Capítulo 2
A 28 de fevereiro, ao meio-dia, quando o .”Nautilus” subiu à
superfície, a 9° 4' de latitude norte, encontrava-se à vista de uma terra que
lhe ficava a oito milhas para oeste. Observei primeiro um aglomerado de montanhas
com cerca de dois mil pés de altura, cujas formas eram caprichosas. Quando foi
feito o levantamento de nossa posição na carta., vi que estávamos à vista da
ilha de Ceilão, essa pérola que pende do lóbulo inferior da península indiana.
O Capitão Nemo e o imediato apareceram naquele momento. O
primeiro deu uma olhadela ao mapa e, virando-se para mim, disse - A ilha de
Ceilão é célebre pela pesca de pérolas. O senhor gostaria de visitar um desses
locais de pesca?
- Com o maior prazer, capitão.
- Pois bem. É muito fácil. Só que veremos os locais mas não
os pescadores, pois a exploração anual ainda não começou. Vou dar ordem para
rumar ao Golfo de Manaar onde chegaremos à noite.
O imediato saiu assim que o capitão lhe disse algumas
palavras. O “Nautilus” não tardou a submergir e o manômetro indicou que ele se encontrava
a uma profundidade de trinta pés.
- Sr. Professor - disse-me então o Capitão Nemo - pescam-se
pérolas no golfo de Bengala, no mar das Índias, nos mares da China e do Japão,
nos do sul da América, nos golfos do Panamá e da Califórnia, mas é em Ceilão
que essa. pesca é mais frutífera. Porém, chegamos demasiado cedo, pois os
pescadores só se reúnem no mês de março no Golfo de Manaar. Durante trinta dias
os seus trezentos barcos sé entregam à lucrativa exploração dos tesouros do
mar. Cada embarcação tem dez remadores e dez pescadores. Estes, divididos em
dois grupos, mergulham alternadamente, descendo a uma profundidade média de doze
metros. Para o mergulho são auxiliados por uma pesada pedra que seguram entre
os pés e que está presa ao barco por uma corda.
- Até hoje ainda usam esse método primitivo?
- Ainda - informou-me o capitão - embora essas ostreiras
pertençam ao povo mais engenhoso do globo, os ingleses, que as adquiriram pelo Tratado
de Amiens, em 1802.
- Um escafandro semelhante aos que o senhor tem seria muito
útil nessas operações - comentei, para ver a reação dele.
- De fato seriam. Esses pobres pescadores não podem
permanecer por muito tempo debaixo da água. O inglês Percival, que esteve por
aqui, falou de um indígena que conseguia ficar cinco minutos sem vir à
superfície, mas isso é pouco crível. Sei de alguns pescadores que aguentam até cinquenta
e sete segundos. Outros, mais hábeis, ficam submersos até oitenta e sete
segundos. Mas são raros e quando voltam a bordo põem sangue pelo nariz e pelos
ouvidos. Penso que o tempo médio que eles podem aguentar é de trinta segundos,
durante os quais se apressam em recolher para dentro de um saco todas as ostras
perlíferas que vão arrancando. Geralmente esses pescadores morrem novos. A
vista vailhes enfraquecendo, aparecem-lhes úlceras nos olhos e feridas no corpo.
Muitas vezes são fulminados por apoplexia no fundo do mar, ou devorados por
tubarões.
- É na verdade uma triste profissão que apenas serve para
satisfação de caprichos - externei meu ponto de vista. - Mas diga-me, capitão,
que quantidade de ostras pode pescar um barco em um dia de trabalho com os
homens que o senhor mencionou?
- Cerca de quarenta e cinco mil. Dizem que em 1814 o governo
inglês, com esses pescadores a trabalharem por sua conta durante vinte dias, arrecadou
setenta e seis milhões de ostras.
- E esses homens são bem pagos?
- Não. Recebem uma remuneração insignificante.
- Essa exploração do homem pelo homem é odiosa, Capitão
Nemo.
Ele não quis comentar a minha observação.
- Pois bem, professor, visitaremos amanhã o banco de ostras
de Manaar. Pode acontecer que encontremos algum pescador mais apressado e o
senhor poderá vê-lo em atividade.
- Combinado, capitão.
- A propósito, Sr. Aronnax, tem medo de tubarões?
- Confesso que ainda não estou muito familiarizado com esse
gênero de peixes - falei, depois de uma breve reflexão.
- Nós já estamos habituados a eles - disse o capitão - e com
o tempo o senhor também se acostumará. De qualquer modo iremos armados e pelo
caminho poderemos talvez caçar um desses exemplares. É uma caçada bem
interessante.
Dito isso, o Capitão Nemo saiu do salão.
Ficando sozinho, comecei a pensar. Se alguém fosse convidado
para caçar ursos nas montanhas da Suíça, diria: “Muito bem! Amanhã vou caçar
ursos”; se se convidasse um amigo para ir caçar leões nas planícies do Atlas ou
tigres nas selvas indianas, ele certamente diria: “Ah! Até que enfim parece que
vou caçar tigres ou leões”; mas se uma pessoa fosse convidada para caçar tubarões,
no seu elemento natural, tenho certeza de que ela pediria algum tempo para
refletir antes de aceitar o convite.
No meu caso particular, passei a mão pela fronte onde
encontrei algumas gotas de suor frio.
“Tenho de refletir enquanto é tempo”, monologuei. “Caçar
lontras nas florestas submarinas, como fizemos na ilha Crespo, ainda vá. Mas
andar pelo fundo dos mares quando se tem quase a certeza de encontrar esqualos,
já é outra coisa! Sei muito bem que em certas regiões das ilhas Andamans, os
negros não hesitam em atacar o tubarão com um punhal numa das mãos e uma lança
na outra, mas sei também que muitos dos que enfrentam esses formidáveis animais
não regressam com vida. Além disso eu não sou negro e, mesmo que o fosse, acho
que uma ligeira hesitação não seria despropositada.”
Continuando em minhas reflexões eu me lembrei de que
certamente meu criado Conselho não haveria de querer ir. Assim eu teria uma
desculpa para não acompanhar o capitão. Quanto a Ned Land, confesso que já não
estava tão seguro de sua sensatez. Um perigo, por maior que fosse, sempre
atraía a sua natureza combativa.
Retomei a minha leitura, mas folheava o livro maquinalmente.
Via nas entrelinhas mandíbulas errivelmente
abertas.
Naquele momento, Conselho e o canadense entraram no salão
com ares tranquilos e até alegres. Não sabiam o que os esperava.
- O Capitão Nemo, diabos o levem, acabou de nos fazer uma
proposta muito amável - disse-me Ned Land.
- Ah! - disse eu - já sabem...
- Com licença do senhor - foi a vez do meu criado - o comandante
do “Nautilus” nos convidou para visitarmos os magníficos campos de pescas de
ostras do Ceilão. Fê-lo em termos urbanos e portou-se como um verdadeiro
cavalheiro. Informou-nos ainda de que o senhor irá também.
- Não lhes disse mais nada?
- Mais nada - respondeu o canadense - a não ser que já lhe
tinha falado desse passeio.
- É verdade. Ele não lhes falou de...
- De mais nada, professor.
- Vejo que você faz questão de ir, mestre Land.
- Sim, é exato. Estou muito curioso.
- Talvez haja algum perigo - falei, num tom insinuante.
- Perigo em uma simples excursão a um banco de ostras! –
replicou Ned Land.
Decididamente o Capitão Nemo julgara desnecessário mencionar
a caçada de tubarões aos meus companheiros. Eu os olhava comovido, como se já
lhes faltasse algum membro do corpo. Deveria preveni-los?
Sem dúvida, mas eu não sabia como começar.
- O senhor - Conselho começou a falar - não se importaria de
me dar alguns esclarecimentos acerca da pesca das pérolas?
- Acerca da pesca em si, ou sobre os incidentes que...
- Sobre a pesca - interveio o canadense. - Antes de pisar o
terreno é bom conhecê-lo.
- Sentem-se, meus amigos.
Ned e Conselho sentaram-se no divã e o canadense me
perguntou - O que é uma pérola?
- Meu caro Ned - comecei - para o poeta, a pérola é uma
lágrima do mar; para os orientais, é uma gota de orvalho solidificada; para as senhoras,
é uma jóia de forma oval, de brilho hialino, de matéria nacarada, que usam no
dedo, ao pescoço ou nas orelhas; para o químico, é um composto de fosfato e de
carbonato de cal com um pouco de gelatina de mistura. Finalmente, para o
naturalista, é uma simples secreção doentia do órgão que produz o nácar em
alguns moluscos.
- Uma ostra pode conter várias pérolas? - indagou Conselho.
- Pode. Há algumas “pintadinas” que são um verdadeiro cofre.
Alguém disse, mas eu duvido, que certa ostra continha nada mais nada menos do
que cento e cinquenta tubarões.
- Cento e cinquenta tubarões! - exclamou Ned Land,
escandalizado.
- Ah! Eu disse tubarões? Queria dizer cento e cinquenta pérolas.
“Tubarões” não faria sentido.
- O preço das pérolas varia com o tamanho? - perguntou
Conselho.
- Não só com o tamanho, mas também com a forma. Varia ainda
pela “água”, isto é, a cor; pelo “oriente”, ou seja pelo brilho e tonalidade
que as tornam tão agradáveis à vista. As mais belas são chamadas pérolas virgens
e se formam isoladamente no tecido do molusco. São brancas, frequentemente
opacas, outras vezes de uma transparência opalina e de forma esférica ou
periforme. As esféricas são usadas para pulseiras; as periformes para
pingentes. As mais preciosas são vendidas unitariamente e guardadas como jóias.
As outras, que aderem à concha da ostra e que são mais irregulares são vendidas
a peso. Finalmente, numa ordem inferior, classificam-se as pérolas pequenas,
conhecidas pela designação de sementes. Servem especialmente para ornamentar os
paramentos dos religiosos.
- Mas há pérolas célebres que custaram fortunas - disse
Conselho.
- Há sim. Dizem que César ofereceu a Servília uma pérola
cujo valor se calcula em vinte mil dos nossos francos.
- Já ouvi contar - disse o canadense - que certa dama antiga
bebia pérolas no vinagre.
- Cleópatra - mencionou o meu criado.
- Não deveria ter um gosto bom - comentou Land.
- Certamente que não - concordou Conselho. - Mas um cálice
de vinagre que custa quinze mil francos...
- Lamento não ter me casado com essa tal dama - disse o
canadense, fazendo um gesto pouco tranquilizador.
- Ned Land marido de Cleópatra! - chasqueou Conselho.
- Pois saiba que já estive para me casar, Conselho - o
canadense falou sério - e não tive culpa se não deu certo. Até tinha comprado
um colar de pérolas para Kat Tender, a minha noiva que acabou por se casar com
outro. O colar não me custou mais de um dólar e meio, mas posso garantir-lhe,
professor, que as pérolas eram bem grandes.
- Meu caro Ned - expliquei, rindo - eram pérolas
artificiais. São simples pedaços de vidro cheios com essência do Oriente.
- Talvez tenha sido por isso que Kat Tender casou-se com
outro – disse Ned Land, filosoficamente.
- Falando de pérolas de alto valor, penso que ninguém jamais
possuiu uma superior à do Capitão Nemo.
- Aquela? - perguntou Conselho, apontando para a magnífica
jóia encerrada numa vitrina.
- Deve valer dois milhões de francos e ao capitão só deve
ter custado o trabalho de a apanhar.
- Talvez amanhã durante o nosso passeio encontremos uma
igual – disse Ned Land.
- Para que nos serviriam dois milhões de francos a bordo do “Nautilus”?
- perguntou Conselho.
- A bordo, nada - respondeu Ned Land - mas em algum outro
lugar poderiam ser muito úteis para nós.
- Mestre Land tem razão - falei. - Se alguma vez chegarmos à
Europa ou à América, uma pérola de alguns milhões dará uma grande autenticidade
e ao mesmo tempo um grande valor ao relato de nossas aventuras. Seria
formidável se isso acontecesse.
- Também acho - disse o canadense.
- Mas - perguntou Conselho, que nunca se esquecia do lado
instrutivo das coisas - a pesca da pérola é perigosa?
- Não - respondi - sobretudo se se tomam certas precauções.
- Quais são os riscos dessa profissão? – perguntou Ned Land.
– Engolir água salgada?
- Mais ou menos, Ned. A propósito - disse eu, tentando
imitar o tom, indiferente do Capitão Nemo :
- Vocês têm medo de tubarões?
- Eu! Um arpoador de profissão? - estranhou Ned Land a minha
pergunta, como se ela o tivesse ofendido.
- Até brinco com eles!
- Não se trata de pescá-los pelos meios convencionais que
você conhece, Land - expliquei-lhe.
- Então, trata-se de
- Sim, precisamente.
- Na água?
- Na água!
- Se for com um bom arpão... O senhor sabe, esses tubarões
são animais limitados. Têm de se virar de costas para atacar.
Ned Land tinha uma
maneira especial de pronunciar a palavra “atacar”, que me causava calafrios.
- E você, Conselho, o que pensa dos esqualos? – perguntei.
- Eu vou ser franco com o senhor ...
“Ainda bem!”, pensei satisfeito.
- Se o senhor vai enfrentar os tubarões, não vejo por que
motivo o seu fiel criado não há de enfrentá-los também.
Anoiteceu. Deitei-me mas dormi muito mal. Os esqualos
desempenharam um papel importante nos meus sonhos. Estive analisando a etimologia
da palavra requin (esqualo) , que vem do latim requiem!
No dia seguinte às quatro horas da manhã fui acordado pelo
rapaz de bordo, que o capitão tinha posto especialmente a meu serviço.
Levantei-me rapidamente, vesti-me e passei ao salão, onde o capitão já me aguardava.
- Está pronto para partir, Sr. Aronnax?
- Sim.
- Siga-me, por favor.
- E os meus companheiros, capitão?
- Já foram prevenidos e estão a nossa espera.
- Não vamos vestir os escafandros? - perguntei.
- Mais tarde. Não deixei que o “Nautilus” se aproximasse
demasiadamente da costa e estamos muito afastados do banco de pérolas. Mandei
preparar o bote que nos levará até lá, poupando-nos um longo trajeto a pé. Levaremos
as nossas roupas de mergulhar e as vestiremos quando chegarmos a Manaar, no
momento de iniciarmos a exploração submarina.
Quando chegamos à escada central a caminho da plataforma,
Ned e Conselho já estavam a nossa espera, encantados com os momentos de prazer
que se avizinhavam. Cinco marinheiros do “Nautilus”, de remos a postos,
esperavam-nos no bote.
O Capitão Nemo, Conselho, Ned Land e eu tomamos lugar à ré
da embarcação. O timoneiro pôs-se ao leme, os seus quatro companheiros pegaram
nos remos, soltaram-se as amarras e afastamo-nos do submarino.
Mantinhamo-nos em silêncio. Em que estaria pensando o
Capitão Nemo? Talvez naquela terra que se aproximava e que ele achava demasiado
perto, ao contrário do canadense a quem ela parecia muito longe. Quanto a
Conselho estava ali como um simples curioso.
As seis horas, amanheceu subitamente. Os raios solares
romperam as nuvens amontoadas no horizonte do lado ocidental e o astro radioso elevou-se
rapidamente.
Vi a terra com nitidez, com algumas árvores espalhadas aqui
e ali. O bote avançou para a ilha Manaar, que se situava para o sul. O Capitão Nemo
tinha se levantado do banco e observava o mar. A um sinal seu foi lançada a
âncora e a corrente mal deslizou porque o fundo ficava a pouco mais de um
metro, formando naquele local um dos mais altos pontos do banco de ostras. O
bote virou imediatamente sobre a âncora, impelido pela maré vazante que
empurrava para o largo.
- Chegamos, Sr. Aronnax - disse o Capitão Nemo. - Vê esta
baía estreita? É aqui que dentro de um mês se reunirão os numerosos barcos de
pesca e são estas as águas que os mergulhadores irão sondar, audaciosamente.
Por sorte, esta baía está naturalmente disposta para este gênero de pesca. Ela
está abrigada dos ventos mais fortes e aqui o mar nunca é bravo, circunstância
essa que favorece muito o trabalho dos pescadores. Vamos agora vestir os
escafandros - ordenou.
Com os olhos fitos naquelas águas suspeitas e sem dizer
nada, comecei a vestir a minha pesada roupa de mar, ajudado pelos marinheiros
do bote. O Capitão Nemo e meus dois companheiros vestiram-se também.
Nenhum dos tripulantes do “Nautilus” iria conosco.
Pouco depois estávamos metidos até o pescoço no vestuário de
borracha e com os aparelhos de ar presos às costas por meio de suspensórios.
Quanto aos aparelhos “Ruhmkorff” não os vi. Antes de meter a cabeça dentro do
capacete de cobre, perguntei por eles ao capitão.
- Não vamos precisar deles, Sr. Aronnax - informou-me. - Não
desceremos a grandes profundidades e os raios solares serão suficientes para nos
iluminar o caminho. Aliás não é prudente transportar uma lanterna elétrica
nestas águas, pois o seu brilho poderia atrair inopinadamente algum perigoso
habitante delas.
Quando o capitão pronunciou essas palavras, virei-me para
falar com Conselho e Ned Land, mas os meus dois amigos já haviam enfiado as cabeças
na cápsula de metal e não podiam ouvir e nem falar.
Faltava-me fazer uma última pergunta ao Capitão Nemo - E as
nossas espingardas, capitão?
- Para que espingardas? Então os montanheses não atacam os
ursos de punhal na mão? O aço é mais seguro do que o chumbo. Aqui tem uma afiada
lâmina. Ponha-a em sua cintura e partamos.
Olhei novamente para os meus companheiros. Estavam armados
como nós, mas Ned Land empunhava também o enorme arpão que tinha posto no barco
antes de deixar o “Nautilus”.
Deixei que me colocassem a pesada esfera de cobre na cabeça
e os nossos reservatórios de ar foram imediatamente postos a funcionar.
Descemos para um fundo de areia fina a metro e meio de
profundidade.
O capitão fez-nos sinal para que o seguíssemos e tomou por
um declive pouco acentuado. Em breve desaparecíamos sob as águas.
Então as idéias que me obcecavam desapareceram e eu me senti
espantosamente calmo. A facilidade com que me movimentava aumentou-me a disposição
e a beleza do espetáculo conquistou-me por completo.
O sol iluminava suficientemente as águas, tornando visíveis
os mais diminutos objetos. Após dez minutos de marcha nós nos encontrávamos a
cinco metros de profundidade e o fundo começava a ficar plano.
A nossa passagem, como bandos de marcejas num pântano,
levantavam-se cardumes de peixes. Reconheci o javanês, verdadeira serpente com
cerca de um metro de comprimento, ventre lívido, facilmente confundível com o
congro se não fossem as suas riscas douradas laterais.
A progressiva ascensão do sol iluminava cada vez mais as
águas. O solo ia mudando à proporção que andávamos. A areia fina sucedia-se uma
verdadeira calçada de calhaus rolados, revestidos por um tapete de moluscos e
zoófitos. Foi então que vi exemplares de um caranguejo enorme, classificado por
Darwin, ao qual a natureza deu o instinto e a força necessária para se
alimentar da noz do coco. Esse caranguejo trepa nos coqueiros da beira-mar, faz
cair os cocos quebrando-os na queda. Depois ele os abre com as suas poderosas
pinças e come a noz.
Sob as águas claras eles corriam com grande agilidade,
enquanto as tartarugas que habitam as costas de Malabar se deslocavam
lentamente entre as rochas.
Por volta das sete horas chegamos finalmente ao banco onde
as ostras perlíferas se reproduziam aos milhões. O Capitão Nemo apontou-me aquele
amontoado prodigioso de “pintadinas” e compreendi que aquela mina era
verdadeiramente inesgotável, porque a força criadora da natureza é superior ao
instinto de destruição do homem.
Ned Land apressou-se a encher uma rede que levava, com os
mais belos desses moluscos.
Contudo, não podíamos parar. Tínhamos de seguir o capitão
que parecia dirigir-se para um ponto determinado. O solo subia sensivelmente e
por vezes, se eu levantasse o braço ultrapassaria a superfície das águas.
Depois o nível do banco descia caprichosamente. Algumas vezes contornamos
rochedos de formas piramidais. Das suas sombrias anfratuosidades grandes
crustáceos apoiados nas compridas patas, como máquinas de guerra, olhavam-nos
fixamente.
Em certo ponto surgiu diante de nós uma enorme gruta,
escavada num pitoresco conjunto de rochedos cobertos de todas as algas da flora
submarina. A princípio a gruta pareceu-me extremamente escura. Os raios solares
pareciam difundir-se por gradações sucessivas e a sua vaga transparência não
passava de luz filtrada.
O Capitão Nemo entrou nela e nós o acompanhamos. Os meus
olhos se acostumaram rapidamente àquelas trevas relativas e distingui os assentos
da abóbada, de contornos caprichosos, suportada por pilares naturais assentes
numa base granítica, como pesadas colunas de arquitetura toscana. Por que nos
conduziria o nosso incompreensível guia ao fundo daquela gruta?
Depois de termos descido uma vertente bastante acentuada, os
nossos pés pisaram o fundo de uma espécie de poço circular onde o capitão se deteve
e apontou para um objeto que eu não tinha notado. Era uma ostra de dimensões
extraordinárias. Aproximei-me daquele gigantesco molusco. Estava preso a uma
mesa de granito e ali se desenvolvia isoladamente nas águas calmas da gruta.
Calculei o peso daquela ostra em cerca de trezentos quilos, tendo um recheio de
quinze quilos. Era evidente que o Capitão Nemo já conhecia a existência dela.
Não era a primeira vez que ele a visitava. Enganei-me ao
pensar que, conduzindo-nos àquele local, o capitão pretendesse apenas nos
mostrar uma curiosidade natural. Ele tinha um interesse especial em verificar o
estado da ostra.
As duas valvas do molusco estavam entreabertas. O capitão
aproximou-se e introduziu o punhal entre as conchas para impedi-las de se fecharem.
Depois levantou a túnica membranosa e franjada das bordas que formava a
cobertura do animal. Entre as pregas foliáceas, vi uma pérola solta cujo
tamanho era igual ao de uma noz de coqueiro. A sua forma globulosa, a sua
perfeita limpidez e o seu oriente admirável faziam dela uma jóia de preço
incalculável. Levado pela curiosidade estendi a mão- para pegá-la, tocá-la,
calcular-lhe o peso. Mas o capitão não permitiu. Fez-me um sinal negativo e
retirou o punhal com um movimento rápido deixando que as valvas se fechassem.
Compreendi então qual era a intenção dele. Ao deixar a
pérola escondida debaixo da cobertura da ostra, ele queria que ela crescesse
ainda mais. Ano após ano a secreção do molusco acrescentaria novas camadas
concêntricas ao seu tesouro. Só ele conhecia a gruta onde “amadurecia” aquele
admirável fruto do mar. Ele a criava para um dia levá-la para o seu museu.
Talvez tivesse sido ele próprio, seguindo o exemplo dos chineses
e dos indianos, a determinar a produção daquela pérola, introduzindo numa prega
do molusco um pedaço de vidro ou de metal que, pouco a pouco, foi se cobrindo
de matéria nacarada. Comparando aquela pérola com as que eu conhecia, calculei
o seu valor em dez milhões de francos. Ela representava uma soberba curiosidade
natural e não uma jóia de luxo, pois não existiam orelhas femininas que
pudessem usá-la.
A visita à opulenta pérola estava terminada. O Capitão Nemo
deixou a gruta e voltamos ao banco das “pintadinas”, no meio daquelas águas
claras ainda não perturbadas pelo trabalho dos mergulhadores.
Avançávamos separadamente, como se estivéssemos passeando em
uma avenida de nossas cidades, cada um de nós parando ou caminhando segundo a
sua vontade. Eu já não receava nenhum dos perigos que a minha imaginação tinha
exagerado tão ridiculamente. O fundo ia se aproximando da superfície e a minha
cabeça saiu à tona do mar. Conselho aproximou-se de mim e me fez um sinal
amistoso com os olhos.
Aquele planalto elevado media apenas alguns metros e logo
voltamos a ser cobertos pelas águas.
Dez minutos depois o capitão parou de repente. Ordenou-nos
com um gesto que nos escondêssemos, junto com ele, no fundo de uma grande cavidade.
Apontou para uma direção na massa líquida e eu olhei atentamente para o ponto
que ele indicava.
A cinco metros de nós apareceu uma sombra que desceu até o
solo. A inquietante idéia dos tubarões atravessou-me o espírito, mas não havia razão
para o meu temor. A sombra não era de nenhum dos monstros que eu tanto temia.
Era um homem, um pescador, um pobre-diabo que fora ceifar
antes da época da colheita, certamente premido por alguma dificuldade
imprevista. Não tardei a distinguir a quilha do seu barco fundeado a alguns pés
acima de nossas cabeças. Ele mergulhava e subia sem parar. Prestei
atenção no uso da pedra nos pés, para mergulhar mais
rapidamente, que ele punha em prática exatamente como o capitão me explicara.
Aquela pedra era toda a sua ferramenta. Chegado ao fundo, a
cerca de cinco metros de profundidade, ajoelhava-se e enchia um saco com ostras
apanhadas ao acaso. Subia a seguir, esvaziava o saco no bote, tornava a colocar
a pedra nos pés e recomeçava a operação que não durava mais de trinta segundos.
O mergulhador não nos via observando a sua penosa faina,
porque nos ocultávamos à sombra de um rochedo. Aliás, ele nunca poderia supor que
homens como ele estivessem a espreitá-lo debaixo da água, não perdendo um único
pormenor da sua pesca. Várias vezes ele mergulhou e tornou a subir recolhendo
não mais de uma dezena de ostras em cada mergulho. Tinha de arrancá-las do
banco a que estavam presas, com grande esforço. Quantas daquelas “pintadinas”
não tinham as pérolas pelas quais ele arriscava a sua vida?
Eli o observava como muita atenção. Movimentava-se
regularmente e durante cerca de meia hora nenhum perigo o ameaçou. De repente,
no momento em que ele estava ajoelhado eu o vi fazer um gesto de terror, levantar-se
e empreender a volta à superfície. Compreendi o seu pavor quando vi uma sombra
gigantesca aparecer por cima dele. Um tubarão enorme avançara em diagonal, de
olhos em brasa e mandíbulas abertas.
Fiquei horrorizado, incapaz de fazer um movimento.
O voraz animal, com um vigoroso golpe de barbatanas,
lançou-se sobre o indiano que se atirou para um lado, livrando-se da dentada do
monstro mas não da pancada de sua potente cauda. Atingido no peito, ele perdeu
os sentidos e voltou ao fundo do mar.
Toda essa cena durou apenas alguns segundos. O tubarão
voltou ao ataque virando-se de costas, preparado para cortar o pescador pelo meio.
Percebi o Capitão Nemo, que estava junto de mim, levantar-se com uma rapidez
incrível. De punhal na mão caminhou na direção do monstro, pronto para um
combate corpo a corpo.
O esqualo, no momento em que ia avançar sobre o indiano
desfalecido, notou o seu novo adversário. Voltou-se de barriga e se dirigiu ao
encontro dele. Dobrado sobre si mesmo, demonstrando um admirável sangue-frio, o
Capitão Nemo esperou o ataque da fera. Quando esta se precipitou para ele, o
capitão evitou o choque atirando-se para o lado com prodigiosa agilidade e deu
a primeira punhalada no ventre do animal. Desencadeou-se então uma luta
terrível.
O sangue jorrava dos ferimentos do tubarão. O mar tingiu-se
de vermelho e eu mal podia ver através daquele líquido opaco. Agarrado a uma das
barbatanas do furioso esqualo, com uma coragem que não estava muito longe da
loucura, o Capitão Nemo continuava a lutar e enchia de punhaladas o ventre do
inimigo, sem contudo conseguir desferir-lhe o golpe decisivo atingindo-lhe o
coração. Ao debater-se, o esqualo agitava as águas e os redemoinhos que
provocava quase me derruba vam.
Eu sentia a necessidade de ir em socorro do capitão, mas
confesso que o medo me paralisava os movimentos. De olhos esgazeados eu via as fases
da luta se modificando em frações de segundos. De repente o capitão caiu
derrubado por aquela massa enorme, viva e enlouquecida pela dor. Tanto quanto o
homem, a fera precisava de matar o seu inimigo, para continuar vivendo. Vi as
mandíbulas do tubarão se abrirem desmedidamente, e ia cerrando os olhos para
não vê-las se fecharem sobre o corpo do Capitão Nemo quando Ned Land atacou com
o seu arpão. Cravou-o certeiramente no coração do monstro!
As águas ficaram impregnadas de uma massa de sangue e
agitaram-se mais revoltas com os movimentos do esqualo. Era o estertor da fera vencida
pelo homem.
Ned Land salvara a vida do Capitão Nemo. Escapando sem
ferimentos ele se dirigiu imediatamente para o pescador, cortou a corda que o ligava
à pedra, pegou-o nos braços e subiu com ele para a superfície.
Nós o seguimos e chegamos ao bote do indiano depois de
termos sido milagrosamente salvos.
O primeiro cuidado do Capitão Nemo foi reanimar o pescador.
Eu duvidava de que o conseguisse, não porque ele estivera submerso por um tempo
excessivo, mas porque a pancada da cauda do tubarão o teria atingido
mortalmente.
Porém, com as vigorosas massagens de Conselho e do capitão,
vi que o afogado ia aos poucos recuperando os sentidos. Abriu os olhos. Qual não
terá sido o seu espanto, o seu medo até, ao ver as quatro grandes cabeças de
cobre que se debruçavam sobre ele! O que terá pensado quando o Capitão Nemo
tirou do bolso um saquinho cheio de pérolas e o colocou em suas mãos? Notei que
ele tremia ao aceitar a magnífica esmola do homem das águas. Os seus olhos
espantados indicavam claramente o seu temor diante dos seres estranhos aos
quais devia, ao mesmo tempo, a vida e a fortuna.
A um sinal do capitão retornamos ao banco de ostras.
Seguimos o caminho já percorrido e após meia hora de marcha chegamos ao bote do
“Nautilus”. Uma vez a bordo, ajudados pelos marinheiros, nos desembaraçamos das
nossas estranhas indumentárias.
As primeiras palavras do Capitão Nemo foram para o
canadense.
- Obrigado, mestre Land - disse ele, com simplicidade.
- Eu estava em dívida com o senhor, capitão.
Os lábios do Capitão Nemo se distenderam num sorriso pálido
e foi tudo que se falaram sobre o fato.
- Para o “Nautilus” - ordenou o capitão.
As oito e meia estávamos a bordo do submarino.
Refletindo sobre os incidentes de nossa excursão ao banco de
ostras, duas observações surgiram inevitavelmente em minhas conclusões. Uma delas
dizia respeito à audácia do Capitão Nemo. Eu mal podia acreditar que um ser
humano fosse dotado de tanta coragem. A outra fora a dedicação que demonstrara
por um homem, por um representante da raça de que ele fugia. Aquele estranho
Capitão Nemo ainda não conseguira matar completamente dentro de si os seus bons
sentimentos.
Quando lhe fiz notar isso, respondeu-me um pouco comovido - Esse indiano, professor, é um habitante de regiões oprimidas e eu sou e sempre serei dessas regiões.

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