Joan Scudamore movia os olhos de um lado para o outro perscrutando atentamente, através da penumbra, o refeitório daquela casa de pernoite.
— Sem dúvida ela está
aqui!... Não está... Mas tenho certeza de
que ela deve estar aqui. Oh, ei-la aí, Blanche Haggard! Interessante! Deu-lhe na cabeça sair deserto
afora simplesmente para ver se,
favorecida pelo acaso, se encontraria com uma sua amiga dos tempos de colégio que fazia tantos anos —
oh, seguramente uns quinze — não
via.
Inicialmente Joan ficou encantada
com esse encontro. Sua índole natural
era de mulher sociável que sempre encontrava prazer em acercar-se dos amigos e das pessoas das suas
relações. Entretanto, logo em seguida
começou a pensar consigo mesma: “Ela aparenta ter mais idade do que realmente tem. E aqui o vocábulo
idade deve ser tomado na sua acepção literal porque a sua aparência
de pessoa idosa era, de certa forma,
acentuada. Em última análise: qual seria mesmo a idade dela? Quarenta e oito anos?”
Foi em decorrência
natural desse pensamento que ela procurou,
como que impelida a fazer um confronto, fixar os olhos sobre a sua própria figura, contemplando-se num espelho
que, coincidentemente, pendia da parede
ao lado da mesa.
O que ela viu chegou até
a deixá-la mais bem humorada. Até que
estou bem conservada! — pensou Joan Scudamore.
De fato, diante do espelho surgiu a imagem de uma fina e
elegante mulher de
meia-idade, com a face completamente sem rugas e uns olhos azuis que inculcavam no seu
semblante uma expressão bem
agradável.
Joan vestia saia e um
casaquinho simples e leve, bem apropriado
para aquele clima. Levava consigo um tipo de mala com espaço capaz de conter as coisas imprescindíveis para uma viagem.
Joan Scudamore estava
agora empreendendo a sua viagem de volta
de Bagdá para Londres, seguindo até então por via terrestre. Ela chegara de trem na noite anterior. Era de sua
intenção nesta noite dormir na casa de
pernoite da própria estação ferroviária e prosseguir de carro sua viagem na manhã do dia
seguinte.
Foi precisamente a súbita
doença da sua jovem filha que motivou a
sua saída a toda pressa da Inglaterra, pois ela sabia perfeitamente que William (seu genro) era muito indócil e
intratável. Além disso, tinha ela uma
exata compreensão do caos que surgiria num lar desprovido de eficiente orientação.
Felizmente agora tudo
tinha ficado bem de novo. A criancinha,
William e Bárbara, que já estava em franca convalescença, entraram numa nova fase sem mais nenhum problema de
monta, pois as coisas foram por Joan
dispostas de maneira que a vida deles pudesse seguir o seu ritmo normal.
Graças à minha bondade —
pensou Joan. — Eu sempre tenho que ter
alguma preocupação pesando nos meus ombros.
William e Bárbara nem sabiam como expressar-lhe sua imensa gratidão. Insistiram para que ela ficasse e
não se apressasse a voltar à Inglaterra.
Mas ela, sempre sorridente, recusou, embora reprimindo os suspiros que a comoção lhe provocava. É que
ela não podia deixar de levar em
consideração também o pobre velho Rodney que ficara lá em Crayminster tão cheio de serviço que não
tinha tempo nem para se coçar. Não havia
ninguém que cuidasse dele a não ser os criados.
E, falando a pura verdade — pensou Joan — o que são os criados?
Bárbara dissera-lhe:
“Seus criados, mamã, são excelentes. A
senhora sabe escolhê-los e nunca descura do aperfeiçoamento deles”. Ela sorriu modestamente mas é claro que tais
palavras lhe agradaram muito. Toda
pessoa que faz ou diz algo gosta de ouvir a
apreciação dos outros. E, às vezes, Joan se admirava pelo fato de
sua família presumir que ela dirigia a
casa com desembaraço, demonstrando
sempre muito cuidado e zelo. Evidentemente, ela não
tinha nenhuma crítica a
fazer com relação à sua atitude. Tony, Averil e
Bárbara sempre foram crianças encantadoras. Com muita razão Rodney e ela sentiam uma grande alegria com a
educação dos seus filhos e com o
progresso que eles haviam feito na vida.
Tony possuía grandes
plantações de laranja na Rodésia. Averil,
depois de ter dado aos pais uma certa preocupação passageira,
firmou sua vida, tornando-se esposa de
um rico e fascinante corretor da Bolsa.
O marido de Bárbara tinha um bom cargo no Departamento de Serviços Públicos do Iraque.
Seus filhos sempre foram
lindas crianças, de aspecto sadio e de
maneiras educadas e afáveis. Joan e Rodney bem que se sentiam
felizes com a situação dos filhos e ela,
intimamente, não deixava de pensar que,
em grande parte, o sucesso deles era devido a ambos. No fim de contas, foram eles, os pais, que os criaram e
educaram, tendo tido sempre um enorme
cuidado para escolher, quando eles eram pequenos, as babás e as governantas. Depois, quando se
tornaram maiores, os cuidados paternos
redobraram na escolha de bons colégios. Ambos
nunca deixaram de preocupar-se com a saúde, o bem-estar e a felicidade dos filhos.
Joan sentiu-se como que
radiante de dignidade quando virou as
costas para o espelho e passou a refletir: “Bem... é muito lindo e agradável para uma pessoa quando ela nota que
teve sucesso no seu trabalho. Eu nunca
na minha vida quis seguir uma carreira ou coisa
semelhante. Sempre me contentei em ser esposa e mãe. Casei-me com o homem que eu amava e ele fez progressos no
seu serviço. E quem sabe se o sucesso
dele não foi em grande parte devido a mim? É sabido que uma pessoa bem influenciada vai longe. . .
Querido Rodney!”
E seu coração pulsava de
ansiedade simplesmente em pensar que bem
breve ela estaria novamente vendo Rodney. Antes, ela nunca permanecera tanto tempo assim longe dele. Que
vida feliz e tranqüila eles sempre
tiveram!
Tranqüila... Bem, esta
palavra talvez seja um tanto exagerada.
Numa família a vida não corre nunca com absoluta tranqüilidade:
férias, doenças
infecciosas, encanamentos quebrados no inverno... Sempre aparece alguma coisinha para
atrapalhar. Mas que é a vida senão uma
seqüência de pequenos dramas?
Rodney sempre trabalhou
em demasia. Talvez mais do que seria
permitido pela sua saúde. Há seis anos ele esteve muito mal, completamente enfraquecido. Ele, nestes
últimos tempos, não se encontra tão bem
conservado como Joan, a qual sempre se lembra disto com um sincero sentimento de compaixão.
Caminha um pouco curvado e muitos fios
de cabelos brancos despontam na sua cabeça. A expressão do seu rosto é a de um homem cansado.
Mas, apesar de tudo, a
vida deles foi uma vida calma. E, agora,
com os filhos já casados e com os negócios da firma correndo bem
(pois o novo sócio entrou com a sua
parte em dinheiro), Rodney poderá levar
a coisa com mais facilidade. Ambos terão tempo para divertir-se. É
claro que eles também devem ter algum
entretimento ou prazer na vida: passar,
por exemplo, de tempos em tempos, uma ou duas semanas em Londres. Depois, Rodney poderá talvez
dedicar-se ao golfe. Sim... ela nem pode
imaginar por que, antes, não o aconselhou a praticar o golfe. É um esporte tão saudável, especialmente para
quem trabalha muito como ele.
Depois de ter a sua mente
ruminado todos esses pensamentos, a
senhora Scudamore fitou mais uma vez detidamente, através da penumbra do refeitório, a mulher que ela
julgava ter sido sua antiga colega de
colégio.
Blanche Haggard... Oh,
como ela gostava de Blanche Haggard
naqueles tempos em que ambas estavam no Colégio St. Anne. Não havia quem não fosse louco por Blanche. Ela sempre
fora tão ousada, tão divertida... Até
parece um ridículo contra-senso lembrar isto agora contemplando essa mulher magra e intranqüila
que foi envelhecendo no maior desleixo,
negligenciando até os mínimos cuidados para melhorar a sua aparência. E dizer que usava outrora
vestidos tão finos! Ei-la agora ali
parecendo ter mais de sessenta anos.
Evidentemente — pensou Joan — ela sempre teve uma vida muito
infeliz.
Nesse instante, uma
súbita inquietação invadiu o seu espírito:
tudo, naquele ambiente, dava-lhe a impressão de não ser outra coisa senão um brinquedo sórdido e lúgubre. Surge de
novo na sua mente a figura de Blanche
com vinte e um anos, tendo o mundo a seus pés: boa aparência, boa posição, tudo o que desejasse.
E não é que o destino lançou na sua
vida, para sua desgraça, aquele indivíduo execrável: um veterinário... sim, parece-me, ele era
veterinário. Um veterinário casado, o que era pior. As pessoas da sua família,
com relação a este namoro, haviam-se
comportado com uma louvável atitude de firme oposição. No intuito de desviá-la daquele sujeito levaram
Blanche para fazer um agradável cruzeiro
pelo mundo. E Blanche o que fez? Num porto
qualquer, na Argélia ou em Nápoles, escapou do navio e voltou para juntar-se com o seu veterinário. Por essa
época, sem dúvida, ele já tinha perdido
a sua aptidão profissional e começara a beber. Sua esposa não quis divorciar-se dele. Então
saíram de Crayminster e, durante muitos
anos, Joan não mais ouviu falar de Blanche.
Certo dia, casualmente,
uma cruzou pela outra na loja Harrods em
Londres, quando entravam na seção de calçados. Após um dialogozinho discreto (discreto apenas da
parte de Joan, pois Blanche nunca soube
guardar discrição) ela ficou sabendo que Blanche, a esta altura, estava casada com um homem chamado
Holliday, que trabalhava numa companhia
de seguros.
Entretanto Blanche achava
que muito breve ele iria deixar este
serviço porque pretendia escrever um livro sobre Warren Hasting. Queria dedicar integralmente o seu tempo a
essa obra e não somente as horas que lhe
sobrassem ao chegar em casa de volta do escritório. Joan disse-lhe, a título de simples comentário,
que era de supor ter ele feito boa
economia ou, então, já possuir recursos próprios de monta. Blanche, entretanto, replicou-lhe
cordialmente que seu marido não
economizara nem um centavo sequer e que não possuía nada. Joan, portanto, passou a ponderar que, em tal
hipótese, não achava muito prudente a
sua saída do emprego, a menos que ele tivesse absoluta
certeza do sucesso do
livro que pretendia escrever. Recebeu ele o
encargo de escrever essa obra? Oh, coitada de mim! — respondeu Blanche sempre falando num tom de
cordialidade. Não, ele não foi incumbido
por ninguém. Adiantou mais que ela; na realidade, não acreditava no êxito do livro pois que, embora
Tom fosse muito sagaz e concentrasse
toda a sua habilidade nessa tarefa, na verdade não sabia escrever bem. Ante tal afirmativa de Blanche,
Joan aconselhou-a, com certa veemência,
a que firmasse pé, procurando dissuadi-lo desta idéia. Blanche arregalou os olhos e declarou
simplesmente: “Mas o pobrezinho quer escrever esse livro. É o seu maior
desejo neste mundo”.
Joan, como que insistindo
no seu conselho, prosseguiu: “Há
momentos em que uma pessoa tem que ter sabedoria para duas”. Blanche, sorrindo, declarou: “Jamais consegui
ter sabedoria para mim própria”.
Refletindo sobre estas
últimas palavras da amiga, Joan pôde
certificar-se de que ela, infelizmente, dissera a pura verdade. Um ano depois ela viu Blanche num
restaurante, acompanhada de certa mulher
de aspecto vistoso e de dois homens de aparência deslumbrante. A partir daí, então, só teve
notícias de Blanche cinco anos mais
tarde, quando ela lhe escreveu pedindo um empréstimo de cinqüenta libras. Alegou ela que seu menino teria
que submeter-se a uma intervenção
cirúrgica. Joan remeteu-lhe vinte e cinco libras e escreveu-lhe uma carta amável, pedindo
informações acerca da doença do menino.
A resposta veio num cartão-postal em que ela rabiscara as seguintes palavras: “Tudo de bom para você,
Joan! Eu tinha certeza de que você não
me deixaria de mão abanando”.
Em certo sentido, eram
palavras de gratidão mas — convenhamos —
não plenamente satisfatórias. Depois disso, silêncio! Finalmente, agora, nesta casa de pernoite de
uma estação ferroviária do Oriente
Próximo, à luz da chama bruxuleante de um lampião a querosene naquele refeitório
invadido pelo cheiro fétido de gordura
rançosa de carneiro misturado com o cheiro de petróleo e do inseticida que havia sido borrifado, eis que
se encontra diante de mim a
minha amiga de tantos
anos atrás, incrivelmente envelhecida, usando
uma roupa que tornava a sua aparência tão grosseira.
Blanche, primeiro,
terminou o seu jantar. Exatamente quando se
aprestava para sair foi que viu Joan. Chegou quase a cair pelo
impacto da surpresa.
— Santo Moisés, é Joan!
Passados alguns segundos,
Blanche puxou uma cadeira para perto de
Joan e ficaram as duas batendo um papo. Disse Blanche: — Como você está bem conservada, minha
querida! Você não aparenta ter mais de
trinta anos. Onde esteve durante todos esses
anos? Conservada numa câmara fria?
— Ora, não fale assim,
Blanche. Eu sempre estive em
Crayminster.
— Nascida, criada, casada
e enterrada em Crayminster. — Acha você
que isto revela um péssimo destino? — perguntou
Joan com um sorriso nos lábios.
Blanche, com o semblante
sério, sacudiu a cabeça respondendo: —
Não, absolutamente. Eu diria mesmo que é um destino muito lindo. Mas... como vão as suas crianças? Você
tem filhos, não é verdade?
— Sim, três. Um homem e
duas mulheres. O filho está na Rodésia.
As filhas já estão casadas. Uma delas mora em Londres. Estou exatamente regressando da visita que
fiz à outra minha filha que reside em
Bagdá. O nome dela é Wray — Bárbara Wray.
Blanche, fazendo um
expressivo movimento com a cabeça, diz:
— Eu já a tenho visto. É uma bela criatura. Mas casou-se muito jovem, você não acha?
— Não penso assim —
retrucou Joan, resoluta. — Todos nós
gostamos muito de William e eles são felizes na sua vida conjugal. — Sim. Parece que agora eles estão firmes e
bem equilibrados na vida. O filhinho
deles sem dúvida muito cooperou para que eles
sentassem a cabeça. A existência de filhos sempre contribui para que
as pessoas se tornem mais ajuizadas e
regradas na vida. (Neste ponto
Blanche passou a se
expressar com mais ponderação, como que
pesando as palavras.) Isto não quer dizer que a existência de filhos
me tenha feito criar juízo, tornando-me
uma pessoa mais equilibrada. Eu gostava
muito das minhas duas crianças — Len e Mary. Mas, apesar disso, quando Johnnie Pelham veio ter comigo
eu fui embora com ele, abandonando as
crianças sem pensar duas vezes.
Joan encarou-a com um ar
de desaprovação, passando a falar-lhe
com certa veemência nas palavras:
— Francamente, Blanche...
Como pôde você fazer isso? — Sou uma
mulher ruim e podre, não é? Na verdade, eu sabia que as crianças ficariam muito bem com Tom.
Ele sempre as adorou. E ele tinha-se
casado com boa mulher, muito dedicada ao lar. Ela se adaptava a ele melhor do que eu. Procurava
fazer boa comida e remendava as camisas
e as cuecas dele. Meu querido Tom! Ele nunca
passou de um pobre bicho. Depois disso tudo, durante alguns anos ainda, ele me enviava os cartõezinhos de
Natal e de Páscoa. Era uma gentileza da
parte dele, você não acha?
Joan não lhe deu
resposta. Estava com o cérebro abarrotado de
pensamentos que produziam na sua mente um verdadeiro conflito. O principal desses pensamentos, o que a deixava
deveras numa angustiosa situação de
dúvida, era saber se esta — sim, esta mulher
que ali estava conversando com ela — seria de fato Blanche Haggard, aquela moça tão espirituosa e alegre que
tivera tão boa educação e que sempre se
sobressaíra no Colégio St. Anne. Seria mesmo Blanche Haggard esta mulher desleixada e porca que
ali falava com ela revelando, sem nenhum
escrúpulo nem vergonha, os fatos mais
sórdidos da sua vida com uma linguagem tão baixa? Como poderia ela ser Blanche Haggard, a moça que conquistara
um prêmio no St. Anne pelos seus
conhecimentos de inglês?
Blanche retomou o fio da conversa:
— Vejam só... Então a
pequena Bárbara Wray é sua filha, Joan?
Isto realmente demonstra como as pessoas podem, às vezes,
considerar erradamente os fatos.
Qualquer criatura teria metido dentro do crânio a
idéia de que Bárbara era
tão infeliz na sua casa paterna que se casou
com o primeiro homem que lhe apareceu convidando-a para ir embora. — Que coisa ridícula! De onde surgiu esta
conversa?
— Nem posso fazer a
mínima idéia. Só sei dizer que tenho certeza
de uma coisa, Joan: você tem sido sempre uma admirável e zelosa
mãe. Jamais poderia conceber você como
mulher áspera e sem carinho.
— É bondade da sua parte,
Blanche. Todavia, julgo poder afirmar,
com satisfação e alegria, que sempre temos procurado dar aos nossos filhos um lar bem feliz e que nunca
descuramos do bem-estar deles. Eu
acredito ser muito importante que uma pessoa seja amiga dos seus filhos. Você me compreende, não é?
— Seria uma coisa muito
bela. Mas é preciso ver se todas as
pessoas podem realmente ser amigas dos seus filhos.
— Oh, que dúvida! Eu acho
que pode, sim. Basta que você relembre a
sua mocidade e se coloque no lugar deles.
Joan, curvando-se um
pouco, aproximou o rosto fascinante ao da
sua amiga de outros tempos, dizendo-lhe séria:
— Eu e Rodney sempre temos procurado fazer isso,
— Rodney?! Deixe-me
pensar... Você casou-se com um solicitador
judicial, não é? De fato, agora estou me lembrando: estive uma vez
no escritório dele. Foi na época em que
Harry estava tentando divorciar-se da
sua horripilante esposa. Acho que foi o seu marido quem nos atendeu... Sim, Rodney Scudamore. Era um
homem extraordinariamente simpático,
amável e dotado de muita compreensão. E
você continuou vivendo com ele todos esses anos? Não há nenhum casinho
recente? Algum novo amor fresquinho?
Joan retrucou-lhe
resoluta, não ocultando uma certa aspereza em
suas palavras:
— Nenhum de nós nunca
desejou ter um novo amor fresquinho. Rodney e eu sempre temos nos contentado
perfeitamente um com o outro.
— É claro!... Você foi
sempre tão fria como um peixe. Joan.
Contudo eu diria que seu marido possui um olhar irrequieto de
galanteador.
— De fato, Blanche. Ele é assim mesmo.
Joan chegou a ficar com a
face enrubescida de tanta raiva. Ora
vejam só! Um olhar irrequieto de galanteador. Rodney! De inopino e de modo destoante, perpassou-lhe
pela mente, num lampejo, o vislumbre
daquelas palavras inscritas numa estreita faixa
que ela percebera, numa visão, ainda ontem, a cruzar serpenteante
os trilhos empoeirados diante do seu
vagão. Este seu súbito pensamento fluiu
com a mesma rapidez daquelas letras entrelaçadas, de um verde reluzente, as quais, vistas de esguelha,
desapareceram antes que pudessem ser
totalmente lidas. Ela notara nitidamente três palavras: A JOVEM
RANDOLPH...
A rapidez com que a faixa
passou não permitiu observar as
restantes palavras da frase.
Blanche, agora,
demonstrava estar visivelmente arrependida do
que dissera.
— Sinto muito, Joan.
Perdoe-me. Vamos tomar um café na outra
sala. Como você bem sabe, eu sempre tive pensamentos vulgares. — Oh, não! — protestou Joan visivelmente
melindrada. Blanche parecia estar
alegre.
— Oh, sim, minhas idéias
sempre foram vulgares. Você não se
lembra daquela vez que eu saí furtivamente para me encontrar com o filho do padeiro?
Joan chegou a estremecer
ficando como que em sobressalto. Ela até
já havia esquecido este incidente. Na época parecia ter sido uma façanha ousada... e até mesmo romântica. Mas,
na realidade, não passava de um episódio
vulgar e desagradável.
Blanche, depois de ter
sentado numa cadeira de vime e de ter
pedido ao garçom que trouxesse o café, ficou rindo consigo mesma. — Eu devo ter sido um espécime horrivelmente
precoce. Sempre gostei demasiadamente de
homens. É só escolhi canalhas e borra-botas.
Primeiro, foi Harry. Até que não me dei muito mal com ele, apesar
da sua aparência medonha. Depois veio
Tom, que nunca teve muita
importância para mim,
embora eu gostasse dele em certo sentido,
Johnnie Pelham... este sim me proporcionou alguma felicidade enquanto vivemos juntos. Gerald não foi muito
bom nem...
Nisto chega o rapaz que
trazia o café, interrompendo esta
conversa que Joan não podia conceber senão como um desfiar de nomes que evocavam detestáveis e repugnantes
aventuras amorosas.
Blanche deu-se conta da
inconveniência de sua atitude. —
Desculpe-me, Joan, pelo espanto que lhe causei. Você ainda se acha imbuída de puritanismo, não é?
— Oh, espero estar sempre
pronta a ter um ponto de vista bem
tolerante.
Joan forçou um sorriso
amável e, um tanto desconcertada,
acrescentou:
— Eu apenas quis dizer que sinto... que sinto tanta pena... — Pena de mim?
Blanche quase teve vontade de gracejar ante tal idéia.
— É muita gentileza da
sua parte, querida, mas não se inculque
nenhum sentimento de piedade com relação à minha pessoa. Tenho me divertido muito durante toda a minha vida.
Joan não pôde deixar de,
com um súbito olhar, fitá-la de soslaio.
Teria Blanche alguma noção consciente da sua deplorável aparência? Do seu penteado mal feito? Das suas roupas
quase imundas? Do seu rosto envelhecido?
Será que ela não percebia que era uma velha vincada por uma ignominiosa vida de cigana?
Repentinamente, Blanche
tomou um ar sério e começou a falar com
certo comedimento nas palavras:
— Sim, você está
perfeitamente certa, Joan. Você fez progresso na sua vida. E eu... Bem, eu, com a minha, só
fiz atrapalhadas. Eu decaí muito na vida
e você... Não, você ficou onde estava!... Uma aluna do St. Anne, que se casou com o tipo de homem adequado.
Você continua sendo um padrão de glória
da velha escola!
Tentando fazer, agora,
com que o diálogo se concentrasse no
único ponto que ambas tinham em comum, Joan prosseguiu:
— Eram bons tempos aqueles, não é verdade?
— Mais ou menos. —
Blanche não parecia muito propensa a
prodigalizar elogios ao seu passado. — Eu às vezes vivia chateada.
Na verdade tudo era muito vistoso e
alegre. Mas eu queria sair e conhecer o
mundo. Bem... — Torceu sarcasticamente a boca. — E eu o fiquei conhecendo, de fato!
Só neste momento Joan
percebeu o motivo da presença de Blanche
naquela casa de pernoite.
— Está você voltando para
a Inglaterra, Blanche? Vai partir amanhã
cedo pelo trem?
Ao formular-lhe esta
pergunta, seu coração acelerou um pouco.
Na verdade ela não queria Blanche como companheira de viagem. Para um encontro rápido e ocasional, vá lá...
Entretanto ela não tinha muita certeza
de poder continuar simulando essa atitude de franca amizade durante todo o percurso da viagem de regresso
à Europa. É claro que o diletantismo
ocasionado pela evocação dos velhos tempos se dissiparia logo, como que diluído.
Blanche sorriu-lhe.
— Não, minha viagem é em
sentido contrário. Vou a Bagdá para me
encontrar com meu marido.
— Seu marido?!
Joan ficou deveras
surpreendida por ter Blanche falado em algo
tão respeitável quanto um marido.
— Meu marido, sim! Ele é
engenheiro da estrada de ferro. Donovan
é o seu nome.
— Donovan? — Joan
balançou a cabeça. — Não creio ter eu
alguma vez me deparado com ele, ainda que por acaso. Blanche sorriu novamente.
— E você não poderia
mesmo nunca ter-se encontrado com ele,
querida... pois ele pertence a um nível social diferente do seu.
Bebe como uma esponja. Mas tem um
coração de criança. Poderá até causar lhe espanto o que vou lhe segredar agora:
ele sempre diz, com toda a sinceridade,
que eu sou tudo para ele na vida.
— E ele deve dizer isso
mesmo — retrucou Joan com lealdade e
polidez.
— Minha velha Joan...
Sempre fazendo o seu joguinho com pau de
dois bicos, não é? Você deve estar sumamente satisfeita pelo fato de eu não lhe fazer companhia durante o resto da
sua viagem. Eu poderia mesmo quebrar o
seu espírito cristão, viajando em sua companhia
durante cinco dias. Não tenha o constrangimento de querer
contestar. Eu bem compreendo a
transformação que sofri: tornei-me grosseira e
sem refinamento espiritual. É exatamente isto que você pensa de
mim. Bem, paciência ... Neste mundo há coisas
ainda piores...
Joan intimamente duvidava
de que pudesse haver algo pior do que o
estado de Blanche. Para ela a decadência da sua velha amiga caracterizava-se como uma verdadeira
tragédia.
Blanche prosseguiu:
— Desejo-lhe que faça uma
boa viagem, embora eu tenha lá minhas
dúvidas... Parece-me que as chuvas vão começar. Se isto acontecer, você forçosamente ficará retida
durante dias a milhas de distância da
mais próxima localidade de relativa importância.
— Que isto não me
aconteça, pois transtornará o prosseguimento
da minha viagem no trem em que já tenho as passagens reservadas. — Sem dúvida. Mas deve-se considerar, também,
que as viagens através do deserto
raramente podem ser efetuadas com a estrita
observância dos horários. Depois que você tiver atravessado os
leitos dos rios, que nesta época do ano
fazem vau, tudo correrá bem e será mais
fácil a viagem. Os condutores do carro, evidentemente, deverão estar bem abastecidos de alimentos e de água.
Todavia, não deixam de ser momentos
incômodos aqueles que a gente tem de passar retida num lugar onde não se tem outra coisa a fazer
senão meditar. Joan sorrindo,
respondeu:
— Deve ser até bem
divertida essa mudança no ritmo de vida de
uma pessoa. Você bem sabe que quem toma conta de uma casa quase nunca tem tempo para descansar à vontade.
Várias vezes desejei passar pelo menos
uma semana sem fazer nada.
— Ora, e eu que pensava
que você podia ter seu descanso quando
bem quisesse!
— Não, não, querida. Sou
mulher muito atarefada no pequeno âmbito
das minhas atividades. Sou a secretária da Associação dos Jardins do País. Como membro efetivo, faço
parte da comissão do hospital da nossa
cidade. Há, também, a instituição... as reuniões do conselho. Tudo isso sem levar em conta a
minha participação ativa na política. E
ainda mais: tenho que dirigir e administrar a casa. Sempre acompanho Rodney nas imprescindíveis visitas
de cortesia, pois ambos passeamos
bastante. Temos, também, os parentes que nos visitam com muita freqüência. Eu sempre achei que é muito
bom para um advogado formar um amplo
círculo de relações sociais. Não posso omitir que gosto muito do meu jardim, preferindo eu mesma
fazer nele quase todos os serviços
necessários. Acredite-me, Blanche, dificilmente eu disponho de um tempinho para me sentar e descansar, a não
ser durante uns quinze minutos antes do
jantar. E você bem compreende que entreter se com a leitura de papéis e
documentos constitui também uma boa
tarefa, por si só.
— E você demonstra
enfrentar muito bem todas essas obrigações
— comentou Blanche fitando a face lisa da sua amiga. — Bem... Eu sempre digo que é melhor desgastar-se
com o trabalho do que enferrujar-se ou
corromper-se na ociosidade! É bem
verdade que eu sempre tive uma saúde excelente. Devo agradecer a Deus por este benefício. Mas, mesmo assim,
como seria maravilhoso ficar um dia ou
dois sem ter outra coisa a fazer senão pensar!
— Eu me surpreendo com esta sua idéia. Em que iria pensar você?
Joan soltou uma risadinha
com um timbre na voz que parecia retinir
suavemente.
— Há sempre muitas coisas em que se pode pensar, não é? Blanche respondeu-lhe sorrindo, com os dentes
à mostra: — Cada qual pode, pelo menos,
pensar nos seus pecados! — Isso mesmo, é
verdade! — concordou Joan falando
polidamente, embora sem
demonstrar nenhuma satisfação. Depois de
uma certa pausa, Blanche, encarando-a com os olhos aguçados, concluiu:
— Só que com este
pensamento você não perderia muito tempo.
(Blanche, agora, franzindo as sobrancelhas, revela uma expressão carrancuda.) Você fugiria logo dele para
pensar nos seus feitos, nas suas bênçãos
e na sua felicidade! Huuuum, não sei! Seria talvez um pensamento um tanto obtuso e enfadonho... É
bem provável até que você ficasse muito
surpreendida... (Blanche interrompeu-se, fazendo uma pequena pausa)... Se você ficar dias e
mais dias não tendo outra coisa a fazer
senão pensar em você mesma, talvez ficasse muito surpreendida com o que viesse a descobrir com
relação à sua pessoa.
Joan fitou-a com
ceticismo, demonstrando pouco agrado. —
Ora, pode alguém descobrir, com relação à sua própria pessoa, algo de que nunca teve conhecimento antes?
— Creio que pode... (Um
subitâneo arrepio perpassou-lhe pelo
corpo.) Eu, de minha parte, não gostaria de tentar.
— Há pessoas — retrucou
Joan — que, na verdade, têm uma
impulsiva tendência para dedicar-se à vida contemplativa. Eu
própria nunca pude compreender, na sua
essência, o que significa isso. Os
pontos de vista místicos são muito difíceis de analisar. Acho que
não tenho absolutamente tal espécie de
pendor religioso. Parece-me que a vida
contemplativa é um tanto radical e severa. Não sei se você compreende o que eu quero dizer...
— Compreendo, sim. Você
não gosta de perder muito tempo com
meditações dessa espécie... É sempre fácil fazer-se uso da oração
mais curta que se conhece.
Depois, como que
respondendo ao olhar inquiridor de Joan,
acrescentou:
— “Que Deus se apiede de
mim, uma pecadora!” — é, por exemplo,
uma súplica que se aplica facilmente a qualquer espécie de falta cometida.
Joan sentiu-se visivelmente embaraçada:
— Sim. É, de fato, uma
súplica muito boa. Blanche teve que rir.
— No seu caso, Joan, toda a dificuldade, reside no fato de que você
não é uma pecadora. Esta circunstância exclui você da necessidade da oração. Quanto a mim, encontro-me sempre
com o espírito preparado. Tenho a
impressão de que, durante toda a minha vida,
nunca deixei de fazer precisamente aquilo que eu não deveria ter
feito. Joan permaneceu calada, pois não
sabia realmente o que responder.
Blanche, depois de um
certo tempinho, retomou o fio do diálogo,
Prosseguindo com clareza na voz:
— Oh, mas o mundo é assim
mesmo! Na maioria das vezes a gente foge
do lugar certo onde deveria permanecer; a gente se apega às coisas que, para o próprio bem, deveria
abandonar; um momento de prazer é tão
agradável que a gente chega a ter a impressão de que ele não pertence à realidade da vida. E, logo
depois do gozo de qualquer prazer
transitório, a gente se precipita de novo num verdadeiro inferno de misérias e de sofrimento. Quando as coisas
correm bem, a gente supõe que elas duram
eternamente, o que é impossível porque o bem
não dura para sempre. Quando a gente baqueia na vida, tem-se a dolorosa impressão de que nunca mais se
levantará nem voltará a descansar o
espírito. Mas a vida é assim mesmo, não é verdade?
Tais idéias eram
totalmente incompatíveis com a concepção que
Joan tinha da vida e se revelavam em franco antagonismo com os conhecimentos que ela adquirira. No momento,
entretanto, julgava-se incapaz de dar
uma resposta que, do seu ponto de vista, pudesse ser considerada satisfatória.
Com um movimento brusco,
Blanche tocou nos seus pés: — Você está
quase dormindo, Joan. Eu também estou com sono.
Ambas nos levantamos muito cedo hoje. Foi um grande prazer ter encontrado você!
As duas mulheres
permaneceram de pé alguns momentos, apertando-se
as mãos. Blanche diz-lhe, falando ligeiro e com um acento de ternura na voz:
— Não se preocupe com a
sua Bárbara. Vai ficar tudo bem de novo
com ela, estou certa. Bill Wray é um bom indivíduo... E, além do mais, existe a criança. Tudo aconteceu porque
ela era muito jovem e mesmo porque o
sistema de vida nesta região... Bem, às vezes entra cada coisa na cabeça das mulheres
jovens...
Joan, com a mente
confusa, não entendia nada do que a outra
dizia. Respondeu-lhe com vivacidade:
— Não sei o que você quer insinuar, Blanche.
Esta fitou-a com um ar de admiração, Prosseguindo:
— Como você está imbuída
do espírito moral e religioso da velha
escola! Nunca admite nada. Realmente você não mudou nem um pouquinho, Joan. Aproveite esta ocasião para
declarar que lhe devo vinte e cinco
libras. Nunca pensei nesta dívida até este momento.
— Oh, não se aflija com isso!
— Não tenha medo de que
eu vá me afligir com isso (Blanche
soltou uma risadinha). Acho que era da minha intenção pagar-lhe
este débito... mas, pensando bem, quem
empresta dinheiro a outra pessoa já fica
sabendo que jamais o terá de volta. Por isso, nunca me preocupei muito. Você sempre foi uma boa amiga, Joan, e
este dinheiro, para mim, foi como que
uma dádiva do céu, creia-me.
Um dos seus filhinhos
deveria submeter-se a uma intervenção
cirúrgica, não é verdade?
— Assim pensavam os
médicos. Mas depois acharam que não era
necessária esta operação. Então gastamos o dinheiro, parte numa
farra e parte na compra de uma cadeira
giratória para a escrivaninha de Tom.
Ele a conservou por muito tempo.
Movida por uma súbita
lembrança, Joan perguntou-lhe: — Chegou
ele a escrever aquele livro sobre a vida de Warren Hasting?
— Engraçado! Você ainda
se lembra deste fato. Sim, ele chegou a
escrever umas cento e vinte mil palavras.
— Foi publicado o livro?
— Claro que não! Depois disso, Tom resolveu escrever a vida de
Benjamin Franklin. Este
trabalho foi ainda pior do que o outro. Que
gosto extravagante o dele, não é? Se eu tivesse que escrever a vida
de alguém, escolheria pessoas como Cleópatra
— um verdadeiro espécime de erotismo e
de sexualidade. Ou, então, um Casanova — o que vale dizer um tipo elegante e vistoso. Mas nós
neste mundo não podemos nunca ter as
mesmas idéias. Tom encontrou novamente trabalho num escritório, mas um trabalho que não era tão
rendoso e bom como o outro. Apesar de
tudo, sinto-me feliz por ele ter satisfeito o seu desejo. É muito importante para as pessoas fazerem
aquilo, que realmente gostam, você não
acha?
— Sempre depende um pouco
das circunstâncias. Ao tomar qualquer
iniciativa a gente deve levar em conta, também, as possíveis conseqüências.
— Você não fez sempre o que quis?
— Eu?! — exclamou Joan
como que colhida de surpresa com esta
pergunta.
— Sim, você mesma! Você
quis casar-se com Rodney Scudamore e não
se casou? Você não quis ter filhos? Você não desejou possuir um lar confortável?
Blanche riu e acrescentou:
— E você deseja, depois
de tudo isso, também viver feliz no outro
mundo por toda a eternidade, Amen!
Joan teve que rir também,
já mais aliviada, com o tom suave e
quase jocoso da conversa.
— Não seja ridícula! Eu,
de fato, reconheço que tenho sido muito
feliz na minha vida.
Temendo que estas suas
últimas palavras talvez tivessem sido
pronunciadas com falta de tato ante o estado de decadência e a
triste sorte de Blanche, apressou-se em
acrescentar logo:
— Eu realmente devo subir para o meu quarto, agora.
Boa-noite! Foi maravilhoso ter
encontrado você de novo.
Ela apertou calorosamente
a mão de Blanche (será que Blanche
esperaria receber dela um beijo? Certamente, não) e dirigiu-se em
seguida até a escada cujos degraus subiu com passos leves, indo
para o seu quarto.
“Pobre Blanche” — pensou
Joan depois de ter tirado a roupa e
enquanto, comodamente e com elegância, dobrava o vestido e tirava
da mala um par de meias fresquinhas para
usá-las na manhã seguinte. “Pobre
Blanche! Ê realmente trágica a sua vida!”
Enfiou o pijama e começou a ajeitar os cabelos.
“Pobre Blanche! Como ela
anda tão desajeitada e com uma aparência
tão grosseira!”
Joan já estava pronta
para deitar-se mas parecia não querer
atirar-se na cama. Na verdade, ninguém deve ir para a cama sem
antes fazer suas orações. Contudo, fazia
tanto tempo que Joan não rezava nenhuma
oração de qualquer espécie. E, ultimamente, ela até mesmo deixava muitas vezes de freqüentar a
igreja.
Mas é claro que a gente deve ter fé.
Inopinadamente ela sentiu
um desejo esquisito de postar-se de
joelhos à beira daquela cama de aspecto pouco confortável. (Os
lençóis de algodão estavam imundos. Por
sorte ela havia trazido com ela o seu
travesseiro macio e liso...) Sentiu o desejo de ajoelhar-se e rezar
alguma oração... mesmo que fosse de um
modo simples como rezam as
criancinhas.
Este pensamento, todavia,
fez com que ela se sentisse um pouco
esquiva, assustada e menos confortável.
Atirou-se logo na cama e
puxou o cobertor. Pegou um livro que ela
colocara sobre a mesinha de cabeceira — As
Memórias de Lady Catherine Dysart —
realmente uma obra interessante contendo uma
história humorística dos meados da época vitoriana. Leu duas ou
três linhas mas não pôde concentrar o
seu pensamento.
“Estou muito cansada” — pensou ela.
Pôs novamente o livro
sobre a mesinha e apagou a luz. Mais uma
vez a idéia de rezar invadiu a sua mente. Que
significariam aquelas palavras de Blanche ao dizer-lhe de maneira ultrajante e afrontosa: “Esta circunstância
exclui você da necessidade
da oração?”
Joan, com facilidade,
formou na sua mente uma oração — uma
espécie de reza composta de palavras isoladas e enfileiradas uma
após outra.
“Meu Deus — Agradeço-vos — Pobre Blanche! — Dou-vos graças por não ser como ela — Infinitos agradecimentos — Todas as minhas bênçãos — especialmente por não ser igual à pobre Blanche — Pobre Blanche! — Realmente medonha — Sua própria culpa, naturalmente — horrível — chocante — Graças a Deus sou diferente — Pobre Blanche...” E, assim, Joan adormeceu...

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