Capítulo 7
Embora tivesse sido surpreendido por essa queda inesperada,
conservei minha presença de espírito. O mergulho na água não me fez perder o controle
de minhas ações. Com dois vigorosos impulsos voltei à superfície. O meu
primeiro reflexo foi tentar localizar a fragata.
As trevas eram profundas. Descortinei uma massa negra que
desaparecia para leste e cujos focos de luz se desvaneciam no horizonte. Era a fragata
e eu me senti perdido. Com braçadas desesperadas nadei na direção dela,
gritando por socorro. As minhas roupas me atrapalhavam, colando-se ao meu corpo
e me impedindo os movimentos. Afogavame. Sufocava. Minha boca se enchia de
água. Debatia-me, arrastado para o abismo. Já me desesperava de fazer mais
qualquer esforço, quando me senti agarrado por uma mão vigorosa que me levou de
volta à tona.
- Se o senhor fizer o favor de se apoiar no meu ombro,
nadará muito mais à vontade.
Reconheci a voz de meu fiel criado e me agarrei ao braço
dele.
- O choque o lançou ao mar ao mesmo tempo que a mim? -
perguntei.
- De maneira nenhuma. Mas uma vez que estou ao serviço do
senhor, tinha de segui-lo.
0 valente rapaz achava isso natural - E a fragata?
- Acho que o senhor não pode contar com ela. No momento em
que me atirei ao mar ouvi os homens gritando que a hélice e o leme haviam se
quebrado.
- Partiram-se?
- Sim. Foi o dente do monstro. Penso que foi a única avaria
sofrida pela fragata. Mas, infelizmente para nós, ela não ficou em condições de
se governar.
- Então estamos perdidos!
- Talvez - respondeu-me Conselho, tranquilamente. - No
entanto ainda temos algumas horas à nossa frente e durante esse tempo muita
coisa pode acontecer.
O imperturbável sangue-frio dele animou-me um pouco.
No entanto, com o passar do tempo a nossa situação foi se
tornando insustentável. Terrível mesmo. Ainda que o nosso desaparecimento
tivesse sido notado imediatamente a bordo da fragata, ela
não podia
tentar nos socorrer porque estava desgovernada. Portanto, só
podíamos contar com os botes.
A colisão entre a fragata e o cetáceo tinha ocorrido por
volta das onze horas da noite. Tínhamos portanto ainda oito horas até o nascer
do sol.
Durante esse tempo deveríamos nadar, boiar, fazer o possível
para nos mantermos vivos. Por volta da uma hora da manhã, sentia-me
extremamente fatigado e com as pernas inteiriçadas devido a violentas cãibras.
Conselho foi obrigado a suster-me e passou a ser o único
responsável pelo nosso salvamento. Mas não demorou muito para que eu notasse o seu
cansaço e concluísse que ele não poderia aguentar aquela situação por mais
tempo.
- Deixe-me! - falei-lhe.
- Abandonar o senhor? Nunca farei isso - afirmou. - Na
verdade, espero afogar-me primeiro do que o senhor!
Neste momento, a lua surgiu através das franjas de uma
grande nuvem que o vento arrastou para leste. A superfície do mar brilhou sob
os seus raios e esta luz benfazeja fez-me recuperar as forças. Levantei a
cabeça e perscrutei todos os pontos do horizonte. Avistei a fragata, que se encontrava
a cerca de cinco milhas de nós e constituía uma massa sombria que mal se notava
no horizonte. Mas não vi um só dos seus botes. Conselho, embora eu não visse
nenhuma utilidade naquilo, gritou por socorro algumas vezes.
Suspendemos os movimentos e nos pusemos à escuta. Podia ter
sido um desses zumbidos originados pelo espírito oprimido, mas a verdade é que
me pareceu ouvir um grito respondendo ao apelo do meu criado.
- Ouviste? - perguntei a ele.
- Sim, ouvi.
Conselho lançou mais um grito de socorro. Agora não podíamos
ter mais dúvida. Uma voz humana respondia à dele. Naquele instante bati num
corpo duro e me agarrei nele. Senti que era arrastado, que me puxavam até a
superfície, que o peito se me aliviava e desmaiei. Recuperei rapidamente os
sentidos e entreabri os olhos.
- Conselho! - murmurei.
- O senhor chamou? - ouvi a voz dele.
Naquele momento, aos últimos raios da lua que desaparecia no
horizonte, distingui um rosto que não era o do meu criado.
- Ned! - exclamei.
- Em pessoa, professor.
- Você também foi atirado ao mar?
- Fui. Mas tive mais sorte do que o senhor, porque quase
imediatamente encontrei um escolho flutuante e me agarrei nele.
- Um escolho?
- Ou, para dizer melhor, agarrei-me ao nosso narval. - Ao
monstro?
- Nele mesmo. Agora sei por que o meu arpão não conseguiu
furar-lhe a pele. É que este animal, Sr. Aronnax, é feito de chapa de aço.
Subi de imediato ao ponto mais elevado do objeto
semi-submerso que nos servia de refúgio. Bati-lhe com o pé. Tratava-se
evidentemente de um corpo duro, impenetrável, e não da substância mole
característica dos mamíferos marinhos. O dorso escuro que nos suportava era
liso e polido. Ao ser tocado produzia um som metálico.
Não podia haver mais dúvida. O animal, o monstro, o fenômeno
que tinha intrigado todo o mundo científico, agitado e transtornado a
imaginação dos marinheiros dos dois hemisférios, era algo ainda mais espantoso,
porque tinha sido feito pela mão do homem.
A descoberta da existência do ser mais fabuloso e mais
mitológico, não teria surpreendido mais a minha inteligência. Que venha do
Criador tudo o que é prodigioso, espera-se. Mas encontrar de repente, diante
dos nossos olhos, o impossível realizado misteriosamente pelo homem, confunde
as idéias. E no entanto era verdade. Encontrávamo-nos estendidos sobre o dorso
de uma espécie de submarino, com a forma, tanto quanto pude perceber, de um
imenso peixe. A opinião de Ned a respeito dele era certa. Conselho e eu fomos
obrigados a concordar com ele que o “animal” era feito de chapa de aço.
- Mas então - disse eu - este aparelho deve encerrar um
mecanismo de locomoção e uma tripulação para manobrá-lo.
- Evidentemente - respondeu o arpoador - embora haja mais ou
menos três horas que estou aqui e ainda não vi sinal de vida nele.
- Ainda não se moveu?
- Não, Sr. Aronnax. Deixa-se embalar ao sabor das ondas, mas
não se move.
- No entanto, sabemos que ele é dotado de grande velocidade.
Ora, como é preciso um motor para produzir tal velocidade e um maquinista para
o dirigir, concluo que estamos salvos.
- Hum! - fez Ned Land com certa reserva.
Naquele momento, e como que para dar razão aos meus
argumentos, produziu-se um turbilhão na ré do estranho aparelho, cujo propulsor
era evidentemente uma hélice, e ele se pôs em movimento. Só tivemos tempo de
nos agarrarmos à parte superior que submergiu cerca de oitenta centímetros.
Felizmente a sua velocidade não era excessiva.
- Enquanto navegar à superfície, tudo vai bem - falou Ned
Landa- Mas se resolver a mergulhar, a minha pele não vale um centavo.
Era pois urgente que nos comunicássemos com quem quer que
estivesse no interior daquela máquina. Procurei uma abertura na superfície mas
as linhas das cavilhas, solidamente achatadas na junção das folhas, eram
contínuas e uniformes.
Por outro lado, a lua desapareceu naquele momento,
deixando-nos na mais completa escuridão. Tínhamos de esperar pelo nascer do dia
para tentarmos entrar naquele barco submarino.
Por volta das quatro horas da madrugada a velocidade do
aparelho aumentou. A muito custo resistimos àquele vertiginoso andamento, pois as
ondas batiam-nos em cheio. Ned encontrou uma grande argola fixa na parte
superior do casco e nos agarramos a ela.
Enfim o dia rompeu. Fomos envolvidos pelas brumas matinais,
que não tardaram a dissipar-se. Preparava-me para proceder a um exame atento do
casco, que formava na parte superior uma espécie de plataforma horizontal,
quando o senti submergindo.
- Com mil diabos! - gritou Ned Land, batendo com o pé no
casco. -
Abram, seus marinheiros pouco hospitaleiros!
Porém era difícil que o ouvissem no meio dos ruídos
produzidos pelo barulho da hélice. Felizmente o movimento de imersão parou. De repente
ouvimos o som de manuseamento de ferros no interior do barco. Abriu-se uma
chapa. e surgiu um homem que desapareceu imediatamente, assim que nos viu.
Instantes depois, apareceram oito robustos marinheiros, com os rostos cobertos,
que nos levaram para o interior da sua formidável máquina.
Capitulo 8
A ação deles a nosso respeito, foi brutal e rápida. Nem eu e
nem meus companheiros tivemos tempo de ver o que estava se passando. Ao ser introduzido
naquela prisão flutuante, senti um calafrio percorrer-me todo o corpo. Quem
seria aquela gente? Sem dúvida seriam piratas de unir nova espécie, que
exploravam os mares à sua maneira.
Assim que a estreita abertura se fechou atrás de nós,
ficamos envolvidos pela mais profunda escuridão. Os meus olhos habituados à
claridade exterior, nada conseguiam distinguir. Senti os meus pés nus descerem os
degraus de uma escada de ferro. Ned Land e Conselho seguiam-me, seguros pelos
homens estranhos. No fundo da escada abriu-se uma porta que se fechou
imediatamente após sermos empurrados através dela.
Estávamos prisioneiros. Onde? Não podíamos nem imaginar.
Tudo era escuro, mas de um escuro tão absoluto que, passados alguns minutos, os
meus olhos ainda não tinham vislumbrado nenhum desses raios intermitentes que
flutuam nas noites mais profundas. Ned Land começou a ficar afobado e passou a
dizer impropérios contra os nossos carcereiros.
- Não se exalte, Ned - aconselhei-o. - Pode agravar a nossa
situação com esses excessos inúteis. Devem estar nos ouvindo. Tentemos saber onde
estamos.
Comecei a tatear a minha volta. Dei alguns passos e esbarrei
no que me pareceu ser uma parede de ferro feita de grandes chapas cavilhadas.
Ao me virar bati numa mesa de madeira, junto da qual se
encontravam alguns bancos alinhados. O soalho da nossa sala estava coberto por uma
esteira que abafava o ruído dos passos. As paredes nuas não revelavam o mínimo
vestígio de porta ou de janela.
Conselho, fazendo uma meia-volta em sentido inverso, foi
juntar-se a mim e nos reunimos no meio daquela cabina que devia ter uns seis metros
de comprimento por três de largura. Quanto à sua altura, embora fosse um homem
alto, Ned Land não conseguiu alcançar-lhe o teto.
Decorrida meia hora sem que a situação se alterasse,
passamos de repente da mais profunda escuridão para a claridade mais intensa. A
nossa prisão foi subitamente iluminada e ficou tão claro o ambiente que quase
não pude suportar-lhe o brilho. Pela intensidade de sua claridade reconheci a
luz elétrica que produzia à volta do submarino aquele deslumbrante fenômeno de
fosforescência. Depois de ter cerrado as pálpebras involuntariamente, quando as
abri de novo vi que a luz provinha de uma espécie de globo despolido preso na
parte superior da sala.
Pouco tempo depois que a luz foi acesa escutamos um ruído de
ferrolhos, a porta abriu-se e apareceram dois homens. Um deles era um indivíduo
comum. Quanto ao outro merece uma descrição mais pormenorizada. Reconhecia-se
facilmente as suas qualidades dominantes confiança em si próprio, porque a
cabeça se erguia com nobreza sobre o arco formado pela linha dos seus ombros e
o olhos negros refletiam segurança; era um homem calmo, pois a sua pele, mais
pálida do que corada, deixava transparecer a tranquilidade do sangue; era um
indivíduo enérgico e demonstrava isso pela rápida contração dos músculos superciliares;
e, finalmente, era um ser corajoso, porque a sua respiração profunda denotava
grande expansão vital.
Acrescentarei que aquele homem era arrogante, que o seu
olhar firme e calmo parecia refletir os mais altos pensamentos e que de todo
este conjunto, da homogeneidade das expressões, dos gestos do corpo e do rosto,
ressaltava uma indiscutível franqueza. Senti-me “involuntariamente” tranquilo e
antevi algo de bom em sua presença.
Quanto a sua idade eu não poderia dizer se tinha trinta e
cinco ou cinquenta anos. Sua estatura era alta, testa ampla, nariz aquilino, a
boca nitidamente desenhada, os dentes magníficos, as mãos finas e alongadas.
Sem pronunciar uma palavra, ele nos examinou atentamente.
Depois, virando-se para o seu companheiro, conversaram numa língua que eu não
consegui reconhecer. O outro falou apenas duas ou três palavras e limitou-se
mais a concordar com acenos de cabeça sobre o que ouvia.
A seguir, aquele que era indubitavelmente o chefe, pareceu
interrogar-me diretamente com os olhos, sem uma única palavra.
Falei-lhe em francês, dizendo-lhe que não entendia a língua
em que tinham conversado. Tive a impressão de que ele não me compreendera e a
situação tornou-se bastante embaraçosa. Depois Ned Land falou com ele em inglês
e Conselho mostrou o seu conhecimento de alemão, falando-lhe nessa língua. Por
último, numa desesperada tentativa de me fazer entender, tentei expressar-me em
latim. Em nenhuma dessas línguas conseguimos nos comunicar com os dois
desconhecidos.
Quando desistimos de dialogar com eles, por termos esgotados
os nossos recursos linguísticos, os dois homens trocaram algumas palavras na
sua incompreensível
língua e retiraram-se sem sequer nos dirigir um gesto tranquilizador.
Discutíamos a nossa situação, quando a porta foi novamente aberta e entrou um
criado de bordo. Trazia-nos casacos e calças feitos de um tecido cuja natureza
desconhecíamos. Apressamo-nos em vestir aquelas roupas, lembrando-nos de que
toda roupa serve aos nus. Enquanto nos vestíamos, o rapaz tinha posto a mesa
para três pessoas.
Os pratos, cobertos com as respectivas tampas de prata,
foram simetricamente colocados sobre a toalha. Tomamos lugar à mesa. Entre as iguarias
que nos foram servidas, reconheci diversos peixes requintadamente cozidos, mas
quanto aos outros pratos, aliás excelentes, não fiquei sabendo do que se
tratava. Todos os utensílios de que nos servimos tinham uma letra encimada por
uma divisa “Mobilis in Mobili N”. (Móvel em elemento móvel.) Esta divisa
aplicava-se com justeza aquele barco submarino. A letra “N” seria certamente a
inicial do nome da enigmática personagem que comandava o navio.
Satisfeita a nossa fome, a necessidade de dormir se fez
imediata, como reação natural depois da infindável noite em que tínhamos lutado
contra a morte. Pouco depois, os três, dormíamos profundamente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário