sexta-feira, 7 de maio de 2021

A ausência - Capítulo 01

Joan Scudamore movia os olhos de um lado para o outro  perscrutando atentamente, através da penumbra, o refeitório daquela  casa de pernoite. 

— Sem dúvida ela está aqui!... Não está... Mas tenho certeza de  que ela deve estar aqui. Oh, ei-la aí, Blanche Haggard!  Interessante! Deu-lhe na cabeça sair deserto afora simplesmente  para ver se, favorecida pelo acaso, se encontraria com uma sua amiga  dos tempos de colégio que fazia tantos anos — oh, seguramente uns  quinze — não via. 

Inicialmente Joan ficou encantada com esse encontro. Sua índole  natural era de mulher sociável que sempre encontrava prazer em  acercar-se dos amigos e das pessoas das suas relações. Entretanto, logo  em seguida começou a pensar consigo mesma: “Ela aparenta ter mais  idade do que realmente tem. E aqui o vocábulo idade deve ser tomado  na sua acepção literal porque a sua aparência de pessoa idosa era, de  certa forma, acentuada. Em última análise: qual seria mesmo a idade  dela? Quarenta e oito anos?” 

Foi em decorrência natural desse pensamento que ela procurou,  como que impelida a fazer um confronto, fixar os olhos sobre a sua  própria figura, contemplando-se num espelho que, coincidentemente,  pendia da parede ao lado da mesa. 

O que ela viu chegou até a deixá-la mais bem humorada.  Até que estou bem conservada! — pensou Joan Scudamore.  De fato, diante do espelho surgiu a imagem de uma fina e 

elegante mulher de meia-idade, com a face completamente sem rugas e  uns olhos azuis que inculcavam no seu semblante uma expressão bem  agradável. 

Joan vestia saia e um casaquinho simples e leve, bem apropriado  para aquele clima. Levava consigo um tipo de mala com espaço capaz  de conter as coisas imprescindíveis para uma viagem.

Joan Scudamore estava agora empreendendo a sua viagem de  volta de Bagdá para Londres, seguindo até então por via terrestre. Ela  chegara de trem na noite anterior. Era de sua intenção nesta noite  dormir na casa de pernoite da própria estação ferroviária e prosseguir  de carro sua viagem na manhã do dia seguinte. 

Foi precisamente a súbita doença da sua jovem filha que motivou  a sua saída a toda pressa da Inglaterra, pois ela sabia perfeitamente  que William (seu genro) era muito indócil e intratável. Além disso, tinha  ela uma exata compreensão do caos que surgiria num lar desprovido de  eficiente orientação. 

Felizmente agora tudo tinha ficado bem de novo. A criancinha,  William e Bárbara, que já estava em franca convalescença, entraram  numa nova fase sem mais nenhum problema de monta, pois as coisas  foram por Joan dispostas de maneira que a vida deles pudesse seguir o  seu ritmo normal. 

Graças à minha bondade — pensou Joan. — Eu sempre tenho  que ter alguma preocupação pesando nos meus ombros.  William e Bárbara nem sabiam como expressar-lhe sua imensa  gratidão. Insistiram para que ela ficasse e não se apressasse a voltar à  Inglaterra. Mas ela, sempre sorridente, recusou, embora reprimindo os  suspiros que a comoção lhe provocava. É que ela não podia deixar de  levar em consideração também o pobre velho Rodney que ficara lá em  Crayminster tão cheio de serviço que não tinha tempo nem para se  coçar. Não havia ninguém que cuidasse dele a não ser os criados.  E, falando a pura verdade — pensou Joan — o que são os  criados? 

Bárbara dissera-lhe: “Seus criados, mamã, são excelentes. A  senhora sabe escolhê-los e nunca descura do aperfeiçoamento deles”.  Ela sorriu modestamente mas é claro que tais palavras lhe  agradaram muito. Toda pessoa que faz ou diz algo gosta de ouvir a  apreciação dos outros. E, às vezes, Joan se admirava pelo fato de sua  família presumir que ela dirigia a casa com desembaraço,  demonstrando sempre muito cuidado e zelo. Evidentemente, ela não

tinha nenhuma crítica a fazer com relação à sua atitude. Tony, Averil e  Bárbara sempre foram crianças encantadoras. Com muita razão Rodney  e ela sentiam uma grande alegria com a educação dos seus filhos e com  o progresso que eles haviam feito na vida. 

Tony possuía grandes plantações de laranja na Rodésia. Averil,  depois de ter dado aos pais uma certa preocupação passageira, firmou  sua vida, tornando-se esposa de um rico e fascinante corretor da Bolsa.  O marido de Bárbara tinha um bom cargo no Departamento de Serviços  Públicos do Iraque. 

Seus filhos sempre foram lindas crianças, de aspecto sadio e de  maneiras educadas e afáveis. Joan e Rodney bem que se sentiam felizes  com a situação dos filhos e ela, intimamente, não deixava de pensar  que, em grande parte, o sucesso deles era devido a ambos. No fim de  contas, foram eles, os pais, que os criaram e educaram, tendo tido  sempre um enorme cuidado para escolher, quando eles eram pequenos,  as babás e as governantas. Depois, quando se tornaram maiores, os  cuidados paternos redobraram na escolha de bons colégios. Ambos  nunca deixaram de preocupar-se com a saúde, o bem-estar e a  felicidade dos filhos. 

Joan sentiu-se como que radiante de dignidade quando virou as  costas para o espelho e passou a refletir: “Bem... é muito lindo e  agradável para uma pessoa quando ela nota que teve sucesso no seu  trabalho. Eu nunca na minha vida quis seguir uma carreira ou coisa  semelhante. Sempre me contentei em ser esposa e mãe. Casei-me com o  homem que eu amava e ele fez progressos no seu serviço. E quem sabe  se o sucesso dele não foi em grande parte devido a mim? É sabido que  uma pessoa bem influenciada vai longe. . . Querido Rodney!” 

E seu coração pulsava de ansiedade simplesmente em pensar que  bem breve ela estaria novamente vendo Rodney. Antes, ela nunca  permanecera tanto tempo assim longe dele. Que vida feliz e tranqüila  eles sempre tiveram! 

Tranqüila... Bem, esta palavra talvez seja um tanto exagerada.  Numa família a vida não corre nunca com absoluta tranqüilidade:

férias, doenças infecciosas, encanamentos quebrados no inverno...  Sempre aparece alguma coisinha para atrapalhar. Mas que é a vida  senão uma seqüência de pequenos dramas? 

Rodney sempre trabalhou em demasia. Talvez mais do que seria  permitido pela sua saúde. Há seis anos ele esteve muito mal,  completamente enfraquecido. Ele, nestes últimos tempos, não se  encontra tão bem conservado como Joan, a qual sempre se lembra disto  com um sincero sentimento de compaixão. Caminha um pouco curvado  e muitos fios de cabelos brancos despontam na sua cabeça. A expressão  do seu rosto é a de um homem cansado. 

Mas, apesar de tudo, a vida deles foi uma vida calma. E, agora,  com os filhos já casados e com os negócios da firma correndo bem (pois  o novo sócio entrou com a sua parte em dinheiro), Rodney poderá levar  a coisa com mais facilidade. Ambos terão tempo para divertir-se. É claro  que eles também devem ter algum entretimento ou prazer na vida:  passar, por exemplo, de tempos em tempos, uma ou duas semanas em  Londres. Depois, Rodney poderá talvez dedicar-se ao golfe. Sim... ela  nem pode imaginar por que, antes, não o aconselhou a praticar o golfe.  É um esporte tão saudável, especialmente para quem trabalha muito  como ele. 

Depois de ter a sua mente ruminado todos esses pensamentos, a  senhora Scudamore fitou mais uma vez detidamente, através da  penumbra do refeitório, a mulher que ela julgava ter sido sua antiga  colega de colégio. 

Blanche Haggard... Oh, como ela gostava de Blanche Haggard  naqueles tempos em que ambas estavam no Colégio St. Anne. Não havia  quem não fosse louco por Blanche. Ela sempre fora tão ousada, tão  divertida... Até parece um ridículo contra-senso lembrar isto agora  contemplando essa mulher magra e intranqüila que foi envelhecendo no  maior desleixo, negligenciando até os mínimos cuidados para melhorar  a sua aparência. E dizer que usava outrora vestidos tão finos! Ei-la  agora ali parecendo ter mais de sessenta anos. 

Evidentemente — pensou Joan — ela sempre teve uma vida muito

infeliz. 

Nesse instante, uma súbita inquietação invadiu o seu espírito:  tudo, naquele ambiente, dava-lhe a impressão de não ser outra coisa  senão um brinquedo sórdido e lúgubre. Surge de novo na sua mente a  figura de Blanche com vinte e um anos, tendo o mundo a seus pés: boa  aparência, boa posição, tudo o que desejasse. E não é que o destino  lançou na sua vida, para sua desgraça, aquele indivíduo execrável: um  veterinário... sim, parece-me, ele era veterinário. Um veterinário casado,  o que era pior. As pessoas da sua família, com relação a este namoro,  haviam-se comportado com uma louvável atitude de firme oposição. No  intuito de desviá-la daquele sujeito levaram Blanche para fazer um  agradável cruzeiro pelo mundo. E Blanche o que fez? Num porto  qualquer, na Argélia ou em Nápoles, escapou do navio e voltou para  juntar-se com o seu veterinário. Por essa época, sem dúvida, ele já  tinha perdido a sua aptidão profissional e começara a beber. Sua  esposa não quis divorciar-se dele. Então saíram de Crayminster e,  durante muitos anos, Joan não mais ouviu falar de Blanche. 

Certo dia, casualmente, uma cruzou pela outra na loja Harrods  em Londres, quando entravam na seção de calçados. Após um  dialogozinho discreto (discreto apenas da parte de Joan, pois Blanche  nunca soube guardar discrição) ela ficou sabendo que Blanche, a esta  altura, estava casada com um homem chamado Holliday, que  trabalhava numa companhia de seguros. 

Entretanto Blanche achava que muito breve ele iria deixar este  serviço porque pretendia escrever um livro sobre Warren Hasting.  Queria dedicar integralmente o seu tempo a essa obra e não somente as  horas que lhe sobrassem ao chegar em casa de volta do escritório. Joan  disse-lhe, a título de simples comentário, que era de supor ter ele feito  boa economia ou, então, já possuir recursos próprios de monta.  Blanche, entretanto, replicou-lhe cordialmente que seu marido não  economizara nem um centavo sequer e que não possuía nada. Joan,  portanto, passou a ponderar que, em tal hipótese, não achava muito  prudente a sua saída do emprego, a menos que ele tivesse absoluta

certeza do sucesso do livro que pretendia escrever. Recebeu ele o  encargo de escrever essa obra? Oh, coitada de mim! — respondeu  Blanche sempre falando num tom de cordialidade. Não, ele não foi  incumbido por ninguém. Adiantou mais que ela; na realidade, não  acreditava no êxito do livro pois que, embora Tom fosse muito sagaz e  concentrasse toda a sua habilidade nessa tarefa, na verdade não sabia  escrever bem. Ante tal afirmativa de Blanche, Joan aconselhou-a, com  certa veemência, a que firmasse pé, procurando dissuadi-lo desta idéia.  Blanche arregalou os olhos e declarou simplesmente: “Mas o pobrezinho  quer escrever esse livro. É o seu maior desejo neste mundo”. 

Joan, como que insistindo no seu conselho, prosseguiu: “Há  momentos em que uma pessoa tem que ter sabedoria para duas”.  Blanche, sorrindo, declarou: “Jamais consegui ter sabedoria para mim  própria”. 

Refletindo sobre estas últimas palavras da amiga, Joan pôde  certificar-se de que ela, infelizmente, dissera a pura verdade.  Um ano depois ela viu Blanche num restaurante, acompanhada  de certa mulher de aspecto vistoso e de dois homens de aparência  deslumbrante. A partir daí, então, só teve notícias de Blanche cinco  anos mais tarde, quando ela lhe escreveu pedindo um empréstimo de  cinqüenta libras. Alegou ela que seu menino teria que submeter-se a  uma intervenção cirúrgica. Joan remeteu-lhe vinte e cinco libras e  escreveu-lhe uma carta amável, pedindo informações acerca da doença  do menino. A resposta veio num cartão-postal em que ela rabiscara as  seguintes palavras: “Tudo de bom para você, Joan! Eu tinha certeza de  que você não me deixaria de mão abanando”. 

Em certo sentido, eram palavras de gratidão mas — convenhamos  — não plenamente satisfatórias. Depois disso, silêncio!  Finalmente, agora, nesta casa de pernoite de uma estação  ferroviária do Oriente Próximo, à luz da chama bruxuleante de um  lampião a querosene naquele refeitório invadido pelo cheiro fétido de  gordura rançosa de carneiro misturado com o cheiro de petróleo e do  inseticida que havia sido borrifado, eis que se encontra diante de mim a

minha amiga de tantos anos atrás, incrivelmente envelhecida, usando  uma roupa que tornava a sua aparência tão grosseira. 

Blanche, primeiro, terminou o seu jantar. Exatamente quando se  aprestava para sair foi que viu Joan. Chegou quase a cair pelo impacto  da surpresa. 

— Santo Moisés, é Joan! 

Passados alguns segundos, Blanche puxou uma cadeira para  perto de Joan e ficaram as duas batendo um papo. Disse Blanche:  — Como você está bem conservada, minha querida! Você não  aparenta ter mais de trinta anos. Onde esteve durante todos esses  anos? Conservada numa câmara fria? 

— Ora, não fale assim, Blanche. Eu sempre estive em  Crayminster. 

— Nascida, criada, casada e enterrada em Crayminster.  — Acha você que isto revela um péssimo destino? — perguntou  Joan com um sorriso nos lábios. 

Blanche, com o semblante sério, sacudiu a cabeça respondendo:  — Não, absolutamente. Eu diria mesmo que é um destino muito  lindo. Mas... como vão as suas crianças? Você tem filhos, não é  verdade? 

— Sim, três. Um homem e duas mulheres. O filho está na  Rodésia. As filhas já estão casadas. Uma delas mora em Londres.  Estou exatamente regressando da visita que fiz à outra minha filha que  reside em Bagdá. O nome dela é Wray — Bárbara Wray. 

Blanche, fazendo um expressivo movimento com a cabeça, diz:  — Eu já a tenho visto. É uma bela criatura. Mas casou-se muito  jovem, você não acha? 

— Não penso assim — retrucou Joan, resoluta. — Todos nós  gostamos muito de William e eles são felizes na sua vida conjugal.  — Sim. Parece que agora eles estão firmes e bem equilibrados na  vida. O filhinho deles sem dúvida muito cooperou para que eles  sentassem a cabeça. A existência de filhos sempre contribui para que as  pessoas se tornem mais ajuizadas e regradas na vida. (Neste ponto

Blanche passou a se expressar com mais ponderação, como que  pesando as palavras.) Isto não quer dizer que a existência de filhos me  tenha feito criar juízo, tornando-me uma pessoa mais equilibrada. Eu  gostava muito das minhas duas crianças — Len e Mary. Mas, apesar  disso, quando Johnnie Pelham veio ter comigo eu fui embora com ele,  abandonando as crianças sem pensar duas vezes. 

