Capítulo 4
O comandante Farragut era um marinheiro muito experiente,
digno da fragata que dirigia. Navio e comandante eram um só, sendo este a alma daquele.
Sobre a existência real do cetáceo gigante, o Comandante Farragut não tinha a
menor dúvida, e não permitia que os seus homens pensassem diferente dele.
A tripulação observava os mares com escrupuloso cuidado,
cada homem querendo ganhar a soma de dois mil dólares prometida para aquele
que, grumete ou marinheiro, mestre ou oficial, avistasse o monstro primeiro.
Por isso, todos forçavam os olhos a bordo da “Abraham Lincoln”. A fragata não
faltava nenhum meio de destruição. Mas ainda tinha mais: entre a sua tripulação
encontrava-se Ned Land, homem conhecido como o rei dos arpoadores.
Ned Land era um canadense de uma destreza pouco comum, sem
rival no seu perigoso mister. Agilidade e sangue-frio, audácia e esperteza eram
qualidades que ele possuía em elevado grau, e seria preciso uma baleia muito
manhosa ou um cachalote particularmente astucioso para escapar ao seu arpão.
Entretanto, ele era o único homem a bordo que não acreditava
na existência do fabuloso cetáceo, deixando de participar da convicção geral.
Resolvi conversar com ela sobre o assunto.
Numa magnífica noite, a 30 de julho, isto é, três semanas
depois de nossa partida de Nova Iorque, encontrava-se a fragata nas alturas do Cabo
Branco, trinta milhas a sotavento das costas da Patagônia. Tínhamos
ultrapassado o Trópico de Capricórnio e o Estreito de Magalhães situava-se a
menos de setecentas milhas para o sul. Dentro de oito dias, a fragata estaria
navegando em águas do Pacífico.
- Ned, como pode estar convencido de que o narval que vamos
caçar não existe? Tem razões particulares para proceder assim?
O arpoador olhou-me durante alguns instantes em silêncio,
bateu na testa com a mão, gesto que lhe era peculiar, fechou os olhos como que para
refletir, e disse.
- É possível que eu tenha, Sr. Aronnax.
- No entanto, você que é baleeiro há tantos anos, que está
familiarizado com os grandes mamíferos marinhos, e cuja imaginação deve
facilmente aceitar a existência de enormes cetáceos, devia ser o último a
duvidar em tais circunstâncias.
- Aí que se engana, professor - falou Ned. - Que o vulgo
acredite em meteoros deslumbrantes que cruzam o espaço ou na existência de dinossauros
pré-históricos que vivem no interior da terra, ainda se aceita. Mas nem o
astrônomo nem o geólogo admitem tais quimeras.
Com o baleeiro acontece o mesmo. Persegui muitos cetáceos,
arpoei um grande número deles, matei vários, mas por mais bem armados e possantes
que fossem, não possuíam caudas ou dentes capazes de furar as placas de aço de
um navio.
- Porém, Ned, fala-se de barcos cujo casco foi perfurado de
lado a lado pelo dente do narval.
- Navios de madeira talvez - respondeu o canadense. - Mas
mesmo nesse caso, jamais vi um narval capaz dessas proezas. Portanto, até provas
em contrário, nego em absoluto que baleias, cachalotes ou narvais possam
produzir tais estragos.
- Escute-me, Ned . . .
- Não, professor, não. Tudo o que quiser, menos isso. Talvez
um polvo gigante...
- Isso ainda menos, Ned! O polvo não passa de um molusco, e
o próprio nome indica a pouca consistência das suas carnes. Mesmo com todo o
seu grande comprimento, o polvo, que não pertence ao ramo dos vertebrados,
seria inofensivo para navios como o “Escócia” ou esta fragata em que viajamos. -
Então, Sr. Aronnax - replicou ele, num tom bastante irônico – persiste em
admitir a existência de um enorme cetáceo?
- Sim, Ned, e com uma convicção baseada na lógica dos
acontecimentos. Acredito na existência de um mamífero desmesuradamente
desenvolvido, pertencente ao ramo dos vertebrados, como as baleias, os cachalotes
ou os golfinhos, armado de um dente córneo de grande poder de penetração.
- Hum! - fez o arpoador, abanando a cabeça com o ar de um
homem que não se quer deixar convencer.
Naquele dia não insisti mais com ele.
Capítulo 5
A fragata percorreu a costa sudoeste da América com uma
rapidez prodigiosa. No dia 3 de julho estávamos à entrada do Estreito de Magalhães,
perto do Cabo das Virgens. O Comandante Farragut não quis atravessar esta
sinuosa passagem e manobrou de forma a dobrar o Cabo Horn.
No dia 6 de julho, cerca das três horas da tarde, a “Abraham
Lincoln”, quinze milhas para o sul, dobrou essa ilhota solitária, esse rochedo perdido
no extremo do continente americano, ao qual alguns marinheiros holandeses deram
o nome da sua cidade natal, o Cabo Horn.
Rumamos para noroeste e no dia seguinte a hélice da fragata
batia finalmente nas águas do Oceano Pacífico.
As atenções de todos foram redobradas. Várias vezes
partilhei da emoção dos oficiais e da tripulação, quando alguma baleia emergia
o dorso escuro à tona da água. A coberta da fragata enchia-se de gente num
abrir e fechar de olhos. Todos, com os peitos ofegantes e os
olhares ansiosos, observavam a marcha do cetáceo. Eu olhava
e tornava a olhar até gastar a retina ou ficar cego, enquanto Conselho, sempre fleumático,
dizia-me num tom calmo:
- Se o senhor quisesse ter a bondade de não arregalar tanto
os olhos, talvez visse melhor.
Esperanças vãs! A fragata aumentava a velocidade e perseguia
o animal assinalado, que não passava de uma simples baleia ou cachalote, que em
breve desaparecia no meio de um concerto de imprecações.
A 20 de julho atravessamos o Trópico de Capricórnio a cento
e cinco graus de longitude e no dia 27 do mesmo mês chegamos ao Equador pelo
meridiano cento e dez. Depois a fragata rumou mais decididamente para oeste e
entrou nos mares centrais do Pacífico. O Comandante Farragut pensava, com
razão, que era preferível navegar em águas profundas e afastar-se dos
continentes e das ilhas, que o animal parecia ter sempre evitado, “sem dúvida
porque as águas não eram suficientemente profundas para ele”, segundo o mestre
da tripulação. A fragata passou, portanto, ao largo das Pomotu, das Marquesas,
das Sandwish, passou o Trópico de Câncer a cento e trinta e dois graus de
longitude e dirigiu-se para os mares da China.
Não ficou nessas águas um único ponto por explorar, desde as
costas do Japão às da América. E nada! Nada, a não ser a imensidão dos mares
desertos. Nada que se parecesse com um narval gigantesco, com uma ilhota
submersa, com o casco de um navio afundado, com um escolho móvel ou com algo de
sobrenatural.
O desânimo apoderou-se dos espíritos e abriu caminho à
incredulidade.
Com a desesperança e o descontentamento da tripulação, o
Comandante Farragut decidiu que se no prazo de três dias o monstro não aparecesse,
o timoneiro daria três voltas ao leme é a “Abraham Lincoln” navegaria para os
mares da Europa.
A decisão, tomada: a 2 de novembro, teve como resultado
reanimar a tripulação. O oceano foi observado com novo entusiasmo. Todos queriam
dar-lhe uma última olhadela, como que para guardar uma recordação. Os óculos
funcionavam com uma atividade febril. Era um desafio supremo lançado ao narval
gigante, e este não podia deixar de corresponder àquele desejo de encontrá-lo.
No dia 5 de novembro, exatamente ao meio-dia, expirava o
prazo estabelecido pelo Comandante Farragut, depois do que, fiel à sua promessa,
devia rumar para sudeste e abandonar definitivamente as regiões setentrionais
do Pacífico.
A fragata encontrava-se então a 310 15' de latitude norte e
a 1360 42 de longitude leste. As terras do Japão estavam a menos de duzentas milhas
para sotavento. A noite aproximava-se. Acabavam de soar as oito horas. Grandes
nuvens envolviam o disco da lua, então em quarto crescente. O mar ondulava
calmo sob a quilha do navio.
De repente, no meio do silêncio geral, ouviu-se uma voz. Era
Ned Land quem gritava:
- Alerta! Vejo o monstro! Dirige-se para nós.

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