quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - Capítulo 09 e 10


 Capítulo 9

Ignoro qual foi a duração do nosso sono, mas deve ter sido longo, pois ao acordarmos nos sentimos completamente recuperados das fadigas.

Fui o primeiro a despertar. Assim que me levantei daquele leito um pouco duro, senti o cérebro desanuviado, o espírito livre e tentei reavaliar a fossa situação, enquanto fazia um exame da cela.

O monstro de aço acabava de emergir para respirar, como as baleias.

Logo que oxigenei os pulmões com o ar puro, procurei descobrir o condutor que fazia chegar até nós aquela corrente benfazeja e não tardei a encontrá-lo. Por cima da porta havia um orifício de ventilação que deixava passar uma coluna de ar fresco, renovando assim a atmosfera saturada da cela.

Estava eu nessas cogitações, quando Ned e Conselho acordaram, quase ao mesmo tempo, sob o efeito daquele ar revigorante.

- O senhor dormiu bem? - perguntou-me Conselho.

- Muito bem, meu rapaz - respondi. - E você, mestre Land? – indaguei ao canadense.

- Dormi profundamente, professor.

- Aconteceu o mesmo comigo - disse Conselho. A seguir me perguntou:

- O que acha da nossa situação, professor?

- Penso que o acaso nos revelou um importante segredo. Ora, se a tripulação deste navio submarino tem interesse em mantê-lo ignoto, e se esse interesse for para eles mais importante do que três vidas humanas, acho que a nossa existência está comprometida. Em caso contrário, na primeira ocasião, o monstro que nos engoliu há de devolver-nos ao mundo habitado pelos nossos semelhantes.

- A menos que nos incluam na tripulação e nos mantenham aqui - sugeriu o meu criado.

- E aqui ficaremos até o dia em que uma fragata mais rápida ou mais hábil do que a “Abraham Lincoln”, apodere-se deste ninho de piratas, fazendo-os respirar pela última vez nas vergas dos mastros.

- Bem pensado, mestre Land - repliquei. - Mas, que eu saiba, ainda não nos foi feita nenhuma proposta, e portanto é inútil discutir o que devemos fazer. Vamos aguardar e reagir diante de circunstâncias concretas. De qualquer maneira, não creio que tenhamos condições de exigir muita coisa.

Os sinais de inconformismo eram fáceis de se perceber no canadense. Isso me deixava bastante preocupado. Eu mesmo estava incomodado com o nosso abandono naquela cela e nem podia calcular quanto tempo poderíamos ficar detidos nela. As esperanças que eu tinha alimentado depois que o comandante do submarino estivera conosco, desvaneciam-se pouco a pouco. A doçura do olhar daquele homem, a expressão generosa do seu rosto, a nobreza do seu porte, tudo isso desaparecia da minha lembrança, e eu via aquela personagem enigmática como ela devia ser, necessariamente impiedosa e cruel. Sentia-o desumano, incapaz de qualquer sentimento de piedade, inimigo implacável dos seus semelhantes aos quais devia consagrar eterno ódio.

Naquele momento, ouvimos um ruído no exterior e escutamos passos que se aproximavam no chão metálico.

Os ferrolhos foram corridos, a porta foi aberta e o mesmo empregado que nos servira a comida entrou. Antes que eu tivesse tempo de impedir, o canadense precipitou-se sobre ele, derrubou-o e começou a estrangulá-lo. Conselho tentava retirar a vítima já meio inanimada das mãos do arpoador, e eu ia juntar meus esforços ao dele quando, subitamente, fui surpreendido ao ouvir uma advertência falada em excelente francês:

- Acalme-se, mestre Land. E o senhor professor, queira escutar-me

Capítulo 10

Era o comandante do submarino quem falava.

Ao ouvir aquelas palavras, Ned Land levantou-se de repente, libertando a sua vítima. A um sinal do amo, pois fora ele quem as pronunciara, o rapaz saiu cambaleando. Conselho e eu, quedos e mudos, aguardávamos receosos a sequência da cena.

O comandante, apoiado no canto da mesa, de braços. Cruzados observava-nos com muita atenção. Hesitaria em falar? Estaria arrependido das palavras que pronunciara .. . . em francês?

Passados alguns instantes de silêncio, que nenhum de nós pensou em quebrar, ele começou a falar com voz calma e penetrante - Meus senhores, falo corretamente francês, inglês, alemão e latim.

Poderia ter respondido em minha primeira visita às palavras de vocês.

No entanto quis conhecê-los primeiro para depois refletir sobre a atitude que tomaria a seu respeito. Os três disseram as mesmas coisas e me forneceram as suas identidades. Sei agora que o acaso trouxe ao meu barco o senhor Pierre Aronnax, professor de História Natural do Museu de Paris e encarregado de uma missão científica no estrangeiro; Conselho é o seu criado e Ned Land, canadense e arpoador da fragata “Abraham Lincoln”, da marinha dos Estados Unidos da América.

Inclinei-me em sinal de concordância.

Ele realmente entendera tudo que faláramos. Continuou o seu discurso após uma breve pausa:

- O senhor deve pensar que tardei em voltar à presença de vocês - dirigiu-se diretamente a mim. - i; que, conhecidas as suas identidades, eu quis pensar maduramente sobre o destino que lhes daria. Hesitei muito. As mais desagradáveis circunstâncias colocaram vocês na presença de um homem que rompeu com a humanidade. Enfim, devo dizer que vocês vieram perturbar a minha solitária existência...

- Involuntariamente - disse eu.

- Involuntariamente? - repetiu o desconhecido, elevando um pouco a voz. - Foi involuntariamente que a “Abraham Lincoln” andou me perseguindo por todos os mares? Foi involuntariamente que vocês embarcaram nessa fragata? Foi involuntariamente que dispararam aquelas balas contra o meu barco? Foi involuntariamente que Ned Land me atingiu com o seu arpão?

Percebi nas palavras dele uma irritação mal contida. Mas eu tinha uma resposta natural para as suas recriminações e dei-a.

- O senhor certamente ignora as discussões que houve na América e na

Europa por sua causa. Desconhece que diversos acidentes provocado pelos choques com o seu submarino alvoroçaram a opinião pública dos dois continentes. Não sabe as numerosas hipóteses com as quais se tentou esclarecer o inexplicável fenômeno de que o senhor é o único a ter o segredo. Saiba porém que ao persegui-lo até o Pacífico, a “Abraham Lincoln” julgava caçar um poderoso monstro marinho de cuja presença era preciso livrar o oceano.

Um leve sorriso aflorou aos lábios do comandante e ele disse num tom mais calmo:

- Sr. Aronnax, ousa afirmar que a sua fragata não teria igualmente perseguido e bombardeado um submarino ou um monstro?

Esta pergunta embaraçou-me, pois eu tinha a certeza de que o Comandante Farragut não teria hesitado, pois considerava o seu dever destruir quer um barco como aquele quer um narval gigante. Diante do meu silêncio, ele falou:

- Compreende portanto que tenho todo o direito de considerá-los como inimigos.

Propositadamente ainda deixei de responder, pois de nada serve discutir uma proposição quando a força pode destruir os melhores argumentos que se tem.

- Hesitei muito tempo - continuou o comandante. - Nada me obrigava a lhes dar hospitalidade. Se ia desembaraçar-me de vocês, não tinha qualquer interesse em voltar a vê-los. Era só mandar levá-los para a plataforma do meu barco, mergulhar e esquecer que tinham existido.

Não era esse o meu direito?

- Talvez fosse o direito de um selvagem - respondi - mas não o de um homem civilizado.

- Sr. Aronnax - replicou ele com vivacidade. - Não sou aquilo a que chama um homem civilizado! Rompi com toda á sociedade por motivos que só eu posso apreciar. Portanto, não obedeço as suas regras e convido-o a que nunca as evoque em minha presença!

Estas palavras foram ditas pausadamente. Um raio de cólera e de desprezo iluminou os seus olhos e eu adivinhei em sua vida um passado extraordinário. Não só se tinha colocado à margem das leis humanas, como se tornara independente, livre na mais rigorosa acepção da palavra, fora de qualquer ataque. Quem ousaria persegui-lo até o fundo dos mares? Que navio resistiria ao choque de seu barco submarino?

Que casco, por mais espesso que fosse, suportaria os golpes do seu esporão? Nenhum homem lhe podia pedir contas dos seus atos. Deus, se é que acreditava nele e a sua consciência, se a tivesse, eram os únicos juízes de que poderia depender.

Após um longo silêncio, o comandante continuou a falar:

- Portanto, hesitei muito, mas pensei que o meu interesse podia se harmonizar com aquela piedade natural a que todo homem tem direito.

Continuarão a bordo, já que a fatalidade os colocou aqui. Serão livres, mas em troca dessa liberdade, aliás relativa, exijo uma única condição.

A promessa de que irão cumpri-la é suficiente para mim.

- A sua condição é daquelas que um homem honesto pode aceitar, comandante? - perguntei-lhe.

- É. Aqui está ela: é possível que alguns acontecimentos imprevistos me obriguem a fechá-los nos seus camarotes durante algumas horas ou

dias, segundo os casos. Desejando nunca usar a força, espero de vocês

a mais completa obediência. Ao agir assim, isento-os de toda a responsabilidade, liberto-os completamente de quaisquer comprometimentos com os meus atos. Aceitam esta condição?

Portanto, passavam-se a bordo coisas mais ou menos. estranhas, que não deviam ser presenciadas por pessoas que não estivessem à margem da sociedade. Entre as surpresas que o futuro me reservava esta seria certamente das maiores.

- Aceitamos - respondi. - Posso lhe fazer uma única pergunta?

- Pode falar.

- O que devemos entender quando disse que gozaríamos de liberdade a bordo?

- Liberdade de ir e vir, de observar, de ver tudo o que se passa, exceto em algumas raras ocasiões.

As palavras dele deixavam bem claro que não poderíamos fazer qualquer tentativa de fuga. Isso poderia se tornar possível para nós quando o submarino se aproximasse de alguma costa.

- Essa liberdade não é suficiente para nós, comandante - falei-lhe, usando a franqueza que julgava lhe dever.

- No entanto, tem de chegar - respondeu-me.

- Como? Então devemos renunciar para sempre a rever a nossa pátria, os amigos, os parentes?

- Sim, professor. Mas renunciar a retomar o jugo insuportável da terra, que os homens têm como liberdade, talvez não seja tão penoso como julga.

- Não pode ser - manifestou-se Ned Land. - Não posso dar a minha palavra de que não tentarei fugir.

- Não lhe peço a sua palavra, Sr. Land - falou o comandante, friamente.

- O senhor abusa da sua situação em relação à nossa - disse eu, um pouco exaltado. - Isso é crueldade.

- Não, senhor! É clemência. São meus prisioneiros de guerra. Conservo-lhes as vidas quando podia mergulhá-los nas profundezas do oceano. Os senhores atacaram-me! Vieram desvendar um segredo que nenhum homem no mundo deveria conhecer. O segredo de toda a minha existência! Julgam que vou deixá-los regressar a essa terra que nunca deverá me conhecer? Nunca! Se os mantenho aqui, não é por vocês, é por mim.

Estas palavras revelavam da parte do comandante uma decisão contra a qual nenhum argumento seria eficaz.

- Então, Sr. comandante, dá-nos pura e simplesmente a escolher entre a vida de cativos ou a morte?

- Exatamente.

- Meus amigos - virei-me para os meus companheiros - a uma afirmação assim não posso contra- argumentar. Mas nenhuma palavra nos obriga perante o comandante.

- Nenhuma - confirmou ele. Depois, com uma voz mais suave, falou: -

Agora, permitam-me concluir aquilo que queria dizer. Já o conheço, professor Aronnax. O senhor, mais do que os seus companheiros, não terá muito de que se queixar do acaso que o liga ao meu destino.

Encontrará entre os livros que uso para os meus estudos favoritos a obra que publicou sobre os grandes fundos marinhos. Já a li muitas vezes. Levou a sua obra tão longe quanto a ciência terrestre lhe permitiu. Mas não sabe tudo, não viu tudo. Deixe-me portanto dizer-lhe, professor, que não lamentará o tempo que passar a bordo do meu navio. Vai viajar pelo país das maravilhas desconhecidas. A surpresa e a estupefação serão, talvez, o seu habitual estado de espírito. Não se aborrecerá facilmente com o espetáculo que nunca deixará de se oferecer aos seus olhos. Pretendo rever numa nova viagem pelo mundo submarino, quem sabe talvez a última, tudo o que pude estudar no fundo desses mares tantas vezes percorridos, e o senhor será o meu companheiro de estudos. A partir de hoje, entra num novo elemento e verá o que nenhum homem jamais viu, porque eu e os meus homens não contamos. O nosso planeta, graças a mim, vai revelar-lhe os seus últimos segredos.

Não posso negar que essas palavras do comandante produziram em mim um grande efeito. Estava dominado pelo meu ponto fraco e esquecia, por um instante, que a contemplação daquelas coisas sublimes não valia a perda da liberdade. Aliás, eu contava com o futuro para resolver essa importante questão, por isso contentei-me em responder :

- Sr. comandante, se o senhor rompeu com a humanidade, não posso crer que tenha renegado todos os sentimentos humanos. Somos náufragos caridosamente recolhidos e não o esqueceremos. Quanto a mim, não nego que o interesse da ciência poderia me absorver até ao desprezo pela liberdade, pois o que me promete seria mais do que compensador.

Pensei que o comandante iria me estender a sua mão para celebrar o nosso tratado, mas ele não o fez, o que eu lamentei.

- Uma última pergunta - falei, no momento em que aquele enigmático homem parecia querer retirar-se.

- Fale, professor.

- Por qual nome devemos tratá-lo?

- Para os senhores sou o Capitão Nemo. Os senhores são considerados passageiros do “Nautilus”. E agora, Sr. Aronnax, o nosso almoço está pronto. Apenas o senhor queira seguir-me.

- As suas ordens, senhor.

Segui o Capitão Nemo e assim que passei pela porta da cela encontrei-me numa espécie de corredor iluminado eletricamente. Após um percurso de cerca de dez metros, abriu-se uma segunda porta. Acompanhei-o e entramos numa sala de jantar decorada e mobiliada com austeridade. No meio dela encontrava-se uma mesa ricamente servida.

O Capitão Nemo indicou-me o lugar que devia ocupar.

- Instale-se, professor, e sirva-se à vontade.

A refeição era composta por pratos de origem marinha e de outras iguarias cuja natureza e origem eu ignorava completamente. Eram todos bons, embora tivessem um sabor estranho. No entanto, habituei-me com facilidade a ele.

Para não fazermos toda a refeição em silêncio, provoquei-o com o seu assunto predileto

- O capitão ama o mar - falei-lhe.

- Sim, amo-o. O mar é tudo. Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu hálito é são e puro. É um imenso deserto onde o homem nunca está só. O mar é o veículo de uma existência sobrenatural e prodigiosa. É movimento e amor. É o infinito vivo, como afirmou um dos seus poetas.

Nele reina a suprema tranqüilidade. O mar não pertence aos déspotas.

Ah! o senhor professor deveria viver no seio dos mares! Só aí há independência. Aí não reconheço amos! Sou livre!

Ele estava empolgado. Depois, acalmou-se e a sua fisionomia retomou a habitual frieza. Finalmente disse-me:

- Agora, professor, se desejar visitar o “Nautilus”, estou ao seu dispor.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS