamente a proposta que lhe propiciou este progresso na vida, afugentando a própria sorte!” 

Foi pensando nisso que ela começou a evocar na sua lembrança aquele dia em que Rodney lhe falara acerca da oferta do seu tio.  Tratava-se da proposta para participação de Rodney na antiga organização da família que se encontrava em florescente prosperidade.  A admissão de Rodney no negócio ficara desde muito tempo condicionada à conclusão dos seus exames do curso jurídico.  Indiscutivelmente essa proposta do tio Harry, oferecendo-lhe sociedade na empresa, mediante condições tão excelentes, foi um inesperado acontecimento feliz. A própria Joan lhe expressara sua grande satisfação, congratulando-se efusivamente com ele. Mas ela notou logo que ele absolutamente não compartilhava da sua alegria. Naquele momento ele proferiu estas palavras quase inacreditáveis para ela: “Se eu aceitar...” 

Joan, espantada e aflita, exclamou: “Mas Rodney!” Ela ainda conservava bem nítida na memória a lembrança da maneira como Rodney se virou para ela com uma rígida expressão no semblante.  Antes, jamais pudera imaginar que Rodney fosse tão irritadiço. Suas mãos tremiam enquanto ele maquinal-mente colhia folhas de plantas de um vaso. Seus olhos escuros pareciam exprimir uma estranha súplica, de um modo realmente esquisito. Começando a falar, disse ele a Joan: 

— Eu odeio a vida de escritório. Só sei dizer que não gosto desse trabalho! 

Joan apressou-se a mudar, o tom de voz, demonstrando admitir, embora muito sentida, a aversão do marido a esse tipo de trabalho.  — Oh, eu bem compreendo, queridinho, que se trata de uma atividade tremendamente enfadonha e cansativa. É uma verdadeira amolação. É um trabalho até mesmo pouco interessante. Mas uma participação direta como sócio é coisa muito diferente. Acho que você terá grande vantagem, especialmente se lhe couber, como suponho,

uma parte nos rendimentos globais de todos os serviços.  — Sim, terei parte nos emolumentos provenientes da elaboração de contratos de arrendamento e de locação de casas de moradia, com suas dependências ou servidões, bem como da elaboração de escrituras públicas referentes a vendas imobiliárias e convênios, enfim de todos os documentos tais como os que invariavelmente começam com as palavras: considerando que, visto que etc. 

Foi assim que ele, com um sorriso nos lábios, respondeu-lhe desfiando uma trapalhada de vocábulos enquadrados na terminologia jurídica, num evidente exibicionismo de seus conhecimentos. Contudo, dos seus olhos não se dissipava aquela expressão de súplica... Uma súplica persistente. Ele só queria forçar Joan a concordar com ele... E como ela amava Rodney! 

— Você bem sabe que não é de hoje que ficou combinado que você iria participar da firma depois de formado. 

— Eu sei... eu sei. Mas como poderia eu ter previsto 

então que iria detestar esse tipo de atividade? 

— Mas... é simplesmente uma indagação... a não ser deste tipo que outra espécie de atividade pretenderá você? 

Ele respondeu-lhe falando rapidamente, parecendo estar expelindo com ímpeto as palavras para fora da boca:. 

— Eu quero dedicar-me à agricultura. A fazenda Little Mead está sendo posta à venda. Atualmente ela se encontra em péssimas condições, pois o pessoal de Horley não cuidava bem dela. Mas é por isso mesmo que se pode adquiri-la por preço bem barato. A terra é boa e note bem que... 

Então passou ele a falar com açodamento sobre os seus planos, empregando tantos termos técnicos que ela chegou quase a ficar tonta.  Na verdade, que poderia ela saber a respeito da plantação e colheita de trigo e cevada, mediante processo de culturas rotativas, ou sobre criação e tratamento do gado leiteiro? 

Dominada pela timidez, ela conseguiu apenas retrucar-lhe, com a voz quase sumida:

— Little Mead... Mas esta lavoura fica lá nos cafundós... tão longe... 

— Mas a terra é boa, Joan. E o lugar também serve. 

E, em nova investida, prosseguiu na sua tagarelice, ressaltando as vantagens na compra daquele sítio. Joan jamais poderia ter imaginado que a propensão de Rodney para a vida ao campo fosse tão grande assim a ponto de compeli-lo a falar o assunto sempre com exagerado entusiasmo. Ela, sem poder ocultar seu ceticismo quanto a essas propaladas vantagens, indagou-lhe: 

— Mas, queridinho, você pretende, mesmo adquirindo esse sítio, possuir também uma casa de moradia noutro lugar? 

— Uma casa? Oh, sim... Uma casa noutro lugar, embora mal mobiliada, teremos que montar de qualquer forma. 

— É exatamente isto que me preocupa. Dizem que a lavoura nem sempre rende muito dinheiro. 

