Capítulo 7
0 Mediterrâneo, o mar azul por excelência, o “grande mar”
dos Hebreus, o “mar” dos Gregos, o mare nostrum dos Romanos, orlado de
laranjeiras, de aloés, de cactos, de pinheiros bravos, envolto no perfume dos
mirtos, enquadrado por rudes montanhas, saturado de um ar puro e transparente,
mas incessantemente trabalhado pelos fogos terrestres, é um campo de batalha
onde Netuno e Plutão ainda disputam o domínio do mundo. É ali, nas suas praias
e nas suas águas, diz Michelet, que o homem se recompõe num dos melhores climas
da terra.
Contudo, por mais belo que seja, apenas pude dar uma rápida
olhada naquela bacia, cuja superfície cobre dois milhões de quilômetros
quadrados. Os conhecimentos pessoais do Capitão Nemo fizeram-me certa falta.
Ele não me apareceu durante toda a travessia do Mediterrâneo, feita a grande
velocidade.
Calculo em seiscentas léguas a distância que o “Nautilus”
percorreu sob as águas desse mar e a viagem foi concluída em quarenta e oito
horas.
Partindo na manhã do dia 16 de fevereiro das regiões da
Grécia, na madrugada do dia 18 alcançávamos o Estreito de Gibraltar.
Foi evidente para mim que o Mediterrâneo, encerrado no meio
das terras a que ele queria fugir, não agradava ao Capitão Nemo. As suas águas
e os seus ventos traziam-lhe muitas recordações e, provavelmente, muitos
desgostos. Ali ele não tinha aquela liberdade de ação, aquela independência de
manobras que lhe davam os oceanos, e o seu “Nautilus” sentiu-se apertado entre
as margens da Europa e da África, tão próximas que são uma da outra.
Assim, a nossa velocidade foi de vinte e cinco milhas por
hora. Doze léguas. Escusado será dizer que Ned Land, para seu grande pesar,
teve de renunciar aos seus planos de fuga. Aliás, o nosso navio só subia à superfície
quando era noite, para renovar suas provisões de ar. Navegava pelas indicações
da bússola.
Portanto, só vi do Mediterrâneo o que o viajante de um trem
expresso avista da paisagem que lhe foge diante dos olhos, isto é, os
horizontes longínquos e não os primeiros planos. Estes passam velozmente.
No entanto, ele diminuiu a velocidade ao passarmos entre a
Sicília e a costa da Tunísia. Nesse espaço, apertado entre o Cabo Bom e o Estreito
de Messina, o fundo do mar sobe quase de repente. Ali formou-se uma verdadeira
crista sobre a qual não restam mais do que dezessete metros de água, enquanto
que de um lado e do outro dessa elevação a profundidade é de cento e setenta
metros. Portanto o “Nautilus” teve que manobrar com prudência para não bater
nessa verdadeira barreira submarina.
Mostrei a Conselho, no mapa do Mediterrâneo, o lugar ocupado
por esse longo recife.
- Com sua licença - disse ele - isso é um verdadeiro istmo
que une a Europa à África.
- De fato é - apoiei a observação dele. - Essa barreira
obstrui completamente o Estreito da Líbia. As sondagens de Smith provaram que o
continentes outrora estavam unidos entre o Cabo Baco e o ,Cabo Furina.
- Acredito nisso, senhor.
- Existe uma barreira semelhante entre Gibraltar e Ceuta,
que nos tempos remotos fechava completamente o Mediterrâneo.
Conselho tinha vindo me procurar para continuarmos nossas
observações de alguns peixes do Mediterrâneo. Antes que esses assuntos o empolgassem,
chamei-o para nos pormos à espreita diante dos painéis do salão e comecei a
fazer os meus apontamentos. Justamente naquele momento, no meio da massa de
águas vivamente iluminadas por jorros de luz elétrica, serpenteavam algumas lampreias com um metro de
comprimento. Toda a nossa atenção se concentrou nelas.
Durante a noite de 16 para 17 de fevereiro, tínhamos entrado
na segunda bacia do Mediterrâneo, onde a maior profundidade é de três mil metros.
O “Nautilus”, sob o impulso de sua hélice, deslizando em planos inclinados,
descia às camadas mais profundas do mar.
Ali, à falta de maravilhas naturais, a massa das águas
oferecia aos meus olhos cenas comoventes e terríveis. Atravessávamos então a
zona do Mediterrâneo mais fértil em sinistros. Da costa argelina ao litoral da Provença,
quantos navios naufragados, quantas embarcações desaparecidas! O Mediterrâneo não
passa de um lago, se comparado com as vastas extensões líquidas do Pacífico.
Mas é um lago caprichoso, de ondas inconstantes, hoje propício e acariciador
para a frágil tartana de formas esguias e coberta corrida desfraldando ao vento
sua vela latina, amanhã enfurecido, açoitado pelos ventos, é capaz de ‘destruir
os navios mais resistentes com as suas ondas curtas, que os flagelam sem
descanso.
Assim, nesse rápido passeio através das águas sombrias
daquelas profundidades, quantos destroços eu vi jazendo no fundo, uns já
envoltos por corais, outros apenas revestidos por uma camada de ferrugem:
âncoras, canhões, balas, guarnições de ferro, pás de hélice,
pedaços de máquinas, depois cascos flutuando em várias posições.
Dos navios naufragados, uns tinham perecido por colisão,
outros por terem batido em escolhos graníticos. Vi alguns que tinham ido a
pique com a mastreação inteira e pareciam estar parados num ancoradouro à espera
do momento da partida.
Quando o “Nautilus” passava entre eles e os envolvia com os
seus raios elétricos, parecia que aqueles navios o iam saudar com as suas
bandeiras e comunicar-lhe os seus números de ordem! Havia apenas o silêncio e a
morte naquele campo das catástrofes.
Observei que à proporção em que o “Nautilus” se aproximava
de Gibraltar, mais numerosos eram esses sinistros destroços. Onde as costas da
Europa e da África mais se aproximam, os desastres são mais frequentes. Vi
numerosas quilhas de ferro, ruínas fantásticas de vapores, uns deitados, outros
de pé, semelhantes a formidáveis animais imobilizados na maioria das vezes.
Um desses barcos, com os flancos abertos, a chaminé
quebrada, sem rodas, com o leme separado do cadaste e ainda preso por uma
cadeia de ferro já corroída pelos sais marinhos, apresentava-se sob um aspecto
terrível! Quantas existências ceifadas no seu naufrágio, quantas vítimas
arrastadas pelas águas! Teria escapado algum marinheiro para narrar o terrível
acontecimento, ou todos teriam morrido?
Não sei por quê, lembrei-me de que aquele navio mergulhado
no mar podia ser o “Atlas”, desaparecido havia vinte anos e do qual nunca mais se
ouviu falar.
Entretanto, o “Nautilus”, indiferente e rápido, ia passando
entre as ruínas. No dia 18 de fevereiro encontrava-se à entrada do Estreito de Gibraltar.
Poucos minutos depois estávamos no Atlântico..
O Atlântico! Imensa extensão de água cuja superfície cobre
vinte e cinco milhões de milhas quadradas, com um comprimento de nove mil milhas
e uma largura média de duas mil e setecentas. Mar importante, quase
desconhecido na antiguidade, exceto talvez dos cartagineses, que nas suas
viagens comerciais seguiam as costas oeste da Europa e da África. Oceano, cujas
costas de sinuosidades paralelas abraçam um perímetro imenso, alimentado pelos
maiores rios do mundo: o São Lourenço, o Mississipi, o Amazonas, o da Prata, o
Orenoco, o Níger, o Senegal, o Elba, o Loire, o Reno e muitos outros, que lhe
trazem águas dos países mais civilizados e das regiões mais selvagens do globo.
Magnífica planície líquida, incessantemente sulcada por
navios de todas as nações, abrigados sob todas as bandeiras do mundo e que
termina por essas duas pontas temidas de todos os navegadores: o Cabo Horn e o
Cabo das Tormentas.
O “Nautilus” quebrava-lhe as águas com o seu esporão, depois
de ter percorrido terça de dez mil léguas em três meses e meio, distância superior
a qualquer um dos grandes círculos da terra. Para onde íamos e o que nos
reservaria o futuro?
O submarino, passado o Estreito de Gibraltar, tinha-se feito
ao largo.
Voltou à superfície das águas e, consequentemente, voltaram
os nossos passeios na plataforma.
Subi imediatamente, acompanhado por Conselho e Ned Land. A
uma distância de doze milhas avistava-se vagamente o Cabo de São Vicente, que
forma a extremidade sudoeste da Península Ibérica. Soprava um vento forte do
sul. O mar estava encapelado e fazia o “Nautilus” balançar violentamente. Era
quase impossível ficar na plataforma, incessantemente varrida por enormes
vagas. Por isso descemos depois de termos aspirado um pouco de ar puro.
Ned Land, bastante preocupado, seguiu-me para o meu quarto,
enquanto Conselho foi diretamente para a sua cabina. A nossa rápida passagem
pelo Mediterrâneo não tinha permitido ao canadense pôr em prática os seus
planos de fuga e estava francamente desapontado.
Ele me olhou em silêncio durante algum tempo, depois que
fechei a porta e o fiz sentar-se. Adivinhei que tinha alguma coisa muito
importante para me dizer.
- Eu o compreendo, meu caro Ned - iniciei o diálogo com o
intuito de deixá-lo mais a vontade - mas você não tem de que se censurar. Nas condições
em que o “Nautilus” navegou, pensar em fugir seria uma loucura.
Ele me ouviu e continuou calado. Os seus lábios cerrados e
as sobrancelhas franzidas eram sinal de uma violenta obsessão, de uma idéia
fixa que o atormentava.
- Não vejo por que se desesperar - continuei a falar
tentando vencer o sofrido mutismo dele. - Continuamos seguindo pela costa de
Portugal e talvez a caminho da França e da Inglaterra. Se, passando o Estreito
de Gibraltal, o “Nautilus” se tivesse feito ao largo, para o sul, se estivesse nos
levando para regiões onde não há continentes, então eu partilharia de sua
inquietação. Mas já sabemos que o Capitão Nemo não foge dos mares civilizados.
Creio que dentro de alguns dias você encontre uma oportunidade segura para
agir.
Ned Land olhou-me ainda mais fixamente, seus lábios se
moveram e ele disse com determinação:
- É esta noite!
Levantei-me de repente. Confesso que não estava preparado
para ouvir aquilo. Quis dizer qualquer coisa mas não encontrei palavras para me
expressar.
- Tenhamos combinado esperar por uma boa ocasião - continuou
ele. - Pois bem, professor, essa ocasião chegou. Esta noite estaremos a algumas
milhas da costa espanhola. A noite está escura e o vento sopra do largo. Deu-me
a sua palavra e eu conto com o senhor.
Continuei calado. Ele se levantou e me disse quase ao ouvido
- Esta noite, às nove horas. Conselho já está prevenido. A essa hora o Capitão
Nemo estará no seu quarto, dormindo, provavelmente. Da tripulação, os que não
estiverem também dormindo, estarão ocupados.
Eu e Conselho iremos até a escada central e o senhor ficará
na biblioteca aguardando o nosso sinal. Os remos, o mastro e as velas estão
dentro do bote. Até logo, professor.
- O mar me parece muito agitado - consegui falar.
- De fato está - disse ele - mas temos de nos arriscar. A
liberdade tem o seu preço. O bote é sólido e algumas milhas com o vento
ajudando, faz-se rapidamente. Se as circunstâncias nos favorecerem, entre as
dez e as onze horas teremos desembarcado em terra firme. Se elas forem contra
nós, estaremos mortos. Portanto demos graças a Deus e até logo à noite.
Ele saiu e eu fiquei atordoado. Eu tinha imaginado que
guando surgisse aquela ocasião, disporia de tempo para refletir, para discutir
e talvez até para adiá-la. De repente eu não tive nada para dizer ao canadense.
Ele tinha toda a razão. Era uma ocasião e deveríamos aproveitá-la. Podia faltar
à minha palavra e assumir a responsabilidade de comprometer o futuro dos meus
companheiros no meu interesse pessoal?
Naquele momento ouviu-se um forte apito, sinal de que os
reservatórios estavam cheios. O “Nautilus” mergulhou nas águas do Atlântico.
Permaneci no meu quarto, porque queria evitar o capitão. Eu
tinha medo de me deixar trair pela emoção que me dominava. Passei um dia penoso,
entre o desejo de alcançar a liberdade e a mágoa. de abandonar aquele
maravilhoso “Nautilus”, deixando inacabados os meus estudos submarinos. Deixar
assim aquele oceano, “o meu Atlântico”,
como gostava de chamá-lo, sem ter observado suas camadas
mais profundas, sem lhe ter desvendado os mistérios, como tinha feito aos mares
das índias e no Pacífico! O meu romance caía-me das mãos no primeiro volume, o
meu sonho ia ser interrompido no melhor momento.
Passei assim algumas horas amargas, ora me vendo em terra,
em segurança com os meus companheiros, ora desejando que alguma circunstância
imprevista impedisse a realização dos projetos de Ned Land.
Fui duas vezes ao salão para consultar a bússola para
verificar a direção do “Nautilus” e assegurar-me de que estávamos realmente nos
aproximando da costa. O submarino continuava em águas portuguesas, rumando para
o norte, na direção desejada pelo canadense. Portanto, tínhamos de aproveitar a
ocasião e tentarmos a fuga. A minha bagagem constava apenas dos meus
apontamentos. Nada de coisas pesadas.
Quanto ao Capitão Nemo, perguntava-me sobre o que pensaria
ele da nossa evasão. Que tipo de inquietações, que problemas poderíamos causar
a ele e o que faria o enérgico capitão se a nossa tentativa fracassasse? Eu não
tinha nenhuma razão para me queixar dele. Ao contrário disso, a sua
hospitalidade não me deixava margem para censuras. Por outro lado, não tinha
também nenhum motivo para me considerar ingrato com ele: nenhum juramento e nem
mesmo uma palavra menos formal me prendia ao capitão quanto ao que íamos fazer.
Ele contava com a força das circunstâncias e não com a nossa
palavra para nos manter junto dele. A sua confessada intenção de nos manter eternamente
á bordo do seu navio justificava todas as nossas tentativas de fuga. Eu não o
via desde a noite em que o cofre com o ouro fora mandado para alguma parte da
Europa, ou seria da África ou até mesmo do Oriente Médio? Será que voltaria a
vê-lo antes de minha partida? Desejava vê-lo e, ao mesmo tempo, receava a sua
presença naquelas circunstâncias. Pus-me à escuta para ver se ouvia passos no quarto
dele, contíguo ao meu. Nem um ruído. O quarto devia estar deserto. Então eu
pensei se o capitão estaria realmente a bordo.
Desde aquela noite em que o bote deixara o “Nautilus” para
aquela misteriosa entrega do ouro, as minhas idéias em relação ao capitão haviam
se modificado um pouco. Passei a supor que apesar do que dizia, o Capitão Nemo
continuava a manter algumas relações com a terra. Ele nunca deixaria o
“Nautilus”? Por vezes passava-se uma semana inteira sem que eu o visse. Que
estaria fazendo ele durante esses dias? E quando eu poderia julgá-lo praticando
algum ato de misantropia, não estaria antes envolvido em alguma ação secreta
cuja natureza me escapava?
Todas essas considerações assaltavam a minha mente. O campo
de conjeturas era infinito na situação em que me encontrava. Sentia um mal-estar
insuportável. Aquele dia de espera me parecia infindável. As horas se passavam
demasiado lentamente para o meu estado de impaciência.
Como sempre o jantar me foi servido no quarto. Quase não
comi, enfastiado de preocupações. Saí da mesa às sete horas. Ainda faltavam cento
e vinte minutos para o momento em que deveria me juntar a Ned Land e Conselho.
A minha agitação aumentava e o meu pulso estava alterado. Não conseguia ficar
quieto. Andava de um lado para o outro na esperança de acalmar a agitação do
espírito com o movimento físico.
A idéia de sucumbir na nossa temerária empresa era a menor
de minhas preocupações. Mas ao pensar que o nosso projeto poderia ser
descoberto antes de deixarmos o “Nautilus”, ao pensar de ser levado perante o
Capitão Nemo, furioso ou, ainda pior, entristecido com o meu procedimento,
palpitava-me o coração.
Quis rever o salão pela última vez. Segui pelos corredores e
cheguei ao museu, onde tinha passado tantas horas agradáveis e úteis. Olhei
todas aquelas riquezas, todos aqueles tesouros, como um homem na véspera de um
exílio eterno, que parte para nunca mais voltar. Aquelas maravilhas da
natureza, aquelas obras-primas da arte, no meio das quais passara tantos dias,
ia abandoná-las para sempre. Desejei observar as águas do Atlântico através dos
vidros do salão, mas os painéis estavam fechados e uma chapa de zinco
separava-me daquele oceano que eu tanto desejava conhecer melhor.
Ao percorrer o salão, cheguei à porta, existente num dos
lados, que dava para o quarto do capitão. Para minha surpresa a porta estava entreaberta.
Recuei involuntariamente. Se estivesse lá dentro, ele poderia me ver. Escutei e
não ouvi nenhum ruído. Aproximei-me de novo e olhei. O quarto estava deserto.
Empurrei a porta e entrei.
Comecei reparando em alguns quadros a óleo pendurados na
parede.
Não me lembrava de tê-los visto em minha primeira visita ao
quarto dele. Eram retratos de grandes vultos da história, cujas existências tinham
decorrido numa perpétua devoção a uma grande idéia humana Kosciusko, o herói
caído ao grito de Finis Poloniase; Botzaris, o Leônidas da Grécia moderna;
O’Connell, defensor da Irlanda; Washington, fundador da União Americana; Manin,
o patriota italiano; Lincoln, caído pela bala de um escravocrata; e finalmente
o mártir da libertação da raça negra, John Brown, suspenso da forca, desenhado pelo
terrível traço de Victor Hugo.
Que elo existiria entre aquelas almas heróicas e a alma do
Capitão Nemo? Poderia eu, a partir daqueles retratos, desvendar o mistério da existência
dele? Seria ele um campeão de povos oprimidos, um libertador das raças
escravas? Teria participado das últimas agitações políticas ou sociais do
século? Teria sido um dos heróis da terrível guerra americana, guerra
lamentável e para sempre gloriosa?
De súbito o relógio bateu oito horas. A primeira pancada do
pêndulo arrancou-me dos sonhos. Estremeci, como se olhos invisíveis pudessem mergulhar
no mais profundo dos meus pensamentos e me precipitei para fora do quarto.
Faltando poucos minutos para as nove horas deixei o meu
quarto e voltei para o salão. Mergulhado na semiobscuridade, estava deserto.
Abri a porta que comunicava com a biblioteca. A mesma
claridade insuficiente e a mesma solidão. Fui colocar-me perto da porta que
dava para a escada central e fiquei aguardando o sinal do canadense.
Naquele momento os ruídos da hélice diminuíram sensivelmente
e depois cessaram por completo. Qual seria o motivo daquela repentina alteração
no andamento do “Nautilus”? O barco ter parado iria favorecer ou prejudicar o
plano de Ned Land?
O silêncio só era quebrado pelas batidas do meu coração.
De repente senti um leve choque. O “Nautilus” havia pousado
no fundo do oceano. A minha inquietação redobrou. O sinal do canadense não chegava.
Comecei a ter vontade de ir procurar Ned e dissuadi-lo de qualquer tentativa de
fuga naquela noite. A nossa navegação não se efetuava em condições normais.
Naquele momento a porta do salão foi aberta e o Capitão Nemo
entrou. Viu-me e disse sem qualquer preâmbulo - Ah! É o senhor, professor. Eu
andava a sua procura. Sabe alguma coisa da história da Espanha?
Nas condições em que me encontrava, ainda que ele me
perguntasse sobre a história do meu próprio país, eu não seria capaz de dizer
uma palavra.
- Não ouviu a minha pergunta, professor? Conhece a história
da Espanha?
- Muito mal - respondi.
- Então é um sábio e não sabe. Pois bem, sente-se que vou
lhe contar um episódio bastante curioso dessa história.
O capitão estendeu-se no divã enquanto eu, maquinalmente,
sentei-me junto dele, na penumbra.
- Recuaremos ao ano de 1702 - começou ele, falando com voz
pausada. - Não ignora que nessa época o rei Luís XIV julgando que com um simples
gesto poderia derrubar os Pirineus, tinha imposto o Duque de Anjou, seu neto,
aos espanhóis. Este príncipe, que reinou mais ou menos mal sob o nome de Felipe
V, teve problemas com outros países.
“As casas reais da Holanda, da Áustria e da Inglaterra
fizeram uma aliança com o objetivo de arrancarem a coroa da Espanha da cabeça de
Felipe V, a fim de dá-la a um arquiduque, ao qual chamaram prematuramente de
Carlos III.
“Embora lhe faltassem soldados e marinheiros, a Espanha teve
que resistir a essa coligação. No entanto, não lhe faltaria dinheiro se os seus
galeões carregados de ouro e prata, vindos da América, entrassem em seus
portos. Ora, no final de 1702, era esperado um fabuloso comboio escoltado por
uma frota de vinte e três navios franceses, comandados pelo Almirante
Château-Renault, porque as marinhas dos dois países em coligação percorriam
então o Atlântico.
“Este comboio devia dirigir-se a Cádis. Mas o almirante,
informado de que a frota inglesa cruzava aquelas águas, resolveu rumar para um
porto francês. Os comandantes espanhóis dos navios carregados com o ouro protestaram
contra essa decisão e exigiram ser conduzidos para um porto espanhol. Não
podendo ser o de Cádis, resolveram seguir para a Baía de Vigo, situada na costa
noroeste da Espanha e que não estava bloqueada pela esquadra inglesa. O
Almirante Château-Renault teve a fraqueza de aceitar essa imposição e os
galeões rumaram para Vigo.
Essa baía forma um ancoradouro aberto, difícil de ser
defendido.
Portanto, era necessário descarregar rapidamente os galeões
antes da chegada da frota inimiga. O tempo teria sido suficiente para esse
desembarque se não tivesse surgido uma rivalidade.
“Está seguindo o desenrolar dos fatos, professor? - perguntou-me
o Capitão Nemo.
- Perfeitamente, capitão - respondi, não conseguindo
adivinhar com que propósito estava ele me contando aquela história.
- Então eu continuo. Eis o que se passou: os comerciantes de
Cádis tinham um privilégio segundo o qual deviam receber todas as mercadorias
vindas das índias Ocidentais. Ora, desembarcar os lingotes de ouro dos galeões,
no porto de Vigo, era ir contra esse direito. Queixaram-se portanto, e
obtiveram do fraco Felipe V que o comboio, sem proceder à descarga, permanecesse
sequestrado no ancoradouro de Vigo até o momento em que as frotas inimigas se
afastassem.
“Enquanto se tomava essa decisão, no dia 22 de outubro de
1702, os navios ingleses chegaram à Baía de Vigo. O Almirante Château-Renault, apesar
da inferioridade de suas forças, bateu-se corajosamente. Mas quando viu que as
riquezas dos galeões iam cair nas mãos dos inimigos, incendiou e afundou os
seus navios com todo o tesouro.”
O Capitão Nemo fez uma pausa. Eu ainda não havia percebido
qual o interesse que a história dele poderia ter para mim. Mas eu não poderia mostrar-me
descortês com ele. Por isso perguntei-lhe :
- E depois, capitão?
- Depois, Sr. Aronnax, estamos na Baía de Vigo e compete-lhe
desvendar-lhe os mistérios.
Levantou-se e me pediu que o seguisse. Eu tivera tempo de me
controlar e podia acompanhá-lo. O salão estava na penumbra, mas através dos
vidros transparentes brilhavam as águas do mar. Olhei.
A volta do “Nautilus”, num raio de meia milha, as águas
apareciam impregnadas de luz elétrica. O fundo arenoso era nítido e claro.
Alguns tripulantes, envergando escafandros, ocupavam-se em desentulhar tonéis
meio apodrecidos, caixas estragadas, no meio de destroços ainda enegrecidos.
Das caixas e dos tonéis escapavam-se lingotes de ouro e prata, cascatas de
piastras e de jóias. A areia estava juncada dessas preciosidades. Carregados
com esse rico espólio, os homens voltavam ao “Nautilus” onde deixavam o seu
rico fardo e retornavam à sua pesca de ouro e prata.
Então eu compreendi o episódio que o capitão me contara. Era
ali o teatro da batalha de 22 de julho de 1702.
Ali mesmo se tinham afundado os galeões carregados com o
ouro para o governo espanhol. E era também ali que o Capitão Nemo ia buscar os
milhões de que necessitava para os seus misteriosos empreendimentos. Havia sido
para ele, e só para ele que a América entregara os seus preciosos metais. Ele o
herdeiro direto e único dos tesouros arrancados aos Nicas e a todos os povos
derrotados por Fernando Cortez - Sabia que o mar continha tantas riquezas,
professor? - perguntou-me ele, sorrindo.
- Sabia - respondi-lhe - que se calcula em dois milhões de
toneladas a prata que se encontra em suspensão nas suas águas.
- Não duvido. Mas para extrair essa prata as despesas seriam
superiores aos resultados obtidos. Aqui só tenho de apanhar o que os homens perderam
em suas aventuras. Além desse, sei de mil outros teatros de naufrágios, cujos
locais estão todos assinalados em meus mapas. Compreende agora por que sou tão
rico?
- Compreendo, capitão. Permita-me no entanto dizer-lhe que
ao explorar precisamente a Baía de Vigo, adiantou-se aos trabalhos de uma companhia
legalmente constituída para esse fim.
- Que companhia?
- Uma sociedade que recebeu do governo espanhol o privilégio
de procurar os galeões desaparecidos. Os acionistas esperam alcançar um enorme
lucro, porque se calcula em quinhentos milhões o valor das riquezas perdidas
aqui.
- Quinhentos milhões! - exclamou o capitão. - Poderiam estar
aqui, professor, mas já não estão mais.
Estou vendo que não.
Portanto, avisar esses acionistas seria um ato de caridade. O que os jogadores
lamentam, acima de tudo, não é tanto a perda de dinheiro, mas a morte de suas
loucas esperanças. No entanto, lamento-os menos do que a milhares de infelizes
aos quais tantas riquezas poderiam ser de grande valia, enquanto agora serão
estéreis para sempre.
Foi fácil perceber que eu tinha ferido o Capitão Nemo.
- Estéreis! Então o senhor julga que essas riquezas estão
perdidas porque fui eu que as apanhei? Pensa que é para mim que me dou ao trabalho
de recolher esses tesouros? Quem lhe disse que não faço bom uso deles? Julga
que ignoro que existem seres que sofrem, raças oprimidas, miseráveis déspotas
que é preciso abater e vítimas a vingar?
Ele parou e eu tive a impressão de que se arrependera de ter
falado tanto. Mas eu adivinhara. Quaisquer que fossem os motivos que o tinham
forçado a procurar a independência sob os mares, antes de tudo ele continuava a
ser um homem. O coração palpitava-lhe ainda pelo sofrimento humano e a sua
imensa caridade dirigia-se para os indivíduos e para as raças oprimidas.
Descobri então a quem foram destinados os milhões expedidos por ele quando o “Nautilus” navegava nas águas de Creta revoltada.

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