Joan encarou-a com um ar de desaprovação, passando a falar-lhe  com certa veemência nas palavras: 

— Francamente, Blanche... Como pôde você fazer isso?  — Sou uma mulher ruim e podre, não é? Na verdade, eu sabia  que as crianças ficariam muito bem com Tom. Ele sempre as adorou. E  ele tinha-se casado com boa mulher, muito dedicada ao lar. Ela se  adaptava a ele melhor do que eu. Procurava fazer boa comida e  remendava as camisas e as cuecas dele. Meu querido Tom! Ele nunca  passou de um pobre bicho. Depois disso tudo, durante alguns anos  ainda, ele me enviava os cartõezinhos de Natal e de Páscoa. Era uma  gentileza da parte dele, você não acha? 

Joan não lhe deu resposta. Estava com o cérebro abarrotado de  pensamentos que produziam na sua mente um verdadeiro conflito. O  principal desses pensamentos, o que a deixava deveras numa  angustiosa situação de dúvida, era saber se esta — sim, esta mulher  que ali estava conversando com ela — seria de fato Blanche Haggard,  aquela moça tão espirituosa e alegre que tivera tão boa educação e que  sempre se sobressaíra no Colégio St. Anne. Seria mesmo Blanche  Haggard esta mulher desleixada e porca que ali falava com ela  revelando, sem nenhum escrúpulo nem vergonha, os fatos mais  sórdidos da sua vida com uma linguagem tão baixa? Como poderia ela  ser Blanche Haggard, a moça que conquistara um prêmio no St. Anne  pelos seus conhecimentos de inglês? 

Blanche retomou o fio da conversa: 

— Vejam só... Então a pequena Bárbara Wray é sua filha, Joan?  Isto realmente demonstra como as pessoas podem, às vezes, considerar  erradamente os fatos. Qualquer criatura teria metido dentro do crânio a

idéia de que Bárbara era tão infeliz na sua casa paterna que se casou  com o primeiro homem que lhe apareceu convidando-a para ir embora.  — Que coisa ridícula! De onde surgiu esta conversa? 

— Nem posso fazer a mínima idéia. Só sei dizer que tenho certeza  de uma coisa, Joan: você tem sido sempre uma admirável e zelosa mãe.  Jamais poderia conceber você como mulher áspera e sem carinho. 

— É bondade da sua parte, Blanche. Todavia, julgo poder afirmar,  com satisfação e alegria, que sempre temos procurado dar aos nossos  filhos um lar bem feliz e que nunca descuramos do bem-estar deles. Eu  acredito ser muito importante que uma pessoa seja amiga dos seus  filhos. Você me compreende, não é? 

— Seria uma coisa muito bela. Mas é preciso ver se todas as  pessoas podem realmente ser amigas dos seus filhos. 

— Oh, que dúvida! Eu acho que pode, sim. Basta que você  relembre a sua mocidade e se coloque no lugar deles. 

Joan, curvando-se um pouco, aproximou o rosto fascinante ao da  sua amiga de outros tempos, dizendo-lhe séria: 

— Eu e Rodney sempre temos procurado fazer isso, 

— Rodney?! Deixe-me pensar... Você casou-se com um solicitador  judicial, não é? De fato, agora estou me lembrando: estive uma vez no  escritório dele. Foi na época em que Harry estava tentando divorciar-se  da sua horripilante esposa. Acho que foi o seu marido quem nos  atendeu... Sim, Rodney Scudamore. Era um homem  extraordinariamente simpático, amável e dotado de muita compreensão.  E você continuou vivendo com ele todos esses anos? Não há nenhum  casinho recente? Algum novo amor fresquinho? 

Joan retrucou-lhe resoluta, não ocultando uma certa aspereza em  suas palavras: 

— Nenhum de nós nunca desejou ter um novo amor fresquinho.  Rodney e eu sempre temos nos contentado perfeitamente um com o  outro. 

— É claro!... Você foi sempre tão fria como um peixe. Joan.  Contudo eu diria que seu marido possui um olhar irrequieto de

galanteador. 

— De fato, Blanche. Ele é assim mesmo. 

Joan chegou a ficar com a face enrubescida de tanta raiva. Ora  vejam só! Um olhar irrequieto de galanteador. Rodney!  De inopino e de modo destoante, perpassou-lhe pela mente, num  lampejo, o vislumbre daquelas palavras inscritas numa estreita faixa  que ela percebera, numa visão, ainda ontem, a cruzar serpenteante os  trilhos empoeirados diante do seu vagão. Este seu súbito pensamento  fluiu com a mesma rapidez daquelas letras entrelaçadas, de um verde  reluzente, as quais, vistas de esguelha, desapareceram antes que  pudessem ser totalmente lidas. Ela notara nitidamente três palavras:  A JOVEM RANDOLPH...

A rapidez com que a faixa passou não permitiu observar as  restantes palavras da frase. 

Blanche, agora, demonstrava estar visivelmente arrependida do  que dissera. 

— Sinto muito, Joan. Perdoe-me. Vamos tomar um café na outra  sala. Como você bem sabe, eu sempre tive pensamentos vulgares.  — Oh, não! — protestou Joan visivelmente melindrada. Blanche  parecia estar alegre. 

— Oh, sim, minhas idéias sempre foram vulgares. Você não se  lembra daquela vez que eu saí furtivamente para me encontrar com o  filho do padeiro? 

Joan chegou a estremecer ficando como que em sobressalto. Ela  até já havia esquecido este incidente. Na época parecia ter sido uma  façanha ousada... e até mesmo romântica. Mas, na realidade, não  passava de um episódio vulgar e desagradável. 

Blanche, depois de ter sentado numa cadeira de vime e de ter  pedido ao garçom que trouxesse o café, ficou rindo consigo mesma.  — Eu devo ter sido um espécime horrivelmente precoce. Sempre  gostei demasiadamente de homens. É só escolhi canalhas e borra-botas.  Primeiro, foi Harry. Até que não me dei muito mal com ele, apesar da  sua aparência medonha. Depois veio Tom, que nunca teve muita

importância para mim, embora eu gostasse dele em certo sentido,  Johnnie Pelham... este sim me proporcionou alguma felicidade  enquanto vivemos juntos. Gerald não foi muito bom nem... 

Nisto chega o rapaz que trazia o café, interrompendo esta  conversa que Joan não podia conceber senão como um desfiar de  nomes que evocavam detestáveis e repugnantes aventuras amorosas. 

Blanche deu-se conta da inconveniência de sua atitude.  — Desculpe-me, Joan, pelo espanto que lhe causei. Você ainda se  acha imbuída de puritanismo, não é? 

— Oh, espero estar sempre pronta a ter um ponto de vista bem  tolerante. 

Joan forçou um sorriso amável e, um tanto desconcertada,  acrescentou: 

— Eu apenas quis dizer que sinto... que sinto tanta pena...  — Pena de mim? 

Blanche quase teve vontade de gracejar ante tal idéia. 

— É muita gentileza da sua parte, querida, mas não se inculque  nenhum sentimento de piedade com relação à minha pessoa. Tenho me  divertido muito durante toda a minha vida. 

Joan não pôde deixar de, com um súbito olhar, fitá-la de soslaio.  Teria Blanche alguma noção consciente da sua deplorável aparência?  Do seu penteado mal feito? Das suas roupas quase imundas? Do seu  rosto envelhecido? Será que ela não percebia que era uma velha vincada  por uma ignominiosa vida de cigana? 

Repentinamente, Blanche tomou um ar sério e começou a falar  com certo comedimento nas palavras: 

— Sim, você está perfeitamente certa, Joan. Você fez progresso na  sua vida. E eu... Bem, eu, com a minha, só fiz atrapalhadas. Eu decaí  muito na vida e você... Não, você ficou onde estava!... Uma aluna do St.  Anne, que se casou com o tipo de homem adequado. Você continua  sendo um padrão de glória da velha escola! 

Tentando fazer, agora, com que o diálogo se concentrasse no  único ponto que ambas tinham em comum, Joan prosseguiu:

— Eram bons tempos aqueles, não é verdade? 

— Mais ou menos. — Blanche não parecia muito propensa a  prodigalizar elogios ao seu passado. — Eu às vezes vivia chateada. Na  verdade tudo era muito vistoso e alegre. Mas eu queria sair e conhecer o  mundo. Bem... — Torceu sarcasticamente a boca. — E eu o fiquei  conhecendo, de fato! 

Só neste momento Joan percebeu o motivo da presença de  Blanche naquela casa de pernoite. 

— Está você voltando para a Inglaterra, Blanche? Vai partir  amanhã cedo pelo trem? 

Ao formular-lhe esta pergunta, seu coração acelerou um pouco.  Na verdade ela não queria Blanche como companheira de viagem. Para  um encontro rápido e ocasional, vá lá... Entretanto ela não tinha muita  certeza de poder continuar simulando essa atitude de franca amizade  durante todo o percurso da viagem de regresso à Europa. É claro que o  diletantismo ocasionado pela evocação dos velhos tempos se dissiparia  logo, como que diluído. 

Blanche sorriu-lhe. 

— Não, minha viagem é em sentido contrário. Vou a Bagdá para  me encontrar com meu marido. 

— Seu marido?! 

Joan ficou deveras surpreendida por ter Blanche falado em algo  tão respeitável quanto um marido. 

— Meu marido, sim! Ele é engenheiro da estrada de ferro.  Donovan é o seu nome. 

— Donovan? — Joan balançou a cabeça. — Não creio ter eu  alguma vez me deparado com ele, ainda que por acaso.  Blanche sorriu novamente. 

— E você não poderia mesmo nunca ter-se encontrado com ele,  querida... pois ele pertence a um nível social diferente do seu. Bebe  como uma esponja. Mas tem um coração de criança. Poderá até causar lhe espanto o que vou lhe segredar agora: ele sempre diz, com toda a  sinceridade, que eu sou tudo para ele na vida.

— E ele deve dizer isso mesmo — retrucou Joan com lealdade e  polidez. 

— Minha velha Joan... Sempre fazendo o seu joguinho com pau  de dois bicos, não é? Você deve estar sumamente satisfeita pelo fato de  eu não lhe fazer companhia durante o resto da sua viagem. Eu poderia  mesmo quebrar o seu espírito cristão, viajando em sua companhia  durante cinco dias. Não tenha o constrangimento de querer contestar.  Eu bem compreendo a transformação que sofri: tornei-me grosseira e  sem refinamento espiritual. É exatamente isto que você pensa de mim.  Bem, paciência ... Neste mundo há coisas ainda piores... 

Joan intimamente duvidava de que pudesse haver algo pior do  que o estado de Blanche. Para ela a decadência da sua velha amiga  caracterizava-se como uma verdadeira tragédia. 

Blanche prosseguiu: 

— Desejo-lhe que faça uma boa viagem, embora eu tenha lá  minhas dúvidas... Parece-me que as chuvas vão começar. Se isto  acontecer, você forçosamente ficará retida durante dias a milhas de  distância da mais próxima localidade de relativa importância. 

— Que isto não me aconteça, pois transtornará o prosseguimento  da minha viagem no trem em que já tenho as passagens reservadas.  — Sem dúvida. Mas deve-se considerar, também, que as viagens  através do deserto raramente podem ser efetuadas com a estrita  observância dos horários. Depois que você tiver atravessado os leitos  dos rios, que nesta época do ano fazem vau, tudo correrá bem e será  mais fácil a viagem. Os condutores do carro, evidentemente, deverão  estar bem abastecidos de alimentos e de água. Todavia, não deixam de  ser momentos incômodos aqueles que a gente tem de passar retida num  lugar onde não se tem outra coisa a fazer senão meditar.  Joan sorrindo, respondeu: 

— Deve ser até bem divertida essa mudança no ritmo de vida de  uma pessoa. Você bem sabe que quem toma conta de uma casa quase  nunca tem tempo para descansar à vontade. Várias vezes desejei passar  pelo menos uma semana sem fazer nada.

— Ora, e eu que pensava que você podia ter seu descanso quando  bem quisesse! 

— Não, não, querida. Sou mulher muito atarefada no pequeno  âmbito das minhas atividades. Sou a secretária da Associação dos  Jardins do País. Como membro efetivo, faço parte da comissão do  hospital da nossa cidade. Há, também, a instituição... as reuniões do  conselho. Tudo isso sem levar em conta a minha participação ativa na  política. E ainda mais: tenho que dirigir e administrar a casa. Sempre  acompanho Rodney nas imprescindíveis visitas de cortesia, pois ambos  passeamos bastante. Temos, também, os parentes que nos visitam com  muita freqüência. Eu sempre achei que é muito bom para um advogado  formar um amplo círculo de relações sociais. Não posso omitir que gosto  muito do meu jardim, preferindo eu mesma fazer nele quase todos os  serviços necessários. Acredite-me, Blanche, dificilmente eu disponho de  um tempinho para me sentar e descansar, a não ser durante uns  quinze minutos antes do jantar. E você bem compreende que entreter se com a leitura de papéis e documentos constitui também uma boa  tarefa, por si só. 

— E você demonstra enfrentar muito bem todas essas obrigações  — comentou Blanche fitando a face lisa da sua amiga.  — Bem... Eu sempre digo que é melhor desgastar-se com o  trabalho do que enferrujar-se ou corromper-se na ociosidade! É bem  verdade que eu sempre tive uma saúde excelente. Devo agradecer a  Deus por este benefício. Mas, mesmo assim, como seria maravilhoso  ficar um dia ou dois sem ter outra coisa a fazer senão pensar!  — Eu me surpreendo com esta sua idéia. Em que iria pensar  você? 

Joan soltou uma risadinha com um timbre na voz que parecia  retinir suavemente. 

— Há sempre muitas coisas em que se pode pensar, não é?  Blanche respondeu-lhe sorrindo, com os dentes à mostra:  — Cada qual pode, pelo menos, pensar nos seus pecados!  — Isso mesmo, é verdade! — concordou Joan falando

polidamente, embora sem demonstrar nenhuma satisfação.  Depois de uma certa pausa, Blanche, encarando-a com os olhos  aguçados, concluiu: 

— Só que com este pensamento você não perderia muito tempo.  (Blanche, agora, franzindo as sobrancelhas, revela uma expressão  carrancuda.) Você fugiria logo dele para pensar nos seus feitos, nas  suas bênçãos e na sua felicidade! Huuuum, não sei! Seria talvez um  pensamento um tanto obtuso e enfadonho... É bem provável até que  você ficasse muito surpreendida... (Blanche interrompeu-se, fazendo  uma pequena pausa)... Se você ficar dias e mais dias não tendo outra  coisa a fazer senão pensar em você mesma, talvez ficasse muito  surpreendida com o que viesse a descobrir com relação à sua pessoa. 

Joan fitou-a com ceticismo, demonstrando pouco agrado.  — Ora, pode alguém descobrir, com relação à sua própria pessoa,  algo de que nunca teve conhecimento antes?  

— Creio que pode... (Um subitâneo arrepio perpassou-lhe pelo  corpo.) Eu, de minha parte, não gostaria de tentar. 

— Há pessoas — retrucou Joan — que, na verdade, têm uma  impulsiva tendência para dedicar-se à vida contemplativa. Eu própria  nunca pude compreender, na sua essência, o que significa isso. Os  pontos de vista místicos são muito difíceis de analisar. Acho que não  tenho absolutamente tal espécie de pendor religioso. Parece-me que a  vida contemplativa é um tanto radical e severa. Não sei se você  compreende o que eu quero dizer... 

— Compreendo, sim. Você não gosta de perder muito tempo com  meditações dessa espécie... É sempre fácil fazer-se uso da oração mais  curta que se conhece. 

Depois, como que respondendo ao olhar inquiridor de Joan,  acrescentou: 

— “Que Deus se apiede de mim, uma pecadora!” — é, por  exemplo, uma súplica que se aplica facilmente a qualquer espécie de  falta cometida. 

Joan sentiu-se visivelmente embaraçada:

— Sim. É, de fato, uma súplica muito boa. Blanche teve que rir.  — No seu caso, Joan, toda a dificuldade, reside no fato de que  você não é uma pecadora. Esta circunstância exclui você da necessidade  da oração. Quanto a mim, encontro-me sempre com o espírito  preparado. Tenho a impressão de que, durante toda a minha vida,  nunca deixei de fazer precisamente aquilo que eu não deveria ter feito.  Joan permaneceu calada, pois não sabia realmente o que  responder. 

Blanche, depois de um certo tempinho, retomou o fio do diálogo,  Prosseguindo com clareza na voz: 

— Oh, mas o mundo é assim mesmo! Na maioria das vezes a  gente foge do lugar certo onde deveria permanecer; a gente se apega às  coisas que, para o próprio bem, deveria abandonar; um momento de  prazer é tão agradável que a gente chega a ter a impressão de que ele  não pertence à realidade da vida. E, logo depois do gozo de qualquer  prazer transitório, a gente se precipita de novo num verdadeiro inferno  de misérias e de sofrimento. Quando as coisas correm bem, a gente  supõe que elas duram eternamente, o que é impossível porque o bem  não dura para sempre. Quando a gente baqueia na vida, tem-se a  dolorosa impressão de que nunca mais se levantará nem voltará a  descansar o espírito. Mas a vida é assim mesmo, não é verdade? 

Tais idéias eram totalmente incompatíveis com a concepção que  Joan tinha da vida e se revelavam em franco antagonismo com os  conhecimentos que ela adquirira. No momento, entretanto, julgava-se  incapaz de dar uma resposta que, do seu ponto de vista, pudesse ser  considerada satisfatória. 

Com um movimento brusco, Blanche tocou nos seus pés:  — Você está quase dormindo, Joan. Eu também estou com sono.  Ambas nos levantamos muito cedo hoje. Foi um grande prazer ter  encontrado você! 

As duas mulheres permaneceram de pé alguns momentos,  apertando-se as mãos. Blanche diz-lhe, falando ligeiro e com um acento  de ternura na voz:

— Não se preocupe com a sua Bárbara. Vai ficar tudo bem de  novo com ela, estou certa. Bill Wray é um bom indivíduo... E, além do  mais, existe a criança. Tudo aconteceu porque ela era muito jovem e  mesmo porque o sistema de vida nesta região... Bem, às vezes entra  cada coisa na cabeça das mulheres jovens... 

Joan, com a mente confusa, não entendia nada do que a outra  dizia. Respondeu-lhe com vivacidade: 

— Não sei o que você quer insinuar, Blanche. 

Esta fitou-a com um ar de admiração, Prosseguindo: 

— Como você está imbuída do espírito moral e religioso da velha  escola! Nunca admite nada. Realmente você não mudou nem um  pouquinho, Joan. Aproveite esta ocasião para declarar que lhe devo  vinte e cinco libras. Nunca pensei nesta dívida até este momento. 

— Oh, não se aflija com isso! 

— Não tenha medo de que eu vá me afligir com isso (Blanche  soltou uma risadinha). Acho que era da minha intenção pagar-lhe este  débito... mas, pensando bem, quem empresta dinheiro a outra pessoa já  fica sabendo que jamais o terá de volta. Por isso, nunca me preocupei  muito. Você sempre foi uma boa amiga, Joan, e este dinheiro, para  mim, foi como que uma dádiva do céu, creia-me. 

Um dos seus filhinhos deveria submeter-se a uma intervenção  cirúrgica, não é verdade? 

— Assim pensavam os médicos. Mas depois acharam que não era  necessária esta operação. Então gastamos o dinheiro, parte numa farra  e parte na compra de uma cadeira giratória para a escrivaninha de  Tom. Ele a conservou por muito tempo. 

Movida por uma súbita lembrança, Joan perguntou-lhe:  — Chegou ele a escrever aquele livro sobre a vida de Warren  Hasting? 

— Engraçado! Você ainda se lembra deste fato. Sim, ele chegou a  escrever umas cento e vinte mil palavras. 

— Foi publicado o livro? 

— Claro que não! Depois disso, Tom resolveu escrever a vida de

Benjamin Franklin. Este trabalho foi ainda pior do que o outro. Que  gosto extravagante o dele, não é? Se eu tivesse que escrever a vida de  alguém, escolheria pessoas como Cleópatra — um verdadeiro espécime  de erotismo e de sexualidade. Ou, então, um Casanova — o que vale  dizer um tipo elegante e vistoso. Mas nós neste mundo não podemos  nunca ter as mesmas idéias. Tom encontrou novamente trabalho num  escritório, mas um trabalho que não era tão rendoso e bom como o  outro. Apesar de tudo, sinto-me feliz por ele ter satisfeito o seu desejo. É  muito importante para as pessoas fazerem aquilo, que realmente  gostam, você não acha? 

— Sempre depende um pouco das circunstâncias. Ao tomar  qualquer iniciativa a gente deve levar em conta, também, as possíveis  conseqüências. 

— Você não fez sempre o que quis? 

— Eu?! — exclamou Joan como que colhida de surpresa com esta  pergunta. 

— Sim, você mesma! Você quis casar-se com Rodney Scudamore e  não se casou? Você não quis ter filhos? Você não desejou possuir um  lar confortável? 

Blanche riu e acrescentou: 

— E você deseja, depois de tudo isso, também viver feliz no outro  mundo por toda a eternidade, Amen!

Joan teve que rir também, já mais aliviada, com o tom suave e  quase jocoso da conversa. 

— Não seja ridícula! Eu, de fato, reconheço que tenho sido muito  feliz na minha vida. 

Temendo que estas suas últimas palavras talvez tivessem sido  pronunciadas com falta de tato ante o estado de decadência e a triste  sorte de Blanche, apressou-se em acrescentar logo: 

— Eu realmente devo subir para o meu quarto, agora. Boa-noite!  Foi maravilhoso ter encontrado você de novo. 

Ela apertou calorosamente a mão de Blanche (será que Blanche  esperaria receber dela um beijo? Certamente, não) e dirigiu-se em

seguida até a escada cujos degraus subiu com passos leves, indo para o  seu quarto. 

“Pobre Blanche” — pensou Joan depois de ter tirado a roupa e  enquanto, comodamente e com elegância, dobrava o vestido e tirava da  mala um par de meias fresquinhas para usá-las na manhã seguinte.  “Pobre Blanche! Ê realmente trágica a sua vida!” 

Enfiou o pijama e começou a ajeitar os cabelos. 

“Pobre Blanche! Como ela anda tão desajeitada e com uma  aparência tão grosseira!” 

Joan já estava pronta para deitar-se mas parecia não querer  atirar-se na cama. Na verdade, ninguém deve ir para a cama sem antes  fazer suas orações. Contudo, fazia tanto tempo que Joan não rezava  nenhuma oração de qualquer espécie. E, ultimamente, ela até mesmo  deixava muitas vezes de freqüentar a igreja. 

Mas é claro que a gente deve ter fé. 

Inopinadamente ela sentiu um desejo esquisito de postar-se de  joelhos à beira daquela cama de aspecto pouco confortável. (Os lençóis  de algodão estavam imundos. Por sorte ela havia trazido com ela o seu  travesseiro macio e liso...) Sentiu o desejo de ajoelhar-se e rezar alguma  oração... mesmo que fosse de um modo simples como rezam as  criancinhas. 

Este pensamento, todavia, fez com que ela se sentisse um pouco  esquiva, assustada e menos confortável. 

Atirou-se logo na cama e puxou o cobertor. Pegou um livro que  ela colocara sobre a mesinha de cabeceira — As Memórias de Lady  Catherine Dysart — realmente uma obra interessante contendo uma  história humorística dos meados da época vitoriana. Leu duas ou três  linhas mas não pôde concentrar o seu pensamento. 

“Estou muito cansada” — pensou ela. 

Pôs novamente o livro sobre a mesinha e apagou a luz.  Mais uma vez a idéia de rezar invadiu a sua mente. Que  significariam aquelas palavras de Blanche ao dizer-lhe de maneira  ultrajante e afrontosa: “Esta circunstância exclui você da necessidade

da oração?” 

Joan, com facilidade, formou na sua mente uma oração — uma  espécie de reza composta de palavras isoladas e enfileiradas uma após  outra. 

“Meu Deus — Agradeço-vos — Pobre Blanche! — Dou-vos graças  por não ser como ela — Infinitos agradecimentos — Todas as minhas  bênçãos — especialmente por não ser igual à pobre Blanche — Pobre  Blanche! — Realmente medonha — Sua própria culpa, naturalmente —  horrível — chocante — Graças a Deus sou diferente — Pobre Blanche...”  E, assim, Joan adormeceu... 

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS