quarta-feira, 5 de maio de 2021

20 mil léguas submarinas - parte 1 - Capítulo 06


 Capítulo 6

Aquele brado, toda a tripulação se precipitou para o arpoador. A escuridão era total e, por muito bons que fossem os olhos do canadense, eu me perguntava como e o que ele teria visto. Sentia o meu coração bater aceleradamente. Land não havia se enganado e todos viram o objeto, que ele apontava com a mão. Inclusive eu.

A cerca de quatrocentos metros da “Abraham Lincoln” e a estibordo, o mar parecia iluminado por baixo. Não era um simples fenômeno de fosforescência. Não havia engano. Do monstro, submerso a alguns metros da superfície, emanava aquele brilho intenso e inexplicável, mencionado em vários relatos de capitães que o tinham visto. O comandante havia mandado parar a fragata.

- Não passa de uma aglomeração de moléculas fosforescentes – opinou um dos oficiais.

- Não, senhor - repliquei, com convicção. - E um brilho de natureza essencialmente elétrica. Desloca-se. Move-se para a frente e para trás.

Dirige-se para nós!

Um grito de muitas vozes fez-se ouvir na fragata.

- Silêncio! - ordenou o capitão. - Virar para barlavento a toda velocidade! - comandou, enérgico.

Os marinheiros correram para o leme e os maquinistas para a casa de máquinas. A “Abraham Lincoln” virou para bombordo e descreveu um semicírculo.

- O leme a direita! A todo vapor! - gritou o comandante.

Essas ordens foram executadas e a fragata afastou-se rapidamente do foco luminoso. Na verdade, ela tentou afastar-se, mas o enigmático animal aproximou-se com uma velocidade dupla da sua.

Todos a bordo não podíamos nem respirar. A estupefação, mais do que o medo, mantinha-nos mudos e imóveis. O animal ultrapassava-nos com a maior facilidade. Deu uma volta à fragata, que navegava a quatorze nós e a envolveu com a sua claridade elétrica como se fosse uma poeira luminosa. Depois afastou-se duas ou três milhas, deixando um rasto fosforescente comparável aos turbilhões de vapor que lança a locomotiva de um expresso. De repente, dos obscuros limites do horizonte onde se encontrava, o monstro avançou para a “Abraham Lincoln” com aterradora velocidade, parou bem próximo de nós e se apagou sem mergulhar nos abismos profundos. O seu brilho não sofreu um desaparecimento gradual, mas repentino, como se a fonte do seu brilhante eflúvio se tivesse cerrado. Depois reapareceu do outro lado da fragata, rodeando-a ou passando-lhe por baixo do casco. Apesar de acompanhar cada movimento, não pudemos ver a sua manobra.

Entretanto, eu me surpreendia com os movimentos da fragata. Ela fugia em vez de atacar. Era perseguida em vez de perseguir. Falei sobre isso com o Comandante Farragut. O seu rosto, habitualmente impassível, estava dominado por uma surpresa indefinível.

- Sr. Aronnax - respondeu-me. - Não sei que espécie de gigantesco animal tenho pela frente e não quero arriscar imprudentemente a minha fragata. Esperemos pelo amanhecer e os papéis serão trocados. Eu passarei ao ataque.

- Então o comandante não tem dúvidas quanto à natureza do animal?

- Não, senhor. Trata-se evidentemente de um narval gigantesco, mas também de um animal elétrico.

- Talvez não seja possível uma aproximação – opinei.

- Pode ser - concordou o comandante. - Se ele possuir em si mesmo um poder fulminante, é sem dúvida o animal mais terrível saído das mãos de Deus. É por isso, meu caro professor, que estou tendo cautela.

Toda a tripulação ficou acordada aquela noite. Ninguém pensou em dormir. A “Abraham Lincoln”, não podendo competir em velocidade com o animal, moderou a sua marcha e navegava a meio vapor. Por seu lado, o narval, imitando a fragata, deixava-se embalar pelas águas do mar, parecendo decidido a não abandonar o teatro da luta.

A uma hora da madrugada ouviu-se um silvo ensurdecedor, semelhante àquele que é produzido por uma coluna de água arremessada com extrema violência por algum engenho de grande força propulsora.

O Comandante Farragut, Ned Land e eu nos encontrávamos então no tombadilho, perscrutando avidamente as trevas profundas.

- Ned Land, você já ouviu baleias rugindo? - perguntou o comandante.

- Muitas vezes, senhor. Mas nenhuma igual a essa.

- Esse barulho não é igual ao que fazem os cetáceos quando expelem água pelos respiradouros?

- Esse é incomparavelmente mais forte, senhor. Acho que não há engano possível: é mesmo um cetáceo que temos diante dos olhos. Se o senhor autorizar - acrescentou o arpoador - ao nascer o dia vou dar-lhe duas palavrinhas.

- Se ele quiser ouvi-10, meu caro Land - observei. - Se eu conseguir me aproximar dele à distância ideal para lançar o arpão, ele terá de me ouvir - afirmou o canadense.

- Mas para se aproximar - disse o comandante - terei de pôr uma baleeira à sua disposição.

- Sem dúvida, comandante.

- Será arriscar as vidas dos meus homens.

- E a minha - respondeu simplesmente o arpoador.

Pelas duas horas da madrugada, o foco luminoso reapareceu com a mesma intensidade, cinco milhas a barlavento da “Abraham Lincoln”.

Apesar da distância, apesar do barulho do vento e do mar, ouvia-se as formidáveis batidas da cauda do animal, assim como a sua respiração ofegante.

Toda a tripulação permaneceu de vigia até o amanhecer, preparando-se para o combate. Os aparelhos de pesca foram dispostos ao longo da balaustrada. O imediato mandou carregar as enormes espingardas que lançam os arpões à distância de uma milha e as que disparam balas explosivas, cujo ferimento é mortal mesmo para os animais mais possantes. Ned Land limitara-se a preparar o arpão, arma terrível em suas mãos. Na fragata estavam todos prontos para iniciar o combate.

As seis horas o dia nasceu. Com a sua claridade desapareceu o brilho elétrico do narval. As sete horas um nevoeiro matinal muito cerrado diminuía o horizonte e os melhores óculos de longo alcance não conseguiam penetrá-lo. Esse fenômeno deixou todos aborrecidos a bordo.

De repente, ouviu-se a voz de Ned Land.

- O monstro está à ré, do lado de bombordo!

Todos os olhares se dirigiram para o ponto indicado. A cerca de uma e meia milha da fragata, um longo corpo escuro emergia um metro acima do nível das águas. A sua cauda, violentamente agitada, produzia um redemoinho considerável. Um imenso rasto de deslumbrante brancura marcava a passagem do animal e descrevia uma curva alongada.

A fragata aproximou-se do cetáceo. Examinou-o atentamente. Os relatórios do “Shannon” e do “Helvetia” tinham exagerado um pouco as suas dimensões. Calculei o comprimento em cerca de oitenta e cinco metros. Quanto ao volume era difícil fazer um cálculo, mas o estranho animal parecia bem proporcionado em suas dimensões.

Tinha soado a hora do combate.

A “Abraham Lincoln” impelida para a frente pela sua potente hélice dirigia-se diretamente para o animal. Ele a deixou aproximar-se com a maior indiferença, até uma distância de cem metros. Depois, não querendo dar-se ao trabalho de mergulhar, fez como se pretendesse fugir continuou a manter a distância que lhe convinha da fragata.

Esta perseguição prolongou-se por quarenta e cinco minutos, sem que ganhássemos sequer um metro ao cetáceo. Era evidente que a continuar naquele jogo nunca o apanharíamos.

O Comandante Farragut torcia com raiva a barba espessa.

- Ned Land! - chamou ele. - Ainda me aconselha a jogar as minhas embarcações ao mar? - perguntou ao canadense.

- Não, comandante. Este animal só se deixará apanhar se quiser - respondeu ele.

- Que faremos então?

- Se for possível, aumente a velocidade. Quanto a mim, se o senhor permitir, vou me instalar no cesto do gurupés e quando o animal estiver ao alcance do arpão, disparo.

O comandante o autorizou a fazer o que pretendia e mandou que o maquinista aumentasse a pressão das caldeiras. A fragata não demorou a alcançar a velocidade de dezoito milhas por hora.

Porém, o maldito animal avançava com igual velocidade, continuando a manter a mesma distância que o separava de nós. Depois de algum tempo dessa emocionante perseguição, o narval começou a fazer um jogo que ainda nos causava mais suspense. As vezes deixava a fragata se aproximar bastante e depois fugia de novo. Ned Land continuava no seu posto, de arpão na mão, pronto para disparar.

- Vamos apanhá-lo! Vamos apanhá-lo! - gritava esperançoso, a cada vez que a fragata se aproximava do monstro.

No entanto, no momento em que se preparava para arpoá-lo, o cetáceo afastava-se a uma velocidade que talvez atingisse as trinta milhas por hora. Mesmo quando avançávamos à velocidade máxima, o animal permitia-se brincar com a fragata dando-lhe uma volta por baixo.

Um enorme grito de raiva saía então de todas as gargantas.

Ao meio-dia estávamos na mesma situação que às oito horas da manhã.

O Comandante Farragut decidiu usar meios mais diretos.

- Então esse animal anda mais depressa do que a minha fragata! – falou nervoso. - Pois bem, vamos ver se ele consegue escapar às balas cônicas. Mestre, mande os homens para a peça da proa.

O canhão da proa foi imediatamente carregado e apontado. O tiro partiu, mas a bala passou alguns metros por cima do cetáceo, que estava a meia milha de distância.

- Outro disparo com mais pontaria! - ordenou o comandante. - Quinhentos dólares para quem atingi-lo - acrescentou.

Um velho artilheiro, de barba grisalha, de olhar calmo e frio, aproximou-se do canhão e fez pontaria durante algum tempo. Soou uma forte detonação, à qual se misturaram os vivas da tripulação. A bala atingiu o alvo, mas de maneira estranha, pois escorregou na superfície arredondada do animal e foi perder-se no mar.

- Ora esta! - exclamou o velho artilheiro. - Parece que está blindado com chapas de seis polegadas!

- Maldição! - gritou o Comandante Farragut.

A perseguição continuou. Voltando-se para mim, disse ele:

- Pegarei esse animal ainda que a minha fragata se rebente!

- Temos que pegá-lo, comandante! - animei-o.

Era de esperar que o animal se esgotasse e não fosse indiferente à fadiga. Mas isso não aconteceu. As horas passaram sem que ele desse qualquer sinal de cansaço. A “Abraham Lincoln” lutava com infatigável tenacidade. Calculo que tenha percorrido mais de quinhentos quilômetros ao longo daquele fatídico dia 6 de novembro. Mas a noite chegou e envolveu em sombras o mar encapelado.

Pensei que a nossa expedição havia chegado ao fim e que nunca mais veríamos aquele animal fantástico. Enganei-me. Quase às onze horas da noite a luminosidade elétrica reapareceu a três milhas a barlavento da fragata, tão pura e tão intensa como na noite anterior. O narval parecia estar imóvel, talvez fatigado, deixando-se vogar ao sabor das ondas.

Era uma oportunidade que o Comandante Farragut resolveu aproveitar.

Deu as suas ordens. A “Abraham Lincoln” avançou a baixa velocidade, prudentemente, para não acordar o adversário. Desligou as caldeiras a cerca de trezentos metros do animal e se pôs à deriva. Ninguém respirava a bordo. Reinava um silêncio profundo na coberta. Estávamos a menos de quarenta metros do foco ardente, cujo brilho aumentava e nos ofuscava os olhos.

Nesse momento vi Ned Land encostado ao cabo do castelo de proa segurando o arpão. Menos de sete metros o separavam do animal. De repente ele estendeu o braço com toda a força e o arpão foi lançado.

Ouvi o choque sonoro da arma, que parecia ter-se embatido num corpo duro.

O foco elétrico apagou-se subitamente e duas enormes trombas de água abateram-se sobre a coberta da fragata, deslizando como uma torrente, de proa à popa, derrubando os marinheiros e quebrando os mastros. Deu-se um embate terrível. Pego de surpresa, não consegui me segurar e fui lançado por cima da amurada. Caí ao mar.

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O SILÊNCIO DAS MONTANHAS