Ela percebeu logo ser a única pessoa que, nesse dia, viajava
para o Ocidente — uma ocorrência que parecia deveras extraordinária, embora o
tráfego rodoviário, nessa época do ano, não fosse muito intenso. Na sexta-feira
anterior havia partido um veículo bem amplo.
Um tipo de carro apropriado para viagens turísticas, desses que
pareciam sacudir bastante, estava aguardando a hora da partida, com o
respectivo motorista, um europeu, e o seu ajudante-substituto, um nativo.
O gerente da casa de pernoite estava de pé desde a
madrugada. Despertou Joan e ficou
gritando com os árabes que ali trabalhavam para que eles ajeitassem as bagagens
a seu inteiro contento. Depois, desejou à Mademoiselle (era assim que ele
chamava todas as senhoras, suas hóspedes) uma feliz e confortável viagem.
Curvando-se respeitosamente entregou a Joan uma embalagem de papelão contendo o
seu almoço.
O motorista, revelando boa disposição de espírito, começou a
gritar enquanto se aprestava para partir:
— Bai-Bai, Satan! Até amanhã de noite ou até a próxima
semana!... Mas parece que é mais acertado dizer: “Até a próxima semana!”
O carro arrancou. Não demorou muito começou a serpear através
dos meandros formados por aquelas ruas e vielas irregulares, com as
características próprias das cidades do Oriente Médio, onde se viam, também, de
maneira inesperada, blocos de edificações construídas de acordo com a
arquitetura ocidental.
A buzina não parava de tocar. Jumentos espantados se
desviavam para a beira do caminho e crianças fugiam correndo. O carro
seguia na direção do portão ocidental da cidade, penetrando numa
estrada irregularmente pavimentada que, pela sua importância, parecia conduzir
até o fim do mundo.
Depois de um percurso de cerca de dois quilômetros, a estrada
larga terminou, surgindo em seu lugar uma rodovia estreita, um caminho muito
irregular e pedregoso.
Joan sabia que, com bom tempo, levariam mais ou menos sete
horas para chegar em Tell Abu Hamid, que era o ponto terminal da estrada de
ferro turca. O trem, vindo de Estambul, havia chegado de manhã e regressaria às
oito e meia da noite. Havia em Tell Abu Hamid uma pequena casa de pernoite
destinada aos passageiros, onde lhes eram servidas as refeições.
As pessoas desembarcadas do trem, que prosseguiam a viagem,
deveriam encontrar-se com a condução vinda do lado oriental mais ou menos na
metade dessa rodovia. O caminho ia-se tornando cada vez mais escabroso e
acidentado. O carro dava fortes solavancos. Joan era arremessada para cima e
para baixo, no seu assento. O motorista virava-se dizendo sempre, à quisa de
desculpa, que esperava que ela se estivesse sentindo bem. Explicou que o trecho
de estrada por onde passavam era acidentado e cheio de buracos. Entretanto, ele
tinha que acelerar a marcha do carro o máximo possível a fim de conseguir
atravessar o leito dos rios, que formam vau, antes das chuvas ocasionarem
dificuldades.
De tempos em tempos ela observava ansiosamente o céu. A chuva
ia-se tornando gradativamente mais intensa e o veículo às vezes patinava,
ziguezagueando de um lado para o outro, chegando mesmo quase a derrapar.
Faltava pouco para as onze quando atingiram o primeiro leito
de rio. Já havia água nele. Depois de um pequeno ameaço de ficar atolado no
barranco da ribanceira da margem oposta, o carro, arrancando com ímpeto,
conseguiu transpor o obstáculo. Dois quilômetros mais adiante o veículo começou
a rodar sobre um chão liso e mole, de natureza pantanosa, sendo forçado a parar
com as rodas atoladas.
Joan enfiou o seu casaco impermeável de borracha e saiu do
veículo. Abriu a caixinha de papelão contendo o seu almoço. Enquanto comia,
caminhava de um lado para o outro e observava os dois homens que trabalhavam
cavando a terra com pás, arremessando peças do macaco um para o outro e
colocando debaixo das rodas as pranchas que haviam trazido junto.
Eles praguejavam, fazendo um esforço danado. As rodas
suspensas pelos macacos giravam furiosamente, mas o veículo não avançava. Para
Joan esta situação parecia uma das mais difíceis, mas o motorista garantiu-lhe
que o trecho de estrada em que estavam não era dos piores.
Finalmente, depois de muito esforço, as rodas se desenterraram
com uma rapidez enervante e o carro avançou, indo parar sobre um chão mais seco
e mais duro.
Um pouco mais adiante, encontraram-se com dois carros. Todos
os veículos pararam e os motoristas se consultaram reciprocamente a fim de
obterem informes sobre as condições da estrada. Nos outros dois carros viajavam
uma mulher com uma criancinha de colo, um jovem oficial francês, um velho de
nacionalidade armênia e dois ingleses que pareciam ser comerciantes. Depois
desta pequena parada, o carro prosseguiu. As rodas atolaram mais duas vezes
ainda. Foi preciso, cada vez, executar os mesmos pesados trabalhos de levantar
as rodas com o macaco e de escavar a terra com as pás. O segundo leito de rio
foi mais difícil de atravessar que o primeiro. Já estava escurecendo quando
atingiram a sua margem e a água ali corria com certo ímpeto.
Joan, demonstrando muita ansiedade, interrogou o
motorista: — Será que o trem esperará
nossa chegada?
— Ele habitualmente espera durante uma hora. Este atraso pode
ser tirado depois com o aumento da velocidade, Mas nunca parte depois das nove
e meia da noite. Felizmente, daqui para diante a estrada é melhor, pois as
condições do terreno são bem diferentes. Já estamos penetrando numa região aberta
de deserto.
Os motoristas gastaram muito tempo limpando o leito do rio,
pois
as bordas mais afastadas das ribanceiras continham puro lodo
escorregadio.
Já era noite quando o veículo começou a rodar sobre o terreno
seco.
Realmente, depois de haver sido transposto o segundo leito
de rio, a viagem transcorreu sem nenhum transtorno, mas, mesmo assim, o carro
só conseguiu chegar em Tell Abu Hamid quinze minutos depois das dez da noite e
o trem com destino a Estambul já havia partido.
Joan estava tão exausta que quase não podia notar nada do que
havia em seu redor. Meio cambaleante, entrou no refeitório da casa de pernoite
onde se viam as mesas em forma de tripeças. Recusou alimento, mas pediu um chá.
Em seguida dirigiu-se ao seu quarto, com as paredes quase desconjuntadas e
fracamente iluminado por uma luz pálida. Haviam sido colocadas ali três camas
de ferro. Tirou da mala as coisas estritamente necessárias e atirou-se numa das
camas, pegando no sono imediatamente.
Na manhã seguinte, vencido o abatimento da véspera, ela despertou
o seu espírito egocêntrico retomando a calma que lhe era habitual e o interesse
pelas coisas. Sentou-se na cama e olhou a hora no seu relógio. Os ponteiros
marcavam nove e meia da manhã.
Levantou-se, vestiu-se e foi direto ao refeitório. Um hindu, com um
artístico turbante enrolado na cabeça, se apresentou na sua frente e ela pediu
que ele lhe servisse a refeição matinal. Depois dirigiu-se até a porta e ficou
olhando para fora. Percebeu logo que esta viagem de regresso levaria quase o
dobro do tempo da viagem de ida.
Na sua vinda ela viajara do Cairo a Bagdá, rota que lhe era
totalmente desconhecida. Na realidade, leva-se de Londres a Bagdá sete dias:
três dias de trem de Londres a Estambul e, partindo desta cidade, mais dois
dias até atingir Aleppo. De Aleppo até o ponto terminal da via férrea em Tell
Abu Hamid viaja-se de noite. Dali, então, de carro, roda
se durante mais um dia, com descanso noturno numa casa de
pernoite. Continua-se depois, durante
mais um dia, de carro, até Kirkuk, onde se toma o trem que chega a Bagdá no
mesmo dia.
Não havia sinal de chuva nessa manhã. O céu estava azul e sem
nuvens. A própria areia, por ali em torno, apresentava uma tonalidade dourado-escura.
Ao lado da casa de pernoite havia um emaranhado de arame farpado cercando uma
área dentro da qual se via um montão de latas vazias, atiradas ao lixo. Dentro
desse cercado umas galinhas magras corriam de um lado para outro cacarejando
fortemente. Nuvens de moscas pousavam sobre as latinhas que ainda continham resíduos
de alimento já em vias de putrefação. Algo que parecia um monte de trapo
repentinamente se levanta, deixando ver que se tratava de um jovem árabe.
Um pouco mais adiante, contornada por outra cerca de arame
farpado, via-se uma casinha acaçapada que mais parecia a toca de um bicho.
Tratava-se, sem dúvida, da estação ferroviária local. Ao lado dessa casinha
Joan observou algo que parecia um poço artesiano ou um enorme tanque de água.
Na direção norte divisava-se, como que adentrando no longínquo horizonte, o
perfil de uma cordilheira.
Afora isto, nada mais se via ali: — nenhum marco divisório,
nenhuma vegetação, nenhuma criatura humana.
Uma estaçãozinha, os trilhos da ferrovia, algumas galinhas,
aquilo que parecia ser um emaranhado de fios de arame farpado — eis tudo o que
havia naquele lugar.
Joan achou até muito engraçado o fato de manterem um local
nessas condições.
O criado hindu aproximou-se dela e anunciou que a refeição da
Memsahib estava pronta. Joan entra no refeitório. Predominava ali aquela
ambiência bem típica das casas de pernoite: sala escura, cheiros de gordura de
carneiro, de petróleo e de inseticidas. Tudo isto ocasionava-lhe uma sensação
não muito agradável.
A refeição consistia de café com leite (leite enlatado), um
prato de ovos fritos, algumas fatias de pão torrado, bem duro, um prato de doces
de frutas e um pouco de ameixas secas, de aspecto um tanto duvidoso.
Joan comia com grande apetite. Nesse instante reaparece o criado
hindu perguntando a que hora Memsahib desejaria ter o seu almoço.
Joan respondeu-lhe que não queria que o almoço retardasse
muito. Concordaram, então, em que seria
servido à uma e meia da tarde. Como Joan
sabia muito bem, o trem partia daquele lugarejo três vezes por semana: às
segundas, às quartas e às sextas-feiras. Era terça feira de manhã. Portanto ela
só poderia prosseguir a sua viagem no dia seguinte, à noite. Para certificar-se
melhor, perguntou ao hindu se este horário estava certo e ele respondeu-lhe
confirmando:
— Muito certo. Memsahib perdeu trem noite passada. Muito
infeliz. Estrada muito ruim. Esta noite choveu muito. Carro não pode ir a Mosul
nem vir de Mosul, por alguns dias. Mas o trem pode trafegar normalmente, não é
verdade? — interrogou Joan que, afinal, não tinha nenhum interesse em saber
acerca das condições da estrada para Mosul.
— Oh, sim. Trem vai chegar amanhã cedo. Depois vai partir de
noite.
Joan acenou-lhe afirmativamente com a cabeça, demonstrando
ter entendido. Perguntou então onde estava o carro que a trouxera no dia
anterior.
— Partiu hoje muito cedo. Motorista espera conseguir atravessar
rios ainda sem dificuldade. Mas acho que não. Acho que carro vai ficar atolado
durante um ou dois dias.
Joan também achou que isto seria muito provável, embora sem
demonstrar nenhum interesse pelo caso. O criado continuou prestando informações:
— Ali está a estação, Memsahib.
Joan respondeu-lhe que, de fato, já havia suposto ser aquela
casinha a estação.
— Estação turca. Ela está na Turquia. Estrada de ferro
turca. Está do outro lado da cerca de
arame, veja. Cerca marca fronteira. Joan
observou aquela cerca demarcatória da fronteira e começou a imaginar como são
esquisitas as fronteiras.
— Almoço à uma e meia exatamente! — declarou mais uma vez o
hindu, com uma expressão de alegria no semblante e saiu correndo
para o interior da casa. Alguns momentos após, lá nos
fundos, estava ele gritando bem alto. Duas outras vozes faziam coro com a dele.
Um verdadeiro turbilhão de palavras árabes, pronunciadas com irritação,
inundava o ar.
Joan admirou-se pelo fato de, naquelas regiões, serem
incumbidos de tomar conta das casas de pernoite somente hindus. Talvez fosse porque eles conhecem melhor os
hábitos dos europeus. Bem, mas este era
um assunto que pouco lhe interessava agora. Que poderia ela fazer para passar o
tempo nessa manhã? Poderia ler o divertido livro As Memórias de Lady Catherine
Dysart ou bem que ela poderia escrever algumas cartas. Ser-lhe-ia fácil
colocá-las no correio quando o trem chegasse a Aleppo. Ela trazia consigo um
bloco de papel e alguns envelopes. Mas ao transpor o limiar da casa de pernoite
hesitou: lá dentro não havia muita claridade e o mau cheiro invadia todas as salas.
Talvez fosse melhor dar uma caminhada. Foi buscar o seu chapéu grosso de feltro
embora o sol, nesta época do ano, não ocasionasse nenhum mal. Entretanto, é
sempre bom tomar alguma precaução.
