quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 2 - Capítulo 01

Capítulo 1

Aqui começa a segunda parte dessa viagem submarina. A primeira terminou com a comovente cena do cemitério de coral, que deixou no meu espírito a mais profunda emoção. Assim, no seio do mar imenso, decorria a vida do Capitão Nemo e aí ele ficaria até a morte, já que tinha preparado o seu túmulo no mais impenetrável dos seus abismos, onde nenhum dos monstros do oceano poderia ir perturbar o último sono do comandante e dos tripulantes do “Nautilus”, esses amigos unidos uns aos outros tanto na vida como na morte “Nenhum homem também”, acrescentara o capitão, iria perturbar lhes o sono eterno. Sempre a mesma desconfiança, feroz e implacável, para com as sociedades humanas.

Quanto a mim, no que dizia respeito ao Capitão Nemo já não me contentava com as hipóteses que satisfaziam Conselho. Para ele, o capitão era um gênio incompreendido que, farto das decepções da terra, tinha se refugiado naquele meio inacessível onde os seus instintos atuavam livremente. Todavia, na minha opinião, essa hipótese explicava apenas uma das facetas do Capitão Nemo.

Efetivamente, o mistério da noite durante a qual ele havia nos metido na prisão e nos narcotizado, a sua atitude violenta ao me tirar o óculo das mãos, o ferimento mortal daquele homem, tudo isso ultrapassava o natural. Para mim o Capitão Nemo não se contentava apenas em fugir dos homens. O seu formidável submarino servia não somente aos seus anseios de liberdade, mas também para exercer quaisquer terríveis represálias.

Felizmente nada nos ligava a ele. Nem sequer éramos prisioneiros sob palavra. Não nos unia qualquer compromisso de honra. Não passávamos de cativos, de prisioneiros disfarçados sob o nome de hóspedes por uma simples amabilidade. No entanto, Ned Land ainda não renunciara à esperança de recuperar a liberdade, e não deixaria de aproveitar a primeira oportunidade que lhe surgisse. Certamente que eu faria o mesmo, mas seria com certa saudade da generosidade do capitão.

Afinal, aquele homem deveria ser odiado ou admirado? Era ele uma vítima ou um carrasco? Para ser franco, eu gostaria de, antes de abandonar para sempre o navio, completar a volta ao mundo submarino, cujo início tinha sido maravilhoso. Eu gostava de ver o que nenhum homem ainda vira, mesmo tendo de pagar com a vida essa insaciável necessidade de aprender.

No dia 21 de janeiro de 1868, o imediato foi medir a altura do sol. Subi à plataforma, acendi um cigarro e segui a operação. Parecia-me evidente que aquele homem não compreendia o francês, porque várias vezes fiz reflexões em voz alta, que certamente teriam provocado nele qualquer sinal de atenção se as compreendesse.

Quando o “Nautilus” se preparou para retomar a sua marcha submarina, desci ao salão. Os alçapões foram fechados e rumamos diretamente para o oeste. Sulcávamos então as águas do Oceano Índico, vasta planície líquida com quinhentos e cinquenta milhões de hectares, cujas águas são tão transparentes que chegam a provocar vertigens em quem se debruça sobre a sua superfície. O “Nautilus” navegava a uma profundidade média de cem a duzentos metros. E foi assim durante vários dias. Para qualquer outra pessoa que não sentisse o meu imenso amor pelo mar, as horas teriam certamente parecido longas e monótonas.

Mas os passeios quotidianos pela plataforma, onde me refazia com o ar vivificante do oceano, o espetáculo das águas através dos vidros do salão, a leitura dos livros da biblioteca e a redação das minhas memórias ocupavam-me o tempo todo, não me deixando um momento sequer de descanso ou mesmo de tédio.

No dia 24 pela manhã, avistamos a ilha Keeling, de origem madrepórica, ornada de magníficos coqueiros, que foi visitada por Darwin e pelo Capitão Fitz-Roy. O “Nautilus” passou a pouca distância dessa ilha deserta. As redes apanharam curiosas conchas em suas imediações. Em breve a ilha Keeling desaparecia no horizonte. Seguimos para noroeste, em direção ao extremo da península indiana.

- Terras de gente civilizada - disse-me Ned Land naquele dia. – São melhores do que as ilhas da Papuásia onde há mais selvagens do que cabritos. Na índia, professor, há estradas, estradas de ferro, cidades inglesas, francesas e hindus. Não se anda cinco milhas sem se encontrar um compatriota. Não será ocasião de abandonarmos as delicadezas com o Capitão Nemo?

- Não, Ned - respondi-lhe num tom resoluto. - Deixemos correr, como dizem os marinheiros. O “Nautilus” está se aproximando de continentes habitados e talvez tome o rumo da Europa. Uma vez chegados aos nossos mares, veremos o que a prudência nos aconselha a fazer. Aliás, acho que o Capitão Nemo não nos autorizará a ir caçar nas costas de Malabar ou de Choromândel, como nas florestas da Nova Guiné.

- E não podemos ir sem a autorização dele?

Não respondi ao canadense, porque não queria discutir. No fundo, eu desejava esgotar até o fim os acasos do destino que me tinham lançado para bordo do “Nautilus”.

Depois de passarmos pela ilha Keeling, a nossa velocidade diminuiu.

Por outro lado, navegamos várias vezes a grandes profundidades.

Foram muito utilizados os planos inclinados. Alavancas internas podiam colocar o barco obliquamente na linha de flutuação. Navegávamos assim dois ou três quilômetros, mas sem nunca tocar o fundo do Indico.

A 25 de janeiro, com o mar completamente deserto, o “Nautilus” passou o dia na superfície, batendo as ondas com a sua poderosa hélice e fazendo-as saltar a grande altura. Nessas condições, como seria possível não o tomar por um cetáceo gigantesco? Três quartos do dia passei-os na plataforma olhando o mar. Nada no horizonte, a não ser, por volta das quatro horas da tarde, um vapor que seguia para oeste. A sua mastreação foi visível por um instante. Semi-submerso, o “Nautilus” não seria visível para a tripulação dele.

As cinco da tarde, antes do rápido crepúsculo que liga o dia e a noite nas zonas tropicais, eu e Conselho assistimos maravilhados a um belo espetáculo.

Tratava-se de um curioso animal cujo encontro, segundo os Antigos, augurava boa sorte. Aristóteles, Ateneu, Plínio e O piano tinham-lhe estudado os gostos e esgotado toda a poética dos sábios da Grécia e da Itália com ele. Chamaram-lhe “nautilus” e “pompylius”, mas a ciência moderna não ratificou esses nomes e o molusco em causa denomina-se hoje argonauta.

Ora, era precisamente um cardume de argonautas que viajava então à superfície do oceano. Conseguimos contar várias centenas, pertencentes à espécie dos argonautas tuberculares, característicos dos mares da índia.

- O argonauta pode deixar a sua concha, mas nunca o faz - disse eu a Conselho.

- É como o Capitão Nemo - respondeu ele, judiciosamente. - Por isso devia ter chamado ao seu navio o “Argonauta”.

Durante cerca de uma hora o “Nautilus” flutuou no meio daqueles milhares de moluscos. Depois, não sei o que lhes deu. Como que obedecendo a um sinal convencionado, todas as velas foram subitamente arriadas, os tentáculos dobrados, os corpos contraídos, as conchas fechadas alterando o seu centro de gravidade e toda a flotilha desapareceu sob as águas. Foi instantâneo e nunca uma esquadra manobrou com Tanta precisão.

Naquele momento a noite caiu de repente, e as ondas se alongaram sobre o costado do “Nautilus”.

No dia seguinte, 26 de janeiro, passamos o Equador no meridiano oitenta e dois e entramos no hemisfério boreal. Durante esse dia fomos escoltados por um enorme cardume de esqualos, terríveis animais que pululam naqueles mares,. tornando-os perigosos. Esses poderosos predadores precipitaram-se várias vezes contra o vidro do salão, com uma violência pouco tranquilizadora. Ned Land já não se controlava.

Queria subir à superfície e arpoar os monstros, sobretudo alguns esqualos-lixas, cujas goelas estão cheias de dentes dispostos em mosaico, e os grandes esqualos-tigres, com cinco metros de comprimento, que o provocavam com uma certa insistência. Porém, aumentando a velocidade, o “Nautilus” não tardou em deixar para trás os mais velozes desses tubarões.

A 27 de janeiro, à entrada do vasto golfo de Bengala deparou-se-nos um espetáculo bem sinistro: cadáveres que flutuavam à superfície das águas. Eram os mortos das cidades indianas, arrastados pelo Ganges até o alto mar. Os abutres, únicos coveiros daquela região, não tinham conseguido devorar todos eles. Os esqualos terminariam a macabra tarefa.

Por volta das sete horas da noite, o “Nautilus” semi-submerso navegava num mar de leite. A perder de vista, a brancura das águas era um fenômeno que intrigava o meu criado.

- O senhor poderá me dizer qual a causa disso, professor?

- Perfeitamente, meu rapaz. Essa coloração de leite é causada por miríades de pequenos vermes luminosos, de aspecto gelatinoso e incolor, com a espessura de um cabelo e cujo comprimento não ultrapassa um quinto de milímetro. Aderem uns aos outros numa extensão que pode chegar a várias léguas..

- Várias léguas! - admirou-se Conselho.

- Exatamente. Por favor, não tente calcular o número deles.

Não sei se Conselho teve em conta a minha recomendação, mas pareceu-me vê-lo mergulhado em reflexões profundas. 

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