— Bem, lá isso é verdade. A não ser que se tenha uma sorte danada ou que se disponha logo no início de um grande capital, os rendimentos da agricultura nunca são de grande monta... 

— Então, veja bem... Não me parece que essa atividade seja de grande proveito para nós. 

— Oh, mas não há dúvida de que o negócio é bem promissor, Joan. Eu já fiz uma certa reserva em dinheiro, lembra-se? Depois, com o sítio produzindo seus rendimentos e deixando margem para alguma economia, tudo nos correrá bem. E pense na vida maravilhosa que teremos! Como é esplêndido viver num sítio! 

— Não creio que você tenha grandes conhecimentos com relação à agricultura... 

— Mas é claro que eu conheço os serviços da lavoura! Será que você já se esqueceu de que meu avô materno foi um grande fazendeiro em Devonshire? Era lá que nós passávamos sempre as nossas férias quando éramos crianças. Nunca me diverti tanto na minha vida como naqueles tempos. 

“É bem certo o ditado que afirma serem os homens exatamente

como as crianças” — pensou Joan consigo mesma e continuou a ponderar ao marido: 

— Não nego o que você afirma. Entretanto é preciso considerar que o decurso de uma vida toda não pode ser comparado com os minguados períodos de férias. Devemos pensar no nosso futuro, Rodney. Lembre-se de que temos Tony. 

Tony, nessa época, era um bebê de onze meses. Joan acrescentou: 

— E poderemos ter ainda outros filhos. 

Ele fitou-a com uma certa expressão de vivacidade nos olhos e ela sorriu, meneando a cabeça. 

— Mas será mesmo que você não vê, Joan, que com este negócio tudo ficará melhor? Um sítio como aquele é que é bom para as crianças.  É um lugar saudável. Elas terão sempre ovos frescos e leite, poderão correr livremente pelo campo e, além do mais, aprenderão como se cuida dos animais. 

— Oh, Rodney, mas resta uma porção de coisas que devemos considerar. O colégio para as crianças, por exemplo. Elas terão que frequentar um bom colégio e isto sai caro. E não haverá outro remédio senão fazer gastos: sapatos, uniformes, dentistas, médicos... Além disso teremos que zelar para que nossos filhos façam boas amizades, É exatamente por isso que eu acho que você não deve fazer esse negócio.  Quem tem filhos não pode nunca deixar de pensar neles. É, sem dúvida alguma, obrigação dos pais zelar pela felicidade dos filhos. 

Rodney prosseguiu falando com obstinação, mas a partir desse momento notava-se nas suas palavras uma espécie de dúvida que começava a invadir-lhe o cérebro. 

— Eles serão felizes... 

— Não, Rodney, sinceramente não acho vantajosa a exploração de uma lavoura. Você deve refletir que, participando como sócio da organização de seu tio, chegará uma época em que você poderá ganhar mais de duas mil libras por ano. 

— Sem dúvida. Tio Harry já está ganhando mais do que isso.

— E então? Que é que você tem na cabeça, homem? De forma alguma você poderá recusar uma proposta dessas. Seria uma grande loucura! 

A esta altura do diálogo ela começou a falar num tom bem incisivo. Agora, forçosamente ela teria que ser firme e positiva na sua argumentação. Ela deveria ter sabedoria para os dois. Se Rodney, com a mente empanada, não podia vislumbrar as coisas que seriam mais convenientes para a família, é evidente que ela tinha que assumir a responsabilidade de orientá-lo. Realmente, não deixava de ser ridícula e boba esta sua idéia de dedicar-se à exploração da agricultura. Ele estava se comportando exatamente como um menino. Ela se vira na contingência de tomar uma atitude maternal, indicando-lhe com firmeza o rumo certo. 

— Não pense que eu não tenha compreendido você, Rodney.  Admito mesmo que a vida no sítio poderá ser agradável. Não discutamos sobre este aspecto. Mas, convenhamos, trata-se de um negócio que foge às perspectivas da realidade... 

Ele interrompeu-a bruscamente para retrucar-lhe que a exploração de uma lavoura era uma atividade bem promissora, nada havendo de fantasioso no seu plano. 

Ela voltou a insistir: 

— Pode ser... Mas o negócio que você pretende realizar absolutamente não condiz com a imagem delineada pela nossa situação atual. Pense bem: você, agora, tem a possibilidade de participar de um promissor negócio de família que lhe abrirá as portas para um esplendoroso futuro! A proposta de seu tio foi imensamente generosa. 

— Oh, eu sei... Foi melhor do que eu poderia esperar. 

— Por isso você não deve recusá-la. Simplesmente você não pode e não deve recusá-la. Do contrário, terá que se lamentar durante toda a sua vida pela atitude tomada. E dificilmente você poderá livrar-se de um terrível sentimento de culpa. 

Ele resmungou: 

— Aquele maldito escritório!

— Oh, Rodney, creia-me, você não detesta o escritório tanto assim como pensa. 

— Detesto, sim e muito! Lembre-se de que já vão cinco anos que eu trabalho lá. Forçosamente devo saber o que sinto. 

Mas você vai se acostumar com o trabalho, especialmente nessa nova fase em que tudo será diferente. Muito diferente. Você será um sócio. E não há dúvida de que acabará adquirindo interesse pelo serviço bem como pela gente com a qual você terá que lidar. Estou certa, Rodney, de que você, mais tarde, se sentirá perfeitamente feliz. 

Ele fitou-a durante um bom tempo com os olhos tristes, refletindo amor e desespero ao mesmo tempo e parecendo tentar exprimir algo indefinível que talvez outra coisa não fosse senão o último resquício de esperança... 

— Como pode você ter certeza de que eu me sentirei perfeitamente feliz? — perguntou ele a Joan que lhe respondeu com vivacidade:  — Não tenho dúvidas, Rodney, de que você será feliz. Você verá!  Ela meneou a cabeça, dando ênfase a esta sua afirmativa. Ele, então, depois de ter dado um suspiro, exclamou: 

— Bem... Está certo. Vou seguir o seu conselho... “Sim, foi por um tri que escapamos de cair numa triste situação” — pensou Joan consigo mesma. E que felicidade foi ter ela se oposto com firmeza à decisão de Rodney, não permitindo que ele estragasse a sua carreira simplesmente por causa de um capricho momentâneo. Bem que ela sabia que os homens, se não fossem as mulheres, só fazem besteiras...  As mulheres sempre têm a idéia mais assentada e possuem melhor compreensão da realidade... 

Não se discute que foi uma sorte para Rodney tê-la ao seu lado...  Depois dessas elucubrações, a primeira coisa que fez foi dar uma olhada no mostrador do seu relógio de pulso. Os ponteiros marcavam dez e meia. Ela não achou conveniente ir mais longe nesta sua caminhada, mesmo porque não havia nenhum lugar para onde ela pudesse dirigir-se. Pensando nisso teve que sorrir. Levantando bem o busto, lançou o olhar em redor. A casa de pernoite, por incrível que

pareça, já estava quase fora do alcance da vista. Parecia ter-se afundado tanto a ponto de ser difícil divisá-la nos contornos daquela paisagem. Joan bem que compreendeu que deveria tomar cuidado não se distanciando muito do seu único ponto de referência. Facilmente poderia perder-se. Este pensamento lhe pareceu ridículo — Não! Talvez não devesse ser considerado tão ridículo assim depois de tudo o que lhe acontecera. 

Aquelas montanhas que ela antes vira bem longe, como que adentradas nos limites do horizonte, confundiam-se, agora, com as próprias nuvens. 

A estação sumira da sua vista. Admirada, continuou a olhar em seu redor: não havia nada para contemplar. Então, deixou-se cair suavemente sobre aquele chão de areia. Abriu a sua sacola tirando um bloco de cartas e uma caneta-tinteiro. Ela poderia escrever algumas cartas. Era até bem interessante e divertido comunicar a outras pessoas as sensações que ela estava vivendo no momento. Mas escrever a quem? A Lionel West? A Janet Annesmore? A Dorothea? Bem, talvez seja melhor começar com Janet. 

“Minha querida Janet. 

Você nem pode imaginar de onde lhe estou escrevendo esta carta!  — É precisamente do meio do deserto. Encontro-me vagando nesta região como uma criatura abandonada. Aqui só existem uma casa de pernoite, um hindu que toma conta dela, uma porção de galinhas, alguns árabes com as suas maneiras bem típicas e... eu. Não há nenhuma pessoa com a qual eu possa conversar e nada tenho para me entreter. Contudo nem posso lhe dizer como estou gostando deste lugar, O ar do deserto é maravilhoso e fresquinho. Dificilmente você poderia compreender a sensação de calma e de tranquilidade que invade a gente. Posso dizer que esta é a primeira vez na minha vida que disponho de tempo para pensar e meditar. Em casa sempre se tem uma vida tão atarefada que não há tempo para descanso. Quando não é uma coisa é outra que aparece para tomar o tempo da gente. Eu bem sei que

não se pode deixar de cumprir todas as obrigações, mas acho que cada qual deveria reservar periodicamente um pouco do seu tempo para meditar e revigorar o espírito. O decurso de tempo em que estou parada aqui não ultrapassa a metade de um dia, mas já me sinto realmente muito melhor. Afora os empregados da casa de pernoite, não se vê vivalma. Antes eu jamais poderia ter imaginado que fosse tão grande assim o meu desejo de ficar isolada das pessoas. É deveras reconfortante para os nervos saber-se que em redor da gente, num raio de centenas de milhas, não existe outra coisa senão areia e sol...” 

A pena da caneta deslizava suavemente sobre o papel.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS