quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 - Capítulo 03 e 04


 Capítulo 3 e 4

Durante o dia 29 de janeiro, a ilha de Ceilão desapareceu no horizonte.

Navegando à velocidade de vinte milhas por hora, o “Nautilus” penetrou no labirinto de canais que separa as Maldivas, das Laquedivas.

Passou ao largo da ilha Kittan, terra de origem madrepórica descoberta por Vasco da Gama em 1499 e uma das principais ilhas do Arquipélago das Laquedivas.

No dia seguinte, 30 de janeiro, quando o submarino subiu à superfície não havia nenhuma terra à vista. Ele seguia a rota noroeste e se dirigia para o Mar de Omã, encravado entre a Arábia e a península da índia, onde desemboca o Golfo Pérsico.

Para onde estaria nos conduzindo o Capitão Nemo? Eu o ignorava por completo. Quando Ned Land me perguntou para onde íamos, não tive uma resposta para dar a ele.

- Vamos para onde a fantasia do Capitão Nemo quiser - foi o que pude responder.

- Essa fantasia não o levará longe - respondeu Ned Land. - O Golfo Pérsico não tem saída e se lá entrarmos não tardaremos a voltar para trás.

- Pois bem, mestre Land, voltaremos. Se depois do Golfo Pérsico o capitão quiser visitar o Mar Vermelho, o Estreito de Bab-el-Mandeb continua lá para nos dar passagem.

- Não sou eu que vou querer ensiná-lo alguma coisa, professor. Mas o Mar Vermelho está tão fechado como o golfo, uma vez que o Istmo de Suez ainda não foi aberto. Mesmo que estivesse pronta essa passagem, um navio. misterioso como o nosso não se arriscaria naqueles canais cheios de comportas. Portanto, o Mar Vermelho não será o caminho que nos conduzirá à Europa.

- Eu não disse que íamos a caminho da Europa.

- O que acha então?

- Acho que - disse eu - depois de ter visitado essas curiosas regiões da Arábia e do Egito, o “Nautilus” tornará a descer o Oceano indico, talvez através do Canal de Moçambique, talvez ao largo das Mascarenhas, de forma a chegar ao Cabo da Boa Esperança.

- E uma vez chegados ao Cabo da Boa Esperança? - perguntou o canadense, com teimosa insistência.

- Uma vez chegados lá, penetraremos no Atlântico, que ainda não conhecemos. Meu amigo Ned, não me diga que não está gostando de nossa viagem submarina! Aborrece-se com o espetáculo incessantemente variado das maravilhas que temos visto? Quanto a mim, confesso que veria com grande tristeza acabar esta viagem.

- Mas, Sr. Aronnax, parece ter esquecido que há três meses estamos prisioneiros a bordo deste barco.

- Possivelmente, Ned. Tenho encontrado suficientes motivos para não contar nem horas e nem dias.

- A que conclusão vamos chegar, professor?

- A conclusão virá no tempo devido. Vamos esperá-la. Aliás, nada podemos fazer e por isso discutimos inutilmente. Se você vier me dizer que surgiu uma possibilidade de evasão poderemos discuti-la, mas não temos nada assim em vista. Para lhe falar francamente, acho que o Capitão Nemo nunca se aventurará nos mares europeus.

Essa minha conversa com Ned Land dá bem uma idéia de como eu estava fanatizado pelo “Nautilus” e de quanto me sentia solidário com o seu comandante. Quanto ao canadense, ele terminou o nosso diálogo com algumas palavras praticamente monologadas:

- Tudo isso pode ser muito bonito e bom, mas na minha opinião, onde há obrigação não pode haver prazer.

Saiu em seguida, deixando-me sozinho.

Durante quatro dias, até 3 de fevereiro, o “Nautilus” esteve no Mar de Omã, navegando a diversas velocidades e profundidades. Parecia navegar ao acaso, como se hesitasse na rota a seguir. Mas nunca ultrapassou o Trópico de Câncer.

Ao deixarmos esse mar avistamos de passagem a cidade, de Mascate, a mais importante daquela região. Admirei-lhe o aspecto estranho no meio dos rochedos negros que a rodeiam e sobre os quais se destacam as casas e os fortes pintados de branco. Distingui as abóbadas arredondadas de suas mesquitas, as agulhas elegantes dos seus minaretes, os seus frescos e verdejantes terraços. Mas tudo não passou de uma rápida visão e o “Nautilus” não demorou a mergulhar novamente nas águas sombrias.

Depois, a uma distância de seis milhas percorreu as costas arábicas de Mahrah e Hadramaut, com as suas linhas onduladas de montanhas. A 5 de fevereiro entramos finalmente no Golfo de Adem, verdadeiro funil metido no Estreito de Bab-el-Mandeb, onde entram as águas indicas do Mar Vermelho.

A 6 de fevereiro, o submarino vagava à vista de Adem, empoleirada num promontório e ligada ao continente por um estreito istmo, uma espécie de Gibraltar inacessível, cujas fortificações foram reconstruídas pelos ingleses depois de o terem dominado em 1839. Distingui os minaretes octogonais dessa cidade que foi outrora o entreposto mais rico e com mais comércio da costa, segundo o historiador Edrisi.

No dia seguinte de fevereiro, entramos no Estreito de Bab-el-Mandeb cujo nome na língua árabe quer dizer “a porta das lágrimas”. Esse canal tem apenas vinte milhas de largura e dois quilômetros de comprimento.

O “Nautilus”, navegando a toda velocidade, atravessou-o em uma hora, mantendo-se sempre submerso. A passagem era cruzada por muitos vapores ingleses e franceses das linhas de Suez a Bombaim, a Calcutá, a Melbourne, a Bourbon, e a Maurícia. Logicamente o nosso submarino não poderia se arriscar na superfície daquelas águas.

Finalmente ao meio-dia sulcávamos as águas do Mar Vermelho, esse célebre lago de tradições bíblicas, que as chuvas nunca refrescam, que não é regado por nenhum rio importante, que uma evaporação excessiva absorve todos os anos uma camada líquida com um metro e meio de altura!

Nem sequer tentei compreender o capricho que levara o Capitão Nemo até ali. Fosse ele qual fosse, eu o aprovei sem reservas.

A 8 de fevereiro, desde as primeiras horas do dia, avistamos Moca, cidade em ruínas, cujas muralhas não mais resistiriam ao simples troar de um canhão. Outrora ela fora um centro importante, com vários mercados públicos, vinte e seis mesquitas e uma muralha de três quilômetros de comprimento com quatorze fortes.

Depois o “Nautilus” aproximou-se das margens africanas onde a profundidade do mar é maior. Ali podíamos admirar, através dos painéis abertos, os belos corais e as vastas extensões de rochedos revestidos de uma esplêndida cobertura de algas. Que espetáculo indescritível e que variedade de locais e paisagens deslumbrantes se descortina nas ilhotas vulcânicas que confinam na costa líbia!

A 9 de fevereiro o “Nautilus” navegava na parte mais larga do Mar Vermelho, a que fica compreendida entre Suakin na costa oeste e Quonfodah na costa leste. Nesse dia às doze horas o Capitão Nemo subiu à plataforma onde eu me encontrava. Prometi a mim mesmo não o deixar descer sem sondá-lo sobre os seus projetos futuros. Assim que me viu ele se dirigiu para mim e me ofereceu um cigarro.

- Observou bem as maravilhas do Mar Vermelho, professor? - perguntou-me, com um semblante alegre.

- Sim, capitão. Vi coisas notáveis. O “Nautilus” presta-se maravilhosamente bem para essas observações. É sem dúvida um barco inteligente!

Estou encantado.

- É um barco inteligente, audacioso e invulnerável, professor. Não receia nem as terríveis tempestades, nem as correntes, nem os escolhos do Mar Vermelho.

- De fato, capitão, este mar é citado entre os mais perigosos do globo.

Na antiguidade a sua fama era horrível.

- Exatamente, professor. Os historiadores gregos e latinos nunca falam bem dele. Estrabão afirma que ele é particularmente perigoso na época dos ventos etésios e na estação das chuvas. O árabe Edrisi, que o chama de Golfo de Colzum, conta que numerosos navios encalhavam nos seus bancos de areia e que ninguém se arriscava a navegar nele à noite. Era, ainda segundo Edrisi, um mar sujeito a terríveis furacões, semeado de ilhas inóspitas e “não oferece nada de bom”, nem nas suas profundezas nem à superfície.

- Vê-se bem que esses historiadores não viajaram a bordo do “Nautilus” - falei, certo de que o capitão ficaria satisfeito.

- É verdade - concordou ele sorrindo. - Quanto a viajar em barcos iguais ao meu, os homens de hoje não estão mais adiantados do que os antigos. Foram precisos muitos séculos para que se descobrisse a força mecânica do vapor. Quem sabe se de hoje a cem anos se verá um segundo “Nautilus”? O progresso é quase sempre lento, Sr. Aronnax.

- De fato, capitão, o seu barco está avançado um século ou talvez mais em relação à sua época. Que infelicidade que este segredo deva morrer com o seu inventor!

O Capitão Nemo não me respondeu.

Percebi que minha observação não tinha sido feliz, mas o nosso diálogo me interessava. Para retomá-lo, lhe fiz uma pergunta que sabia ser do seu agrado.

- Pode me informar sobre a origem do nome deste mar, capitão?

- Existem numerosas explicações sobre o assunto. Quer saber a opinião de um cronista do século XIV?

- Com todo o gosto.

- Esse fantasista pretende que o nome lhe foi dado depois da passagem dos israelitas, quando o faraó e o seu povo teriam perecido nas águas que se fecharam a uma ordem de Moisés: “Devido a este milagre tornou-se o mar vermelho e não sabendo como nomeá-lo, Mar Vermelho lhe chamaram.”

- Explicação de poeta, Capitão Nemo, com a qual não me contento.

Gostaria de saber a sua opinião pessoal.

- Pois, Sr. Aronnax, na minha opinião deve-se ver neste nome uma tradução da palavra hebraica “edrom”. Se os antigos lhe deram esse nome foi por causa da cor característica de suas águas.

- Mas até agora só vi águas límpidas, sem qualquer coloração especial.

Observei isso, premeditadamente.

- Sem dúvida. Mas avançando para o extremo do golfo o senhor irá notar essa aparência peculiar. Lembro-me de ter visto a Baía de Tor completamente vermelha, igual a um lago de sangue.

- E o senhor atribui essa cor à presença de alguma alga?

- Sim. Trata-se de uma matéria mucilaginosa purpúrea produzida por plântulas conhecidas pelo nome de “trichodesmies”.

- Já que me falou da passagem dos israelitas e da catástrofe sofrida pelos egípcios, gostaria de saber se encontrou sob as águas algum vestígio desse grande acontecimento histórico.

- Não, e por um bom motivo.

- Qual?

- É que o local exato onde Moisés passou com o seu povo está hoje completamente atulhado de areia, de tal forma que os camelos o atravessam sem quase molhar as patas. O “Nautilus” não poderia lá chegar.

- E o local exato... ? - perguntei.

- Fica situado um pouco acima de Suez, no braço que outrora formava um profundo estuário, quando o Mar Vermelho se estendia até os lagos salgados. Se a passagem foi milagrosa ou não, não posso afirmar, mas que os israelitas lá passaram para chegar à Terra Prometida e que os egípcios lá pereceram não tenho dúvidas. Penso que escavações feitas no local revelariam grande quantidade de armas de origem egípcia.

- Temos de esperar que os arqueólogos façam essas escavações. Isso acontecerá mais cedo ou mais tarde, quando se estabelecerem cidades novas na região, depois de aberto o Canal de Suez. Aliás, lembro-me de dizer que esse canal será completamente inútil para um barco como o seu, capitão.

- Será útil ao mundo inteiro, professor. Os povos antigos já tinham compreendido que seria útil para os seus negócios estabelecer uma comunicação entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, mas nunca imaginaram cavar um canal direto entre os dois mares e escolheram o Nilo como ligação intermediária. O precário canal que ligava o Nilo ao Mar Vermelho acabou-se antes do ano mil da nossa era.

- O que os povos antigos não ousaram empreender, a junção entre os dois mares, que encurtará em nove mil quilômetros o caminho de Cádis à índia, foi feito por Lesseps e dentro de pouco tempo transformará a África numa enorme ilha.

- Sim, professor. O senhor tem o direito de se sentir orgulhoso do seu compatriota. É um homem que honra a sua pátria. Começou, como tantos outros, por ter contrariedades e ouvir recusas, mas acabou por triunfar porque tem gênio e vontade. Honra portanto a Lesseps!

- Sim, honra seja feita a esse grande cidadão - falei, surpreendido com o entusiasmo do capitão.

- Infelizmente não posso conduzi-lo através do Canal de Suez, mas poderá ver Port Said depois de amanhã, quando entrarmos no Mediterrâneo.

- No Mediterrâneo! - exclamei.

- Sim, professor. Isso o surpreende.

- O que me surpreende é estarmos lá depois de amanhã, embora já esteja me acostumando a não me surpreender com coisa alguma desde que estou a bordo do “Nautilus”.

- Então, qual é a surpresa?

- É a velocidade fantástica que o senhor terá de imprimir ao seu barco para chegarmos ao Mediterrâneo em apenas dois dias. Terá que contornar a Africa e dobrar o Cabo da Boa Esperança!

- E quem lhe disse que faremos a volta à África? Quem lhe falou em dobrarmos o Cabo da Boa Esperança?

- A não ser que o “Nautilus” navegue em terra firme e passe por cima do istmo...

- Ou por baixo, Sr. Aronnax.

- Por baixo?

- Sem dúvida - respondeu-me tranquilamente o capitão. - Há muito tempo que a natureza fez sob esta língua de terra o que os homens fazem agora por cima. Existe uma passagem subterrânea à qual dei o nome de Túnel Árabe. Começa por baixo de Suez e acaba no Golfo de Pelusa.

- E foi por acaso que descobriu essa passagem? - perguntei, cada vez mais surpreendido.

- Foi o acaso e também o raciocínio, professor. Diria até que foi mais oraciocínio do que o acaso.

- Estou a ouvi-lo, capitão, mas os meus ouvidos continuam a duvidar do que ouvem.

- Foi um simples raciocínio de naturalista que me levou à descoberta dessa passagem que só eu conheço. Notei que no Mar Vermelho e no Mediterrâneo existem certos peixes de espécies absolutamente idênticas. Ciente disso, interroguei-me se não existiria comunicação entre os dois mares. Se existisse, a corrente subterrânea tinha forçosamente de correr do Mar Vermelho para o Mediterrâneo, devido à diferença de níveis. Assim, pesquei numerosos peixes nas margens do Suez, pus-lhes anilhas nas caudas e lancei-os de novo ao mar. Alguns meses mais tarde, nas costas da Síria apanhei alguns peixes com os meus anéis. A comunicação entre os dois mares estava portanto provada. Procurei-a com o “Nautilus” e a descobri. Aventurei-me por ela e deu certo. Aliás, em pouco tempo o senhor estará passando pelo meu Túnel Árabe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O SILÊNCIO DAS MONTANHAS