quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas subamrinas - parte 2 - Capítulo 07 e 08

Capítulo 7

0 Mediterrâneo, o mar azul por excelência, o “grande mar” dos Hebreus, o “mar” dos Gregos, o mare nostrum dos Romanos, orlado de laranjeiras, de aloés, de cactos, de pinheiros bravos, envolto no perfume dos mirtos, enquadrado por rudes montanhas, saturado de um ar puro e transparente, mas incessantemente trabalhado pelos fogos terrestres, é um campo de batalha onde Netuno e Plutão ainda disputam o domínio do mundo. É ali, nas suas praias e nas suas águas, diz Michelet, que o homem se recompõe num dos melhores climas da terra.

Contudo, por mais belo que seja, apenas pude dar uma rápida olhada naquela bacia, cuja superfície cobre dois milhões de quilômetros quadrados. Os conhecimentos pessoais do Capitão Nemo fizeram-me certa falta. Ele não me apareceu durante toda a travessia do Mediterrâneo, feita a grande velocidade.

Calculo em seiscentas léguas a distância que o “Nautilus” percorreu sob as águas desse mar e a viagem foi concluída em quarenta e oito horas.

Partindo na manhã do dia 16 de fevereiro das regiões da Grécia, na madrugada do dia 18 alcançávamos o Estreito de Gibraltar.

Foi evidente para mim que o Mediterrâneo, encerrado no meio das terras a que ele queria fugir, não agradava ao Capitão Nemo. As suas águas e os seus ventos traziam-lhe muitas recordações e, provavelmente, muitos desgostos. Ali ele não tinha aquela liberdade de ação, aquela independência de manobras que lhe davam os oceanos, e o seu “Nautilus” sentiu-se apertado entre as margens da Europa e da África, tão próximas que são uma da outra.

Assim, a nossa velocidade foi de vinte e cinco milhas por hora. Doze léguas. Escusado será dizer que Ned Land, para seu grande pesar, teve de renunciar aos seus planos de fuga. Aliás, o nosso navio só subia à superfície quando era noite, para renovar suas provisões de ar. Navegava pelas indicações da bússola.

Portanto, só vi do Mediterrâneo o que o viajante de um trem expresso avista da paisagem que lhe foge diante dos olhos, isto é, os horizontes longínquos e não os primeiros planos. Estes passam velozmente.

No entanto, ele diminuiu a velocidade ao passarmos entre a Sicília e a costa da Tunísia. Nesse espaço, apertado entre o Cabo Bom e o Estreito de Messina, o fundo do mar sobe quase de repente. Ali formou-se uma verdadeira crista sobre a qual não restam mais do que dezessete metros de água, enquanto que de um lado e do outro dessa elevação a profundidade é de cento e setenta metros. Portanto o “Nautilus” teve que manobrar com prudência para não bater nessa verdadeira barreira submarina.

Mostrei a Conselho, no mapa do Mediterrâneo, o lugar ocupado por esse longo recife.

- Com sua licença - disse ele - isso é um verdadeiro istmo que une a Europa à África.

- De fato é - apoiei a observação dele. - Essa barreira obstrui completamente o Estreito da Líbia. As sondagens de Smith provaram que o continentes outrora estavam unidos entre o Cabo Baco e o ,Cabo Furina.

- Acredito nisso, senhor.

- Existe uma barreira semelhante entre Gibraltar e Ceuta, que nos tempos remotos fechava completamente o Mediterrâneo.

Conselho tinha vindo me procurar para continuarmos nossas observações de alguns peixes do Mediterrâneo. Antes que esses assuntos o empolgassem, chamei-o para nos pormos à espreita diante dos painéis do salão e comecei a fazer os meus apontamentos. Justamente naquele momento, no meio da massa de águas vivamente iluminadas por jorros de luz elétrica,  serpenteavam algumas lampreias com um metro de comprimento. Toda a nossa atenção se concentrou nelas.

