quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguassubmarinas - parte 2 - Capítulo 22 e 23 fim

Capítulo 22

Os painéis fecharam-se sobre aquela horrível visão, mas a luz do salão não foi acesa. No interior do “Nautilus” reinavam as trevas e o silêncio.

O navio deixou aquele local de desolação, cem pés abaixo da superfície das águas, com uma rapidez prodigiosa. Para onde iria? Para o norte, para o sul? Para onde fugiria aquele homem depois de tão terrível vingança?

Voltei ao meu quarto, onde Ned e Conselho me aguardavam em silêncio. Senti um incontrolável horror pelo Capitão Nemo. Fosse o que fosse que tivesse sofrido por causa dos homens, não lhe assistia o direito de os castigar daquela forma. Tinha-me transformado senão em cúmplice, pelo menos em testemunha das suas vinganças! Era demasiado!

As onze horas, reapareceu a luz elétrica. Passei ao salão, que estava deserto. Consultei os diversos instrumentos e verifiquei que o “Nautilus” fugia para o norte a uma velocidade de vinte e cinco milhas por hora, ora à superfície, ora a trinta pés de profundidade.

Analisando a carta, vi que passávamos a largo da Mancha e nos dirigíamos para os mares boreais quase voando sob as águas.

Aquela velocidade, ainda podia observar os esqualos de focinho comprido, os esqualos-martelo e os cações, que frequentam aquelas águas; as grandes águias-do-mar; os hipocampos, semelhantes aos cavalos do jogo de xadrez; as enguias, serpenteando como fogos de artifício; exércitos de caranguejos, que fugiam obliquamente, cruzando as patas sobre a carapaça, finalmente bandos de lobos-do-mar que competiam em velocidade com o “Nautilus”. Mas estudá-los, classificá-los, nem pensar nisso.

A noite, já tínhamos percorrido duzentas léguas do Atlântico. Fez-se escuro e o mar foi invadido pelas trevas até o aparecimento da lua.

Voltei ao meu quarto, mas não consegui dormir. Tive pesadelos. A horrível cena da destruição repetia-se no meu espírito.

Quem poderia nos dizer até onde nos levava o “Nautilus” na bacia do Atlântico Norte? Sempre a grande velocidade, sempre no meio das brumas hiperbóreas. Teria tocado as extremidades de Sptizberg, nas costas da Nova Zelândia? Teria percorrido os mares ignorados, o Mar Branco, o Mar de Kara, o Golfo de Obi, o Arquipélago Larrov e as praias desconhecidas da costa asiática? Não sabia. Já não sabia calcular o tempo que ia passando. Os relógios de bordo tinham sido parados. Parecia que a noite e o dia, como nas regiões polares, não seguiam o seu curso normal. Sentia-me arrastado para o domínio do estranho, onde a imaginação famosa de Edgar Poe se movia tão a vontade. A cada instante esperava ver, como o fabuloso Gordon Pym, “esse rosto humano velado, de proporções mais avantajadas do que as de qualquer habitante da terra, à espreita da catarata que protege as proximidades do pólo”.

Calculo, mas talvez me engane, que aquela corrida aventurosa do “Nautilus” se prolongou por quinze ou vinte dias e não sei por quanto tempo continuaria se não fosse a catástrofe que lhe pôs fim. O Capitão Nemo desaparecera. O imediato também. Não se via um único homem da tripulação. O “Nautilus” navegava quase sempre sob as águas.

Quando subia à superfície para renovar o ar, os alçapões abriam-se e fechavam-se automaticamente. Já não faziam o ponto e eu não sabia onde estávamos.

O canadense, esgotado de forças e paciência, também deixara de aparecer. Conselho não conseguia arrancar-lhe uma palavra e receava que, num acesso de delírio e dominado por uma terrível nostalgia, ele se suicidasse. Vigiava-o, portanto, com toda a devoção.

Compreende-se que, nessas condições, a situação era insustentável.

Uma manhã, não sei de que dia, em que tinha adormecido às primeiras horas da madrugada, um sono penoso e doentio, ao acordar Ned Land estava debruçado sobre mim, dizendo-me em voz baixa :

- Vamos fugir!

Levantei-me.

- Quando? - perguntei.

- Logo à noite! Toda a vigilância parece ter desaparecido a bordo do “Nautilus”. Dir-se-ia que reina uma assombração a bordo. Está pronto?

- Sim. Onde estamos?

- A vista de terra que distingui esta manhã através das brumas, vinte milhas para leste.

- Que terras são?

- Ignoro-o, mas sejam quais forem, vamos fugir para lá.

- Sim, Ned. Fugiremos esta noite, ainda que o mar nos engula!

- O mar está mau e o vento forte, mas percorrer vinte milhas no bote do “Nautilus” não me assusta. Transportaremos alguns víveres e algumas garrafas de água sem que a tripulação o note.

- Segui-lo-ei.

- Se for descoberto, defendo-me e deixo que me matem.

- Morreremos juntos, amigo Ned.

Estávamos decididos a tudo. O canadense saiu. Subi à plataforma, onde mal me mantinha de pé devido ao ímpeto das ondas. O céu estava ameaçador, mas uma vez que estávamos à vista de terra devíamos fugir.

Não podíamos perder um dia, uma hora. Voltei ao salão, ao mesmo tempo receando e desejando encontrar o Capitão Nemo. Que lhe diria?

Poderia esconder-lhe o horror involuntário que me inspirava? Não! Era melhor não me encontrar com ele! Era melhor esquecê-lo! E no entanto! Como foi longo aquele dia, o último que passaria a bordo do “Nautilus”! Fiquei só. Ned Land e Conselho evitavam falar-me com receio de se traírem.

As seis horas jantei. Embora não tivesse fome, forcei a ingestão dos alimentos para não enfraquecer.

As seis horas e meia, Ned Land entrou no quarto e me avisou - Não nos veremos antes da partida. As dez horas a lua ainda não terá surgido. Aproveitaremos a obscuridade. Vá ter ao bote. Conselho e eu esperaremos lá pelo senhor.

Depois o canadense saiu, sem me ter dado tempo de lhe responder. A nossa sorte estava decidida.

Quis verificar a direção do “Nautilus” e, por isso fui ao salão. Avançávamos para nor-noroeste, à grande velocidade, a cinquenta metros de profundidade, Olhei pela última vez aquelas maravilhas da natureza, aquelas riquezas da arte encerradas no museu, aquela coleção sem rival, destinada a desaparecer um dia no fundo dos mares com aqueles que as tinham reunido. Quis fixar no meu espírito uma derradeira recordação.

Estive assim uma hora, banhado nos eflúvios do teto luminoso e passando em revista os tesouros resplandecentes das vitrinas. Depois voltei ao meu quarto.

Vesti roupas próprias para enfrentar o mar. Juntei os meus apontamentos e apertei-os preciosamente contra o corpo. O coração batia-me com força. Não conseguia dominar as pulsações. A minha perturbação e agitação terme-iam certamente traído aos olhos do Capitão Nemo.

Que estaria fazendo? Pus-me à escuta à porta do seu quarto. Ouvi um ruído de passos. O Capitão Nemo estava lá dentro. Não se tinha deitado. Pensei que ele ia aparecer e perguntar-me por que íamos fugir!

Sentia terríveis sobressaltos e a imaginação agravava-os. Esta sensação tornou-se tão aguda que eu me interrogava se não seria preferível entrar no quarto do capitão, vê-lo cara a cara, e enfrentá-lo olhos nos olhos.

Era uma idéia de louco. Felizmente, contive-me e estendi-me na cama para acalmar a agitação que me devorava. Os nervos serenaram um pouco, mas o cérebro, superexcitado, passou em revista toda a minha existência, a bordo do “Nautilus”, todos os incidentes felizes e infelizes, as caças submarinas, o Estreito de Torres, os selvagens da Papuásia, o encalhe, o cemitério de coral, a passagem de Suez, a ilha Santoria, o mergulhador cretense, a Baía de Vigo, a Atlântida, o banco de gelo, o Pólo Sul, a clausura nos glaciares, o combate com os polvos, a tempestade na Gulf Stream, o “Vingador” e, finalmente, a horrível cena do navio afundado com toda a tripulação! Todos esses acontecimentos me passaram diante dos olhos, como cenários de um teatro. Então, o Capitão Nemo crescia desmesuradamente neste meio estranho. A sua figura acentuava-se e assumia proporções sobrenaturais. Já não era um semelhante, mas um homem das águas, um gênio dos mares.

Eram então nove horas e meia. Eu segurava a cabeça com as duas mãos para impedir que ela rebentasse. Fechei os olhos. Não queria pensar mais. Ainda meia hora de espera! Meia hora de um pesadelo que quase me tornava louco!

Naquele momento, ouvi os vagos acordes do órgão. Uma melodia triste e um canto indefinido, verdadeiros queixumes de uma alma que deseja quebrar os seus elos terrestres. Escutava com toda a atenção, mal respirando, mergulhado como o Capitão Nemo naqueles êxtases musicais que o transportavam para além dos limites deste mundo.

De repente, fiquei aterrorizado com um pensamento. O Capitão Nemo tinha saído do quarto e estava no salão por onde eu tinha de passar para fugir. Teria de o encontrar uma última vez. Talvez não me visse!

Talvez não me falasse! Um só gesto dele podia destruir-me.

Entretanto, eram quase dez horas. Chegara o momento de deixar o quarto e juntar-me aos meus companheiros.

Não havia que hesitar, ainda que o capitão se dirigisse a mim. Abri a porta com precaução. Pareceu-me que ao rodar nos gonzos fazia um ruído terrível. Talvez aquele barulho só existisse na minha imaginação!

Avancei, deslizando pelos corredores do “Nautilus”, parando a cada passo para comprimir os batimentos do meu coração.

Cheguei à porta angular do salão, que abri com suavidade. Estava tudo mergulhado numa profunda obscuridade e os acordes do órgão ressoavam fracos. O Capitão Nemo estava lá, mas não me via. Julgo até que em plena luz não me teria visto. Estava extasiado com a música.

Arrastei-me sobre o tapete, evitando o mínimo ruído que pudesse trair a minha presença. Demorei cinco minutos a chegar à porta que dava para a biblioteca.

Ia abri-la, quando um suspiro do Capitão Nemo me pregou ao chão.

Percebia que se levantava. Cheguei até a vê-lo, por alguns clarões da biblioteca iluminada que se filtravam para o salão. Dirigiu-se para mim, de braços cruzados, silencioso, deslizando como um espectro. Soluçava. Ouvi-o murmurar estas palavras, as últimas que o ouvi pronunciar.

- Deus todo-poderoso! Basta! Basta!

Seria a confissão do remorso que escapava assim da consciência daquele homem?

Desnorteado, precipitei-me para a biblioteca, depois subi a escada central e, seguindo o corredor superior, cheguei ao bote, entrando nele pela abertura que já tinha dado passagem aos meus dois companheiros.

- Partamos! Partamos! - gritei.

- Imediatamente! - respondeu o canadense.

O orifício cavado no casco do “Nautilus” foi previamente fechado e atarrachado por meio de uma chave inglesa de que Ned Land se tinha munido. A abertura do bote fechou-se também e o canadense começou a desapertar as porcas que nos prendiam ainda ao submarino.

De repente, ouviu-se um ruído no interior do navio. Eram vozes que se respondiam. Que seria? Teriam descoberto a nossa fuga? Senti que Ned Land me passava um punhal para a mão.

- Sim! - murmurei. - Saberemos morrer!

O canadense tinha suspendido o trabalho. Mas uma palavra vinte vezes repetida, uma palavra terrível, revelou-me a causa daquela agitação que reinava a bordo do “Nautilus”. Não era a nós que a tripulação se referia.

- “Maelstrom! Maelstrom”! - gritavam.

O “maelstrom”! Nome mais horrível não podia ter sido pronunciado na situação em que nos encontrávamos. Estávamos, portanto, nas perigosas paragens da costa norueguesa. O “Nautilus” ia ser arrastado para aquele abismo no momento em que o nosso bote se ia desprender do seu casco.

Sabe-se que, no momento do fluxo, as águas encerradas entre as ilhas Feroe e Loffoden são precipitadas com irresistível violência, formando um turbilhão de que nunca nenhum navio conseguiu escapar. De todos os pontos do horizonte acorrem vagas monstruosas e formam um redemoinho precisamente chamado “Umbigo do Oceano”, cujo poder de atração se estende a uma distância de quinze quilômetros. São então aspirados, não só navios como baleias e ursos brancos das regiões boreais. Era para ali que o “Nautilus”, voluntária ou involuntariamente, tinha sido conduzido pelo seu capitão. Descrevia uma espiral cujo raio diminuía cada vez mais. Tal como ele, o bote, ainda preso no casco, era levado com uma velocidade vertiginosa. Sentia-o. Experimentava aquele estonteamento relativo que sucede a um movimento giratório demasiado prolongado. Estávamos em pânico, completamente horrorizados, com a respiração suspensa, paralisados, percorridos por suores frios como os da agonia. E que barulho à nossa volta! Que rugidos, repetidos pelo eco a uma distância de várias milhas! Que ruído faziam as águas atiradas contra as rochas pontiagudas do fundo, onde até os corpos mais duros se quebram, onde os troncos das árvores se destroem e fazem “uma manta de pêlos”, segundo a expressão norueguesa.

Que situação! Éramos furiosamente fustigados! O “Nautilus” defendiase como um ser humano. Os seus músculos de aço estalavam. Por vezes erguia-se e nos levava com ele.

- Temos de nos aguentar - disse Ned - e tornar a aparafusar as porcas!

Só continuando presos ao “Nautilus” poderemos ainda nos salvar.

Mal tinha acabado de falar, ouviu-se um estalido e o bote, arrancado do seu alvéolo, era lançado como a pedra de uma funda no meio do turbilhão.

Bati com a cabeça num ferro e, devido ao violento choque, perdi os sentidos.

 CONCLUSÃO

Eis a conclusão desta viagem submarina. O que se passou durante aquela noite, como o bote escapou do terrível redemoinho do “maelstrom”, como Ned Land, Conselho e eu saímos do formidável turbilhão, não sei. Mas quando recuperei os sentidos, estava deitado na cabana de um pescador das ilhas de Loffoden. Os meus dois companheiros, são e salvos, estavam junto de mim e davam-me as mãos.

Abraçamo-nos com efusão.

Naquele momento, não podíamos pensar em voltar imediatamente à França, porque os meios de comunicação entre a Noruega Setentrional e o sul eram raros. Fui, portanto, forçado a esperar a passagem de um barco a vapor que faz uma carreira duas vezes por mês do Cabo Norte.

É, portanto, no meio da boa gente que nos acolheu que revejo o relato das minhas aventuras. É exato. Não foi omitido um único fato, não foi exagerado um único pormenor. i; a narração fiel desta inverossímil expedição num elemento inacessível ao homem, mas que o progresso transformará um dia em vida livre.

Acreditar-me-ão? Não sei. Mas pouco importa. O que posso afirmar agora é o meu direito de falar dos mares, sob os quais em menos de dez meses, percorri vinte mil léguas numa volta ao mundo submarino que me revelou tantas maravilhas através do Pacifico, do Indico, doMar Vermelho, do Mar Mediterrâneo, do Atlântico e dos mares austrais e boreais!

Que teria acontecido ao “Nautilus”? Teria resistido às garras do “maelstrom”? Estaria o Capitão Nemo ainda vivo? Continuaria as suas terríveis represálias sob o oceano ou teria parado diante daquela última hecatombe? Será que as águas transportarão um dia para a terra o manuscrito que encerra a história da sua vida? Saberei algum dia o nome daquele homem? Através da nacionalidade do navio desaparecido, seria possível descobrir a nacionalidade do Capitão Nemo?

Assim o espero. Espero também que o seu potente navio tenha vencido o mar na sua fúria mais terrível e que o “Nautilus” tenha sobrevivido onde tantos outros navios pereceram! Se assim for, se o Capitão Nemo continua a habitar o oceano, sua pátria adotiva, oxalá o ódio se acalme naquele coração feroz! Que a contemplação de tantas maravilhas lhe extinga o desejo de vingança! Que se apague o justiceiro e que o sábio continue a pacífica exploração dos mares! Se o seu destino é estranho, também é sublime. Não o compreendi por mim mesmo? Não vivi dez meses dessa existência sobrenatural?

Assim, à pergunta feita há seis mil anos pelo Eclesiastes:

“Quem jamais pôde sondar as profundezas do abismo?” apenas dois homens, entre todos, têm o direito de responder: o Capitão Nemo e eu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS