quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 - Capítulo 17 e 18

Capítulo 17

Ignoro como eu fui parar na plataforma. Talvez o canadense tivesse me levado. Mas eu respirava e absorvia o ar vivificante do mar.

- Ah! - dizia-me Conselho. - O oxigênio é tão bom! O senhor não tenha receio de respirar. Há que chegue para todos.

Quanto a Ned Land, não falava mas abria a boca de tal maneira que assustaria um tubarão. E que poderosas inspirações! O canadense arfava como um fogão em plena combustão.

Recuperei imediatamente as forças e, quando olhei à minha volta, vi que estávamos sós na plataforma. Nenhum dos homens da tripulação e nem o Capitão Nemo. Os estranhos marinheiros do “Nautilus” contentavam-se com o ar que circulava no interior.

As primeiras palavras que pronunciei foram de agradecimento e gratidão para meus dois companheiros.

- Bom, professor, não se fala mais nisso - disse-me Ned Land. – Não temos nenhum mérito pelo que fizemos. Foi uma questão de aritmética.

A sua existência valia mais do que a nossa e portanto era preciso conservá-la.

- Não, Ned, não valia e nem vale mais. Ninguém é superior a homens generosos como vocês..

Ficamos calados por um momento e depois eu disse:

- Meus amigos, estamos ligados uns aos outros para sempre. Vocês têm sobre mim os direitos...

- Dos quais abusarei - interrompeu-me o canadense.

- Como? - perguntou Conselho.

- Abusarei do direito de levá-lo comigo quando deixar este infernal “Nautilus” - respondeu Ned Land.

- De fato - disse Conselho - vamos no bom caminho.

- Sim - acrescentei - vamos para o lado do sol e aqui o sol significa norte.

- Sem dúvida - concordou Ned Land - mas resta saber se navegamos para o Pacifico ou para o Atlântico.

Para os mares frequentados ou os desertos.

 Tínhamos que pensar nisso.

 O “Nautilus” avançava rapidamente. O círculo polar foi ultrapassado, assim como o cabo que fica no Promontório de Horn. Estávamos na extremidade do Continente americano no dia 31 de março às sete horas da noite.

Olhando as anotações do imediato na carta de navegação, eu podia determinar a direção exata do “Nautilus”. Ora, naquela tarde ficou evidenciado, para minha grande satisfação, que voltávamos para o norte pela rota do Atlântico.

Comuniquei essa minha observação aos meus companheiros.

- Boa notícia - disse Ned Land. - Mas para onde vai o “Nautilus”?

- Não sei, meu caro.

- Ele não nos diz nada - falou Conselho, referindo-se ao capitão – mas eu só posso dizer que é um grande homem esse Capitão Nemo. Não lamentaremos por tê-lo conhecido.

- Sobretudo quando o tivermos deixado – retrucou Ned Land.

No dia seguinte, 1.° de abril, quando o “Nautilus” subiu à superfície das águas, alguns minutos antes do meio-dia, avistamos uma costa a oeste.

Era a Terra do Fogo, à qual os primeiros navegadores deram este nome ao verem os numerosos focos de fumo que se elevavam das cabanas dos indígenas. A costa parece baixa mas ao longe elevam-se altas montanhas. Julguei até ter visto o Monte Sarmiento, com dois mil e setenta metros acima do nível do mar, bloco piramidal de xisto, de cume aguçado, o qual segundo informação de Ned Land estando enevoado ou limpo anuncia o mau ou o bom tempo.

A noite o “Nautilus” aproximou-se do Arquipélago das Maloínas. A profundidade do mar era pouca. Pensei então que aquelas duas ilhas, rodeadas por numerosas ilhotas, faziam outrora parte das terras de Magalhães. As Maloínas foram descobertas provavelmente pelo célebre John Davis, que lhes pôs o nome de Davis-Southern-Islands. No princípio do século XVIII, foram chamadas de Maloínas pelos pescadores de Saint-Malo e, finalmente, por Falklands pelos ingleses.

Quando as Maloínas desapareceram no horizonte, o “Nautilus” submergiu entre vinte e vinte e cinco metros e seguiu a costa americana. O Capitão Nemo estava sumido.

A 3 de abril, ora submerso ora à superfície, navegamos na região da Patagônia. O “Nautilus” passou pelo grande estuário formado pela desembocadura do Rio da Prata e a 4 de abril estávamos em frente ao Uruguai, a cinquenta milhas ao largo. A sua direção se mantinha para o norte, seguindo as longas sinuosidades da América Meridional. Já tínhamos então percorrido dezesseis mil milhas desde o nosso embarque, nos mares do Japão.

Por volta das onze horas da manhã passamos o Trópico de Capricórnio no meridiano 37 e navegamos ao largo do Cabo Frio. O Capitão Nemo, para grande aborrecimento de Ned Land, não gostava das costas habitadas do Brasil, pois passou por elas com grande velocidade.

Essa rapidez manteve-se durante vários dias. A 9 de abril, à noite, avistamos a ponta mais oriental da América do Sul, que forma o Cabo São Roque. No dia 11 de abril o “Nautilus” subiu para a superfície e a terra reapareceu à vista do Rio Amazonas, vasto estuário cuja caudal é tão considerável que tira o sal ao mar numa extensão de várias léguas.

Tínhamos passado o Equador. A vinte milhas para oeste ficavam as Guianas, terras francesas, onde facilmente encontraríamos refúgio. Mas o vento soprava forte e as vagas, furiosas, não permitiam que um frágil bote as enfrentasse. Ned Land deve ter compreendido isso, pois não me falou em evasão. Por meu lado não fiz qualquer alusão ao assunto, porque não queria levá-lo a uma tentativa infalivelmente condenada ao malogro.

No dia 12 de abril, o “Nautilus” aproximou-se da costa, junto da embocadura do Maroni. A finalidade, que não tardamos a descobrir, foi a pesca para reabastecer de carne as despensas do navio.

Capítulo 18

Durante alguns dias, o “Nautilus” manteve-se sempre afastado da costa americana. Era evidente que não queria frequentar as águas do Golfo do México ou do Mar das Antilhas. A 16 de abril avistamos a Martinica e Guadalupe, a uma distância de cerca de trinta milhas. Por instantes eu pude ver os seus gumes aguçados.

O canadense, que contava com uma oportunidade de pôr em prática o seu plano de fuga nas águas do golfo, quer tentando alcançar terra, quer acostando-se a um dos numerosos navios que navegam entre as ilhas, ficou muito desapontado. A fuga teria sido praticável se ele conseguisse se apossar do bote, sem que o capitão notasse. Mas em pleno oceano isso nunca teria sido possível.

Tivemos uma reunião sobre o assunto. Há seis meses que éramos prisioneiros a bordo do “Nautilus”. Já tínhamos percorrido dezessete mil milhas e, como dizia Ned Land, nada levava a crer que aquilo tivesse um fim. Ele resolveu me fazer uma proposta com a qual eu não contava. Eu deveria fazer uma pergunta categórica ao Capitão Nemo sobre as reais intenções dele a nosso respeito. Seria propósito dele manter-nos para sempre a bordo do “Nautilus”?

Na minha opinião isso não daria bom resultado. Só devíamos contar conosco. Aliás, há algum tempo o capitão estava cada vez mais sombrio, mais retirado, menos sociável. Parecia evitar-me. Eu raramente o encontrava. Antes ele gostava de me explicar as maravilhas submarinas, mas agora abandonara-me aos meus estudos e não comparecia ao salão.

 Que mudança teria se operado nele? Qual o motivo dela? Não tinha nada a censurar-me. Talvez a nossa presença a bordo o incomodasse.

De qualquer maneira eu não acreditava que ele nos daria a liberdade.

 Portanto pedi a Ned Land que me desse tempo para refletir. Aquela pergunta poderia levantar suspeitas no espírito do capitão, tornar a nossa situação penosa e prejudicar nossas possibilidades de fuga.

Excetuando-se a dura provação do bloco de gelo no Pólo Sul, nós passávamos sempre muito bem. A alimentação sadia, a atmosfera salubre, a regularidade da existência e a uniformidade da temperatura, tudo isso nos mantinha com ótima saúde.

Para um homem que não lamentava as recordações de terra, para um Capitão Nemo, que se sentia em casa, que ia onde queria, que por meios misteriosos para os outros, mas claros para ele, avançava para um alvo, era fácil compreender aquela existência.

- Mas nós não tínhamos rompido com a humanidade. Quanto a mim particularmente, eu não queria que os meus estudos, tão curiosos e inovadores desaparecessem comigo. Eu tinha agora o direito e as condições de escrever o verdadeiro livro do mar, e queria que mais cedo ou mais tarde esse livro fosse publicado. Ali mesmo naquelas águas das Antilhas, a dez metros de profundidade, através dos painéis abertos, eu podia ver interessantíssimos exemplares da fauna submarina. Aos poucos o “Nautilus” foi mergulhando nas camadas mais profundas. Os seus planos inclinados levaram-no a profundidades de até dois e três mil metros. Então a vida animal tinha por únicos representantes as estrelas-do-mar, mexilhões e outros moluscos litorais.

 A 20 de abril subimos a uma altura média de mil e quinhentos metros.

A terra mais próxima era então o Arquipélago das Lucaias, espalhadas como um monte de pedras na superfície das águas. Ali, elevavam-se altas falésias submarinas, muralhas a pique feitas de blocos desgastados, dispostas em grandes camadas, entre as quais se viam enormes buracos negros que os nossos raios elétricos não conseguiam iluminar até o fundo.

 Essas rochas estavam cobertas de grandes ervas, de laminárias e bodelhas gigantes. Uma verdadeira latada de hidrofitas, digna do mundo dos Titãs. Eram cerca de onze horas, quando Ned Land me chamou a atenção para um formidável turbilhão produzido entre as algas.

- São autênticas cavernas de polvos e não me admiraria nada se víssemos alguns desses monstros.

- Como? - perguntou Conselho. - Calmares, simples calmares da classe dos cefalópodes?

- Não - respondi - polvos de grandes dimensões. Mas o nosso amigo Ned deve ter se enganado, porque não vejo nada.

- Lamento muito - disse Conselho. - Gostaria de ver um desses polvos de que tanto ouvi falar, e que podem arrastar navios para os fundos dos abismos. A esses animais chamam “krak . . . “

- Krak chega - disse ironicamente o canadense.

 - Krakens - retorquiu Conselho, acabando a palavra sem se preocupar com - a brincadeira do companheiro.

- Nunca me farão acreditar que esses animais existem.

- Por que não? - perguntou Conselho. - Acreditamos no narval.

- E erramos, Conselho.

- Sem dúvida. Mas tem gente que ainda acredita.

- É provável. Quanto a mim só acreditarei na existência desses monstros quando os dissecar com as minhas com próprias mãos.

- E o senhor acredita nos polvos gigantescos?

- Quem alguma vez acreditou? - exclamou o canadense.

- Muita gente, amigo Ned - falei. - Pescadores certamente que não.

Talvez sábios acreditem - Mas eu afirmo que me lembro perfeitamente de ter visto - disse Conselho com o ar mais sério que se poderia desejar - uma grande embarcação arrastada pelos tentáculos de um cefalópode.

- Viu isso? - perguntou o canadense.

- Sim, Ned.

- Com os seus próprios olhos?

- Com os meus próprios olhos.

- E onde, se não se importa?

- Em Saint-Malo - respondeu Conselho, imperturbável.

- No porto? - perguntou Ned Land, irônico.

- Não. Numa igreja! - informou Conselho.

- Numa igreja! - exclamou o canadense.

- Sim, meu amigo. Era um quadro que representava o polvo em questão, arrastando o navio.

- Ah! - Ned Land começou a rir. - Isso tem muita graça.

- De fato ele tem razão - disse eu. - Já ouvi falar desse quadro, mas o animal que representa foi tirado de uma lenda e vocês sabem o crédito que se deve dar a lendas, em matéria de história natural. Aliás, quando se trata de monstros a imaginação não tem limites. Não só se afirma que esses polvos podem arrastar navios, como também um certo Olaus Magnus fala de um cefalópode com uma milha de comprimento, mais parecido com uma ilha do que com um animal. Conta-se também que o bispo de Nidros construiu um dia um altar sobre um enorme rochedo. Acabada a missa, o rochedo pôs-se em movimento e voltou ao mar. Era um polvo.

- É tudo? - perguntou o canadense.

- Não. Um outro bispo, Pontoppidan de Berghem, fala igualmente de um polvo sobre o qual podia manobrar um regimento de cavalaria. - Interessantes esses bispos de antigamente! – disse Ned Land.

- Finalmente, os naturalistas antigos citam monstros de goelas que se assemelhavam a um golfo e que eram demasiado grandes para passar no Estreito de Gibraltar.

- Ainda bem! - comentou o canadense.

- Mas em todos esses relatos não há nada de verdade?

- perguntou o meu criado.

- Nada, meus amigos. Nada desde que se ultrapasse o limite do verossímil para chegar à fábula e à lenda.

Porém, a imaginação dos narradores necessita, senão de uma causa, pelo menos de um pretexto. Não se pode negar que existem polvos e calmares de grande envergadura, embora inferior à dos cetáceos.

Aristóteles confirmou á existência de um calmar com cinco côvados, ou seja, três metros e dez centímetros. Os museus de Trieste e de Montpellier conservam polvos embalsamados que medem dois metros.

Aliás, segundo os cálculos dos naturalistas, um desses animais com apenas seis pés de comprimento teria tentáculos de vinte e sete pés, o que chega para o transformar num monstro enorme.

- E ainda se pescam polvos assim? - perguntou o canadense.

- Se não se pescam, pelo menos são vistos pelos pescadores. Um dos meus amigos, o Capitão Paul Bos, do “Havre”, afirmou-me várias vezes que tinha encontrado um desses monstros de tamanho colossal nos mares da índia. Mas o fato mais surpreendente, e que não me permite continuar a negar a existência desses animais gigantescos, passou-se há alguns anos, em 1861.

- Como foi? - perguntou Ned Land.

- Em 1861, a nordeste de Tenerife, mais ou menos na latitude onde nos encontramos neste momento, a tripulação do navio “Alecton” avistou um monstruoso calmar que nadava naquelas águas. O Comandante Bouger aproximou-se e atacou-o com arpões e balas, sem qualquer êxito, porque os arpões lhes trespassavam as carnes moles como uma geléia sem consistência. Após algumas tentativas infrutíferas, a tripulação conseguiu passar um nó corredio à volta do corpo do molusco. O nó deslizou até as barbatanas caudais e parou. Tentaram então içar o monstro para bordo, mas o seu peso era tal que, devido à tração da corda, se separou da causa e desapareceu nas águas, sem ela.

- Aí está qualquer coisa concreta - disse Ned Land.

- Um fato indiscutível, meu caro Ned. Por isso foi proposto que se desse a esse polvo o nome de “calmar de Bouger”.

- Talvez medisse seis metros - disse Conselho, postado junto ao painel e examinando de novo as anfratuosidades da falésia.

- Precisamente - confirmei.

- A cabeça seria coroada por oito tentáculos que se agitavam na água como um ninho de serpentes? - continuou Conselho.

- Precisamente - tornei a confirmar.

- Os olhos, colocados à flor da pele, teriam um desenvolvimento considerável.

- Sim, Conselho.

- E a boca seria um verdadeiro bico de papagaio, mas um bico formidável.

- De fato era assim - concordei.

- Pois bem, com licença do senhor - Conselho falou tranquilamente – se não é o calmar de Bouger, está ali pelo menos um dos seus irmãos - disse e apontou para o mar.

Olhei para o meu criado e Ned Land correu para o painel.

- Que animal horrendo! - exclamou.

Olhei também e não pude reprimir um movimento de repulsa. Diante dos meus olhos, agitava-se um monstro horrível, digno de figurar nas lendas teratológicas.

Era um calmar de dimensões colossais, com oito metros de comprimento. Avançava com grande velocidade em direção ao “Nautilus”, que fixava com os seus enormes olhos verde-mar. Os seus oito braços, ou antes os seus oito pés, implantados na cabeça, o que valeu a esses animais o nome de cefalópodes, tinham um desenvolvimento duplo do corpo e contorciam-se como as cabeleiras das Fúrias. Viam-se distintamente as duzentas e cinquenta ventosas dispostas nas faces internas dos tentáculos, sob a forma de cápsulas semi-esféricas. Por vezes as ventosas colavam-se aos vidros do painel. A boca do monstro, um bico córneo semelhante ao bico de papagaio, abria-se e fechava-se verticalmente. A língua, substância córnea, armada com várias fiadas de dentes agudos, saía trêmula daquela verdadeira guilhotina. Que fantasia da natureza! Um molusco com bico de ave! O corpo, fusiforme e bojudo no meio, formava uma massa carnuda que devia pesar de vinte a vinte e cinco mil quilos. A sua cor inconstante mudava com extrema rapidez, segundo a irritação do animal, passando sucessivamente do cinzentolívido ao castanho-amarelado.

O que estaria irritando o molusco? Certamente a presença do “Nautilus”, maior do que ele e sobre o qual os seus braços e dentes não tinham qualquer poder. E no entanto, que monstros formidáveis são esses polvos, que vitalidade o Criador deu a eles, que vigor nos movimentos, uma vez que têm dois corações.

O acaso nos tinha posto na presença do calmar e eu não queria perder a ocasião de estudar cuidadosamente aquele exemplar dos cefalópodes.

Dominei o horror que me inspirava o seu aspecto e, pegando em um lápis, comecei a desenhá-lo.

- Talvez seja o mesmo do “Alecton” - disse Conselho.

- Não - respondeu o canadense. - O do “Alecton” havia perdido a Cauda.

- Isso não seria uma razão - disse eu. - Os braços e a cauda desses animais renovam-se por reintegração. Em sete anos a cauda do calmar de Bouger teria tido tempo de crescer.

- De qualquer maneira, se não é este, talvez seja algum daqueles - acrescentou o meu criado.

De fato, outros polvos apareciam no painel a estibordo. Contei sete que faziam um cortejo ao “Nautilus” e cujos bicos se faziam ouvir quando batiam no casco do navio.

Continuei o meu trabalho. Os monstros mantinham-se nas nossas águas com tal precisão que pareciam imóveis e teria sido possível decalcá-los do vidro. Aliás estávamos navegando a uma velocidade bem moderada.

De repente o “Nautilus” parou e toda a sua estrutura tremeu devido a um choque.

- Teríamos encalhado? - perguntei.

- Se foi o caso, safamo-nos - disse Ned Land - porque continuamos a flutuar.

Não havia dúvida de que o barco flutuava, mas não avançava. As pás da hélice já não se viravam nas águas.

Passou um minuto e o Capitão Nemo, seguido pelo imediato, entrou no salão.

Havia algum tempo que eu não o via. Pareceu-me taciturno. Sem falar, talvez sem nos ver, chegou junto ao painel, observou os polvos e disse algumas palavras ao imediato. Este saiu.

Os painéis foram fechados e o teto se iluminou. Falei com o capitão, sem ligar para o ar fechadão dele.

- Curiosa coleção de polvos - fingi o tom indiferente de um amador diante de um vidro de aquário.

- De fato, professor, e vamos combatê-los corpo a corpo.

Olhei o capitão julgando ter ouvido mal.

- Corpo a corpo? - perguntei.

- Sim. A hélice parou. Penso que as mandíbulas córneas de um desses calmares danificaram uma de suas pás. Isso nos impede de avançarmos.

- E o que vai fazer?

- Subir à superfície e exterminar toda essa bicharada.

- Tarefa difícil. ‘

- De fato ela não é fácil. As balas elétricas são impotentes contra as suas carnes moles, onde não encontram resistência suficiente para rebentarem. Mas vamos atacá-los a machadadas.

- E às arpoadelas - disse o canadense - se não recusar a minha ajuda.

- Aceito-a, mestre Land.

- Nós os acompanharemos - disse eu, seguindo o Capitão Nemo que se dirigiu para a escada central.

Ali, uma dezena de homens, armados com machados de abordagem, estavam prontos para o ataque. Conselho e eu pegamos em dois machados e Ned Land num arpão.

O “Nautilus” tinha então subido à superfície das águas. Um dos marinheiros, colocado nos últimos degraus da escada, tirou as cavilhas do alçapão que saltou imediatamente com grande violência, evidentemente puxado pela ventosa de um tentáculo do polvo.

No mesmo instante, um desses longos braços deslizou. como uma serpente pela abertura e vinte outros agitaram-se por cima dela. Com uma machadada o capitão cortou o formidável tentáculo, que rolou pela escada. No momento em que nos preparávamos para sair para a plataforma, dois outros braços, vibrando no ar, abateram-se sobre o marinheiro colocado à frente do capitão, elevando-o com uma violência irresistível.

O Capitão Nemo soltou um grito e precipitou-se para o exterior. Nós corremos atrás dele.

Que cena! O infeliz, apanhado pelos tentáculos e preso nas ventosas, estava sendo agitado no ar ao capricho daquela enorme tromba. Agonizava, sufocava e gritava por socorro. Aquelas palavras pronunciadas em francês causaram-me profunda impressão. Enquanto eu viver, ouvirei aquele apelo desesperado.

O infeliz estava perdido. Quem conseguiria arrancá-lo ao poderoso abraço? Entretanto o Capitão Nemo tinha-se precipitado sobre o polvo e, com mais uma machadada, havia-lhe cortado outro tentáculo. O imediato lutava com fúria contra outros monstros que trepavam pelos flancos do “Nautilus”. A tripulação batia-se a golpes de machado, enquanto o canadense, Conselho e eu enterrávamos as nossas armas naquelas massas carnudas. Um violento cheiro a almíscar invadiu a atmosfera. Era horrível.

Por um instante julguei que o infeliz apanhado pelo polvo seria arrancado àquele terrível abraço, porque dos seus oito tentáculos o animal já só tinha um, que brandia a sua vítima como se fosse uma pena. Mas no momento em que o capitão e o imediato avançaram para ele, o monstro lançou uma coluna de líquido negro, segregado por uma bolsa situada no seu abdômen. Ficamos cegos. Quando a nuvem se dissipou, o calmar havia desaparecido e com ele o meu infeliz compatriota.

Que fúria nos impeliu então contra aqueles monstros! Dez ou doze polvos tinham invadido a plataforma do barco. Rolávamos no meio daqueles braços de serpentes que tingiam a plataforma e as águas de tinta negra. Parecia que os viscosos tentáculos renasciam como as cabeças da hidra. O arpão de Ned Land, de cada golpe, mergulhava nos olhos dos calmares e vazava-os. Mas o meu audacioso companheiro foi de repente apanhado pelos tentáculos de um monstro.

O meu coração quase rebentou de emoção e terror. O formidável bico do calmar estava aberto para Ned Land. O infeliz ia ser partido em dois. Lancei-me em seu socorro, mas o Capitão Nemo foi mais rápido do que eu. O seu machado desapareceu entre as duas enormes mandíbulas e, milagrosamente salvo, o canadense levantou-se e espetou o arpão todo até o triplo coração do polvo.

- Estava em dívida para com o senhor - disse o capitão.

Ned inclinou-se e ficou calado.

O combate tinha durado um quarto de hora. Os monstros vencidos, mutilados e moribundos, deixaram-nos finalmente e desapareceram nas águas.

O Capitão Nemo, imóvel junto ao farol, olhava o mar que tinha engolido um dos seus companheiros, e grossas lágrimas rolaram-lhe pelas Faces. 

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