Colocou os óculos escuros e enfiou na bolsa o bloco de
cartas e a caneta-tinteiro.
Então, caminhando em sentido oposto à estação rodoviária e
passando ligeiro por perto do monturo de lixo e de latas vazias, limitou se a
andar um pouco por ali mesmo sem transpor a fronteira a fim de evitar qualquer
complicação internacional.
Pensou consigo mesma: “Como é estranho fazer-se uma
caminhada aqui!... Não há nenhum lugar para onde se dirigir”. Seria até original e interessante a idéia de
caminhar sobre dunas, de atravessar charnecas, de fazer um percurso ao longo
duma praia, de percorrer uma estrada. Evidentemente, isto é possível só nos lugares
onde se pode escolher objetivos assim caracterizados. Não causaria nenhum
espanto e seria até muito corriqueiro dizer-se: “Vou até o topo daquela colina,
até aquele capão ou até aquela touceira de capim. Vou descer aquele atalho que
conduz à fazenda, vou caminhar pela estrada
principal até o próximo povoado, vou contornar as sinuosidades
daquele vale estreito na costa do morro ...”
Mas aqui... nada disso se podia dizer: tinha-se a única
opção de sair de um lugar designado... para um nada! Podia-se dizer, por
exemplo, sem maiores detalhes acerca de pontos de referência: “Vou sair da casa
de pernoite”. Só isto. Pelo lado direito, pelo lado esquerdo, diretamente em
frente — ou na direção da parte do horizonte que está escura.
Ela caminhava ao léu por ali, não se sentindo muito animada.
O ar estava agradável. Faria calor, mas não, um calor excessivo. Ela achava que
um termômetro marcaria cerca de 21 graus. Soprava uma brisa muito fraca.
Andou uns dez minutos sem virar a cabeça. A casa de pernoite
com aquele seu cercado imundo ficara a uma distância ainda bem cômoda para ser
percorrida. Dali onde Joan se encontrava agora a casa tinha até um aspecto
agradável. Lá do outro lado via-se a estação ferroviária que parecia um
monumento sepulcral feito de pedras.
Joan não parava de sorrir enquanto fazia o seu passeio vagando
ao acaso. Como o ar estava delicioso! Um ar puro e fresco. A atmosfera não era
viciada nem trazia o mínimo resquício da poluição que existe nos ambientes
civilizados. O sol, o céu, o chão de areia, eis tudo o que havia ali. E, mesmo
assim, ela tinha a impressão de inebriar-se ao respirar em fortes haustos
aquele ar puro. Na verdade, ela se divertia com tudo aquilo. Até parecia que
estava vivendo momentos de uma grande aventura surgida oportunamente para
quebrar a monotonia da sua vida rotineira. Chegou até a achar muito bom ter
perdido o trem. Só assim ela poderia passar vinte e quatro horas em absoluta
calma e paz, o que era muito bom para ela. Não havia lá aquela grande necessidade
do seu imediato regresso. Ela poderia telefonar a Rodney, de Estambul,
explicando-lhe o motivo da demora.
Pobre velho Rodney! Teria ele a curiosidade de saber o que ela
estava fazendo? Não. Realmente não! Tinha ela outras coisas com que se
preocupar. Quanto a Rodney, ela sabia perfeitamente o que ele fazia.
Passava o dia sentado em seu escritório em Alderman, sob a razão
social Scudamore & Witney, numa sala muito linda localizada no primeiro
andar, com vista para o Market Square. Ele transferira seu escritório para lá
logo após a morte do velho Witney. Rodney gostava imensamente daquela
sala.
Joan começou a lembrar-se de um certo dia em que entrara
naquela sala, tendo encontrado o marido de pé, à janela, completamente absorto
na contemplação do movimento do mercado (era
dia de funcionamento da feira). Ela entrara no exato momento em que uma
tropa de bois ia sendo conduzida para dentro.
— Linda tropa de shorthorns! — exclamou ele. (Talvez nem fossem
da raça shorthorn aqueles bois; na verdade, Joan não era perita na
classificação das raças de gado, mas, de qualquer forma, vale a citação pela
semelhança.)
Sem mais delongas disse ela ao marido:
— Quanto à caldeira do aquecimento central, acho que o
orçamento calculado por Golbraith é muito alto. Não seria interessante que eu
procurasse saber qual seria a estimativa de Chamberlain?
Estava bem nítida na lembrança de Joan a maneira como Rodney,
com um ar tão distraído, parecendo não ter percebido a sua presença, embora
encarando-a frontalmente, indagou-lhe: “Caldeira?!” Pronunciou esta palavra dando a impressão de
estar falando de um objeto vago de que nunca ouvira falar antes, e, em seguida,
obtemperou — falando de maneira realmente um tanto desconexa:
— Acredito que Hoddesdon está propenso a vender aquele touro
da sua fazenda. Acho que ele precisa de dinheiro.
Ela notou que Rodney não ocultava um certo quê de simpatia por
Hoddesdon ao demonstrar interesse pela fazenda Lower Mad, de propriedade do
pobre velho que, como todo mundo sabia e comentava, já estava indo à breca. E,
falando a pura verdade, muito agradaria a Joan que Rodney fosse mais esperto
sem dar excessivo crédito a tudo que lhe entrava pelos ouvidos. Não há dúvida
de que toda gente espera que um advogado seja sempre esperto e vigilante. Se
Rodney passasse a
atender os seus clientes daquela maneira vaga e indecisa,
claro está que ele lhes causaria péssima impressão. Por isso, falou-lhe com
impaciência, embora conservando nas suas palavras o tom carinhoso:
— Deixe desses devaneios, Rodney! É sobre a caldeira que estou
falando: a caldeira para o aquecimento central do nosso apartamento. Rodney apenas obtemperou que certamente ela
poderia obter um novo orçamento, contudo os gastos seriam sempre altos, pois
são os próprios vendedores que fazem os cálculos ao seu arbítrio. Então ele passou a observar, de relance, a
enorme pilha de papéis que se formara sobre sua mesa. Ela se lembrava
perfeitamente de ter lhe dito que não mais iria interrompê-lo pois que,
conforme ela própria verificara, a tarefa do marido se apresentava bem volumosa
nesse dia. Rodney, sorrindo,
explicou-lhe que não havia feito outra coisa senão amontoar papéis, pois
perdera muito tempo observando o movimento da feira.
— É por isso que eu gosto desta sala. Durante a semana só fico
esperando a chegada da quinta-feira a fim de poder presenciar o movimento do
mercado. Escute!... Escute bem, agora!
Com o dedo em riste ele apontou para fora. Então, ela passou
a ouvir mugidos de vacas, berros de touros e balidos de ovelhas. Uma
desagradável e barulhenta confusão de berreiros que, mesmo assim, parecia
encantar os ouvidos de Rodney. E ele, postado de pé à janela, inclinou um pouco
a cabeça para o lado e começou a sorrir de tanta satisfação...
Oh, mas também hoje não é dia de feira lá no mercado. Portanto,
não tendo tais distrações, Rodney só poderá estar sentado à sua mesa de
trabalho, dando andamento nos papéis encaminhados. Além disso, sinceramente não
tem fundamento algum o temor dela de que os clientes possam pensar que Rodney
seja um homem indeciso, sempre absorto em imaginações desvairadas. Já faz muito
tempo que ele é reputado como o sócio da firma que mais goza da estima geral. Todo
mundo gosta dele e esta circunstância, na carreira de um solicitador judicial,
significa meia batalha ganha.
“E dizer que se não fosse por minha causa (pensou Joan com
uma irreprimível satisfação íntima) ele teria rejeitado precisamente a proposta
que lhe propiciou este progresso na vida, afugentando a própria sorte!”
Foi pensando nisso que ela começou a evocar na sua lembrança
aquele dia em que Rodney lhe falara acerca da oferta do seu tio. Tratava-se da proposta para participação de
Rodney na antiga organização da família que se encontrava em florescente
prosperidade. A admissão de Rodney no
negócio ficara desde muito tempo condicionada à conclusão dos seus exames do
curso jurídico. Indiscutivelmente essa
proposta do tio Harry, oferecendo-lhe sociedade na empresa, mediante condições
tão excelentes, foi um inesperado acontecimento feliz. A própria Joan lhe
expressara sua grande satisfação, congratulando-se efusivamente com ele. Mas
ela notou logo que ele absolutamente não compartilhava da sua alegria. Naquele
momento ele proferiu estas palavras quase inacreditáveis para ela: “Se eu
aceitar...”
Joan, espantada e aflita, exclamou: “Mas Rodney!” Ela ainda
conservava bem nítida na memória a lembrança da maneira como Rodney se virou
para ela com uma rígida expressão no semblante.
Antes, jamais pudera imaginar que Rodney fosse tão irritadiço. Suas mãos
tremiam enquanto ele maquinal-mente colhia folhas de plantas de um vaso. Seus
olhos escuros pareciam exprimir uma estranha súplica, de um modo realmente
esquisito. Começando a falar, disse ele a Joan:
— Eu odeio a vida de escritório. Só sei dizer que não gosto desse
trabalho!
Joan apressou-se a mudar, o tom de voz, demonstrando admitir,
embora muito sentida, a aversão do marido a esse tipo de trabalho. — Oh, eu bem compreendo, queridinho, que se
trata de uma atividade tremendamente enfadonha e cansativa. É uma verdadeira
amolação. É um trabalho até mesmo pouco interessante. Mas uma participação
direta como sócio é coisa muito diferente. Acho que você terá grande vantagem,
especialmente se lhe couber, como suponho,
uma parte nos rendimentos globais de todos os serviços. — Sim, terei parte nos emolumentos
provenientes da elaboração de contratos de arrendamento e de locação de casas
de moradia, com suas dependências ou servidões, bem como da elaboração de escrituras
públicas referentes a vendas imobiliárias e convênios, enfim de todos os
documentos tais como os que invariavelmente começam com as palavras:
considerando que, visto que etc.
Foi assim que ele, com um sorriso nos lábios, respondeu-lhe desfiando
uma trapalhada de vocábulos enquadrados na terminologia jurídica, num evidente
exibicionismo de seus conhecimentos. Contudo, dos seus olhos não se dissipava
aquela expressão de súplica... Uma súplica persistente. Ele só queria forçar
Joan a concordar com ele... E como ela amava Rodney!
— Você bem sabe que não é de hoje que ficou combinado que
você iria participar da firma depois de formado.
— Eu sei... eu sei. Mas como poderia eu ter previsto
então que iria detestar esse tipo de atividade?
— Mas... é simplesmente uma indagação... a não ser deste tipo
que outra espécie de atividade pretenderá você?
Ele respondeu-lhe falando rapidamente, parecendo estar
expelindo com ímpeto as palavras para fora da boca:.
— Eu quero dedicar-me à agricultura. A fazenda Little Mead está
sendo posta à venda. Atualmente ela se encontra em péssimas condições, pois o
pessoal de Horley não cuidava bem dela. Mas é por isso mesmo que se pode
adquiri-la por preço bem barato. A terra é boa e note bem que...
Então passou ele a falar com açodamento sobre os seus planos,
empregando tantos termos técnicos que ela chegou quase a ficar tonta. Na verdade, que poderia ela saber a respeito
da plantação e colheita de trigo e cevada, mediante processo de culturas
rotativas, ou sobre criação e tratamento do gado leiteiro?
Dominada pela timidez, ela conseguiu apenas retrucar-lhe,
com a voz quase sumida:
— Little Mead... Mas esta lavoura fica lá nos cafundós... tão
longe...
— Mas a terra é boa, Joan. E o lugar também serve.
E, em nova investida, prosseguiu na sua tagarelice, ressaltando
as vantagens na compra daquele sítio. Joan jamais poderia ter imaginado que a
propensão de Rodney para a vida ao campo fosse tão grande assim a ponto de
compeli-lo a falar o assunto sempre com exagerado entusiasmo. Ela, sem poder
ocultar seu ceticismo quanto a essas propaladas vantagens, indagou-lhe:
— Mas, queridinho, você pretende, mesmo adquirindo esse sítio,
possuir também uma casa de moradia noutro lugar?
— Uma casa? Oh, sim... Uma casa noutro lugar, embora mal
mobiliada, teremos que montar de qualquer forma.
— É exatamente isto que me preocupa. Dizem que a lavoura nem
sempre rende muito dinheiro.
— Bem, lá isso é verdade. A não ser que se tenha uma sorte
danada ou que se disponha logo no início de um grande capital, os rendimentos
da agricultura nunca são de grande monta...
— Então, veja bem... Não me parece que essa atividade seja de
grande proveito para nós.
— Oh, mas não há dúvida de que o negócio é bem promissor,
Joan. Eu já fiz uma certa reserva em dinheiro, lembra-se? Depois, com o sítio
produzindo seus rendimentos e deixando margem para alguma economia, tudo nos
correrá bem. E pense na vida maravilhosa que teremos! Como é esplêndido viver
num sítio!
— Não creio que você tenha grandes conhecimentos com relação
à agricultura...
— Mas é claro que eu conheço os serviços da lavoura! Será que
você já se esqueceu de que meu avô materno foi um grande fazendeiro em
Devonshire? Era lá que nós passávamos sempre as nossas férias quando éramos
crianças. Nunca me diverti tanto na minha vida como naqueles tempos.
“É bem certo o ditado que afirma serem os homens exatamente
como as crianças” — pensou Joan consigo mesma e continuou a
ponderar ao marido:
— Não nego o que você afirma. Entretanto é preciso considerar
que o decurso de uma vida toda não pode ser comparado com os minguados períodos
de férias. Devemos pensar no nosso futuro, Rodney. Lembre-se de que temos
Tony.
Tony, nessa época, era um bebê de onze meses. Joan
acrescentou:
— E poderemos ter ainda outros filhos.
Ele fitou-a com uma certa expressão de vivacidade nos olhos
e ela sorriu, meneando a cabeça.
— Mas será mesmo que você não vê, Joan, que com este negócio
tudo ficará melhor? Um sítio como aquele é que é bom para as crianças. É um lugar saudável. Elas terão sempre ovos
frescos e leite, poderão correr livremente pelo campo e, além do mais,
aprenderão como se cuida dos animais.
— Oh, Rodney, mas resta uma porção de coisas que devemos
considerar. O colégio para as crianças, por exemplo. Elas terão que frequentar
um bom colégio e isto sai caro. E não haverá outro remédio senão fazer gastos:
sapatos, uniformes, dentistas, médicos... Além disso teremos que zelar para que
nossos filhos façam boas amizades, É exatamente por isso que eu acho que você
não deve fazer esse negócio. Quem tem
filhos não pode nunca deixar de pensar neles. É, sem dúvida alguma, obrigação
dos pais zelar pela felicidade dos filhos.
Rodney prosseguiu falando com obstinação, mas a partir desse
momento notava-se nas suas palavras uma espécie de dúvida que começava a
invadir-lhe o cérebro.
— Eles serão felizes...
— Não, Rodney, sinceramente não acho vantajosa a exploração de
uma lavoura. Você deve refletir que, participando como sócio da organização de
seu tio, chegará uma época em que você poderá ganhar mais de duas mil libras
por ano.
— Sem dúvida. Tio Harry já está ganhando mais do que isso.
— E então? Que é que você tem na cabeça, homem? De forma
alguma você poderá recusar uma proposta dessas. Seria uma grande loucura!
A esta altura do diálogo ela começou a falar num tom bem
incisivo. Agora, forçosamente ela teria que ser firme e positiva na sua
argumentação. Ela deveria ter sabedoria para os dois. Se Rodney, com a mente
empanada, não podia vislumbrar as coisas que seriam mais convenientes para a
família, é evidente que ela tinha que assumir a responsabilidade de orientá-lo.
Realmente, não deixava de ser ridícula e boba esta sua idéia de dedicar-se à
exploração da agricultura. Ele estava se comportando exatamente como um menino.
Ela se vira na contingência de tomar uma atitude maternal, indicando-lhe com
firmeza o rumo certo.
— Não pense que eu não tenha compreendido você, Rodney. Admito mesmo que a vida no sítio poderá ser
agradável. Não discutamos sobre este aspecto. Mas, convenhamos, trata-se de um
negócio que foge às perspectivas da realidade...
Ele interrompeu-a bruscamente para retrucar-lhe que a
exploração de uma lavoura era uma atividade bem promissora, nada havendo de
fantasioso no seu plano.
Ela voltou a insistir:
— Pode ser... Mas o negócio que você pretende realizar
absolutamente não condiz com a imagem delineada pela nossa situação atual.
Pense bem: você, agora, tem a possibilidade de participar de um promissor
negócio de família que lhe abrirá as portas para um esplendoroso futuro! A
proposta de seu tio foi imensamente generosa.
— Oh, eu sei... Foi melhor do que eu poderia esperar.
— Por isso você não deve recusá-la. Simplesmente você não pode
e não deve recusá-la. Do contrário, terá que se lamentar durante toda a sua
vida pela atitude tomada. E dificilmente você poderá livrar-se de um terrível
sentimento de culpa.
Ele resmungou:
— Aquele maldito escritório!
— Oh, Rodney, creia-me, você não detesta o escritório tanto assim
como pensa.
— Detesto, sim e muito! Lembre-se de que já vão cinco anos que
eu trabalho lá. Forçosamente devo saber o que sinto.
Mas você vai se acostumar com o trabalho, especialmente nessa
nova fase em que tudo será diferente. Muito diferente. Você será um sócio. E
não há dúvida de que acabará adquirindo interesse pelo serviço bem como pela
gente com a qual você terá que lidar. Estou certa, Rodney, de que você, mais
tarde, se sentirá perfeitamente feliz.
Ele fitou-a durante um bom tempo com os olhos tristes, refletindo
amor e desespero ao mesmo tempo e parecendo tentar exprimir algo indefinível
que talvez outra coisa não fosse senão o último resquício de esperança...
— Como pode você ter certeza de que eu me sentirei perfeitamente
feliz? — perguntou ele a Joan que lhe respondeu com vivacidade: — Não tenho dúvidas, Rodney, de que você será
feliz. Você verá! Ela meneou a cabeça,
dando ênfase a esta sua afirmativa. Ele, então, depois de ter dado um suspiro,
exclamou:
— Bem... Está certo. Vou seguir o seu conselho... “Sim, foi por
um tri que escapamos de cair numa triste situação” — pensou Joan consigo mesma.
E que felicidade foi ter ela se oposto com firmeza à decisão de Rodney, não
permitindo que ele estragasse a sua carreira simplesmente por causa de um
capricho momentâneo. Bem que ela sabia que os homens, se não fossem as
mulheres, só fazem besteiras... As
mulheres sempre têm a idéia mais assentada e possuem melhor compreensão da
realidade...
Não se discute que foi uma sorte para Rodney tê-la ao seu
lado... Depois dessas elucubrações, a
primeira coisa que fez foi dar uma olhada no mostrador do seu relógio de pulso.
Os ponteiros marcavam dez e meia. Ela não achou conveniente ir mais longe nesta
sua caminhada, mesmo porque não havia nenhum lugar para onde ela pudesse
dirigir-se. Pensando nisso teve que sorrir. Levantando bem o busto, lançou o
olhar em redor. A casa de pernoite, por incrível que
pareça, já estava quase fora do alcance da vista. Parecia
ter-se afundado tanto a ponto de ser difícil divisá-la nos contornos daquela
paisagem. Joan bem que compreendeu que deveria tomar cuidado não se
distanciando muito do seu único ponto de referência. Facilmente poderia
perder-se. Este pensamento lhe pareceu ridículo — Não! Talvez não devesse ser
considerado tão ridículo assim depois de tudo o que lhe acontecera.
Aquelas montanhas que ela antes vira bem longe, como que
adentradas nos limites do horizonte, confundiam-se, agora, com as próprias
nuvens.
A estação sumira da sua vista. Admirada, continuou a olhar em
seu redor: não havia nada para contemplar. Então, deixou-se cair suavemente
sobre aquele chão de areia. Abriu a sua sacola tirando um bloco de cartas e uma
caneta-tinteiro. Ela poderia escrever algumas cartas. Era até bem interessante
e divertido comunicar a outras pessoas as sensações que ela estava vivendo no
momento. Mas escrever a quem? A Lionel West? A Janet Annesmore? A Dorothea?
Bem, talvez seja melhor começar com Janet.
“Minha querida Janet.
Você nem pode imaginar de onde lhe estou escrevendo esta
carta! — É precisamente do meio do
deserto. Encontro-me vagando nesta região como uma criatura abandonada. Aqui só
existem uma casa de pernoite, um hindu que toma conta dela, uma porção de galinhas,
alguns árabes com as suas maneiras bem típicas e... eu. Não há nenhuma pessoa
com a qual eu possa conversar e nada tenho para me entreter. Contudo nem posso
lhe dizer como estou gostando deste lugar, O ar do deserto é maravilhoso e
fresquinho. Dificilmente você poderia compreender a sensação de calma e de tranquilidade
que invade a gente. Posso dizer que esta é a primeira vez na minha vida que
disponho de tempo para pensar e meditar. Em casa sempre se tem uma vida tão
atarefada que não há tempo para descanso. Quando não é uma coisa é outra que
aparece para tomar o tempo da gente. Eu bem sei que
não se pode deixar de cumprir todas as obrigações, mas acho
que cada qual deveria reservar periodicamente um pouco do seu tempo para
meditar e revigorar o espírito. O decurso de tempo em que estou parada aqui não
ultrapassa a metade de um dia, mas já me sinto realmente muito melhor. Afora os
empregados da casa de pernoite, não se vê vivalma. Antes eu jamais poderia ter
imaginado que fosse tão grande assim o meu desejo de ficar isolada das pessoas.
É deveras reconfortante para os nervos saber-se que em redor da gente, num raio
de centenas de milhas, não existe outra coisa senão areia e sol...”
A pena da caneta deslizava suavemente sobre o papel.

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