Nenhum de nós poderá jamais esquecer essa terrível cena. Eu
a escrevi sob a pressão de uma violenta emoção. Depois li o relato a Conselho e
Ned Land. Eles o acharam exato nos fatos, mas insuficiente nos efeitos.
Para pintar semelhantes quadros seria necessária a pena do
mais ilustre dos nossos poetas, o autor de Travailleurs de la Mer.
Eu disse que o Capitão Nemo chorava ao olhar as águas. A sua
dor foi imensa. Era o segundo companheiro que ele perdia desde a nossa chegada
a bordo. E que morte o homem tivera!
Aquele amigo esmagado, sufocado, despedaçado pelos poderosos
tentáculos de um polvo, devorado pelas suas mandíbulas de ferro, não iria
repousar com os companheiros nas pacíficas águas do cemitério de coral.
Para mim, no meio da luta, fora aquele grito de desespero
que me cortara o coração. O pobre francês, esquecendo a sua língua
convencional, recorrera à sua língua natal para um supremo grito de apelo!
Entre a tripulação do “Nautilus”, associado de corpo e alma
ao Capitão Nemo, fugindo como ele do contato dos homens, eu tinha um
compatriota. Seria o único a representar a França naquela misteriosa
associação, evidentemente constituída por indivíduos de nacionalidades
diferentes?
Era ainda um dos problemas insolúveis que constantemente me
assaltava o espírito.
O Capitão Nemo entrou para o seu quarto e eu não o vi
durante algum tempo. Como deveria estar triste, desesperado, indeciso, a julgar
pelo navio de que era a alma e que recebia todas as suas atenções. O “Nautilus”
deixara de ter uma direção determinada. Ia e vinha flutuando como um cadáver á
deriva. A hélice tinha sido reparada, mas ele quase não a usava. Navegava ao
acaso. Não conseguia afastar-se do teatro da sua última luta, do mar que havia
devorado um dos seus.
Passaram-se dez dias. Só no dia 1.° de maio o “Nautilus”
tomou decididamente a direção norte, depois de ter avistado as Lucaias, à
entrada do Canal das Baamas. Seguíamos então a corrente do maior rio do mar,
que tem as suas margens, os seus peixes e as suas temperaturas próprias. 1; a
Gulf Stream.
Na verdade é um rio que corre no meio do Atlântico,
livremente, e cujas águas não se misturam com as do oceano. É um rio salgado,
mais salgado do que o mar ambiente. O volume invariável das suas águas é mais
considerável do que o de todos os rios do globo.
A verdadeira origem da Gulf Stream, reconhecida pelo Capitão
Maury, o seu ponto de partida, fica situado no Golfo da Gasconha, onde as águas,
ainda de fraca temperatura e cor, começam a formar-se. Desce para o sul ao
longo da África Equatorial, aquece as águas da zona tórrida, atravessa o
Atlântico, atinge o Cabo de São Roque na costa brasileira e bifurca-se em dois
ramos, um dos quais vai ainda saturar-se de moléculas quentes no Mar das
Antilhas. Então, a Gulf Stream, encarregada de restabelecer o equilíbrio entre
as temperaturas e de misturar as águas dos trópicos com as águas boreais,
começa o seu papel de moderador. .
Aquecida ao máximo no Golfo do México, sobe para o norte ao
longo da costa americana, avança até a Terra Nova, desvia-se sob a pressão da
corrente fria do Estreito de Davis, retoma o caminho do oceano, seguindo sobre
um dos grandes círculos do globo a linha loxodrômica, divide-se em dois braços
no quadragésimo terceiro grau, um dos quais, ajudado pela monção do nordeste,
regressa ao Golfo da Gasconha, depois de ter aquecido as costas da Irlanda e da
Noruega, ultrapassa Spitzberg, onde a sua temperatura desce a quatro graus, e
vai formar o mar livre do pólo.
Era neste rio do oceano que o submarino “Nautilus” navegava.
A saída do Canal das Baamas, quatorze léguas ao largo e a
trezentos e cinquenta metros de profundidade, a Gulf Stream tem uma velocidade
de cerca de oito quilômetros por hora. Esta rapidez decresce regularmente à
medida em que avança para o norte, e é de desejar que esta regularidade se
mantenha, porque se a sua velocidade e direção se modificarem, o5 climas
europeus serão submetidos a perturbações cujas consequências são inteiramente
imprevisíveis.
Por volta do meio-dia encontrava-me na plataforma com o meu
criado.
Dei-lhe a conhecer todas as particularidades da Gulf Stream
e, terminada a minha explicação, convidei-o a enfiar a mão na água.
Conselho obedeceu e ficou. admirado de não sentir quer uma
sensação de calor, quer de frio.
- Isso acontece porque a temperatura das águas da Gulf
Stream, ao saírem do Golfo do México, pouco difere da do corpo humano. Essa corrente
é um vasto calorífero, que dá às costas da Europa o aspecto eternamente
verdejante. E, a se acreditar em Maury, o calor desta corrente, totalmente
utilizado, seria suficiente para manter em fusão um rio de ferro fundido tão
grande como o Amazonas ou o Missouri.
A corrente é tão distinta do mar ambiente que as suas águas
comprimidas irrompem sobre o oceano, operando-se um desnivelamento entre elas e
as águas frias. Escuras e muito ricas em matérias salinas, riscam com o seu
azul puro as águas verdes que as cercam. E tal a nitidez da sua linha de
demarcação que o “Nautilus”, perto das Carolinas, enquanto a hélice ainda agitava
as águas do oceano, já o esporão cortava as águas da Gulf Stream.
Esta corrente arrastava todo um mundo de seres vivos. Os
argonautas tão comuns no Mediterrâneo navegavam nele em grupos numerosos.
Entre os cartilaginosos os mais notáveis eram as raias, cuja
cauda muito solta formava quase um terço do corpo, e que pareciam enormes losângulos
com vinte e cinco pés de comprimento; depois, pequenos esqualos com um metro de
comprimento, de cabeça grande, focinho curto e arredondado, dentes pontiagudos
dispostos em várias fileiras e cujo corpo parecia coberto de escamas.
Entre os peixes ósseos, vilabros cinzentos, comuns desses
mares; spares sinagros, cuja íris brilhava como uma chama; sciènes, com um
metro de comprimento e grandes goelas cheias de pequenos dentes; centronotos
negros, de que já falei; corifemos azuis, ornados de ouro e prata; papagaios,
verdadeiros arco-íris do oceano e que podem rivalizar em cores com as mais
belas aves dos trópicos; blêmios de cabeça triangular; rombos azulados,
desprovidos de escamas; batracóides, cobertos com uma transversal amarela
parecendo um T grego; cardumes de gobiões salpicados de manchas amarelas;
dipterodontes, de cabeça prateada e cauda amarela; diversas espécies de
salmões, mugilomoros de belo porte, com um brilho suave, que Lacèpede consagrou
à amável companheira de sua vida, e finalmente um belo peixe, o cavaleiro
americano, que decorado com todas as ordens e enfeitado com todas as fitas,
freqüenta as costas dessa grande nação onde as fitas e as ordens são pouco estimadas.
Acrescentarei que durante a noite, as águas fosforescentes
da Gulf Stream rivalizaram com o brilho elétrico do nosso farol, sobretudo nos momentos
de tempestade que nos ameaçavam freqüentemente.
A 8 de maio estávamos ainda à vista do Cabo Hatteras, ao
largo da Carolina do Norte. A largura da Gulf Stream é ali de setenta e cinco milhas
e a sua profundidade de duzentos e dez metros.
O “Nautilus” continuava a errar à aventura. Toda a
vigilância parecia ter sido abandonada a bordo. Pensei que naquelas condições
uma evasão poderia ter êxito. As costas habitadas ofereciam fáceis refúgios. O
mar era constantemente sulcado por numerosos vapores que fazem serviço entre
Nova Iorque ou Boston e o Golfo do México, e noite e dia percorrem com suas
pequenas escunas carregadas a costa americana.
Havia assim boas possibilidades de sermos recolhidos. Era,
portanto, uma ocasião favorável, apesar das trinta milhas que separavam o “Nautilus”
das costas mais próximas.
No entanto, uma circunstância inesperada veio contrariar
completamente os planos do canadense. O tempo estava ruim. Atravessávamos as regiões
onde as tempestades são frequentes, na zona das trombas d’água e dos ciclones,
precisamente originados pela Gulf Stream.
Enfrentar um mar muitas vezes agitado num frágil bote era
correr para uma morte certa. O próprio Ned Land concordou comigo. Assim, refreou-se,
tomado de uma furiosa nostalgia.
- Professor - disse-me o canadense - isto tem que acabar. O
seu capitão afasta-se das terras e se dirige para o norte. Mas eu fiquei farto do
Pólo Sul e não seguirei com ele para o Pólo Norte.
- Que havemos de fazer, se é impossível fugir agora? - Volto
à minha idéia de que temos de falar com o capitão. Não disse nada quando estávamos
nos mares do seu país, mas eu quero falar, agora que estamos nas águas do meu.
Quando eu penso que dentro de alguns dias o “Nautilus” se encontrará ao largo
da Nova Escócia e que ali, em direção à Terra Nova se abre uma grande baía, que
nessa baía deságua o São Lourenço e que o São - Lourenço é o meu rio, o rio de
Quebek, a minha terra natal, quando eu penso nisso a ira sobe-me à cabeça e meus
cabelos se eriçam. Prefiro atirar-me na água a continuar aqui. Isto me sufoca!
Era evidente que o canadense havia chegado ao fim da
paciência. A sua natureza vigorosa não podia acomodar-se àquela clausura
prolongada.
A sua fisionomia alterava-se de dia para dia e o seu caráter
tornava-se cada vez mais sombrio. Tinham-se passado quase sete meses sem que tivéssemos
notícias da terra. Além disso, o isolamento do Capitão Nemo, a modificação do
seu humor, sobretudo depois do combate com os polvos, a sua taciturnidade, tudo
me fazia ver as coisas de modo diferente. Eu já não mais sentia o entusiasmo
dos primeiros dias. Era preciso ser um flamengo como Conselho para aceitar
aquela situação, no meio reservado aos cetáceos e outros habitantes do mar. Se
o pobre rapaz em vez de pulmões tivesse guelras, creio que seria um peixe de grande
classe.
- Então, professor? - insistiu Ned Land numa decisão minha,
sobre a sua proposta de irmos falar ao capitão.
- Você quer que eu pergunte ao Capitão Nemo quais são as
intenções dele a nosso respeito?
- Quero. Apesar de nós já sabermos quais são ditas por ele
mesmo?
- Sim. Desejo ouvi-las uma última vez. Fale apenas no meu
nome se isso lhe parecer melhor.
- Mas raramente o vejo agora.
- Mais uma razão para ir vê-lo.
- Vou fazer a ele a pergunta que você quer, Ned.
- Quando?
- Quando encontra-lo.
- O senhor quer que eu mesmo fale com ele?
- Não, deixe-me tratar do assunto. Amanhã...
- Hoje - disse Ned Land.
- Seja. Hoje falo com ele - prometi ao canadense. Eu não
podia deixar que ele fosse pessoalmente conversar com o capitão sobre um
assunto tão melindroso.
Fiquei só. Decidida a questão, resolvi acabar com ela
imediatamente.
Gosto mais das coisas feitas do que das que estão por fazer.
Entrei no meu quarto e ouvi passos no do Capitão Nemo. Não
podia deixar passar aquela ocasião para falar com ele. Bati na porta e ele não atendeu.
Bati uma segunda vez e rodei o trinco. A porta abriu-se.
Penetrei no quarto dele. O capitão estava curvado sobre a
mesa de trabalho e não tinha me ouvido. Resolvido a não deixar o quarto sem falar
com ele, aproximei-me. Ele levantou a cabeça bruscamente, franziu o sobrolho e
me perguntou num tom bastante rude - O senhor aqui! Que deseja?
- Falar-lhe, capitão.
- Não vê que estou ocupado, que estou trabalhando? Quero ter
para mim a liberdade que lhe dou de não ser incomodado.
A recepção era pouco encorajadora, mas eu estava decidido a
ouvir tudo, para poder falar depois tudo o que desejasse.
- Tenho que falar de um assunto urgente.
- Que assunto? - notei um tom de ironia na voz dele. - Fez
alguma descoberta que me escapou? O mar lhe revelou mais algum dos seus grandes
segredos?
Estávamos muito longe do assunto que me interessava. Antes
que eu pudesse responder às perguntas dele, o capitão me mostrou um manuscrito
aberto sobre a sua mesa e me disse num tom mais grave - Aqui tem, professor, um
manuscrito em várias línguas. Contém o resumo dos meus estudos do mar e, se
Deus quiser, não morrerá comigo. Este manuscrito, assinado por mim e completado
com a história de minha vida, será fechado dentro de um pequeno aparelho insubmergível.
O último sobrevivente a bordo do “Nautilus” jogará ao mar esse aparelho que irá
para onde as águas o levarem.
A sua história escrita por ele mesmo! A assinatura do
manuscrito deveria ser com o seu nome verdadeiro! O seu segredo seria alguma vez
desvendado? Porém, naquele momento, a comunicação dele só serviu para me dar
ensejo de falar do meu assunto.
- Capitão, compreendo o motivo pelo qual vai agir assim. Os
resultados de seus estudos não podem desaparecer. Mas o meio que vai utilizar para
transmiti-los aos homens que lucrarão com eles, parece-me primitivo. Quem sabe
para onde os ventos conduzirão o aparelho e em que mãos ele irá cair? Não
haverá um meio melhor? Talvez o senhor mesmo ou um dos seus...
- Nunca! - ele cortou energicamente a minha frase.
- Mas eu e os meus companheiros estamos dispostos a guardar
o manuscrito, se o senhor nos der a liberdade.
- A liberdade! - Levantou-se ele, repetindo a palavra.
- Sim, capitão. Foi sobre esse assunto que vim lhe falar. Há
sete meses que estamos a bordo e eu agora lhe pergunto, no meu nome e nos nomes
de meus companheiros, se tenciona manter-nos presos aqui por muito mais tempo.
- Sr. Aronnax, a minha resposta é a mesma que o senhor ouviu
há sete meses: quem entra no “Nautilus” nunca mais sairá vivo dele.
- É a escravatura que nos impõe?
- Dê-lhe o nome que quiser.
- Em toda parte o escravo conserva o direito de recuperar a
liberdade!
Quaisquer que sejam os meios que se lhe ofereçam, pode
julgá-los bons.
- Quem está lhes negando esse direito? - perguntou-me ele. -
Exigi dos senhores algum juramento?
Ele me olhava de braços cruzados.
- Capitão Nemo. Voltar uma segunda vez à questão, não seria
do seu e nem do meu agrado. Mas uma vez que ela foi levantada, quero discuti-la
até uma solução final. Repito-lhe que não se trata apenas da minha pessoa. Para
mim o estudo é um refúgio, uma diversão suficiente, um passatempo, uma paixão
que consegue me fazer esquecer de tudo.
Como o senhor, sou um homem para viver ignorado, obscuro, na
frágil esperança de legar um dia ao futuro os resultados do meu trabalho, através
de um aparelho hipotético confiado à água e aos ventos. Numa palavra, eu posso
admirar o senhor, posso segui-lo com prazer num papel que compreendo sob certos
aspectos, mas há ainda alguns pontos da sua vida que me fazem antevê-la cheia
de complicações e mistérios, dos quais eu e meus companheiros não participamos.
E mesmo quando os nossos corações bateram por sua causa, comovidos por algumas
das dores que o atingiram ou impressionados pelos seus atos de gênio e coragem,
tivemos de nos reprimir e não manifestar o testemunho de nossa simpatia, que
faz nascer a contemplação do que é belo, quer venha do amigo ou do inimigo.
Pois bem. É esse sentimento de estranheza a tudo que o toca que faz da nossa
situação algo de inaceitável, de impossível até para ruim, quanto mais para Ned
Land.
Qualquer homem, só por ser homem, merece que pensem nele. Já
pensou o que o amor pela liberdade, o ódio pela escravatura, podem fazer nascer
de planos de vingança numa natureza como a do canadense? O que ele podia
pensar, tentar...?
Calei-me. Ele me olhava absolutamente impassível.
- Ned Land pode pensar, pode tentar tudo o que quiser. Que
me importa! Não fui eu que o procurei. Não é por meu prazer que o tenho a
bordo. Quanto ao senhor, é daqueles que conseguem compreender tudo, até o
silêncio. Mais nada tenho a dizer, professor. Que a primeira vez que veio me
falar desse assunto seja também a última, porque da próxima nem sequer o
escutarei.
Retirei-me. A partir daquele dia a nossa situação tornou-se
pior. Contei aos meus companheiros toda a conversa que tivera com o capitão.
- Sabemos agora - disse Ned Land - que nada temos a esperar
desse homem. O “Nautilus” aproxima-se de Long Island. Fugiremos, faça o tempo
que fizer.
O céu tornava-se cada vez mais ameaçador, manifestando
sinais de tempestade. A atmosfera tornava-se esbranquiçada e leitosa. Aos
cirros de feixes soltos sucediam-se no horizonte camadas de nimbos e cúmulos.
Outras nuvens baixas desapareciam rapidamente. O mar engrossava e a ondulação
aumentava. As aves desapareciam, com exceção dos sataniclos, amigos das
tempestades. O barômetro baixava sensivelmente e indicava a existência no ar de
grande tensão de vapores. A mistura do “stormglass” decompunha-se sob a
influência da eletricidade que saturava a atmosfera. A luta entre os elementos
estava próxima.
A tempestade rebentou a 18 de maio, precisamente quando o “Nautilus”
se encontrava ao largo de Long Island, a algumas milhas de Nova Iorque. Posso
descrever essa luta dos elementos porque, em vez de lhe fugir para as
profundezas do mar, o Capitão Nemo, por um inexplicável capricho, preferiu
enfrentar a tempestade à superfície.
O vento soprava de sudoeste, primeiro com uma velocidade de
quinze metros por segundo e depois, cerca de oito horas da noite, com uma velocidade
de vinte e cinco metros.
O Capitão Nemo, inabalável sob as rajadas, tinha tomado
lugar na plataforma, amarrado pela cintura para resistir melhor às monstruosas vagas.
Também subi à plataforma e, igualmente amarrado, partilhei a minha admiração
entre a tempestade e aquele homem incomparável que a enfrentava
desassombradamente.
Ó mar encapelado era varrido por grandes massas de nuvens
que batiam nas ondas. Eu não via nenhuma dessas ondas intermediárias que se
formam no fundo das grandes cavidades. Nada, a não ser longas ondulações fuliginosas,
cuja crista não rebenta, de tal modo são compactas. A sua altura aumentava.
Excitavam-se mutuamente. O “Nautilus”, ora de lado, ora reto como um mastro,
rolava e balouçava Terrivelmente.
Por volta das cinco horas, caiu uma chuva torrencial que não
acalmou nem o vento e nem o mar. A tempestade desencadeou-se com uma velocidade
de quarenta e cinco metros por segundo, ou seja, quase quarenta léguas por
hora. O seu poder seria suficiente para arrancar casas, para rebentar grades de
ferro e deslocar canhões. E no entanto, o “Nautilus”, no meio da tormenta,
justificava bem as palavras do seu sábio construtor: “Não há casco bem
construído que não possa desafiar o mar”.
Ele não era uma rocha resistente que as ondas teriam
demolido. Era um fuso de aço, obediente e móvel, sem mastreação, que desafiava
a fúria da natureza.
Entretanto, eu examinava atentamente as vagas que mediam até
quinze metros de altura por um comprimento de cento e trinta a cento e setenta metros,
sendo a sua velocidade de propagação de quinze metros por segundo. Metade da do
vento. O seu volume e potência cresciam com a profundidade das águas.
Compreendi então o papel das ondas que aprisionam o ar nos seus flancos e o
levam para o fundo dos mares aos quais dão vida, dando-lhes oxigênio. A sua
força de pressão, segundo se calcula, pode elevar-se até três mil quilos por pé
quadrado da superfície que contra-atacam. Foram ondas como aquelas que, nas
Hébridas, deslocaram um bloco que pesava oitenta e quatro mil libras. Foram
elas que na tempestade de 23 de dezembro de 1864, depois de terem derrubado uma
parte da cidade de Yeddo, no Japão, foram, com uma velocidade de setecentos
quilômetros por hora, assolar no mesmo dia as costas da América do Norte.
A intensidade da tempestade cresceu com a noite. O
barômetro, como em 1860, na Reunião, durante um ciclone, desceu a setecentos e
dez milímetros. Ao fim do dia vi passar no horizonte um grande navio que lutava
com muito esforço, capeando a pouco vapor para se manter sobre as vagas. Devia
ser um dos vapores das linhas de Nova Iorque a Liverpool ou ao Havre. Não
tardou a desaparecer nas sombras da noite.
As dez horas o céu estava em fogo. A atmosfera foi cortada
por raios violentos. Eu não conseguia suportar-lhes o brilho, enquanto o
Capitão Nemo, olhando-os bem de frente, parecia aspirar neles a alma da tempestade.
Um ruído terrível enchia os ares, ruído complexo, feito dos gemidos das ondas
esmagadas, dos uivos do vento e dos trovões. O vento soprava de todos os pontos
do horizonte e o ciclone, partindo do leste, chegava ali, passando pelo norte,
o oeste e o sul, no sentido inverso das tempestades giratórias do hemisfério
austral.
Ah! A Gulf Stream justificava bem o nome de rainha das
tempestades.
Era ela que criava esses terríveis ciclones devido à
diferença de temperatura das camadas de ar sobrepostas às suas correntes.
À chuva sucedera uma bateria de fogos. As gotas de água
transformavam-se em cristais fulminantes. Dir-se-ia que o Capitão Nemo,
procurando uma morte digna dele, tentava ser fulminado. Num terrível movimento
o “Nautilus” ergueu nos ares o seu esporão de ferro, como a haste de um para-raios,
e eu vi saírem faíscas.
Completamente esgotado, rastejei até o alçapão e fui para o
interior do barco. A tempestade atingia então a sua máxima intensidade. Era impossível
estar-se de pé dentro do “Nautilus”.
O Capitão Nemo entrou por volta da meia-noite. Ouvi os
reservatórios encherem-se de água e pouco a pouco o submarino submergiu.
Através dos painéis do salão vi grandes peixes assustados,
que passavam como fantasmas nas águas em fogo. Alguns eu vi sendo fulminados e
tive medo.
O “Nautilus” continuava a descer. Pensei que encontraria a
calma a uma profundidade de quinze metros. Mas não encontrou. As camadas superiores
estavam demasiado agitadas. Foi preciso que ele fosse procurar repouso a cinquenta
metros nas entranhas do mar.
A essa profundidade, que silêncio, que tranquilidade, que
lugar pacífico!
Quem diria que uma terrível tempestade rugia à superfície
daquele mesmo oceano.

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