Capítulo 1
Aqui começa a segunda parte dessa viagem submarina. A
primeira terminou com a comovente cena do cemitério de coral, que deixou no meu
espírito a mais profunda emoção. Assim, no seio do mar imenso, decorria a vida
do Capitão Nemo e aí ele ficaria até a morte, já que tinha preparado o seu
túmulo no mais impenetrável dos seus abismos, onde nenhum dos monstros do
oceano poderia ir perturbar o último sono do comandante e dos tripulantes do
“Nautilus”, esses amigos unidos uns aos outros tanto na vida como na morte
“Nenhum homem também”, acrescentara o capitão, iria perturbar lhes o sono
eterno. Sempre a mesma desconfiança, feroz e implacável, para com as sociedades
humanas.
Quanto a mim, no que dizia respeito ao Capitão Nemo já não
me contentava com as hipóteses que satisfaziam Conselho. Para ele, o capitão
era um gênio incompreendido que, farto das decepções da terra, tinha se
refugiado naquele meio inacessível onde os seus instintos atuavam livremente.
Todavia, na minha opinião, essa hipótese explicava apenas uma das facetas do
Capitão Nemo.
Efetivamente, o mistério da noite durante a qual ele havia
nos metido na prisão e nos narcotizado, a sua atitude violenta ao me tirar o
óculo das mãos, o ferimento mortal daquele homem, tudo isso ultrapassava o natural.
Para mim o Capitão Nemo não se contentava apenas em fugir dos homens. O seu
formidável submarino servia não somente aos seus anseios de liberdade, mas
também para exercer quaisquer terríveis represálias.
Felizmente nada nos ligava a ele. Nem sequer éramos
prisioneiros sob palavra. Não nos unia qualquer compromisso de honra. Não
passávamos de cativos, de prisioneiros disfarçados sob o nome de hóspedes por
uma simples amabilidade. No entanto, Ned Land ainda não renunciara à esperança
de recuperar a liberdade, e não deixaria de aproveitar a primeira oportunidade
que lhe surgisse. Certamente que eu faria o mesmo, mas seria com certa saudade
da generosidade do capitão.
Afinal, aquele homem deveria ser odiado ou admirado? Era ele
uma vítima ou um carrasco? Para ser franco, eu gostaria de, antes de abandonar
para sempre o navio, completar a volta ao mundo submarino, cujo início tinha
sido maravilhoso. Eu gostava de ver o que nenhum homem ainda vira, mesmo tendo
de pagar com a vida essa insaciável necessidade de aprender.
No dia 21 de janeiro de 1868, o imediato foi medir a altura
do sol. Subi à plataforma, acendi um cigarro e segui a operação. Parecia-me
evidente que aquele homem não compreendia o francês, porque várias vezes fiz
reflexões em voz alta, que certamente teriam provocado nele qualquer sinal de
atenção se as compreendesse.
Quando o “Nautilus” se preparou para retomar a sua marcha
submarina, desci ao salão. Os alçapões foram fechados e rumamos diretamente para
o oeste. Sulcávamos então as águas do Oceano Índico, vasta planície líquida com
quinhentos e cinquenta milhões de hectares, cujas águas são tão transparentes
que chegam a provocar vertigens em quem se debruça sobre a sua superfície. O
“Nautilus” navegava a uma profundidade média de cem a duzentos metros. E foi
assim durante vários dias. Para qualquer outra pessoa que não sentisse o meu
imenso amor pelo mar, as horas teriam certamente parecido longas e monótonas.
Mas os passeios quotidianos pela plataforma, onde me refazia
com o ar vivificante do oceano, o espetáculo das águas através dos vidros do salão,
a leitura dos livros da biblioteca e a redação das minhas memórias ocupavam-me
o tempo todo, não me deixando um momento sequer de descanso ou mesmo de tédio.
No dia 24 pela manhã, avistamos a ilha Keeling, de origem madrepórica,
ornada de magníficos coqueiros, que foi visitada por Darwin e pelo Capitão
Fitz-Roy. O “Nautilus” passou a pouca distância dessa ilha deserta. As redes
apanharam curiosas conchas em suas imediações. Em breve a ilha Keeling
desaparecia no horizonte. Seguimos para noroeste, em direção ao extremo da
península indiana.
- Terras de gente civilizada - disse-me Ned Land naquele
dia. – São melhores do que as ilhas da Papuásia onde há mais selvagens do que cabritos.
Na índia, professor, há estradas, estradas de ferro, cidades inglesas,
francesas e hindus. Não se anda cinco milhas sem se encontrar um compatriota.
Não será ocasião de abandonarmos as delicadezas com o Capitão Nemo?
- Não, Ned - respondi-lhe num tom resoluto. - Deixemos
correr, como dizem os marinheiros. O “Nautilus” está se aproximando de
continentes habitados e talvez tome o rumo da Europa. Uma vez chegados aos nossos
mares, veremos o que a prudência nos aconselha a fazer. Aliás, acho que o
Capitão Nemo não nos autorizará a ir caçar nas costas de Malabar ou de
Choromândel, como nas florestas da Nova Guiné.
- E não podemos ir sem a autorização dele?
Não respondi ao canadense, porque não queria discutir. No
fundo, eu desejava esgotar até o fim os acasos do destino que me tinham lançado
para bordo do “Nautilus”.
Depois de passarmos pela ilha Keeling, a nossa velocidade
diminuiu.
Por outro lado, navegamos várias vezes a grandes
profundidades.
Foram muito utilizados os planos inclinados. Alavancas
internas podiam colocar o barco obliquamente na linha de flutuação. Navegávamos
assim dois ou três quilômetros, mas sem nunca tocar o fundo do Indico.
A 25 de janeiro, com o mar completamente deserto, o
“Nautilus” passou o dia na superfície, batendo as ondas com a sua poderosa
hélice e fazendo-as saltar a grande altura. Nessas condições, como seria possível
não o tomar por um cetáceo gigantesco? Três quartos do dia passei-os na
plataforma olhando o mar. Nada no horizonte, a não ser, por volta das quatro
horas da tarde, um vapor que seguia para oeste. A sua mastreação foi visível
por um instante. Semi-submerso, o “Nautilus” não seria visível para a
tripulação dele.
As cinco da tarde, antes do rápido crepúsculo que liga o dia
e a noite nas zonas tropicais, eu e Conselho assistimos maravilhados a um belo espetáculo.
Tratava-se de um curioso animal cujo encontro, segundo os
Antigos, augurava boa sorte. Aristóteles, Ateneu, Plínio e O piano tinham-lhe estudado
os gostos e esgotado toda a poética dos sábios da Grécia e da Itália com ele.
Chamaram-lhe “nautilus” e “pompylius”, mas a ciência moderna não ratificou
esses nomes e o molusco em causa denomina-se hoje argonauta.
Ora, era precisamente um cardume de argonautas que viajava
então à superfície do oceano. Conseguimos contar várias centenas, pertencentes à
espécie dos argonautas tuberculares, característicos dos mares da índia.
- O argonauta pode deixar a sua concha, mas nunca o faz -
disse eu a Conselho.
- É como o Capitão Nemo - respondeu ele, judiciosamente. -
Por isso devia ter chamado ao seu navio o “Argonauta”.
Durante cerca de uma hora o “Nautilus” flutuou no meio
daqueles milhares de moluscos. Depois, não sei o que lhes deu. Como que obedecendo
a um sinal convencionado, todas as velas foram subitamente arriadas, os
tentáculos dobrados, os corpos contraídos, as conchas fechadas alterando o seu
centro de gravidade e toda a flotilha desapareceu sob as águas. Foi instantâneo
e nunca uma esquadra manobrou com Tanta precisão.
Naquele momento a noite caiu de repente, e as ondas se
alongaram sobre o costado do “Nautilus”.
No dia seguinte, 26 de janeiro, passamos o Equador no
meridiano oitenta e dois e entramos no hemisfério boreal. Durante esse dia
fomos escoltados por um enorme cardume de esqualos, terríveis animais que pululam
naqueles mares,. tornando-os perigosos. Esses poderosos predadores
precipitaram-se várias vezes contra o vidro do salão, com uma violência pouco tranquilizadora.
Ned Land já não se controlava.
Queria subir à superfície e arpoar os monstros, sobretudo
alguns esqualos-lixas, cujas goelas estão cheias de dentes dispostos em
mosaico, e os grandes esqualos-tigres, com cinco metros de comprimento, que o
provocavam com uma certa insistência. Porém, aumentando a velocidade, o
“Nautilus” não tardou em deixar para trás os mais velozes desses tubarões.
A 27 de janeiro, à entrada do vasto golfo de Bengala
deparou-se-nos um espetáculo bem sinistro: cadáveres que flutuavam à superfície
das águas. Eram os mortos das cidades indianas, arrastados pelo Ganges até o
alto mar. Os abutres, únicos coveiros daquela região, não tinham conseguido
devorar todos eles. Os esqualos terminariam a macabra tarefa.
Por volta das sete horas da noite, o “Nautilus”
semi-submerso navegava num mar de leite. A perder de vista, a brancura das
águas era um fenômeno que intrigava o meu criado.
- O senhor poderá me dizer qual a causa disso, professor?
- Perfeitamente, meu rapaz. Essa coloração de leite é
causada por miríades de pequenos vermes luminosos, de aspecto gelatinoso e incolor,
com a espessura de um cabelo e cujo comprimento não ultrapassa um quinto de
milímetro. Aderem uns aos outros numa extensão que pode chegar a várias
léguas..
- Várias léguas! - admirou-se Conselho.
- Exatamente. Por favor, não tente calcular o número deles.
Não sei se Conselho teve em conta a minha recomendação, mas pareceu-me vê-lo mergulhado em reflexões profundas.

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