quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 - Capítulo 19


 Capítulo 19

Nenhum de nós poderá jamais esquecer essa terrível cena. Eu a escrevi sob a pressão de uma violenta emoção. Depois li o relato a Conselho e Ned Land. Eles o acharam exato nos fatos, mas insuficiente nos efeitos.

Para pintar semelhantes quadros seria necessária a pena do mais ilustre dos nossos poetas, o autor de Travailleurs de la Mer.

Eu disse que o Capitão Nemo chorava ao olhar as águas. A sua dor foi imensa. Era o segundo companheiro que ele perdia desde a nossa chegada a bordo. E que morte o homem tivera!

Aquele amigo esmagado, sufocado, despedaçado pelos poderosos tentáculos de um polvo, devorado pelas suas mandíbulas de ferro, não iria repousar com os companheiros nas pacíficas águas do cemitério de coral.

Para mim, no meio da luta, fora aquele grito de desespero que me cortara o coração. O pobre francês, esquecendo a sua língua convencional, recorrera à sua língua natal para um supremo grito de apelo!

Entre a tripulação do “Nautilus”, associado de corpo e alma ao Capitão Nemo, fugindo como ele do contato dos homens, eu tinha um compatriota. Seria o único a representar a França naquela misteriosa associação, evidentemente constituída por indivíduos de nacionalidades diferentes?

Era ainda um dos problemas insolúveis que constantemente me assaltava o espírito.

O Capitão Nemo entrou para o seu quarto e eu não o vi durante algum tempo. Como deveria estar triste, desesperado, indeciso, a julgar pelo navio de que era a alma e que recebia todas as suas atenções. O “Nautilus” deixara de ter uma direção determinada. Ia e vinha flutuando como um cadáver á deriva. A hélice tinha sido reparada, mas ele quase não a usava. Navegava ao acaso. Não conseguia afastar-se do teatro da sua última luta, do mar que havia devorado um dos seus.

Passaram-se dez dias. Só no dia 1.° de maio o “Nautilus” tomou decididamente a direção norte, depois de ter avistado as Lucaias, à entrada do Canal das Baamas. Seguíamos então a corrente do maior rio do mar, que tem as suas margens, os seus peixes e as suas temperaturas próprias. 1; a Gulf Stream.

Na verdade é um rio que corre no meio do Atlântico, livremente, e cujas águas não se misturam com as do oceano. É um rio salgado, mais salgado do que o mar ambiente. O volume invariável das suas águas é mais considerável do que o de todos os rios do globo.

A verdadeira origem da Gulf Stream, reconhecida pelo Capitão Maury, o seu ponto de partida, fica situado no Golfo da Gasconha, onde as águas, ainda de fraca temperatura e cor, começam a formar-se. Desce para o sul ao longo da África Equatorial, aquece as águas da zona tórrida, atravessa o Atlântico, atinge o Cabo de São Roque na costa brasileira e bifurca-se em dois ramos, um dos quais vai ainda saturar-se de moléculas quentes no Mar das Antilhas. Então, a Gulf Stream, encarregada de restabelecer o equilíbrio entre as temperaturas e de misturar as águas dos trópicos com as águas boreais, começa o seu papel de moderador. .

Aquecida ao máximo no Golfo do México, sobe para o norte ao longo da costa americana, avança até a Terra Nova, desvia-se sob a pressão da corrente fria do Estreito de Davis, retoma o caminho do oceano, seguindo sobre um dos grandes círculos do globo a linha loxodrômica, divide-se em dois braços no quadragésimo terceiro grau, um dos quais, ajudado pela monção do nordeste, regressa ao Golfo da Gasconha, depois de ter aquecido as costas da Irlanda e da Noruega, ultrapassa Spitzberg, onde a sua temperatura desce a quatro graus, e vai formar o mar livre do pólo.

Era neste rio do oceano que o submarino “Nautilus” navegava.

A saída do Canal das Baamas, quatorze léguas ao largo e a trezentos e cinquenta metros de profundidade, a Gulf Stream tem uma velocidade de cerca de oito quilômetros por hora. Esta rapidez decresce regularmente à medida em que avança para o norte, e é de desejar que esta regularidade se mantenha, porque se a sua velocidade e direção se modificarem, o5 climas europeus serão submetidos a perturbações cujas consequências são inteiramente imprevisíveis.

Por volta do meio-dia encontrava-me na plataforma com o meu criado.

Dei-lhe a conhecer todas as particularidades da Gulf Stream e, terminada a minha explicação, convidei-o a enfiar a mão na água.

Conselho obedeceu e ficou. admirado de não sentir quer uma sensação de calor, quer de frio.

- Isso acontece porque a temperatura das águas da Gulf Stream, ao saírem do Golfo do México, pouco difere da do corpo humano. Essa corrente é um vasto calorífero, que dá às costas da Europa o aspecto eternamente verdejante. E, a se acreditar em Maury, o calor desta corrente, totalmente utilizado, seria suficiente para manter em fusão um rio de ferro fundido tão grande como o Amazonas ou o Missouri.

A corrente é tão distinta do mar ambiente que as suas águas comprimidas irrompem sobre o oceano, operando-se um desnivelamento entre elas e as águas frias. Escuras e muito ricas em matérias salinas, riscam com o seu azul puro as águas verdes que as cercam. E tal a nitidez da sua linha de demarcação que o “Nautilus”, perto das Carolinas, enquanto a hélice ainda agitava as águas do oceano, já o esporão cortava as águas da Gulf Stream.

Esta corrente arrastava todo um mundo de seres vivos. Os argonautas tão comuns no Mediterrâneo navegavam nele em grupos numerosos.

Entre os cartilaginosos os mais notáveis eram as raias, cuja cauda muito solta formava quase um terço do corpo, e que pareciam enormes losângulos com vinte e cinco pés de comprimento; depois, pequenos esqualos com um metro de comprimento, de cabeça grande, focinho curto e arredondado, dentes pontiagudos dispostos em várias fileiras e cujo corpo parecia coberto de escamas.

Entre os peixes ósseos, vilabros cinzentos, comuns desses mares; spares sinagros, cuja íris brilhava como uma chama; sciènes, com um metro de comprimento e grandes goelas cheias de pequenos dentes; centronotos negros, de que já falei; corifemos azuis, ornados de ouro e prata; papagaios, verdadeiros arco-íris do oceano e que podem rivalizar em cores com as mais belas aves dos trópicos; blêmios de cabeça triangular; rombos azulados, desprovidos de escamas; batracóides, cobertos com uma transversal amarela parecendo um T grego; cardumes de gobiões salpicados de manchas amarelas; dipterodontes, de cabeça prateada e cauda amarela; diversas espécies de salmões, mugilomoros de belo porte, com um brilho suave, que Lacèpede consagrou à amável companheira de sua vida, e finalmente um belo peixe, o cavaleiro americano, que decorado com todas as ordens e enfeitado com todas as fitas, freqüenta as costas dessa grande nação onde as fitas e as ordens são pouco estimadas.

Acrescentarei que durante a noite, as águas fosforescentes da Gulf Stream rivalizaram com o brilho elétrico do nosso farol, sobretudo nos momentos de tempestade que nos ameaçavam freqüentemente.

A 8 de maio estávamos ainda à vista do Cabo Hatteras, ao largo da Carolina do Norte. A largura da Gulf Stream é ali de setenta e cinco milhas e a sua profundidade de duzentos e dez metros.

O “Nautilus” continuava a errar à aventura. Toda a vigilância parecia ter sido abandonada a bordo. Pensei que naquelas condições uma evasão poderia ter êxito. As costas habitadas ofereciam fáceis refúgios. O mar era constantemente sulcado por numerosos vapores que fazem serviço entre Nova Iorque ou Boston e o Golfo do México, e noite e dia percorrem com suas pequenas escunas carregadas a costa americana.

Havia assim boas possibilidades de sermos recolhidos. Era, portanto, uma ocasião favorável, apesar das trinta milhas que separavam o “Nautilus” das costas mais próximas.

No entanto, uma circunstância inesperada veio contrariar completamente os planos do canadense. O tempo estava ruim. Atravessávamos as regiões onde as tempestades são frequentes, na zona das trombas d’água e dos ciclones, precisamente originados pela Gulf Stream.

Enfrentar um mar muitas vezes agitado num frágil bote era correr para uma morte certa. O próprio Ned Land concordou comigo. Assim, refreou-se, tomado de uma furiosa nostalgia.

- Professor - disse-me o canadense - isto tem que acabar. O seu capitão afasta-se das terras e se dirige para o norte. Mas eu fiquei farto do Pólo Sul e não seguirei com ele para o Pólo Norte.

- Que havemos de fazer, se é impossível fugir agora? - Volto à minha idéia de que temos de falar com o capitão. Não disse nada quando estávamos nos mares do seu país, mas eu quero falar, agora que estamos nas águas do meu. Quando eu penso que dentro de alguns dias o “Nautilus” se encontrará ao largo da Nova Escócia e que ali, em direção à Terra Nova se abre uma grande baía, que nessa baía deságua o São Lourenço e que o São - Lourenço é o meu rio, o rio de Quebek, a minha terra natal, quando eu penso nisso a ira sobe-me à cabeça e meus cabelos se eriçam. Prefiro atirar-me na água a continuar aqui. Isto me sufoca!

Era evidente que o canadense havia chegado ao fim da paciência. A sua natureza vigorosa não podia acomodar-se àquela clausura prolongada.

A sua fisionomia alterava-se de dia para dia e o seu caráter tornava-se cada vez mais sombrio. Tinham-se passado quase sete meses sem que tivéssemos notícias da terra. Além disso, o isolamento do Capitão Nemo, a modificação do seu humor, sobretudo depois do combate com os polvos, a sua taciturnidade, tudo me fazia ver as coisas de modo diferente. Eu já não mais sentia o entusiasmo dos primeiros dias. Era preciso ser um flamengo como Conselho para aceitar aquela situação, no meio reservado aos cetáceos e outros habitantes do mar. Se o pobre rapaz em vez de pulmões tivesse guelras, creio que seria um peixe de grande classe.

- Então, professor? - insistiu Ned Land numa decisão minha, sobre a sua proposta de irmos falar ao capitão.

- Você quer que eu pergunte ao Capitão Nemo quais são as intenções dele a nosso respeito?

- Quero. Apesar de nós já sabermos quais são ditas por ele mesmo?

- Sim. Desejo ouvi-las uma última vez. Fale apenas no meu nome se isso lhe parecer melhor.

- Mas raramente o vejo agora.

- Mais uma razão para ir vê-lo.

- Vou fazer a ele a pergunta que você quer, Ned.

- Quando?

- Quando encontra-lo.

- O senhor quer que eu mesmo fale com ele?

- Não, deixe-me tratar do assunto. Amanhã...

- Hoje - disse Ned Land.

- Seja. Hoje falo com ele - prometi ao canadense. Eu não podia deixar que ele fosse pessoalmente conversar com o capitão sobre um assunto tão melindroso.

Fiquei só. Decidida a questão, resolvi acabar com ela imediatamente.

Gosto mais das coisas feitas do que das que estão por fazer.

Entrei no meu quarto e ouvi passos no do Capitão Nemo. Não podia deixar passar aquela ocasião para falar com ele. Bati na porta e ele não atendeu. Bati uma segunda vez e rodei o trinco. A porta abriu-se.

Penetrei no quarto dele. O capitão estava curvado sobre a mesa de trabalho e não tinha me ouvido. Resolvido a não deixar o quarto sem falar com ele, aproximei-me. Ele levantou a cabeça bruscamente, franziu o sobrolho e me perguntou num tom bastante rude - O senhor aqui! Que deseja?

- Falar-lhe, capitão.

- Não vê que estou ocupado, que estou trabalhando? Quero ter para mim a liberdade que lhe dou de não ser incomodado.

A recepção era pouco encorajadora, mas eu estava decidido a ouvir tudo, para poder falar depois tudo o que desejasse.

- Tenho que falar de um assunto urgente.

- Que assunto? - notei um tom de ironia na voz dele. - Fez alguma descoberta que me escapou? O mar lhe revelou mais algum dos seus grandes segredos?

Estávamos muito longe do assunto que me interessava. Antes que eu pudesse responder às perguntas dele, o capitão me mostrou um manuscrito aberto sobre a sua mesa e me disse num tom mais grave - Aqui tem, professor, um manuscrito em várias línguas. Contém o resumo dos meus estudos do mar e, se Deus quiser, não morrerá comigo. Este manuscrito, assinado por mim e completado com a história de minha vida, será fechado dentro de um pequeno aparelho insubmergível. O último sobrevivente a bordo do “Nautilus” jogará ao mar esse aparelho que irá para onde as águas o levarem.

A sua história escrita por ele mesmo! A assinatura do manuscrito deveria ser com o seu nome verdadeiro! O seu segredo seria alguma vez desvendado? Porém, naquele momento, a comunicação dele só serviu para me dar ensejo de falar do meu assunto.

- Capitão, compreendo o motivo pelo qual vai agir assim. Os resultados de seus estudos não podem desaparecer. Mas o meio que vai utilizar para transmiti-los aos homens que lucrarão com eles, parece-me primitivo. Quem sabe para onde os ventos conduzirão o aparelho e em que mãos ele irá cair? Não haverá um meio melhor? Talvez o senhor mesmo ou um dos seus...

- Nunca! - ele cortou energicamente a minha frase.

- Mas eu e os meus companheiros estamos dispostos a guardar o manuscrito, se o senhor nos der a liberdade.

- A liberdade! - Levantou-se ele, repetindo a palavra.

- Sim, capitão. Foi sobre esse assunto que vim lhe falar. Há sete meses que estamos a bordo e eu agora lhe pergunto, no meu nome e nos nomes de meus companheiros, se tenciona manter-nos presos aqui por muito mais tempo.

- Sr. Aronnax, a minha resposta é a mesma que o senhor ouviu há sete meses: quem entra no “Nautilus” nunca mais sairá vivo dele.

- É a escravatura que nos impõe?

- Dê-lhe o nome que quiser.

- Em toda parte o escravo conserva o direito de recuperar a liberdade!

Quaisquer que sejam os meios que se lhe ofereçam, pode julgá-los bons.

- Quem está lhes negando esse direito? - perguntou-me ele. - Exigi dos senhores algum juramento?

Ele me olhava de braços cruzados.

- Capitão Nemo. Voltar uma segunda vez à questão, não seria do seu e nem do meu agrado. Mas uma vez que ela foi levantada, quero discuti-la até uma solução final. Repito-lhe que não se trata apenas da minha pessoa. Para mim o estudo é um refúgio, uma diversão suficiente, um passatempo, uma paixão que consegue me fazer esquecer de tudo.

Como o senhor, sou um homem para viver ignorado, obscuro, na frágil esperança de legar um dia ao futuro os resultados do meu trabalho, através de um aparelho hipotético confiado à água e aos ventos. Numa palavra, eu posso admirar o senhor, posso segui-lo com prazer num papel que compreendo sob certos aspectos, mas há ainda alguns pontos da sua vida que me fazem antevê-la cheia de complicações e mistérios, dos quais eu e meus companheiros não participamos. E mesmo quando os nossos corações bateram por sua causa, comovidos por algumas das dores que o atingiram ou impressionados pelos seus atos de gênio e coragem, tivemos de nos reprimir e não manifestar o testemunho de nossa simpatia, que faz nascer a contemplação do que é belo, quer venha do amigo ou do inimigo. Pois bem. É esse sentimento de estranheza a tudo que o toca que faz da nossa situação algo de inaceitável, de impossível até para ruim, quanto mais para Ned Land.

Qualquer homem, só por ser homem, merece que pensem nele. Já pensou o que o amor pela liberdade, o ódio pela escravatura, podem fazer nascer de planos de vingança numa natureza como a do canadense? O que ele podia pensar, tentar...?

Calei-me. Ele me olhava absolutamente impassível.

- Ned Land pode pensar, pode tentar tudo o que quiser. Que me importa! Não fui eu que o procurei. Não é por meu prazer que o tenho a bordo. Quanto ao senhor, é daqueles que conseguem compreender tudo, até o silêncio. Mais nada tenho a dizer, professor. Que a primeira vez que veio me falar desse assunto seja também a última, porque da próxima nem sequer o escutarei.

Retirei-me. A partir daquele dia a nossa situação tornou-se pior. Contei aos meus companheiros toda a conversa que tivera com o capitão.

- Sabemos agora - disse Ned Land - que nada temos a esperar desse homem. O “Nautilus” aproxima-se de Long Island. Fugiremos, faça o tempo que fizer.

O céu tornava-se cada vez mais ameaçador, manifestando sinais de tempestade. A atmosfera tornava-se esbranquiçada e leitosa. Aos cirros de feixes soltos sucediam-se no horizonte camadas de nimbos e cúmulos. Outras nuvens baixas desapareciam rapidamente. O mar engrossava e a ondulação aumentava. As aves desapareciam, com exceção dos sataniclos, amigos das tempestades. O barômetro baixava sensivelmente e indicava a existência no ar de grande tensão de vapores. A mistura do “stormglass” decompunha-se sob a influência da eletricidade que saturava a atmosfera. A luta entre os elementos estava próxima.

A tempestade rebentou a 18 de maio, precisamente quando o “Nautilus” se encontrava ao largo de Long Island, a algumas milhas de Nova Iorque. Posso descrever essa luta dos elementos porque, em vez de lhe fugir para as profundezas do mar, o Capitão Nemo, por um inexplicável capricho, preferiu enfrentar a tempestade à superfície.

O vento soprava de sudoeste, primeiro com uma velocidade de quinze metros por segundo e depois, cerca de oito horas da noite, com uma velocidade de vinte e cinco metros.

O Capitão Nemo, inabalável sob as rajadas, tinha tomado lugar na plataforma, amarrado pela cintura para resistir melhor às monstruosas vagas. Também subi à plataforma e, igualmente amarrado, partilhei a minha admiração entre a tempestade e aquele homem incomparável que a enfrentava desassombradamente.

Ó mar encapelado era varrido por grandes massas de nuvens que batiam nas ondas. Eu não via nenhuma dessas ondas intermediárias que se formam no fundo das grandes cavidades. Nada, a não ser longas ondulações fuliginosas, cuja crista não rebenta, de tal modo são compactas. A sua altura aumentava. Excitavam-se mutuamente. O “Nautilus”, ora de lado, ora reto como um mastro, rolava e balouçava Terrivelmente.

Por volta das cinco horas, caiu uma chuva torrencial que não acalmou nem o vento e nem o mar. A tempestade desencadeou-se com uma velocidade de quarenta e cinco metros por segundo, ou seja, quase quarenta léguas por hora. O seu poder seria suficiente para arrancar casas, para rebentar grades de ferro e deslocar canhões. E no entanto, o “Nautilus”, no meio da tormenta, justificava bem as palavras do seu sábio construtor: “Não há casco bem construído que não possa desafiar o mar”.

Ele não era uma rocha resistente que as ondas teriam demolido. Era um fuso de aço, obediente e móvel, sem mastreação, que desafiava a fúria da natureza.

Entretanto, eu examinava atentamente as vagas que mediam até quinze metros de altura por um comprimento de cento e trinta a cento e setenta metros, sendo a sua velocidade de propagação de quinze metros por segundo. Metade da do vento. O seu volume e potência cresciam com a profundidade das águas. Compreendi então o papel das ondas que aprisionam o ar nos seus flancos e o levam para o fundo dos mares aos quais dão vida, dando-lhes oxigênio. A sua força de pressão, segundo se calcula, pode elevar-se até três mil quilos por pé quadrado da superfície que contra-atacam. Foram ondas como aquelas que, nas Hébridas, deslocaram um bloco que pesava oitenta e quatro mil libras. Foram elas que na tempestade de 23 de dezembro de 1864, depois de terem derrubado uma parte da cidade de Yeddo, no Japão, foram, com uma velocidade de setecentos quilômetros por hora, assolar no mesmo dia as costas da América do Norte.

A intensidade da tempestade cresceu com a noite. O barômetro, como em 1860, na Reunião, durante um ciclone, desceu a setecentos e dez milímetros. Ao fim do dia vi passar no horizonte um grande navio que lutava com muito esforço, capeando a pouco vapor para se manter sobre as vagas. Devia ser um dos vapores das linhas de Nova Iorque a Liverpool ou ao Havre. Não tardou a desaparecer nas sombras da noite.

As dez horas o céu estava em fogo. A atmosfera foi cortada por raios violentos. Eu não conseguia suportar-lhes o brilho, enquanto o Capitão Nemo, olhando-os bem de frente, parecia aspirar neles a alma da tempestade. Um ruído terrível enchia os ares, ruído complexo, feito dos gemidos das ondas esmagadas, dos uivos do vento e dos trovões. O vento soprava de todos os pontos do horizonte e o ciclone, partindo do leste, chegava ali, passando pelo norte, o oeste e o sul, no sentido inverso das tempestades giratórias do hemisfério austral.

Ah! A Gulf Stream justificava bem o nome de rainha das tempestades.

Era ela que criava esses terríveis ciclones devido à diferença de temperatura das camadas de ar sobrepostas às suas correntes.

À chuva sucedera uma bateria de fogos. As gotas de água transformavam-se em cristais fulminantes. Dir-se-ia que o Capitão Nemo, procurando uma morte digna dele, tentava ser fulminado. Num terrível movimento o “Nautilus” ergueu nos ares o seu esporão de ferro, como a haste de um para-raios, e eu vi saírem faíscas.

Completamente esgotado, rastejei até o alçapão e fui para o interior do barco. A tempestade atingia então a sua máxima intensidade. Era impossível estar-se de pé dentro do “Nautilus”.

O Capitão Nemo entrou por volta da meia-noite. Ouvi os reservatórios encherem-se de água e pouco a pouco o submarino submergiu.

Através dos painéis do salão vi grandes peixes assustados, que passavam como fantasmas nas águas em fogo. Alguns eu vi sendo fulminados e tive medo.

O “Nautilus” continuava a descer. Pensei que encontraria a calma a uma profundidade de quinze metros. Mas não encontrou. As camadas superiores estavam demasiado agitadas. Foi preciso que ele fosse procurar repouso a cinquenta metros nas entranhas do mar.

A essa profundidade, que silêncio, que tranquilidade, que lugar pacífico!

Quem diria que uma terrível tempestade rugia à superfície daquele mesmo oceano.

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