quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - capítulo 07 e 08

Capítulo 7

Embora tivesse sido surpreendido por essa queda inesperada, conservei minha presença de espírito. O mergulho na água não me fez perder o controle de minhas ações. Com dois vigorosos impulsos voltei à superfície. O meu primeiro reflexo foi tentar localizar a fragata.

As trevas eram profundas. Descortinei uma massa negra que desaparecia para leste e cujos focos de luz se desvaneciam no horizonte. Era a fragata e eu me senti perdido. Com braçadas desesperadas nadei na direção dela, gritando por socorro. As minhas roupas me atrapalhavam, colando-se ao meu corpo e me impedindo os movimentos. Afogavame. Sufocava. Minha boca se enchia de água. Debatia-me, arrastado para o abismo. Já me desesperava de fazer mais qualquer esforço, quando me senti agarrado por uma mão vigorosa que me levou de volta à tona.

- Se o senhor fizer o favor de se apoiar no meu ombro, nadará muito mais à vontade.

Reconheci a voz de meu fiel criado e me agarrei ao braço dele.

- O choque o lançou ao mar ao mesmo tempo que a mim? - perguntei.

- De maneira nenhuma. Mas uma vez que estou ao serviço do senhor, tinha de segui-lo.

0 valente rapaz achava isso natural - E a fragata?

- Acho que o senhor não pode contar com ela. No momento em que me atirei ao mar ouvi os homens gritando que a hélice e o leme haviam se quebrado.

- Partiram-se?

- Sim. Foi o dente do monstro. Penso que foi a única avaria sofrida pela fragata. Mas, infelizmente para nós, ela não ficou em condições de se governar.

- Então estamos perdidos!

- Talvez - respondeu-me Conselho, tranquilamente. - No entanto ainda temos algumas horas à nossa frente e durante esse tempo muita coisa pode acontecer.

O imperturbável sangue-frio dele animou-me um pouco.

No entanto, com o passar do tempo a nossa situação foi se tornando insustentável. Terrível mesmo. Ainda que o nosso desaparecimento

tivesse sido notado imediatamente a bordo da fragata, ela não podia

tentar nos socorrer porque estava desgovernada. Portanto, só podíamos contar com os botes.

A colisão entre a fragata e o cetáceo tinha ocorrido por volta das onze horas da noite. Tínhamos portanto ainda oito horas até o nascer do sol.

Durante esse tempo deveríamos nadar, boiar, fazer o possível para nos mantermos vivos. Por volta da uma hora da manhã, sentia-me extremamente fatigado e com as pernas inteiriçadas devido a violentas cãibras.

Conselho foi obrigado a suster-me e passou a ser o único responsável pelo nosso salvamento. Mas não demorou muito para que eu notasse o seu cansaço e concluísse que ele não poderia aguentar aquela situação por mais tempo.

- Deixe-me! - falei-lhe.

- Abandonar o senhor? Nunca farei isso - afirmou. - Na verdade, espero afogar-me primeiro do que o senhor!

Neste momento, a lua surgiu através das franjas de uma grande nuvem que o vento arrastou para leste. A superfície do mar brilhou sob os seus raios e esta luz benfazeja fez-me recuperar as forças. Levantei a cabeça e perscrutei todos os pontos do horizonte. Avistei a fragata, que se encontrava a cerca de cinco milhas de nós e constituía uma massa sombria que mal se notava no horizonte. Mas não vi um só dos seus botes. Conselho, embora eu não visse nenhuma utilidade naquilo, gritou por socorro algumas vezes.

Suspendemos os movimentos e nos pusemos à escuta. Podia ter sido um desses zumbidos originados pelo espírito oprimido, mas a verdade é que me pareceu ouvir um grito respondendo ao apelo do meu criado.

- Ouviste? - perguntei a ele.

- Sim, ouvi.

Conselho lançou mais um grito de socorro. Agora não podíamos ter mais dúvida. Uma voz humana respondia à dele. Naquele instante bati num corpo duro e me agarrei nele. Senti que era arrastado, que me puxavam até a superfície, que o peito se me aliviava e desmaiei. Recuperei rapidamente os sentidos e entreabri os olhos.

- Conselho! - murmurei.

- O senhor chamou? - ouvi a voz dele.

Naquele momento, aos últimos raios da lua que desaparecia no horizonte, distingui um rosto que não era o do meu criado.

- Ned! - exclamei.

- Em pessoa, professor.

- Você também foi atirado ao mar?

- Fui. Mas tive mais sorte do que o senhor, porque quase imediatamente encontrei um escolho flutuante e me agarrei nele.

- Um escolho?

- Ou, para dizer melhor, agarrei-me ao nosso narval. - Ao monstro?

- Nele mesmo. Agora sei por que o meu arpão não conseguiu furar-lhe a pele. É que este animal, Sr. Aronnax, é feito de chapa de aço.

Subi de imediato ao ponto mais elevado do objeto semi-submerso que nos servia de refúgio. Bati-lhe com o pé. Tratava-se evidentemente de um corpo duro, impenetrável, e não da substância mole característica dos mamíferos marinhos. O dorso escuro que nos suportava era liso e polido. Ao ser tocado produzia um som metálico.

Não podia haver mais dúvida. O animal, o monstro, o fenômeno que tinha intrigado todo o mundo científico, agitado e transtornado a imaginação dos marinheiros dos dois hemisférios, era algo ainda mais espantoso, porque tinha sido feito pela mão do homem.

A descoberta da existência do ser mais fabuloso e mais mitológico, não teria surpreendido mais a minha inteligência. Que venha do Criador tudo o que é prodigioso, espera-se. Mas encontrar de repente, diante dos nossos olhos, o impossível realizado misteriosamente pelo homem, confunde as idéias. E no entanto era verdade. Encontrávamo-nos estendidos sobre o dorso de uma espécie de submarino, com a forma, tanto quanto pude perceber, de um imenso peixe. A opinião de Ned a respeito dele era certa. Conselho e eu fomos obrigados a concordar com ele que o “animal” era feito de chapa de aço.

- Mas então - disse eu - este aparelho deve encerrar um mecanismo de locomoção e uma tripulação para manobrá-lo.

- Evidentemente - respondeu o arpoador - embora haja mais ou menos três horas que estou aqui e ainda não vi sinal de vida nele.

- Ainda não se moveu?

- Não, Sr. Aronnax. Deixa-se embalar ao sabor das ondas, mas não se move.

- No entanto, sabemos que ele é dotado de grande velocidade. Ora, como é preciso um motor para produzir tal velocidade e um maquinista para o dirigir, concluo que estamos salvos.

- Hum! - fez Ned Land com certa reserva.

Naquele momento, e como que para dar razão aos meus argumentos, produziu-se um turbilhão na ré do estranho aparelho, cujo propulsor era evidentemente uma hélice, e ele se pôs em movimento. Só tivemos tempo de nos agarrarmos à parte superior que submergiu cerca de oitenta centímetros. Felizmente a sua velocidade não era excessiva.

- Enquanto navegar à superfície, tudo vai bem - falou Ned Landa- Mas se resolver a mergulhar, a minha pele não vale um centavo.

Era pois urgente que nos comunicássemos com quem quer que estivesse no interior daquela máquina. Procurei uma abertura na superfície mas as linhas das cavilhas, solidamente achatadas na junção das folhas, eram contínuas e uniformes.

Por outro lado, a lua desapareceu naquele momento, deixando-nos na mais completa escuridão. Tínhamos de esperar pelo nascer do dia para tentarmos entrar naquele barco submarino.

Por volta das quatro horas da madrugada a velocidade do aparelho aumentou. A muito custo resistimos àquele vertiginoso andamento, pois as ondas batiam-nos em cheio. Ned encontrou uma grande argola fixa na parte superior do casco e nos agarramos a ela.

Enfim o dia rompeu. Fomos envolvidos pelas brumas matinais, que não tardaram a dissipar-se. Preparava-me para proceder a um exame atento do casco, que formava na parte superior uma espécie de plataforma horizontal, quando o senti submergindo.

- Com mil diabos! - gritou Ned Land, batendo com o pé no casco. -

Abram, seus marinheiros pouco hospitaleiros!

Porém era difícil que o ouvissem no meio dos ruídos produzidos pelo barulho da hélice. Felizmente o movimento de imersão parou. De repente ouvimos o som de manuseamento de ferros no interior do barco. Abriu-se uma chapa. e surgiu um homem que desapareceu imediatamente, assim que nos viu. Instantes depois, apareceram oito robustos marinheiros, com os rostos cobertos, que nos levaram para o interior da sua formidável máquina.

   Capitulo 8

A ação deles a nosso respeito, foi brutal e rápida. Nem eu e nem meus companheiros tivemos tempo de ver o que estava se passando. Ao ser introduzido naquela prisão flutuante, senti um calafrio percorrer-me todo o corpo. Quem seria aquela gente? Sem dúvida seriam piratas de unir nova espécie, que exploravam os mares à sua maneira.

Assim que a estreita abertura se fechou atrás de nós, ficamos envolvidos pela mais profunda escuridão. Os meus olhos habituados à claridade exterior, nada conseguiam distinguir. Senti os meus pés nus descerem os degraus de uma escada de ferro. Ned Land e Conselho seguiam-me, seguros pelos homens estranhos. No fundo da escada abriu-se uma porta que se fechou imediatamente após sermos empurrados através dela.

Estávamos prisioneiros. Onde? Não podíamos nem imaginar. Tudo era escuro, mas de um escuro tão absoluto que, passados alguns minutos, os meus olhos ainda não tinham vislumbrado nenhum desses raios intermitentes que flutuam nas noites mais profundas. Ned Land começou a ficar afobado e passou a dizer impropérios contra os nossos carcereiros.

- Não se exalte, Ned - aconselhei-o. - Pode agravar a nossa situação com esses excessos inúteis. Devem estar nos ouvindo. Tentemos saber onde estamos.

Comecei a tatear a minha volta. Dei alguns passos e esbarrei no que me pareceu ser uma parede de ferro feita de grandes chapas cavilhadas.

Ao me virar bati numa mesa de madeira, junto da qual se encontravam alguns bancos alinhados. O soalho da nossa sala estava coberto por uma esteira que abafava o ruído dos passos. As paredes nuas não revelavam o mínimo vestígio de porta ou de janela.

Conselho, fazendo uma meia-volta em sentido inverso, foi juntar-se a mim e nos reunimos no meio daquela cabina que devia ter uns seis metros de comprimento por três de largura. Quanto à sua altura, embora fosse um homem alto, Ned Land não conseguiu alcançar-lhe o teto.

Decorrida meia hora sem que a situação se alterasse, passamos de repente da mais profunda escuridão para a claridade mais intensa. A nossa prisão foi subitamente iluminada e ficou tão claro o ambiente que quase não pude suportar-lhe o brilho. Pela intensidade de sua claridade reconheci a luz elétrica que produzia à volta do submarino aquele deslumbrante fenômeno de fosforescência. Depois de ter cerrado as pálpebras involuntariamente, quando as abri de novo vi que a luz provinha de uma espécie de globo despolido preso na parte superior da sala.

Pouco tempo depois que a luz foi acesa escutamos um ruído de ferrolhos, a porta abriu-se e apareceram dois homens. Um deles era um indivíduo comum. Quanto ao outro merece uma descrição mais pormenorizada. Reconhecia-se facilmente as suas qualidades dominantes confiança em si próprio, porque a cabeça se erguia com nobreza sobre o arco formado pela linha dos seus ombros e o olhos negros refletiam segurança; era um homem calmo, pois a sua pele, mais pálida do que corada, deixava transparecer a tranquilidade do sangue; era um indivíduo enérgico e demonstrava isso pela rápida contração dos músculos superciliares; e, finalmente, era um ser corajoso, porque a sua respiração profunda denotava grande expansão vital.

Acrescentarei que aquele homem era arrogante, que o seu olhar firme e calmo parecia refletir os mais altos pensamentos e que de todo este conjunto, da homogeneidade das expressões, dos gestos do corpo e do rosto, ressaltava uma indiscutível franqueza. Senti-me “involuntariamente” tranquilo e antevi algo de bom em sua presença.

Quanto a sua idade eu não poderia dizer se tinha trinta e cinco ou cinquenta anos. Sua estatura era alta, testa ampla, nariz aquilino, a boca nitidamente desenhada, os dentes magníficos, as mãos finas e alongadas.

Sem pronunciar uma palavra, ele nos examinou atentamente. Depois, virando-se para o seu companheiro, conversaram numa língua que eu não consegui reconhecer. O outro falou apenas duas ou três palavras e limitou-se mais a concordar com acenos de cabeça sobre o que ouvia.

A seguir, aquele que era indubitavelmente o chefe, pareceu interrogar-me diretamente com os olhos, sem uma única palavra.

Falei-lhe em francês, dizendo-lhe que não entendia a língua em que tinham conversado. Tive a impressão de que ele não me compreendera e a situação tornou-se bastante embaraçosa. Depois Ned Land falou com ele em inglês e Conselho mostrou o seu conhecimento de alemão, falando-lhe nessa língua. Por último, numa desesperada tentativa de me fazer entender, tentei expressar-me em latim. Em nenhuma dessas línguas conseguimos nos comunicar com os dois desconhecidos.

Quando desistimos de dialogar com eles, por termos esgotados os nossos recursos linguísticos, os dois homens trocaram algumas palavras na sua incompreensível

língua e retiraram-se sem sequer nos dirigir um gesto tranquilizador. Discutíamos a nossa situação, quando a porta foi novamente aberta e entrou um criado de bordo. Trazia-nos casacos e calças feitos de um tecido cuja natureza desconhecíamos. Apressamo-nos em vestir aquelas roupas, lembrando-nos de que toda roupa serve aos nus. Enquanto nos vestíamos, o rapaz tinha posto a mesa para três pessoas.

Os pratos, cobertos com as respectivas tampas de prata, foram simetricamente colocados sobre a toalha. Tomamos lugar à mesa. Entre as iguarias que nos foram servidas, reconheci diversos peixes requintadamente cozidos, mas quanto aos outros pratos, aliás excelentes, não fiquei sabendo do que se tratava. Todos os utensílios de que nos servimos tinham uma letra encimada por uma divisa “Mobilis in Mobili N”. (Móvel em elemento móvel.) Esta divisa aplicava-se com justeza aquele barco submarino. A letra “N” seria certamente a inicial do nome da enigmática personagem que comandava o navio.

Satisfeita a nossa fome, a necessidade de dormir se fez imediata, como reação natural depois da infindável noite em que tínhamos lutado contra a morte. Pouco depois, os três, dormíamos profundamente.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS