A rota do “Nautilus” não tinha sido modificada. Toda a
esperança de voltarmos aos mares europeus deveria ser esquecida. O capitão Nemo
rumava para o sul. Para onde estaria ele nos conduzindo? Eu não ousava
imaginar.
Naquele dia o submarino atravessou uma estranha parte do
Oceano Atlântico. Ninguém ignora a existência de uma grande corrente de água quente,
denominada Gulf Stream. Depois de sair dos canais da Flórida, ela se dirige
para Spitzberg. Porém, antes de penetrar no Golfo do México a corrente se
divide em dois braços. O principal deles se dirige para as costas da Irlanda e
da Noruega, enquanto 0 outro segue para o sul em direção aos Açores. Depois de
banhar as costas africanas ele descreve uma oval alongada e volta em direção as
Antilhas.
Ora, esse segundo braço, que mais se parece com um colar,
cerca com os seus anéis de água quente aquela parte do oceano, fria, tranquila
e imóvel, a que se chama de Mar dos Sargaços. Verdadeiro lago em pleno
Atlântico, as águas da grande corrente demoram três anos para rodeá-lo.
O Mar dos Sargaços cobre toda a parte submersa da Atlântida.
Há quem admita que as numerosas ervas de que está semeado são arrancadas às
pradarias deste antigo continente. No entanto é mais provável que essas ervas
sejam levadas à região pela Gulf Stream, que as tira das costas da América e da
Europa. Foi essa uma das razões que levou Colombo a acreditar na existência de
um novo mundo.
Quando os marinheiros desse intrépido navegador chegaram ao
Mar dos Sargaços, navegaram com muita dificuldade no meio daquelas ervas e
precisaram de três longas semanas para atravessá-lo.
Era essa a zona que o “Nautilus” percorrera naquele dia. Um
verdadeiro prado, um. tapete de algas e uvas dos trópicos, tão espesso e
compacto que a hélice girava com dificuldade.
Todo o dia 22 de fevereiro foi passado no Mar dos Sargaços.
No dia seguinte o mar havia retomado o seu aspecto habitual. Nos dias que se seguiram,
navegando sempre pelo meio do Atlântico, o “Nautilus” avançava a uma velocidade
constante de cem léguas em cada vinte e quatro horas. Era evidente que o
Capitão Nemo queria cumprir o seu programa de viagem. Eu não duvidava que,
dobrado o Cabo Horn, ele voltasse aos mares austrais do Pacífico.
Portanto, Ned Land tivera razão para recear. Nesses mares
imensos, sem ilhas, não era possível tentar uma fuga. Por outro lado, não
tínhamos meios de nos opormos aos desígnios do capitão. A única coisa a fazer
era obedecer. Mas aquilo que não se podia alcançar pela força e pela manhã,
também não se devia tentar obter por persuasão. Terminada aquela viagem, talvez
o capitão consentisse em nos dar a liberdade sob juramento de nunca revelarmos
a sua existência. Juramento de honra que faríamos. Eu tinha de conversar sobre
isso com ele.
Desde o início, o Capitão Nemo havia declarado, de uma
maneira formal, que o segredo da sua vida exigia a nossa prisão perpétua a bordo
do “Nautilus”. Éramos seus prisioneiros há quatro meses e o meu silêncio sobre
esse assunto não deixava de ser uma concordância tácita com essa situação. Eu
sempre pensava que uma discussão do problema tivesse como resultado fazê-lo
ficar em permanente estado de alerta contra nós. Isso poderia prejudicar o
aproveitamento, com sucesso, de alguma oportunidade de fuga que tivéssemos. Em
suma, embora eu não fosse pessimista compreendia que as possibilidades de
voltarmos ao convívio de nossos conhecidos e parentes diminuíam de dia para
dia, à medida que o Capitão Nemo corria como um temerário o Atlântico Sul.
De 23 de fevereiro a 12 de março não houve qualquer
incidente digno de nota e eu raras vezes vi o capitão. As vezes ouvia ressoar
os sons melancólicos do seu órgão que tocava com muito sentimento, sempre à noite,
no meio da maior obscuridade, quando o “Nautilus” adormecia nos desertos do
oceano.
Durante essa parte da viagem navegamos dias inteiros à
superfície. O mar parecia abandonado. Apenas alguns barcos a vela, com carga
para a índia, se dirigiam para o Cabo da Boa Esperança. Um dia fomos
perseguidos pelas lanchas de um baleeiro, que sem dúvida nos tomara por uma
enorme baleia de alto valor. O Capitão Nemo não quis que os pescadores
perdessem tempo e trabalho e pôs um ponto final na caçada, mergulhando nas
águas.
Nessa região encontramos grandes cães-do-mar, que são peixes
extremamente vorazes. Não se deve acreditar nas histórias dos pescadores, mas
aqui vai o que contam. Encontrarem no corpo de um desses animais uma cabeça de
búfalo e uma vitela inteira. Em um outro deles foram achados dois atuns e um
marinheiro fardado. Num terceiro, um soldado com o sabre e, finalmente, num
quarto, um cavalo com o seu cavaleiro. São histórias que eu ouvi contar e passo
à frente sem qualquer responsabilidade quanto à sua veracidade.
Até o dia 13 de março a nossa navegação continuou nessas
condições.
Nesse dia o “Nautilus” fez algumas experiências de sondagem
que me interessaram muito. Tínhamos percorrido até essa data cerca de treze mil
léguas, desde a nossa partida dos mares do Pacífico. O ponto nos indicava 45°
37' de latitude sul e 37° 53' de longitude oeste. Estávamos na zona onde o
Capitão Denham do “Herald” lançara quatorze mil metros de sonda para encontrar
o fundo. Também ali, o Tenente Parker da fragata americana “Congress” não tinha
atingido o fundo submarino a quinze mil cento e quarenta metros.
O Capitão Nemo resolveu descer com o seu “Nautilus” para as
maiores profundidades com o fim de verificar essas diferentes sondagens.
Preparei-me para registrar todos os dados da experiência. Os
painéis do salão foram abertos e começaram as manobras para atingir as camadas
mais profundas.
O capitão e eu ficamos no salão seguindo a agulha do
manômetro que rodava com rapidez. Não tardamos em ultrapassar a zona habitável,
onde vive a maioria dos peixes. Perguntei ao Capitão Nemo se tinha observado
peixes a maiores profundidades.
- Peixes? Raramente. No estado atual dessa ciência
especializada, o que se sabe sobre o assunto? - perguntou-me ele.
- Sabe-se que à medida que se desce para as camadas
inferiores do oceano, a vida vegetal desaparece mais depressa do que a animal.
Sabe-se que onde ainda se encontram seres animados em
grandes profundidades, a vegetação aquática não existe mais. Sabe-se que as camalhas
e as ostras vivem a mais de dois mil metros da superfície das águas e que Mac
Clintock, o herói dos mares polares, retirou uma estrela viva, de uma
profundidade de dois mil e quinhentos metros.
Sabe-se ainda que a tripulação do “bull-dog”, da Marinha
Real Inglesa, pescou uma estrela-do-mar a mais de uma légua de profundidade.
Mas talvez o senhor me diga que afinal de contas não se sabe nada.
- Não, professor, eu não seria tão indelicado. De qualquer
forma, como o senhor explica que possa haver vida a tais profundidades?
- Explico-o por duas razões. Primeiro porque as correntes
verticais determinadas pelas diferenças de salinidade e densidade das águas produzem
um movimento que é suficiente para manter a vida rudimentar das
estrelas-do-mar.
- Precisamente - concordou ele.
- Depois, porque se o oxigênio é a base da vida, sabe-se que
a quantidade de oxigênio dissolvido na água do mar aumenta com a profundidade,
em vez de diminuir e que a pressão das camadas baixas contribui para o
comprimir.
- Parabéns, professor. Sabe-se muito, porque tudo o que
disse é verdade. Acrescentarei que a bexiga natatória desses peixes contém mais
azoto do que oxigênio, quando são pescados à superfície das águas e mais
oxigênio do que azoto, quando são tirados das grandes profundidades. Isso
confirma a sua teoria. Mas continuemos as nossas observações.
Olhei para o manômetro que já indicava uma profundidade de
seis mil metros. Havia uma hora que estávamos descendo. As águas desertas eram
admiravelmente transparentes e de uma diafaneidade difícil de descrever. Uma
hora mais tarde estávamos a treze mil metros e ainda não se avistava o fundo do
oceano.
No entanto, a quatorze mil metros distingui picos escuros
que surgiam no meio das águas. Mas esses cumes poderiam pertencer a montanhas
com a altura do Himalaia ou do Monte Branco, ou ainda mais altas, continuando
incalculável a profundidade do fundo.
O “Nautilus” continuou a descer, apesar das altas pressões
que sofria.
Sentia-se que o metal tremia nas juntas, as barras se
arqueavam, os tabiques gemiam, os vidros do salão pareciam estalar sob a
pressão das águas. E este sólido aparelho teria certamente cedido, se não fosse
tão resistente como uma rocha.
Tínhamos atingido uma profundidade de dezesseis mil metros e
o casco do “Nautilus” suportava uma pressão de mil e seiscentas atmosferas, isto
é, mil e seiscentos quilos por cada centímetro quadrado de sua superfície.
- Extraordinário, capitão! - manifestei-me realmente
emocionado. - Percorrer essas regiões profundas onde o homem nunca chegou!
Veja, capitão, veja essas magníficas rochas, essas grutas desabitadas, esses últimos
receptáculos do globo, onde a vida já não é possível! Que sítios desconhecidos!
Pena que não possamos conservar alguma recordação desses lugares.
- Gostaria de levar algo mais do que uma recordação,
professor?
- O senhor...
- Não se assuste. Estou querendo lhe dizer que nada há mais
fácil do que tirar uma fotografia dessa região.
Uma máquina fotográfica foi trazida para o salão. Através
dos painéis abertos, com a iluminação elétrica, a claridade era perfeita. A
máquina focalizou o fundo do oceano e o fotografou.
O Capitão Nemo, acabada essa operação, disse-me:
- Subamos, professor. Não devemos expor o “Nautilus” a
semelhantes pressões por muito tempo seguido.
Capitulo 12
Durante a noite de 13 para 14 de março, o “Nautilus” retomou
a sua rota para o sul. Eu supunha que perto do Cabo Horn ele rumaria para oeste,
a fim de chegar aos mares do Pacífico e concluir a sua volta ao mundo. Porém
não foi isso que aconteceu e o submarino continuou navegando em direção às
regiões austrais. Aonde iria? Ao pólo? Aquilo era insensato. Eu começava a
acreditar que as temeridades do Capitão Nemo iam justificando as apreensões de
Ned Land.
Havia algum tempo que o canadense não me falava dos seus
projetos de fuga. Tornara-se menos comunicativo, quase silencioso. Eu percebia o
quanto aquele prolongado aprisionamento lhe custava. Sentia a sua cólera se
acumulando. Quando encontrava o capitão, seus olhos se incendiavam e eu receava
que a sua natural violência o levasse a uma atitude extrema.
Naquele dia, 14 de março, Conselho e ele vieram ao meu
quarto.
Perguntei-lhes a razão da visita.
- Vim lhe fazer uma pergunta, professor - falou Ned Land e
foi dizendo:
- Quantos homens julga que há a bordo do “Nautilus”? Tenho a
impressão de que este barco não precisa de uma grande tripulação.
- Acredito que não, Ned - respondi. - Uma dezena de homens
deve ser suficiente para manobrá-lo. Mas se você está pretendendo apoderar-se do
“Nautilus”, não tente isso, meu amigo. Há pelo menos vinte e cinco homens a
bordo.
- Um número muito grande para nós três - murmurou Conselho.
- Portanto, meu caro Ned, só posso lhe aconselhar a ter
paciência. O plano da fuga é melhor.
- Mais do que paciência, precisa ter resignação, Ned –
acrescentou Conselho. - Afinal de contas o Capitão Nemo não pode navegar eternamente
para o sul. Vai ter de parar nem que seja diante dos bancos de gelo e
regressará a mares mais civilizados. Então poderá retomar os seus projetos de
fuga.
O canadense saiu sem dizer nada.
- Se o senhor me permitir gostaria de fazer uma observação -
disse-me Conselho. - O pobre Ned pensa em tudo o que não pode ter. Lembra-se de
todas as coisas da sua vida passada. As recordações o perseguem e ele sofre.
Temos de compreendê-lo. Afinal, o que ele pode fazer aqui? Nada. Não é um sábio
como o senhor e não tem o mesmo interesse que nós temos pelas coisas admiráveis
do mar. Ele daria tudo para poder entrar em uma das tabernas de sua terra.
Conselho tinha razão. A monotonia de bordo devia parecer
insuportável ao canadense habituado a uma vida livre e ativa. Por outro lado,
os acontecimentos que poderiam interessá-lo eram raros. No entanto, naquele
dia, um incidente veio recordar a Ned Land os seus dias de arpoador. Por volta
das onze horas da manhã, encontrando-se à superfície do oceano, o “Nautilus”
penetrou num cardume de baleias.
Sem dúvida foi ele que primeiro avistou uma baleia no
horizonte. Olhei atentamente quando Ned chamou minha atenção e vi o dorso negro
elevar-se e abaixar-se alternadamente, a cinco milhas do submarino.
- Se eu estivesse a bordo de um baleeiro, esse seria um
encontro que me daria muito prazer - disse Ned Land. - Aquele é um animal de grande
porte. Veja a força com que projeta colunas de água e de vapor! Com mil diabos!
Por que tenho que estar preso a este pedaço de ferro?
A baleia continuava a aproximar-se do “Nautilus” e Ned Land
não tirava os olhos dela. De repente ele exclamou - Não é apenas uma baleia,
professor! São dez, vinte, é um cardume inteiro! E eu não posso fazer nada! -
lamentou-se.
- Por que você não pede ao Capitão Nemo uma autorização para
caçá-las? - perguntou Conselho.
O canadense desceu a escada para falar com o capitão. Alguns
minutos depois apareceram os dois na plataforma.
O Capitão Nemo observou os cetáceos, que se encontravam a
uma milha do “Nautilus” e comentou - São baleias austrais. Fariam a fortuna de
uma frota de baleeiros. O cardume é bem grande.
- Eu poderia caçá-las, Sr. Capitão - disse o canadense -
pelo menos para não esquecer o meu antigo mister de arpoador?
- Não precisamos de óleo de baleia a bordo, mestre Ned.
Caçar apenas para destruir? - perguntou o capitão.
- No Mar Vermelho o senhor autorizou a caça ao dugongo -
argumentou Ned Land.
- Foi diferente. Tratava-se de arranjar carne fresca para a
minha tripulação. Agora, seria matar por matar. Sei que esse é um privilégio
reservado ao homem, mas eu não admito esses passatempos assassinos. Ao destruir
a baleia austral e as outras, seres inofensivos e bons, os homens de sua
profissão, mestre Land, cometem uma ação lamentável. Foi assim que já
despovoaram toda a Baía de Baffin e fizeram desaparecer toda uma população de
animais úteis. Deixe em paz as baleias.
Dar semelhantes razões e conselhos a um arpoador era perder
tempo.
Ned Land olhava para o capitão sem compreender o que ele
queria dizer. Depois assobiou o seu Yankee Doodle, meteu as mãos nos bolsos e
virou-nos as costas.
Entretanto o Capitão Nemo observava o cardume de cetáceos e
acabou por me dizer:
- Sem contar o homem, a baleia tem muitos inimigos naturais,
professor.
Essas que estamos vendo, dentro de pouco tempo vão ter que
enfrentar um deles. O senhor. está vendo, a oito milhas para sotavento, aqueles
pontos negros em movimento?
- Sim, capitão.
- São cachalotes, animais terríveis que já tenho encontrado
em cardumes de duzentos e trezentos. Esses sim, cruéis e prejudiciais, devem
ser exterminados.
O canadense virou-se ao ouvir essas palavras.
- Então, capitão, ainda há tempo. No interesse das baleias.
. . – falei com ele, olhando para Ned Land.
- É inútil nos expormos, professor. O “Nautilus” dispersará
os cachalotes. Está armado com um esporão de aço que vale muito mais do que o
arpão de mestre Land.
O canadense encolheu os ombros. Atacar cetáceos com um
esporão!.
Onde já se tinha visto aquilo?
- Espere, Sr. Aronnax - disse o capitão, depois de ter
refletido por um momento. - Faremos uma caçada que ainda não conhece. Nada de piedade
para esses ferozes cetáceos. Só têm bocas e dentes.
Bocas e dentes. Não se poderia descrever melhor o cachalote macrocéfalo,
cujo comprimento ultrapassa por vezes os vinte e cinco metros. A enorme cabeça
desse cetáceo ocupa cerca de um terço do seu corpo. Mais bem armado do que a
baleia, cuja mandíbula superior tem apenas barbas, ele é munido de vinte e
cinco grandes dentes de vinte centímetros de comprimento, cilíndricos e cônicos
na extremidade e pesando duas libras cada um.
Entretanto o monstruoso cardume de cachalotes se aproximava.
Eles tinham visto as baleias e se preparavam para atacá-las. Podia-se prever a
vitória dos cachalotes, não apenas porque são mais bem armados para o ataque,
como também porque podem permanecer mais tempo do que elas debaixo da água sem
ir à superfície para respirar.
Estava na hora do “Nautilus” ir em socorro das baleias. Ele
navegava submerso. Conselho, Ned e eu sentamo-nos diante dos painéis no salão.
O Capitão Nemo foi para junto do timoneiro a fim de manobrar o seu barco como
se fosse uma máquina de destruição.
O combate entre os cachalotes e as baleias já havia começado
quando o “Nautilus” chegou. O capitão manobrou de modo a dividir o cardume dos
macrocéfalos. A princípio eles não ligaram ao novo monstro que aparecia no
campo de batalha. Em breve sentiriam os seus golpes.
Que luta! O próprio Ned Land ficou entusiasmado e acabou
batendo palmas diante do painel. O “Nautilus” era um arpão formidável brandido
pela mão do seu capitão. Lançava-se contra aquelas massas carnudas e
atravessava-as de lado a lado, deixando à sua passagem os animais partidos pelo
meio. Não sentia os formidáveis golpes das caudas dos cetáceos, nem os seus
choques. Exterminado um cachalote corria para outro, dava meia volta, ia para a
frente e para trás, obediente ao leme, mergulhando quando o cetáceo fugia para
as camadas inferiores, subindo à superfície quando o animal fugia para lá,
sempre atingindo-os, rasgando e matando sem parar.
Prolongou-se por cerca de uma hora essa homérica chacina.
Finalmente os que restavam dos cachalotes fugiram do campo de batalha. As águas
se tornaram tranquilas. Voltamos à superfície. O alçapão foi aberto e nós
corremos para a plataforma. O mar estava coberto de cadáveres mutilados. Uma
forte explosão não teria destruído com mais violência aquelas massas carnudas.
Flutuávamos no meio de corpos gigantescos, azulados no dorso e esbranquiçados
no ventre, cobertos de enormes protuberâncias. As águas estavam manchadas de
vermelho numa superfície de várias milhas e o “Nautilus” navegava no meio de um
mar de sangue.
O Capitão Nemo juntou-se a nós na plataforma.
- E então, mestre Land?
- Foi um espetáculo terrível, capitão - respondeu o
canadense. Seu entusiasmo já havia se arrefecido. - Assisti a uma verdadeira
carnificina.
Mas eu não sou carniceiro, senhor. Sou arpoador.
- Foi uma chacina de animais prejudiciais - retrucou o
capitão. - O meu barco não é o cutelo de um carniceiro.
- Gosto mais do meu arpão - declarou o canadense.
- Cada um com a sua arma - ao dizer isso o Capitão Nemo
olhava fixamente para Ned Land.
Receei que o arpoador se deixasse dominar pela violência.
Isso poderia ter consequências desastrosas para nós. Mas a sua cólera foi
desviada ao avistar uma baleia a que o “Nautilus” acostava naquele momento.
Aquela não tinha conseguido escapar aos dentes dos
cachalotes.
A partir desse dia, comecei a notar que as intenções de Ned Lana em relação ao Capitão Nemo tornavam-se cada vez piores, dando-me motivos para ficar seriamente preocupado. Resolvi vigiar de perto as reações e os gestos do canadense.

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