Durante a noite de 16 para 17 de fevereiro, tínhamos entrado na segunda bacia do Mediterrâneo, onde a maior profundidade é de três mil metros. O “Nautilus”, sob o impulso de sua hélice, deslizando em planos inclinados, descia às camadas mais profundas do mar.

Ali, à falta de maravilhas naturais, a massa das águas oferecia aos meus olhos cenas comoventes e terríveis. Atravessávamos então a zona do Mediterrâneo mais fértil em sinistros. Da costa argelina ao litoral da Provença, quantos navios naufragados, quantas embarcações desaparecidas! O Mediterrâneo não passa de um lago, se comparado com as vastas extensões líquidas do Pacífico. Mas é um lago caprichoso, de ondas inconstantes, hoje propício e acariciador para a frágil tartana de formas esguias e coberta corrida desfraldando ao vento sua vela latina, amanhã enfurecido, açoitado pelos ventos, é capaz de ‘destruir os navios mais resistentes com as suas ondas curtas, que os flagelam sem descanso.

Assim, nesse rápido passeio através das águas sombrias daquelas profundidades, quantos destroços eu vi jazendo no fundo, uns já envoltos por corais, outros apenas revestidos por uma camada de ferrugem:

âncoras, canhões, balas, guarnições de ferro, pás de hélice, pedaços de máquinas, depois cascos flutuando em várias posições.

Dos navios naufragados, uns tinham perecido por colisão, outros por terem batido em escolhos graníticos. Vi alguns que tinham ido a pique com a mastreação inteira e pareciam estar parados num ancoradouro à espera do momento da partida.

Quando o “Nautilus” passava entre eles e os envolvia com os seus raios elétricos, parecia que aqueles navios o iam saudar com as suas bandeiras e comunicar-lhe os seus números de ordem! Havia apenas o silêncio e a morte naquele campo das catástrofes.

Observei que à proporção em que o “Nautilus” se aproximava de Gibraltar, mais numerosos eram esses sinistros destroços. Onde as costas da Europa e da África mais se aproximam, os desastres são mais frequentes. Vi numerosas quilhas de ferro, ruínas fantásticas de vapores, uns deitados, outros de pé, semelhantes a formidáveis animais imobilizados na maioria das vezes.

Um desses barcos, com os flancos abertos, a chaminé quebrada, sem rodas, com o leme separado do cadaste e ainda preso por uma cadeia de ferro já corroída pelos sais marinhos, apresentava-se sob um aspecto terrível! Quantas existências ceifadas no seu naufrágio, quantas vítimas arrastadas pelas águas! Teria escapado algum marinheiro para narrar o terrível acontecimento, ou todos teriam morrido?

Não sei por quê, lembrei-me de que aquele navio mergulhado no mar podia ser o “Atlas”, desaparecido havia vinte anos e do qual nunca mais se ouviu falar.

Entretanto, o “Nautilus”, indiferente e rápido, ia passando entre as ruínas. No dia 18 de fevereiro encontrava-se à entrada do Estreito de Gibraltar.

Poucos minutos depois estávamos no Atlântico..

 Capítulo 8

O Atlântico! Imensa extensão de água cuja superfície cobre vinte e cinco milhões de milhas quadradas, com um comprimento de nove mil milhas e uma largura média de duas mil e setecentas. Mar importante, quase desconhecido na antiguidade, exceto talvez dos cartagineses, que nas suas viagens comerciais seguiam as costas oeste da Europa e da África. Oceano, cujas costas de sinuosidades paralelas abraçam um perímetro imenso, alimentado pelos maiores rios do mundo: o São Lourenço, o Mississipi, o Amazonas, o da Prata, o Orenoco, o Níger, o Senegal, o Elba, o Loire, o Reno e muitos outros, que lhe trazem águas dos países mais civilizados e das regiões mais selvagens do globo.

Magnífica planície líquida, incessantemente sulcada por navios de todas as nações, abrigados sob todas as bandeiras do mundo e que termina por essas duas pontas temidas de todos os navegadores: o Cabo Horn e o Cabo das Tormentas.

O “Nautilus” quebrava-lhe as águas com o seu esporão, depois de ter percorrido terça de dez mil léguas em três meses e meio, distância superior a qualquer um dos grandes círculos da terra. Para onde íamos e o que nos reservaria o futuro?

O submarino, passado o Estreito de Gibraltar, tinha-se feito ao largo.

Voltou à superfície das águas e, consequentemente, voltaram os nossos passeios na plataforma.

Subi imediatamente, acompanhado por Conselho e Ned Land. A uma distância de doze milhas avistava-se vagamente o Cabo de São Vicente, que forma a extremidade sudoeste da Península Ibérica. Soprava um vento forte do sul. O mar estava encapelado e fazia o “Nautilus” balançar violentamente. Era quase impossível ficar na plataforma, incessantemente varrida por enormes vagas. Por isso descemos depois de termos aspirado um pouco de ar puro.

Ned Land, bastante preocupado, seguiu-me para o meu quarto, enquanto Conselho foi diretamente para a sua cabina. A nossa rápida passagem pelo Mediterrâneo não tinha permitido ao canadense pôr em prática os seus planos de fuga e estava francamente desapontado.

Ele me olhou em silêncio durante algum tempo, depois que fechei a porta e o fiz sentar-se. Adivinhei que tinha alguma coisa muito importante para me dizer.

- Eu o compreendo, meu caro Ned - iniciei o diálogo com o intuito de deixá-lo mais a vontade - mas você não tem de que se censurar. Nas condições em que o “Nautilus” navegou, pensar em fugir seria uma loucura.

Ele me ouviu e continuou calado. Os seus lábios cerrados e as sobrancelhas franzidas eram sinal de uma violenta obsessão, de uma idéia fixa que o atormentava.

- Não vejo por que se desesperar - continuei a falar tentando vencer o sofrido mutismo dele. - Continuamos seguindo pela costa de Portugal e talvez a caminho da França e da Inglaterra. Se, passando o Estreito de Gibraltal, o “Nautilus” se tivesse feito ao largo, para o sul, se estivesse nos levando para regiões onde não há continentes, então eu partilharia de sua inquietação. Mas já sabemos que o Capitão Nemo não foge dos mares civilizados. Creio que dentro de alguns dias você encontre uma oportunidade segura para agir.

Ned Land olhou-me ainda mais fixamente, seus lábios se moveram e ele disse com determinação:

- É esta noite!

Levantei-me de repente. Confesso que não estava preparado para ouvir aquilo. Quis dizer qualquer coisa mas não encontrei palavras para me expressar.

- Tenhamos combinado esperar por uma boa ocasião - continuou ele. - Pois bem, professor, essa ocasião chegou. Esta noite estaremos a algumas milhas da costa espanhola. A noite está escura e o vento sopra do largo. Deu-me a sua palavra e eu conto com o senhor.

Continuei calado. Ele se levantou e me disse quase ao ouvido - Esta noite, às nove horas. Conselho já está prevenido. A essa hora o Capitão Nemo estará no seu quarto, dormindo, provavelmente. Da tripulação, os que não estiverem também dormindo, estarão ocupados.

Eu e Conselho iremos até a escada central e o senhor ficará na biblioteca aguardando o nosso sinal. Os remos, o mastro e as velas estão dentro do bote. Até logo, professor.

- O mar me parece muito agitado - consegui falar.

- De fato está - disse ele - mas temos de nos arriscar. A liberdade tem o seu preço. O bote é sólido e algumas milhas com o vento ajudando, faz-se rapidamente. Se as circunstâncias nos favorecerem, entre as dez e as onze horas teremos desembarcado em terra firme. Se elas forem contra nós, estaremos mortos. Portanto demos graças a Deus e até logo à noite.

Ele saiu e eu fiquei atordoado. Eu tinha imaginado que guando surgisse aquela ocasião, disporia de tempo para refletir, para discutir e talvez até para adiá-la. De repente eu não tive nada para dizer ao canadense. Ele tinha toda a razão. Era uma ocasião e deveríamos aproveitá-la. Podia faltar à minha palavra e assumir a responsabilidade de comprometer o futuro dos meus companheiros no meu interesse pessoal?

Naquele momento ouviu-se um forte apito, sinal de que os reservatórios estavam cheios. O “Nautilus” mergulhou nas águas do Atlântico.

Permaneci no meu quarto, porque queria evitar o capitão. Eu tinha medo de me deixar trair pela emoção que me dominava. Passei um dia penoso, entre o desejo de alcançar a liberdade e a mágoa. de abandonar aquele maravilhoso “Nautilus”, deixando inacabados os meus estudos submarinos. Deixar assim aquele oceano, “o meu Atlântico”,

como gostava de chamá-lo, sem ter observado suas camadas mais profundas, sem lhe ter desvendado os mistérios, como tinha feito aos mares das índias e no Pacífico! O meu romance caía-me das mãos no primeiro volume, o meu sonho ia ser interrompido no melhor momento.

Passei assim algumas horas amargas, ora me vendo em terra, em segurança com os meus companheiros, ora desejando que alguma circunstância imprevista impedisse a realização dos projetos de Ned Land.

Fui duas vezes ao salão para consultar a bússola para verificar a direção do “Nautilus” e assegurar-me de que estávamos realmente nos aproximando da costa. O submarino continuava em águas portuguesas, rumando para o norte, na direção desejada pelo canadense. Portanto, tínhamos de aproveitar a ocasião e tentarmos a fuga. A minha bagagem constava apenas dos meus apontamentos. Nada de coisas pesadas.

Quanto ao Capitão Nemo, perguntava-me sobre o que pensaria ele da nossa evasão. Que tipo de inquietações, que problemas poderíamos causar a ele e o que faria o enérgico capitão se a nossa tentativa fracassasse? Eu não tinha nenhuma razão para me queixar dele. Ao contrário disso, a sua hospitalidade não me deixava margem para censuras. Por outro lado, não tinha também nenhum motivo para me considerar ingrato com ele: nenhum juramento e nem mesmo uma palavra menos formal me prendia ao capitão quanto ao que íamos fazer.

Ele contava com a força das circunstâncias e não com a nossa palavra para nos manter junto dele. A sua confessada intenção de nos manter eternamente á bordo do seu navio justificava todas as nossas tentativas de fuga. Eu não o via desde a noite em que o cofre com o ouro fora mandado para alguma parte da Europa, ou seria da África ou até mesmo do Oriente Médio? Será que voltaria a vê-lo antes de minha partida? Desejava vê-lo e, ao mesmo tempo, receava a sua presença naquelas circunstâncias. Pus-me à escuta para ver se ouvia passos no quarto dele, contíguo ao meu. Nem um ruído. O quarto devia estar deserto. Então eu pensei se o capitão estaria realmente a bordo.

Desde aquela noite em que o bote deixara o “Nautilus” para aquela misteriosa entrega do ouro, as minhas idéias em relação ao capitão haviam se modificado um pouco. Passei a supor que apesar do que dizia, o Capitão Nemo continuava a manter algumas relações com a terra. Ele nunca deixaria o “Nautilus”? Por vezes passava-se uma semana inteira sem que eu o visse. Que estaria fazendo ele durante esses dias? E quando eu poderia julgá-lo praticando algum ato de misantropia, não estaria antes envolvido em alguma ação secreta cuja natureza me escapava?

Todas essas considerações assaltavam a minha mente. O campo de conjeturas era infinito na situação em que me encontrava. Sentia um mal-estar insuportável. Aquele dia de espera me parecia infindável. As horas se passavam demasiado lentamente para o meu estado de impaciência.

Como sempre o jantar me foi servido no quarto. Quase não comi, enfastiado de preocupações. Saí da mesa às sete horas. Ainda faltavam cento e vinte minutos para o momento em que deveria me juntar a Ned Land e Conselho. A minha agitação aumentava e o meu pulso estava alterado. Não conseguia ficar quieto. Andava de um lado para o outro na esperança de acalmar a agitação do espírito com o movimento físico.

A idéia de sucumbir na nossa temerária empresa era a menor de minhas preocupações. Mas ao pensar que o nosso projeto poderia ser descoberto antes de deixarmos o “Nautilus”, ao pensar de ser levado perante o Capitão Nemo, furioso ou, ainda pior, entristecido com o meu procedimento, palpitava-me o coração.

Quis rever o salão pela última vez. Segui pelos corredores e cheguei ao museu, onde tinha passado tantas horas agradáveis e úteis. Olhei todas aquelas riquezas, todos aqueles tesouros, como um homem na véspera de um exílio eterno, que parte para nunca mais voltar. Aquelas maravilhas da natureza, aquelas obras-primas da arte, no meio das quais passara tantos dias, ia abandoná-las para sempre. Desejei observar as águas do Atlântico através dos vidros do salão, mas os painéis estavam fechados e uma chapa de zinco separava-me daquele oceano que eu tanto desejava conhecer melhor.

Ao percorrer o salão, cheguei à porta, existente num dos lados, que dava para o quarto do capitão. Para minha surpresa a porta estava entreaberta. Recuei involuntariamente. Se estivesse lá dentro, ele poderia me ver. Escutei e não ouvi nenhum ruído. Aproximei-me de novo e olhei. O quarto estava deserto. Empurrei a porta e entrei.

Comecei reparando em alguns quadros a óleo pendurados na parede.

Não me lembrava de tê-los visto em minha primeira visita ao quarto dele. Eram retratos de grandes vultos da história, cujas existências tinham decorrido numa perpétua devoção a uma grande idéia humana Kosciusko, o herói caído ao grito de Finis Poloniase; Botzaris, o Leônidas da Grécia moderna; O’Connell, defensor da Irlanda; Washington, fundador da União Americana; Manin, o patriota italiano; Lincoln, caído pela bala de um escravocrata; e finalmente o mártir da libertação da raça negra, John Brown, suspenso da forca, desenhado pelo terrível traço de Victor Hugo.

Que elo existiria entre aquelas almas heróicas e a alma do Capitão Nemo? Poderia eu, a partir daqueles retratos, desvendar o mistério da existência dele? Seria ele um campeão de povos oprimidos, um libertador das raças escravas? Teria participado das últimas agitações políticas ou sociais do século? Teria sido um dos heróis da terrível guerra americana, guerra lamentável e para sempre gloriosa?

De súbito o relógio bateu oito horas. A primeira pancada do pêndulo arrancou-me dos sonhos. Estremeci, como se olhos invisíveis pudessem mergulhar no mais profundo dos meus pensamentos e me precipitei para fora do quarto.

Faltando poucos minutos para as nove horas deixei o meu quarto e voltei para o salão. Mergulhado na semiobscuridade, estava deserto.

Abri a porta que comunicava com a biblioteca. A mesma claridade insuficiente e a mesma solidão. Fui colocar-me perto da porta que dava para a escada central e fiquei aguardando o sinal do canadense.

Naquele momento os ruídos da hélice diminuíram sensivelmente e depois cessaram por completo. Qual seria o motivo daquela repentina alteração no andamento do “Nautilus”? O barco ter parado iria favorecer ou prejudicar o plano de Ned Land?

O silêncio só era quebrado pelas batidas do meu coração.

De repente senti um leve choque. O “Nautilus” havia pousado no fundo do oceano. A minha inquietação redobrou. O sinal do canadense não chegava. Comecei a ter vontade de ir procurar Ned e dissuadi-lo de qualquer tentativa de fuga naquela noite. A nossa navegação não se efetuava em condições normais.

Naquele momento a porta do salão foi aberta e o Capitão Nemo entrou. Viu-me e disse sem qualquer preâmbulo - Ah! É o senhor, professor. Eu andava a sua procura. Sabe alguma coisa da história da Espanha?

Nas condições em que me encontrava, ainda que ele me perguntasse sobre a história do meu próprio país, eu não seria capaz de dizer uma palavra.

- Não ouviu a minha pergunta, professor? Conhece a história da Espanha?

- Muito mal - respondi.

- Então é um sábio e não sabe. Pois bem, sente-se que vou lhe contar um episódio bastante curioso dessa história.

O capitão estendeu-se no divã enquanto eu, maquinalmente, sentei-me junto dele, na penumbra.

- Recuaremos ao ano de 1702 - começou ele, falando com voz pausada. - Não ignora que nessa época o rei Luís XIV julgando que com um simples gesto poderia derrubar os Pirineus, tinha imposto o Duque de Anjou, seu neto, aos espanhóis. Este príncipe, que reinou mais ou menos mal sob o nome de Felipe V, teve problemas com outros países.

“As casas reais da Holanda, da Áustria e da Inglaterra fizeram uma aliança com o objetivo de arrancarem a coroa da Espanha da cabeça de Felipe V, a fim de dá-la a um arquiduque, ao qual chamaram prematuramente de Carlos III.

“Embora lhe faltassem soldados e marinheiros, a Espanha teve que resistir a essa coligação. No entanto, não lhe faltaria dinheiro se os seus galeões carregados de ouro e prata, vindos da América, entrassem em seus portos. Ora, no final de 1702, era esperado um fabuloso comboio escoltado por uma frota de vinte e três navios franceses, comandados pelo Almirante Château-Renault, porque as marinhas dos dois países em coligação percorriam então o Atlântico.

“Este comboio devia dirigir-se a Cádis. Mas o almirante, informado de que a frota inglesa cruzava aquelas águas, resolveu rumar para um porto francês. Os comandantes espanhóis dos navios carregados com o ouro protestaram contra essa decisão e exigiram ser conduzidos para um porto espanhol. Não podendo ser o de Cádis, resolveram seguir para a Baía de Vigo, situada na costa noroeste da Espanha e que não estava bloqueada pela esquadra inglesa. O Almirante Château-Renault teve a fraqueza de aceitar essa imposição e os galeões rumaram para Vigo.

Essa baía forma um ancoradouro aberto, difícil de ser defendido.

Portanto, era necessário descarregar rapidamente os galeões antes da chegada da frota inimiga. O tempo teria sido suficiente para esse desembarque se não tivesse surgido uma rivalidade.

“Está seguindo o desenrolar dos fatos, professor? - perguntou-me o Capitão Nemo.

- Perfeitamente, capitão - respondi, não conseguindo adivinhar com que propósito estava ele me contando aquela história.

- Então eu continuo. Eis o que se passou: os comerciantes de Cádis tinham um privilégio segundo o qual deviam receber todas as mercadorias vindas das índias Ocidentais. Ora, desembarcar os lingotes de ouro dos galeões, no porto de Vigo, era ir contra esse direito. Queixaram-se portanto, e obtiveram do fraco Felipe V que o comboio, sem proceder à descarga, permanecesse sequestrado no ancoradouro de Vigo até o momento em que as frotas inimigas se afastassem.

“Enquanto se tomava essa decisão, no dia 22 de outubro de 1702, os navios ingleses chegaram à Baía de Vigo. O Almirante Château-Renault, apesar da inferioridade de suas forças, bateu-se corajosamente. Mas quando viu que as riquezas dos galeões iam cair nas mãos dos inimigos, incendiou e afundou os seus navios com todo o tesouro.”

O Capitão Nemo fez uma pausa. Eu ainda não havia percebido qual o interesse que a história dele poderia ter para mim. Mas eu não poderia mostrar-me descortês com ele. Por isso perguntei-lhe :

- E depois, capitão?

- Depois, Sr. Aronnax, estamos na Baía de Vigo e compete-lhe desvendar-lhe os mistérios.

Levantou-se e me pediu que o seguisse. Eu tivera tempo de me controlar e podia acompanhá-lo. O salão estava na penumbra, mas através dos vidros transparentes brilhavam as águas do mar. Olhei.

A volta do “Nautilus”, num raio de meia milha, as águas apareciam impregnadas de luz elétrica. O fundo arenoso era nítido e claro. Alguns tripulantes, envergando escafandros, ocupavam-se em desentulhar tonéis meio apodrecidos, caixas estragadas, no meio de destroços ainda enegrecidos. Das caixas e dos tonéis escapavam-se lingotes de ouro e prata, cascatas de piastras e de jóias. A areia estava juncada dessas preciosidades. Carregados com esse rico espólio, os homens voltavam ao “Nautilus” onde deixavam o seu rico fardo e retornavam à sua pesca de ouro e prata.

Então eu compreendi o episódio que o capitão me contara. Era ali o teatro da batalha de 22 de julho de 1702.

Ali mesmo se tinham afundado os galeões carregados com o ouro para o governo espanhol. E era também ali que o Capitão Nemo ia buscar os milhões de que necessitava para os seus misteriosos empreendimentos. Havia sido para ele, e só para ele que a América entregara os seus preciosos metais. Ele o herdeiro direto e único dos tesouros arrancados aos Nicas e a todos os povos derrotados por Fernando Cortez - Sabia que o mar continha tantas riquezas, professor? - perguntou-me ele, sorrindo.

- Sabia - respondi-lhe - que se calcula em dois milhões de toneladas a prata que se encontra em suspensão nas suas águas.

- Não duvido. Mas para extrair essa prata as despesas seriam superiores aos resultados obtidos. Aqui só tenho de apanhar o que os homens perderam em suas aventuras. Além desse, sei de mil outros teatros de naufrágios, cujos locais estão todos assinalados em meus mapas. Compreende agora por que sou tão rico?

- Compreendo, capitão. Permita-me no entanto dizer-lhe que ao explorar precisamente a Baía de Vigo, adiantou-se aos trabalhos de uma companhia legalmente constituída para esse fim.

- Que companhia?

- Uma sociedade que recebeu do governo espanhol o privilégio de procurar os galeões desaparecidos. Os acionistas esperam alcançar um enorme lucro, porque se calcula em quinhentos milhões o valor das riquezas perdidas aqui.

- Quinhentos milhões! - exclamou o capitão. - Poderiam estar aqui, professor, mas já não estão mais.

 Estou vendo que não. Portanto, avisar esses acionistas seria um ato de caridade. O que os jogadores lamentam, acima de tudo, não é tanto a perda de dinheiro, mas a morte de suas loucas esperanças. No entanto, lamento-os menos do que a milhares de infelizes aos quais tantas riquezas poderiam ser de grande valia, enquanto agora serão estéreis para sempre.

Foi fácil perceber que eu tinha ferido o Capitão Nemo.

- Estéreis! Então o senhor julga que essas riquezas estão perdidas porque fui eu que as apanhei? Pensa que é para mim que me dou ao trabalho de recolher esses tesouros? Quem lhe disse que não faço bom uso deles? Julga que ignoro que existem seres que sofrem, raças oprimidas, miseráveis déspotas que é preciso abater e vítimas a vingar?

Ele parou e eu tive a impressão de que se arrependera de ter falado tanto. Mas eu adivinhara. Quaisquer que fossem os motivos que o tinham forçado a procurar a independência sob os mares, antes de tudo ele continuava a ser um homem. O coração palpitava-lhe ainda pelo sofrimento humano e a sua imensa caridade dirigia-se para os indivíduos e para as raças oprimidas.

Descobri então a quem foram destinados os milhões expedidos por ele quando o “Nautilus” navegava nas águas de Creta revoltada.

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