quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 - Capítulo 20 e 21

Capítulo 20

Em consequência dessa tempestade, tínhamos sido arrastados para leste e todas as nossas esperanças de uma evasão para a região de Nova Iorque ou de São Lourenço desvaneceram-se. O pobre Ned, desesperado, isolou-se como o Capitão Nemo. Eu e Conselho nunca mais nos separamos. Precisávamos de nos amparar mutuamente.

Aos poucos o barco foi pendendo para o nordeste. Durante alguns dias errou ora à superfície ora submerso, muitas vezes perdido no meio das brumas tão temidas, pelos navegadores. Elas são devidas principalmente à fusão dos gelos, que provocam grande umidade na atmosfera.

Quantos navios perdidos nestas paragens, quando tentavam avistar os faróis incertos da costa! Quantos sinistros devidos a esses nevoeiros cerrados! Quantos choques com escolhos, cuja ressaca é abafada pelo barulho do vento! Quantas colisões entre navios, apesar dos faróis de sinalização, apesar dos avisos das suas sirenas e sinos de alarme!

Por isso, o fundo desses mares oferecia o aspecto de um campo de batalha onde ainda jaziam todos esses vencidos do oceano; uns velhos e já em ruínas, outros recentes e refletindo os raios do nosso farol nas ferragens e quilhas de cobre. Entre eles, quantos navios completamente perdidos, com as suas tripulações, o seu mundo de emigrantes, naqueles pontos perigosos assinalados nas estatísticas. O Cabo Race, a ilha Saint-Paul, o Estreito de BelleIle, o estuário do São Lourenço! E desde há poucos anos, quantas vítimas fornecidas aos fúnebres anais pelas linhas da Royal-Mail, da Inmann, de Montreal: o “Solway”, o “Isis”, o “Paramatta”, o “Hungarian”, o “Canadian”, o “Anglo-Saxon”, o “Humboldt”, o “United States”, todos afundados a pique; o “Artic”, o “Lyonnais”, afundados por abalroamentos; e o “President”, o “Pacific”, o “City-of-Glasgow” desaparecidos por causas desconhecidas, sombrios destroços no meio dos quais o “Nautilus” navegava como se passasse os mortos em revista.

A 15 de maio, encontrávamo-nos na extremidade meridional do banco da Terra Nova, o qual é um produto de aluviões marinhos, um amontoado considerável de detritos orgânicos, transportados quer do Equador pela corrente da Gulf Stream, quer do pólo boreal pela contracorrente de água fria que passa ao longo da costa americana. Também ali se amontoam os blocos errantes produzidos pelo degelo. A profundidade das águas não é considerável no banco da Terra Nova, apenas algumas centenas de braças. Mas, para o sul, abre-se subitamente uma depressão profunda, um buraco com três mil metros, onde se alarga a Gulf Stream, espalhando as suas águas, perdendo velocidade e temperatura, mas transformando-se num mar.

Na região da Terra Nova encontramos os cardumes de bacalhaus.

Pode-se dizer que os bacalhaus são peixes de uma montanha submarina. Quando o “Nautilus” abriu passagem através das suas falanges cerradas, Conselho não pôde deixar de observar:

- Mas isto são bacalhaus? Eu pensava que eram chatos como os linguados. São até bem redondinhos!

- Ingênuo! - exclamei. - Os bacalhaus só são chatos no merceeiro, que os vende abertos e secos. Mas na água são peixes fusiformes como os robalos e perfeitamente aptos para nadar.

- Acredito - respondeu Conselho. - Que nuvem deles! Que formigueiro!

- Sim, meu amigo. E muitos mais existiriam se não fossem os seus inimigos: os rainúnculos e os homens. Sabe quantos ovos se contaram numa única fêmea?

- Talvez uns quinhentos mil - respondeu Conselho.

- Onze milhões, meu amigo.

- Onze milhões! Só acreditava se os tivesse contado.

- Pode contá-los, mas seria mais rápido se me acreditasse. Aliás, é aos milhões que franceses, ingleses, americanos, dinamarqueses e noruegueses pescam os bacalhaus. São consumidos em quantidades prodigiosas, e sem a ‘surpreendente fecundidade desses peixes, os mares não tardariam a ficar despovoados da espécie. Só na Inglaterra e na América, cinco mil navios equipados com setenta e cinco mil marinheiros dedicam-se à pesca do bacalhau. Cada navio pesca uma média de quarenta mil, o que perfaz um total de vinte e cinco milhões. Nas costas da Noruega passa-se o mesmo.

- Bem, acredito no senhor. Não os contarei.

- O quê?

- Os onze milhões de ovos. Porém tenho uma observação a fazer.

- Qual?

- Se todos os ovos vingassem, chegariam quatro bacalhaus para alimentar a Inglaterra, a América e a Noruega:

Enquanto percorríamos os fundos do banco da Terra Nova, vi perfeitamente as longas linhas armadas com duzentas iscas que cada barco lança às dezenas. Cada linha, arrastada por uma extremidade por meio de um pequeno arpéu, era retida à superfície por um arinque fixo a uma bóia de cortiça. O “Nautilus” foi obrigado a navegar habilmente no meio daquela rede submarina.

Aliás, ele não se demorou naquelas paragens frequentadas. Subiu até o quadragésimo segundo grau de latitude, zona de São João da Terra Nova e de Heart’s Content, onde termina o cabo transatlântico.

O “Nautilus”, em vez de continuar a sua rota para norte, tomou a direção de leste, como se quisesse seguir o planalto sobre o qual repousava o cabo telegráfico, e cujas sondagens deram o relevo com extrema exatidão.

A 17 de maio, a cerca de quinhentas milhas de Heart’s Content e a dois mil e oitocentos metros de profundidade, avistei o cabo jazendo no solo. Conselho, que eu não tinha prevenido, tomou-o por uma gigantesca serpente do mar e preparava-se para a classificar, segundo o seu método habitual. Desenganei o meu digno companheiro e, para o consolar do desgosto, informei-o de algumas particularidades da colocação do cabo.

O primeiro cabo foi estabelecido nos anos de 1857 e 1858, mas depois de ter transmitido cerca de quatrocentos telegramas, deixou de funcionar. Em 1863, os engenheiros construíram novo cabo, medindo três mil e quatrocentos quilômetros e pesando quatro mil e quinhentas toneladas, o qual foi embarcado no “Great-Eastern”. Esta tentativa falhou mais uma vez.

Ora, a 25 de maio, ‘o “Nautilus”, submerso a três mil oitocentos e trinta e seis metros de profundidade, encontrava-se precisamente no local onde se tinha produzido a quebra que arruinou o empreendimento. Foi a seiscentos e trinta e oito milhas da costa da Irlanda. As duas horas da tarde, notou-se que as comunicações com a Europa se tinham interrompido. Os eletricistas de bordo resolveram cortar o cabo antes de o repescar e, às onze horas da noite, tinham recuperado a parte avariada.

Fizeram uma junta e uma costura e atiraram o cabo de novo à água.

Porém, alguns dias mais tarde, rompeu-se de novo e não pôde ser recuperado das profundezas do oceano.

Os americanos não se desencorajaram. O audacioso Cyrus Field, promotor da empresa e que nela arriscava toda a sua fortuna, fez uma nova subscrição, que foi imediatamente coberta. Um outro cabo foi então estabelecido em melhores condições. O feixe de fios condutores isolados num invólucro de guta-percha estava protegido por uma cobertura de matérias têxteis contidas dentro de uma armadura metálica. O “Great-Eastern” fez-se novamente ao mar a 13 de julho de 1866.

A operação decorreu bem, embora tivesse acontecido um incidente.

Várias vezes, ao desenrolarem o cabo, os eletricistas verificaram que tinham sido feitos buracos nele com intenção de lhe deteriorar o interior.

O capitão Anderson, os oficiais e os engenheiros reuniram-se e deliberaram o seguinte: quem quer que fosse apanhado a praticar aquele ato criminoso seria lançado ao mar sem qualquer julgamento. Depois disso, não se repetiu tal incidente.

A 23 de julho, o “Great-Eastern” estava apenas a oitocentos quilômetros da Terra Nova, quando lhe telegrafaram da Irlanda a notícia do armistício concluído entre a Prússia e a Áustria, depois de Sadowa. A 27, avistava no meio das brumas o porto de Heart’s Content. A empresa tinha sido concluída com êxito e, no seu primeiro telegrama, a jovem América dirigia à velha Europa estas sábias palavras, raramente compreendidas: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”.

Não se esperava conservar o cabo elétrico no seu estado primitivo, tal como tinha saído da fábrica. Mas a longa serpente, coberta de conchas, estava incrustada no fundo pedregoso que a protegia contra os moluscos perfurantes. Repousava tranquilamente, ao abrigo dos movimentos do mar, e sob uma pressão favorável à transmissão da corrente elétrica que passa da América à Europa em trinta e dois centésimos de segundo. A duração deste cabo será, sem dúvida, infinita, porque se verificou que o invólucro de guta-percha melhora com a permanência na água.

Aliás, nesse planalto escolhido com tanta sorte, o cabo nunca imergiu a profundidades tais que se pudesse romper. O “Nautilus” seguiu-o até o seu fundo mais baixo, situado a quatro mil quatrocentos e trinta metros, onde repousa sem qualquer esforço de tração. Depois, aproximamo-nos do local onde tinha ocorrido o acidente de 1863.

O fundo oceânico formava então um enorme vale de cento e vinte quilômetros, onde se poderia ter colocado o monte Branco sem que o seu cume ultrapassasse a superfície das águas. O vale está fechado a leste por uma muralha de dois mil metros. Chegamos a esse ponto a 28 de maio e o “Nautilus” estava a cerca de cento e cinquenta quilômetros

da Irlanda.

Iria o Capitão Nemo subir para aportar às Ilhas Britânicas? Não. Para minha grande surpresa, tornou a descer para o sul, voltando aos mares europeus. Ao contornar a ilha Esmeralda,. avistei por instantes o Cabo Clear e o farol de Fastenet, que guia os milhares de navios saídos de Glasgow e de Liverpool.

Uma importante questão surgiu então no meu espírito. Ousaria o “Nautilus” atravessar o canal da Mancha? Ned Land, que reaparecera desde que navegávamos junto à costa, não parava de me fazer perguntas. Como responder-lhe? O Capitão Nemo permanecia invisível.

Depois de ter deixado o canadense avistar as terras da América, iria fazer o mesmo com as terras da França?

Entretanto, o “Nautilus” continuava a sua rota para o sul. A 30 de maio, passava à vista de Land’s End, entre a ponta sul da Inglaterra e as Sorlingas, que deixou para estibordo.

Se queria entrar na Mancha, teria de virar decididamente para leste e não o fez.

Durante todo o dia de 31 de maio, o “Nautilus” descreveu no mar uma série de círculos que me intrigaram bastante. Parecia procurar um local difícil de encontrar. Ao meio-dia, foi o próprio Capitão Nemo quem fez o ponto. Não me dirigiu a palavra. Pareceu-me mais sombrio do que nunca. Que é que o entristecia assim? Seria a proximidade das costas européias? Sentiria saudades da pátria abandonada? Ou então seriam remorsos, mágoas? Esse pensamento ocupou-me durante bastante tempo e tive como que um pressentimento de que o acaso em breve trairia os segredos do capitão.

No dia seguinte, 1.° de junho, o “Nautilus” manteve-se na mesma região. Era evidente que procurava reconhecer um ponto exato do oceano. O Capitão Nemo foi medir a altura dó sol, como na véspera.

O mar estava belo e o céu puro. A oito milhas para leste, um grande navio a vapor desenhava-se na linha do horizonte. Não tinha qualquer bandeira içada no mastro.

O capitão Nemo, alguns minutos antes do sol passar o meridiano, pegou no sextante e observou com extrema atenção. A calma absoluta das águas facilitava essa operação. O “Nautilus”, imóvel, não acusava a ondulação.

Encontrava-me na plataforma, quando, terminada a observação, o Capitão Nemo pronunciou estas palavras:

- E aqui!

Depois desceu pelo alçapão. Teria visto o navio, que modificara a direção e parecia dirigir-se para nós? Eu não sabia.

Voltei ao salão. O alçapão foi fechado e ouvi o ruído da água entrar nos reservatórios. O “Nautilus” começou a mergulhar, seguindo uma linha vertical, porque a sua hélice, parada, não lhe comunicava qualquer movimento.

Minutos mais tarde, parava a uma profundidade de oitocentos e trinta e três metros e repousava no solo.

O teto luminoso do salão apagou-se e os painéis abriram-se. Através dos vidros vi o mar intensamente iluminado pelos raios do farol numa distância de meia milha.

Olhei para bombordo e não vi nada a não ser a imensidão das águas tranquilas.

Para estibordo, no fundo, via-se uma grande saliência, que me chamou a atenção. Dir-se-ia ruínas soterradas sob uma camada de conchas esbranquiçadas, como se fosse um manto de neve. Ao examinar atentamente aquela massa, julguei reconhecer as formas de um navio, sem mastros, que devia ter afundado a proa. O sinistro parecia datar de uma época recuada, pois aqueles destroços cobertos de calcário, já há muitos anos jaziam no fundo do oceano.

Que navio seria aquele? Por que iria o “Nautilus” visitar-lhe o túmulo?

O seu naufrágio não teria sido de origem natural?

Não sabia o que pensar, quando ouvi o capitão dizer com voz lenta - Outrora, esse navio chamava-se o “Marselhês”. Estava armado com setenta e quatro canhões e foi lançado à água em 1762. Em 1778, a 13 de outubro, comandado por La Poype-Vertrieux, batia-se corajosamente contra o “Preston”. Em 1779, a 4 de julho, assistia, com a esquadra do almirante D’Estaing, à tomada de Granada. Em 1781, a 5, de setembro, tomava parte no combate do Conde Grasse na baía de Chesapeak. Em 1794, a República francesa mudou-lhe o nome. A 16 de abril do mesmo ano, juntava-se em Brest, à esquadra de VillaretJoyeuse, encarregada de escoltar um comboio de trigo que vinha da América, sob o comando do Almirante Van Stabel. A 11 e 12 do “prairial”, ano II, esta esquadra encontrava-se com navios ingleses.

Senhor professor, hoje é o dia 13 do “prairial”, 1.° de junho de 1868.

Há precisamente setenta e , quatro anos, neste local, a 47° 24' de latitude e 17° 28' de longitude, este navio, após um combate heróico, sem três mastros, água nos paióis e um terço da tripulação fora de combate, preferiu afundar-se com os seus trezentos e cinquenta e seis   arinheiros a render-se. Hasteando o seu pavilhão à popa, desapareceu nas águas ao grito de: Viva a República!

— O “Vingador”! - exclamei.

- Sim, senhor professor. O “Vingador”! Um lindo nome! - murmurou o Capitão Nemo, cruzando os braços. 

Capítulo 21

Essa maneira de dizer, o imprevisto da cena, a história do navio patriota, a emoção com que a estranha personagem tinha pronunciado o nome “Vingador”, cujo significado não me podia escapar, tudo isso se reuniu para preocupar extremamente o meu espírito. O meu olhar nunca mais deixou o capitão, que de mãos estendidas para o mar, observava com olhar ardente os gloriosos destroços. Talvez nunca chegasse a saber quem ele era, de onde vinha, para onde ia, mas via cada vez mais o homem separar-se do sábio. Não era uma misantropia comum que tinha encerrado dentro do “Nautilus” o Capitão Nemo e os seus companheiros, mas um ódio monstruoso ou sublime que o tempo não podia enfraquecer.

Esse ódio procuraria ainda vinganças? O futuro em breve me diria.

Entretanto, o “Nautilus” subia lentamente à superfície do mar e vi desaparecer pouco a pouco as formas confusas do “Vingador”. Um ligeiro balanço indicou-me que flutuávamos à superfície.

Ouviu-se então uma detonação surda. Olhei o capitão, que não se mexeu.

- Capitão?

Deixei-o e subi à plataforma, onde Conselho e Ned já se encontravam.

- De onde veio a detonação? - perguntei.

- Foi um tiro de canhão - respondeu Ned Land.

Olhei na direção do navio que tinha avistado. Tinha se aproximado do “Nautilus” e via-se que forçava o vapor. Separavam-no de nós seis milhas.

- Que navio é aquele, Ned?

- Pelo seu aparelho e pela altura dos mastros, parece-me um navio de guerra. Ah, se ele pudesse acabar com esse maldito “Nautilus”!

- Meu caro Ned - respondeu Conselho. - Que pode ele fazer ao “Nautilus”? Atacá-lo debaixo d’água? Bombardeá-lo no fundo dos mares?

- Diga-me Ned, consegue reconhecer a nacionalidade do navio?

O canadense franziu o sobrolho, baixou as pálpebras, fixou o navio por instantes utilizando todo o poder da sua visão.

- Não, senhor - respondeu. - Não sei reconhecer a que nação pertence. Não tem a bandeira içada. Mas posso confirmar que se trata de um navio de guerra, porque uma longa flâmula se desenrola na extremidade do mastro grande.

Durante um quarto de hora, continuamos a observar o navio, que se dirigia para nós. No entanto, não podia admitir que tivesse reconhecido o “Nautilus” àquela distância e muito menos ainda que soubesse que era um engenho submarino.

Dali a pouco, o canadense anunciou que o navio era um grande vaso de guerra, com esporão. Um couraçado com duas cobertas. Um espesso

fumo negro saía de suas duas chaminés. As veias, amainadas, confundiam-se com a linha das vergas. Não trazia pavilhão e a distância não deixava ainda distinguir as cores da flâmula que flutuava como uma fita estreita no cimo do seu mastro. Nós o olhávamos avançar rapidamente para o “Nautilus”. Se o Capitão Nemo o deixasse aproximar, teríamos a nossa oportunidade de fuga.

- Professor - disse-me Ned Land - se o navio passar por nós, mesmo a uma milha de distância, atiro-me ao mar e peço-lhe que faça o mesmo.

Eu o ajudarei a alcançá-lo.

Não respondi à proposta dele e continuei a observar o couraçado que se tornava cada vez maior. Quer fosse inglês, francês, americano ou russo, sem dúvida que nos acolheria, se o conseguíssemos alcançar.

- Lembre-se, senhor - disse-me então Conselho - que tenho muita prática de natação. Pode contar comigo para o rebocar até o navio - insistiu ele em sua promessa de ajuda.

Eu ia responder, quando um vapor branco saiu da proa do navio de guerra. No mesmo instante as águas agitadas pela queda de um corpo pesado salpicaram a ré do “Nautilus”. Logo a seguir ouvi a detonação.

- Como? Disparam contra nós? - estranhei.

- Aí valentes! - gritou o canadense.

- Deveriam tomar-nos por náufragos agarrados a um destroço!

Entretanto as balas multiplicavam-se à nossa volta. O couraçado encontrava-se a três milhas de distância. Ned Land, muito emocionado, disse-me que deveríamos fazer algum sinal para o navio atacante. Sem que eu pudesse impedi-lo, tirou o lenço e começou a acenar com ele.

Mal tinha feito o primeiro gesto, uma mão de ferro derrubou-o.

- Miserável! - gritou o capitão. - Quer ser pregado no esporão do “Nautilus”? Quer que eu faça isso .com você, antes de destruir aquele navio que está me atacando?

O Capitão Nemo, terrível de se ouvir, era ainda mais terrível de se ver.

Com o rosto transtornado pela cólera, ele não falava. Rugia. Com o corpo inclinado para a frente, apertava com a mão 0 ombro do canadense como se fosse esmigalhá-lo. Depois, abandonando-o, virou-se para o navio de guerra, cujas; balas continuavam a cair à volta dele e gritou - Sabe quem eu sou, navio de uma nação maldita? Não precisarei de ver as suas cores para saber a que país pertence! Olhe! Vou lhe mostrar as minhas cores!

Acabou de falar e desfraldou na popa da plataforma um pavilhão negro, semelhante ao que tinha colocado no Pólo Sul. Depois dirigiu-se a mim e falou apressado:

- Desça, desça com os seus companheiros!

- Vai atacar aquele navio, capitão?

- Vou afundá-lo.

- O senhor não fará tal coisa!

- Farei - respondeu-me friamente. - Não se arrogue o direito de me julgar, professor! A fatalidade lhe mostra o que não deveria ver. Fui atacado e minha resposta será terrível. Agora desçam!

- Que navio é aquele? - insisti.

- Se não sabe, tanto melhor. Pelo menos a sua nacionalidade continuará a ser um segredo para vocês. Desçam! - gritou irado.

Não pudemos fazer nada mais do que obedecê-lo. Mas antes de deixar a plataforma eu ainda fiz um gesto de quem ia falar. Ele me impôs silêncio e usou mais uma vez da palavra

- Eu sou o direito, eu sou a justiça! Sou o oprimido e ali está o opressor! Foi por causa dele que vi morrer tudo que eu amava e venerava:

pátria, mulher, filhos, pai e mãe! Tudo o que odeio está ali. Cale-se e desça!

Depois que descemos, percebi que o Capitão Nemo iniciara as manobras para atrair sua vítima. Tal como fizera com a fragata “Abraham Lincoln”, ele fingia fugir para chamar o contedor à posição que fosse melhor para o seu ataque fulminante.

Um ruído bem conhecido indicou-me que a água penetrava nos reservatórios de bordo. Em poucos minutos o “Nautilus” submergiu e parou poucos metros abaixo da superfície. Compreendi a manobra, mas era impotente para evitar a destruição do navio de guerra. O “Nautilus” não tencionava atacá-lo na sua impenetrável couraça, mas por baixo da linha de flutuação, onde a carapaça já não protege o casco.

Entretanto, a velocidade do submarino foi aumentada consideravelmente. Todo o seu casco tremia. De repente e sem querer, soltei um grito.

Houve um choque relativamente ligeiro. Senti a força penetrante do esporão de aço. Ouvi ruídos de algo que se esgarçava, que se rasgava.

O “Nautilus”, impelido pelo seu poder de propulsão, passara através do casco do navio, como a agulha do marinheiro através do pano!

Não pude me conter. Louco, desvairado, saí do quarto e corri para o salão. O Capitão Nemo encontrava-se lá. Silencioso, sombrio, implacável, olhando através do painel de bombordo.

Uma massa enorme mergulhava nas águas. Para nada perder da agonia de sua vítima, o submarino acompanhava-a em sua descida aos abismos. A dez metros de distância vi o rombo no casco do couraçado, por onde a água penetrava com o ronco do trovão. Depois vi a linha dupla dos canhões e por fim a coberta, cheia de sombras negras que se agitavam.

A água subia. Os infelizes agarravam-se aos cordames, trepavam aos mastros, contorciam-se nas águas. Era um formigueiro humano surpreendido pela invasão do mar!

Paralisado, angustiado, os cabelos em pé, os olhos desmesuradamente abertos, respiração ofegante, sem fôlego e sem voz, eu não queria olhar e olhava sempre! Uma irresistível atração colava-me ao vidro.

O enorme navio afundava-se lentamente. O “Nautilus” seguia-o e espiava-lhe os movimentos. De repente ocorreu uma explosão. O ar comprimido fez voar as cobertas do navio, como se houvesse fogo nos paióis. O movimento das águas foi tal que desviou o “Nautilus”.

Então, o infeliz navio mergulhou mais rapidamente. Os cestos das gáveas apareceram carregados de vítimas, depois foram as travessas vergadas sob o peso de cachos humanos e; finalmente, o cimo do mastro principal. A massa sombria desapareceu e com ela uma tripulação de cadáveres arrastados por um formidável redemoinho...

Virei-me para o Capitão Nemo. Aquele terrível justiceiro, verdadeiro arcanjo do ódio, continuava a olhar sua obra infernal. Quando tudo acabou, ele se dirigiu para a porta do seu quarto e entrou. Eu o segui com o meu olhar.

Por cima do painel do fundo, e por baixo dos retratos dos seus heróis, vi o retrato de uma mulher ainda jovem e de duas crianças. O Capitão Nemo olhou-os por instantes, estendeu-lhes os braços e, ajoelhandose, rompeu em soluços!

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS