quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 -Capítulo 09 e 10


 Capítulo 9

No dia seguinte, 19 de fevereiro, vi o canadense entrar no meu quarto.

Eu já esperava a sua visita. Falei-lhe primeiro - Ontem tivemos azar, amigo.

- Incrível, professor! O danado do capitão tinha de parar - precisamente quando íamos fugir.

Contei a ele os incidentes da véspera e o recolhimento de mais uma parte das riquezas dos galeões espanhóis.

- Foi apenas uma arpoadela falhada, professor- disse-me ele. – Na próxima vez teremos mais sorte. Tentaremos esta noite mesmo...

- Qual é a direção do “Nautilus”? - perguntei.

- Não sei.

- Ao meio-dia verei isso no mapa - prometi a ele.

O canadense voltou para a sua cabina. Depois de me vestir fui ao salão.

Verifiquei que a rota do “Nautilus” era sul-sudoeste. Voltávamos as costas à Europa. Esperei com impaciência que a nossa posição fosse assinalada na carta. As onze e meia os reservatórios foram esvaziados e o navio subiu para a superfície. Quando cheguei à plataforma, Ned Land já estava lá.

Não havia terra à vista. Nada mais do que o mar imenso. Avistavam-se algumas velas no horizonte, certamente dos navios que iam até o Cabo de São Roque procurar ventos favoráveis para dobrar o Cabo da Boa Esperança.

O tempo estava encoberto e começava a soprar o vento. Irado, o canadense observava o horizonte. Esperava ainda que por trás do nevoeiro se estendesse a tão desejada terra. Ao meio-dia o sol mostrou-se por um instante. O imediato aproveitou a ocasião para lhe medir a altura. O mar se tornou mais agitado, fomos obrigados a descer e os alçapões foram fechados.

Uma hora depois, quando consultei a carta, vi que a posição do “Nautilus” era de 16° 17' de longitude e 33° 22' de latitude, a cento e cinquenta léguas de distância da costa mais próxima. Não havia qualquer possibilidade de fuga. O canadense ficou furioso quando o informei da nossa situação.

. Quanto a mim não fiquei muito agastado. Sentia-me aliviado do peso que me oprimia e pude retomar com certa calma os meus trabalhos habituais.

A noite, mais ou menos às onze horas recebi a visita do Capitão Nemo.

Ele me perguntou se me sentia fatigado e eu lhe informei que não.

- Então vou lhe propor uma curiosa excursão, professor.

- Faça o favor, capitão.

- Até agora só visitou os fundos marinhos com a luz do sol. Gostaria de ver como são à noite?

- Certamente, senhor.

- Devo preveni-lo de que o passeio será fatigante. Terá de andar muito tempo e de escalar uma montanha para ver o que desejo lhe mostrar.

- Estou curioso, capitão.

- Então venha. Vamos vestir os escafandros.

Em poucos minutos estávamos vestidos. Colocaram-nos às costas os reservatórios de ar abundantemente carregados, mas não me deram a lâmpada e eu falei dessa falha ao capitão.

- De nada nos serviriam - respondeu-me.

Julguei ter ouvido mal, mas não pude repetir a minha observação porque a cabeça dele já tinha desaparecido dentro do seu capacete metálico. Acabei de me arranjar e, como apetrecho que eu não havia usado ainda, deram-me um pau ferrado. Após as manobras habituais pisamos o fundo do Atlântico, a uma profundidade de trezentos metros.

Aproximava-se da meia-noite. As águas estavam profundamente escuras, mas o capitão apontou-me à distância para um ponto vermelho, uma espécie de claridade que brilhava a cerca de duas milhas do barco.

Começamos a andar na direção dela. Caminhávamos bem próximos um do outro. O terreno plano começou a subir ligeiramente. Dávamos largas passadas mas a nossa marcha era lenta. Os nossos pés se enterravam numa espécie de lodo com algas, semeado de pedras lisas.

Ao avançar, eu ouvia uma espécie de crepitação por cima de minha cabeça. Por vezes o ruído aumentava e produzia como que um fulgor contínuo. Era a chuva que caía violentamente na superfície das águas.

Instintivamente, pensei que ia me molhar. Não pude deixar de sorrir com tal idéia. Para dizer a verdade, dentro do pesado escafandro não se sente o elemento líquido e pensa-se estar no meio de uma atmosfera um pouco mais densa do que a atmosfera terrestre.

Após meia hora de marcha o solo tornou-se pedregoso, mas nosso caminho tornava-se cada vez mais iluminado. A luz esbranquiçada brilhava no cimo de uma montanha com cerca de oitocentos pés de altura. Mas o que eu via não passava de uma simples reverberação desenvolvida pelo cristal das camadas de água. A origem daquela inexplicável claridade encontrava-se no lado oposto da montanha.

O Capitão Nemo avançava sem hesitação no meio dos pedregulhos que sulcavam o fundo do Atlântico. Não havia dúvida de que conhecia o caminho e de que já o havia percorrido algumas vezes. Eu o seguia confiantemente. Aparecia-me como um dos gênios do mar. Andando atrás dele, eu admirava a sua elevada estatura que se destacava no fundo luminoso. Era uma hora da manhã. Tínhamos chegado às primeiras vertentes da montanha. Para transpô-la era preciso nos aventurarmos pelos difíceis atalhos de uma enorme floresta.

O capitão, familiarizado com aqueles caminhos, andava sem qualquer problema. Tínhamos chegado a uma primeira plataforma da montanha, onde me esperavam algumas surpresas. Ali desenhavam-se pitorescas ruínas que traíam a mão humana e não a do Criador. Eram vastas extensões de pedras onde se distinguiam vagas formas de castelos, de templos, revestidos por um mundo de zoófitos em flor.

Que região submersa do globo seria aquela? Quem tinha disposto aquelas rochas e pedras como dólmens dos tempos pré-históricos?

Onde eu estava? Onde a fantasia do Capitão Nemo havia me levado?

Queria interrogá-lo, mas como não podia fazê-lo, segurei-lhe o braço.

Ele abanou a cabeça e apontou para o cume da montanha. Pareceu-me ouvi-lo dizer: “Venha! Continue! Não pare!” Eu o segui num último esforço. Mais alguns minutos de penosa subida e alcancei o pico que dominava toda aquela massa rochosa.

O meu olhar vagueou ao redor e vi um enorme espaço iluminado por uma fulguração violenta. Aquela montanha era um vulcão. A cinquenta pés abaixo do pico, no meio de uma chuva de pedras e de escórias, uma grande cratera vomitava torrentes de lava, que se dispersavam em cascatas de fogo no seio da massa líquida. Assim situado, aquele vulcão era como um imenso facho iluminando a planície inferior até os limites do horizonte.

A cratera submarina lançava lavas e não chamas, porque estas necessitariam de oxigênio e por isso não podiam existir debaixo das águas.

Mas as torrentes de lavas que têm em si próprias o princípio de sua incandescência, podem atingir o vermelho-branco, lutar vitoriosamente contra o, elemento líquido e vaporizar-se ao seu contato. Rápidas correntes arrastavam todos aqueles gases em fusão e as torrentes de lavas deslizavam até o sopé da montanha, como as dejeções do Vesúvio sobre a Torre del Grecco.

Diante dos meus olhos, arruinada, destruída, demolida, aparecia uma cidade com os telhados roídos, os templos desmoronados, os arcos deslocados, as colunas caídas por terra, onde se percebiam ainda alguns traços de arquitetura toscana. Mais ao longe os restos de um gigantesco aqueduto e mais além a saliência de uma acrópole com as formas flutuantes de um Partenon. Mais adiante vestígios de um cais, como se algum antigo porto tivesse outrora abrigado navios mercantes e trirremes de guerra. Ainda mais longe, longas linhas de muralhas arruinadas, largas ruas desertas, uma Pompéia submersa que o Capitão Nemo ressuscitava a minha vista.

Onde estaríamos? Emocionado, esbarrei no capitão. Por gestos exigi que ele me desse uma explicação. Pegando em um pedaço de rocha calcária ele se dirigiu para um granito de basalto preto e traçou uma palavra: “ATLANTIDA”.

Um clarão atravessou-me o espírito! A Atlântida de Platão, esse continente negado por Orígenes, Porfirio, Jamblique, D’Anville, Malte-Brun e Humboldt, que consideravam o seu desaparecimento uma lenda.

Aceito por Possidônio, Plínio, Ammien-Marcellin, Tertuliano, Engel, Sherer, Tournefort, Buffon, D’Avezac, estava diante dos meus olhos, mostrando ainda os irrecusáveis testemunhos da sua catástrofe. Era, portanto, aquela região submersa que existia fora da Europa, da Ásia, da Líbia e para além das colunas de Hércules, onde vivia o poderoso povo dos Talantes, contra o qual se fizeram as primeiras guerras da antiga Grécia.

O historiador que consignou nos seus escritos os altos feitos desses tempos heróicos foi o próprio Platão, no seu diálogo de Tiniu e Críticas, traçado por assim dizer sob a inspiração de Cólon o poeta e legislador.

Tais eram as lembranças históricas que a inscrição do Capitão Nemo fez surgir no meu espírito. Portanto, conduzido pelo mais estranho destino, eu pisava uma das montanhas daquele continente! Tocava aquelas ruínas mil vezes seculares! Caminhava por onde tinham caminhado os contemporâneos do primeiro homem. Esmagava com os meus pesados sapatos os esqueletos de animais dos tempos fabulosos, que aquelas árvores, agora mineralizadas, outrora cobriram com a sua sombra.

O Capitão Nemo, apoiado numa estela coberta de musgo, permanecia imóvel e como que petrificado num êxtase mudo. Pensaria ele naquelas gerações desaparecidas, tentando descobrir o segredo do destino humano? Seria ali que aquele estranho homem ia retemperar-se nas recordações da história e reviver a vida antiga, ele que nada queria com a vida moderna? Eu daria tudo que tivesse para conhecer, partilhar e compreender os pensamentos dele.

Quando penetramos de volta no interior do “Nautilus” já as primeiras claridades da aurora branqueavam a superfície do oceano.

Capítulo 10

No dia seguinte, 20 de fevereiro, acordei muito tarde. As fadigas da noite haviam prolongado o meu sono até as onze horas. Vesti-me rapidamente porque tinha pressa em saber qual o rumo do “Nautilus”.

Os instrumentos do salão indicaram-me que ele continuava a navegar para ó sul, com uma velocidade de vinte milhas por hora e a uma profundidade de cem metros.

Esse dia passou-se sem novidades. No entanto, estive espiritualmente muito ocupado recordando todos os meus conhecimentos sobre a história da Atlântida. O passeio da noite anterior me deixara realmente impressionado. Não teria sido um sonho?

No dia seguinte, 21 de fevereiro, eram oito horas da manhã quando cheguei ao salão. Olhei o manômetro. O “Nautilus” flutuava à superfície do oceano. Dirigi-me para o alçapão que estava aberto. Mas em vez da luz do dia que esperava, vi-me rodeado de uma escuridão profunda.

Onde estaríamos? Ainda seria noite e eu teria me enganado?

Não sabia o que pensar, quando ouvi a voz do Capitão Nemo.

- Professor Aronnax?

- Sim. Onde estamos, capitão?

- Debaixo da terra, professor.

- Debaixo da terra? Mas o “Nautilus” está flutuando?

- Como sempre, professor.

- Mas não compreendo!

- Espere uns instantes. O nosso farol vai acender-se e, se gosta de situações claras, vai ficar satisfeito.

A escuridão era tão completa que nem sequer eu via o capitão. No entanto, olhando o zênite, exatamente por cima de minha cabeça, pareceu-me ver uma luz vaga, uma espécie de meia-luz que enchia um buraco circular. Naquele momento acendeu-se o farol do “Nautilus” e o seu brilho intenso fez desvanecer num instante aquela vaga luz.

Olhei, depois de ter fechado os olhos por um instante, ofuscados pela luz elétrica. O submarino estava imóvel. Flutuava junto de uma margem disposta como um cais. O meio que então o suportava era um lago aprisionado dentro de um círculo de muralhas que media duas milhas de diâmetro. O seu nível, indicado pelo manômetro, só podia ser o nível exterior, porque existia necessariamente uma comunicação entre o lago e o mar. As altas muralhas, inclinadas para a base, arredondavam-se em abóbada e pareciam um enorme funil invertido, cuja altura era de uns quinhentos a seiscentos metros. No cume abria-se um orifício circular por onde eu tinha notado aquela fraca claridade; sem dúvida devida aos raios solares.

Antes de examinar atentamente as disposições interiores daquela enorme caverna e de procurar saber se seria obra da natureza ou do homem, perguntei ao capitão:

- Onde estamos?

- No centro de um vulcão extinto. Um vulcão cujo interior foi invadido pelo mar, depois de uma convulsão do solo. Enquanto o senhor estava dormindo, o “Nautilus” penetrou nesta lagoa através de um canal natural, aberto a dez metros abaixo da superfície do oceano. É aqui o seu porto de abrigo. Um porto seguro, cômodo, secreto, abrigado de todos os ventos.

- Não resta dúvida que está em segurança aqui, capitão. Quem se lembrará de procurá-lo no centro de um vulcão. Quem poderia fazê-lo?

Mas não é uma abertura o que vejo no cimo da caverna?

- Sim, é uma cratera. Outrora cheia de lava, de vapores e de chamas, hoje ela dá passagem ao ar vivificante que respiramos aqui.

- Que montanha vulcânica é esta?

- Pertence a uma das numerosas ilhas que povoam este mar. Simples escolho para os navios, é para nós uma imensa caverna. Eu a descobri por acaso e foi uma descoberta muito útil.

- Está em segurança neste lago e só o senhor pode visitar estas águas.

Mas para que serve este refúgio? O “Nautilus” precisa de um porto?

- Não, professor, mas precisa de eletricidade para se mover. Precisa de elementos para produzir essa eletricidade. De sódio, para alimentar esses elementos, de carvão para fazer o sódio e de minas que produzam esse carvão. Ora, precisamente aqui, o mar cobre florestas inteiras há milhares de anos. Hoje mineralizadas e transformadas em hulha,, essas florestas são uma mina inesgotável para mim.

Agradeci ao capitão as suas informações e fui procurar os meus companheiros que ainda não tinham saído de sua cabina. Convidei-os para que me acompanhassem à plataforma, sem lhes dizer onde nos encontrávamos. Conselho, que não se surpreendia com coisa alguma deste mundo, olhou-me como se fosse uma coisa natural acordar debaixo de uma montanha. Ned Land fez algumas perguntas, mas na verdade só se preocupou em saber se a caverna tinha alguma saída. Não tinha.

Depois do almoço descemos na margem do lago.

- Eis-nos mais uma vez em terra - disse Conselho.

- Não chamo a isto terra - falou o canadense. - Aliás, não estamos por cima, mas por baixo.

- Estamos dentro da montanha - manifestei-me, prevenindo uma possível discussão entre os dois.

A natureza vulcânica daquela enorme cavidade era visível por toda parte. Chamei a atenção de meus companheiros para isso.

- Imaginam o que deveria ser este funil quando as lavas incandescentes subiam até o orifício da montanha, como a matéria em fusão dentro de um forno?

- Imagino perfeitamente - respondeu Conselho. - Mas por que será que o grande fundador suspendeu o seu trabalho e como foi que a fornalha se encheu de água?

- Provavelmente porque alguma convulsão da natureza produziu sob a superfície do oceano a abertura que serviu de passagem ao “Nautilus”.

Então as águas do Atlântico invadiram o interior da montanha. Houve uma luta terrível entre os dois elementos, que terminou com a vitória de Netuno. Desde então passaram-se muitos séculos e o vulcão submerso transformou-se numa pacífica gruta.

Passamos a tarde inteira passeando pela gruta e Ned Land verificou pessoalmente que nenhum ser humano poderia subir ou descer pela cratera do vulcão. Depois regressamos para bordo. A tripulação acabava de embarcar as provisões de sódio e o “Nautilus” estava pronto para partir a qualquer momento.

No entanto o Capitão Nemo não dava a ordem nesse sentido. Queria esperar pela noite e sair secretamente pela passagem submarina?

Deveria ser justamente isso, porque na manhã seguinte o submarino navegava ao largo e a alguns metros abaixo das ondas do Atlântico..

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS